sábado, 24 de maio de 2014

Dom Quixote. Honoré Daumier

Honoré Daumier (1808-1879). Litografia da série "Dom Quichotte"


3 comentários:

  1. ABETARDA
    Não voa.
    Anda e tarda.

    "O padre Quixote aproveitou a oportunidade para dar uma volta pelo quarto.
    - Que boa ideia! Também aqui temos bacia para lavar os pés.
    - Que é isso de "bacia para lavar os pés"? O raio desta rolha não sai.
    - Estou a ver um livrinho de Marx na sua cama. Empresta-mo para ler antes de me deitar?
    -Claro. É o MANIFESTO COMUNISTA, que lhe recomendei. Muito mais fácil de ler do que O CAPITAL. Não devem querer que bebamos champanhe. O raio da rolha não sai. De qualquer modo, vamos pagá-la.
    O padre Quixote sempre fora curioso. A sua maior tentação no confessionário era fazer perguntas desnecessárias e irrelevantes. Desta vez não resistiu a abrir um pequeno sobrescrito quadrado que estava na mesinha-de-cabeceira de Sancho - fizera-o lembrar-se da sua infância e das pequenas cartas que a mãe às vezes lhe deixava para ler antes de dormir.
    Ouviu-se uma explosão, a rolha bateu contra a parede e uma torrente de champanhe saiu fora do copo. Sancho praguejou e voltou-se.
    - Que raio está a fazer, padre?
    O padre Quixote soprava para um balão em forma de chouriço. Apertou a ponta com os dedos.
    - Como se mantém o ar lá dentro? - perguntoi.
    Devia haver uma espécie de bocal. Tornou a soprar e o balão explodiu, menos ruidosamente, embora com um som mais agudo, do que a garrafa de champanhe.
    - Oh, desculpe Sancho. Não queria estragar-lhe o balão. Era algum presente para uma criança?
    - Não, padre, era um presente para a rapariga que trouxe o champanhe."

    Graham Greene, MONSENHOR QUIXOTE, Lisboa, Publicações Europa-América, s.d., pp. 94.

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  2. "Parábola de Cervantes e de D. Quixote

    Farto da sua terra de Espanha, um velho soldado do rei procurou consolo nas vastas geografias de Ariosto, naquele vale da lua onde está o tempo que os sonhos desbaratam e no ídolo de ouro de Maomé que Montabalbán roubou.
    Em mansa troça de si mesmo, idealizou um homem crédulo que, perturbado pela leitura de maravilhas, deu em procurar proezas e encantamentos em lugares prosaicos que se chamavam El Toboso ou Montiel.
    Vencido pela realidade, pela Espanha, Dom Quixote morreu na sua aldeia natal por volta de 1614. Pouco tempo lhe sobreviveu Miguel de Cervantes.
    Para os dois, para o sonhador e para o sonhado, toda essa trama foi a oposição de dois mundos: o mundo irreal dos livros de cavalaria, o mundo quotidiano e comum do século XVII.
    Não suspeitaram que os anos acabariam por limar a discórdia, não suspeitaram que a Mancha e Montiel e a magra figura do cavaleiro seriam, para o porvir, não menos poéticas que as etapas de Sinbad ou que as vastas geografias de Ariosto.
    Porque no princípio da literatura está o mito, e de igual modo no fim."

    Jorge Luís Borges, "Parábola de Cervantes e de Quixote" in Obras Completas, II volume (1998): s.l. Editorial Teorema (p. 173)

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  3. Depois de cavalgarem algumas horas, chegaram a um grande campo onde se viam entre trinta e quarenta moinhos de vento.
    - A sorte vem-nos guiando melhor do que poderíamos desejar - disse Dom Quixote, segurando o cavalo. - Vê, meu fiel Sancho: diante de nós estão mais de trinta insolentes gigantes a quem penso dar combate e matar um a um. Com os despojos iniciaremos a nossa riqueza, além de arrancar essas sementes ruins da face da terra. Essa é a ordem que devemos cumprir.
    - Que gigantes? - perguntou Sancho Pança que por mais que examinasse o terreno só via os inocentes moinhos de vento agitando suas pás vagarosamente.
    - Aqueles que ali vês - respondeu o amo - Têm os braços tão longos que alguns devem medir mais de duas léguas...
    - Olhe bem Vossa Mercê - contestou Sancho - Aquilo não são gigantes e sim moinhos de vento, e o que parecem braços são as pás que, movidas pelo vento, fazem girar a pedra que mói os grãos.
    - Bem se vê que não tens prática nestas aventuras. São gigantes e, se tens medo, afasta-te daqui. O melhor é que fiques rezando enquanto eu me atiro a esta feroz e desigual batalha.
    E, dizendo isto, esporeou o cavalo sem atender aos apelos do escudeiro, certo que combatia ferozes gigantes.
    - Não fujais, covardes e abjetas criaturas! Sois atacadas por apenas um cavaleiro!
    Enquanto galopava contra o primeiro moinho, o vento aumentou de intensidade fazendo girar as pás com mais velocidade.
    - Não adianta agitar os braços. Havereis de me pagar! - gritou, atirando-se contra o "inimigo" mais próximo, encomendando-se de todo o coração à sua senhora Dulcineia.

    Miguel de Cervantes, in D. Quixote de La Mancha

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