terça-feira, 18 de junho de 2013

Significados. Sena da Silva


Para um viajante sem preconceitos, uma imagem de uma rua sem gente, uma certa incidência do sol, um pequeno pormenor de atitude de um desconhecido que revele uma certa maneira de estar no mundo, podem ter um significado mais profundo que a rosácea da catedral ou a contemplação das obras primas do museu.

Sena da Silva

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Não fui ver as festas. João Chagas

Resisti a todos os estímulos,a todos os convites,a todas as curiosidades e não fui ver as festas, não porque elas contrariassem os meus princípios, ou as minhas simpatias, mas, na realidade, porque sou - um sedentário.
Eu não sou um sedentário por enfermidade, ou por insociabilidade. Eu sou um sedentário por hábito. Há homens assim: eu só compreendo a vida em chinelos. A minha actividade é toda cerebral. Nenhuma actividade motora. A minha razão papa léguas. Todas as manhãs pelo menos dá um passeio higiénico, do real para o irreal, do abstracto para o concreto. É o que eu chamo fazer apetite para o almoço. O meu corpo não se move. Habito o planeta, mas não ocupo dentro dele mais espaço do que o meu prédio. Verdadeiramente, não atravanco o corpo social.
Por estas razões não fui ver as festas.
Em vão me foram feitos todo o género de convites - públicos e familiares. A todos resisti. A perspectiva do ar livre assustou-me como a de uma viva contrariedade pessoal. Já uma vez experimentei: é horrível. Sempre que vejo por cima da minha cabeça o céu, tenho a impressão de que estou perdido no Universo. O Chiado dá-me todas as vertigens do infinito.
Não fui.
Não fui, mas não se imagine que me desinteressei dos acontecimentos. Eu sou um sedentário, mas sou um ser social. Não saio de casa, mas tenho todas as curiosidades de uma praça pública. Não se dá em Lisboa uma desordem que eu não meta o nariz. O que faço é ler os jornais. Ah! os jornais são o meu vício. Ainda a manhã não desponta, e, quando toda a gente pede café com leite, já eu peço jornais. Todos os jornais! Não o faço por menos. Os médicos  já mo proibiram, bem como ao tabaco. Durante algum tempo mesmo estive de dieta: lia só o Notícias. Depois consentiram-me as Novidades. Eu abusei  e, daí a pouco, voltava à mesma. Atribuo a isso a minha dispepsia.
Se não fui portanto à festas, aguardei com frenesi os jornais. Todo eu era curiosidade - porque negá-lo? As festas para mim eram os jornais. Ler os jornais ou ver as festas não era a mesma coisa: era melhor. Afinal, do Chiado, recebendo empurrões, cotoveladas, patadas, o que veria eu? Uma face apenas, fugitiva, de um grande facto. Da cama via-o por todos os lados.
[...]
Ai de mim. Os jornais completamente malograram a minha expectativa! 
Eu esperava impressões. Os jornais deram-me nomes. Eu esperava sensações. Or jornais deram-me números.
Li, reli nesses dias festivos toda a imprensa quotidiana e não vi - nada!
[...] 
A minha decepção foi enorme - a minha decepção e o meu despeito. Desde que me votei ao regime celular da vida sedentária, e a primeira vez que a deploro. Eu perdi - reconheço-o - um curioso espectáculo.
O prestígio a imprensa moderna e não sei se o hábito de ler jornais franceses, tinham-me em descanso. Em verdade eu não saía, porque me não era preciso sair. Os jornais saíam por mim e vinham com pontualidade a minha casa contar-me nula linguagem expressiva o espectáculo das coisas e dos homens. Que mais queria eu? Era prático, cómodo e poupava-me calçado.
Depois do meu insucesso não caio noutra. Já mandei fazer um lar de botas e vou sair, recuperar o mundo externo e o ar livre. Se me deixo ficar em casa, que ideia farei eu dentro em pouco da vida e da civilização? Através dos jornais que me informam, dentro em pouco eu não teria da vida senão uma concepção algébrica e da civilização a ideia extravagante de que nela passaram a predominar os cocheiros e os polícias.
Para as minhas necessidades cívicas já mandei assinar o Diário do Governo. Para o resto, de futuro, prescindo de jornais. De futuro, o meu jornal - sou eu.

João Chagas, "Monólogo de Sedentário", in Posta Restante. Cartas a Toda a Gente. Lisboa, Livraria Editora Viuva Tavares Cardoso, 1906, p. 191-198.

domingo, 16 de junho de 2013

Viagem pelos outros. Mia Couto

Em particular, dedico esta distinção a José Craveirinha que nos ensinou, por via da poesia, que o sermos cultural e linguisticamente múltiplos não nos converte em seres divididos e fragmentados. Ao inverso, nós somos criaturas repartidas, capazes de viajar entre esse arquipélago de identidades de que se constitui a alma moçambicana. Celebro convosco o gosto por essa errância de quem sabe que apenas na viagem pelos outros encontraremos raiz e morada.

Mia Couto, texto de agradecimento do prémio União Latina, publicado pelo Jornal de Letras Artes e Ideias,  n. 954, de 25 de Abril de 2007.

sábado, 15 de junho de 2013

Viajante de identidades. Mia Couto

Um escritor é um ser que deve estar aberto a viajar por outras experiências, outras culturas, outras vidas. Deve estar disponível para se negar a si mesmo. Porque assim ele viaja entre identidades. E é isso que um escritor é - um viajante de identidades, um contrabandista de almas. Não há escritor que não partilhe dessa condição: uma criatura de fronteira, alguém que vive junto ã janela que se abre para os territórios da interioridade.

Mia Couto, Pensatempos, citado por Agripino Carriço Vieira, "Mia Couto, salteador  de fronteiras", Jornal de Letras Artes e Ideias, n. 1114,  12 de Junho se 2013.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

A viagem... Mia Couto

A viagem não começa quando se percorrem distâncias, mas quando se atravessam as nossas fronteiras interiores.

Mia Couto, O Outro Pé de Sereia, citado por Agripino Carriço Vieira, "Mia Couto, salteador  de fronteiras", Jornal de Letras Artes e Ideias, n. 1114,  12 de Junho se 2013.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Só a tua lava me lava. Mia Couto

Fogo e água

Cansa-me ser quem serei
porque em tudo esse outro
se parece com o que sou.

Cansa-me o adeus de quem nasce.
E a viagem, à nascença, morre de fadiga.

Só a tua lava me lava.
Resto eu em ti
terra ardendo,
chão de água e fogo.

Abraça-me.
Abrasa-me.

Mia Couto, "Quatro poemas inéditos", in Jornal de Letras Artes e Ideias, n. 1114,  12 de Junho se 2013.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

O afastamento de resto permite ver melhor o tabuleiro nacional. Andrée Crabbé Rocha

Já nos narradores de viagens de quinhentos era flagrante a sobreposição contínua de palpáveis imagens nacionais  (bichos, frutos ou doçura dos ares) nas impressões colhidas. Pelos tempos fora, persistirá, até nos maiores, a concreta saudade de recantos, tipos ou manjares portugueses. O afastamento de resto permite ver melhor o "tabuleiro nacional". Como dizia chãmente Eça de Queirós a Ramalho, de Havana: "Estar longe é uma grande telescópio para as virtudes da terra onde se vestiu a primeira camisa". Mas é ainda, quando o amor foi ferido, um grande telescópio para ver os vícios. Para os que escorraçou, a pátria funciona como reduto da anti-aventura. Conferindo lembranças antigas com experiências novas, olham para as primeiras com maior penetração. E, diga-se também, com maior liberdade.

Andrée Crabbé Rocha, A Epistolografia em Portugal. Coimbra, 1965, p. 16. Citado por Jacinto do Prado Coelho, A Originalidade da Literatura Portuguesa. 3ª edição. Lisboa, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1992, p. 88.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Viajante incessante do inverso. Sophia de Mello Breyner Andresen

Cíclades

A claridade frontal do lugar impõe-me a tua presença
O teu nome emerge como se aqui
O negativo que foste de ti se revelasse

Viveste no avesso

Viajante incessante do inverso
Isento de ti próprio
Viúvo de ti próprio
Em Lisboa cenário da vida
E eras o inquilino de um quarto alugado por cima de uma leitaria
O empregado competente de uma casa Comercial
O frequentador irónico delicado e cortês dos cafés da Baixa
O visionário discreto dos cafés virados para o Tejo

(Onde ainda no mármore das mesas

Buscamos o rastro frio das tuas mãos
— O imperceptível dedilhar das tuas mãos)

Esquartejado pelas fúrias do não-vivido

À margem de ti dos outros e da vida
Mantiveste em dia os teus cadernos todos
Com meticulosa exactidão desenhaste os mapas
Das múltiplas navegações da tua ausência —
Aquilo que não foi nem foste ficou dito
Como ilha surgida a barlavento
Com prumos sondas astrolábios bússolas
Procedeste ao levantamento do desterro

Nasceste depois

E alguém gastara em si toda a verdade
O caminho da Índia já fora descoberto
Dos deuses só restava
O incerto perpassar
No murmúrio e no cheiro das paisagens
E tinhas muitos rostos
Para que não sendo ninguém dissesses tudo
Viajavas no avesso no inverso no adverso

Porém obstinada eu invoco — ó dividido —
O instante que te unisse,
E celebro a tua chegada às ilhas onde jamais vieste

Estes são os arquipélagos que derivam ao longo do teu rosto
Estes são os rápidos golfinhos da tua alegria
Que os deuses não te deram nem quiseste

Este é o pais onde a carne das estátuas como choupos estremece
Atravessada pelo respirar leve da luz
Aqui brilha o azul-respiração das coisas
Nas praias onde há um espelho voltado para o mar

Aqui o enigma que me interroga desde sempre
E mais nu e veemente e por isso te invoco:
«Porque foram quebrados os teus gestos?
Quem te cercou de muros e de abismos?
Quem derramou no chão os teus segredos?»

Invoco-te como se chegasses neste barco
E poisasses os teus pés nas ilhas
E a sua excessiva proximidade te invadisse
Como um rosto amado debruçado sobre ti

No estio deste lugar chamo por ti
Que hibernaste a própria vida como o animal na estaçao adversa
Que te quiseste distante como quem ante o quadro pra melhor ver recua
E quiseste a distância que sofreste

Chamo por ti — reúno os destroços as ruínas os pedaços —
Porque o mundo estalou como pedreira
E no chão rolam capitéis e braços
Colunas divididas estilhaços
E da ânfora resta o espalhamento de cacos
Perante os quais os deuses se tornam estrangeiros

Porém aqui as deusas cor de trigo
Erguem a longa harpa dos seus dedos
E encantam 0 sol azul onde te invoco
Onde invoco a palavra impessoal da tua ausência

Pudesse o instante da festa romper o teu luto
Ó viúvo de ti mesmo
E que ser e estar coincidissem
No um da boda

Como se o teu navio te esperasse em Thasos
Como se Penélope
Nos seus quartos altos
Entre seus cabelos te fiasse

1972

Sophia de Mello Breyner Andresen. Os Poemas Sobre Pessoa. Lisboa, Caminho, 2012, p. 39-42.

domingo, 9 de junho de 2013

Caceres (Plaza Mayor). 9 de Junho de 2010








Elvas. 9 de Junho de 2013

Em Elvas, o Presidente ofereceu um almoço hoje a individualidades e instituições que se distinguiram em 2012 nas áreas da cultura e desporto. Foi aconselhado nessa escolha por um grupo de personalidades, entre as quais se incluíam Rui Nabeiro e Carlos Portas, por quem tenho grande estima e admiração. Guimarães 2012 esteve representada pelos arquitectos da empresa Pitágoras, autora do projecto da Plataforma das Artes, e pelo representante da Fundação Cidade de Guimarães.

sábado, 8 de junho de 2013

Caceres. 8 de Junho de 2013











Acenei-lhe com um ramo de ervilhas de cheiro. Irene Lisboa

A sua partida adiada de semanas chegou enfim. Veio o tal dia, igual e diferente sempre, da multidão no cais, da gente à amurada, das ultimas conversas que mal se percebem... Com o aumento das velocidades este aspecto mole e sentimental das despedidas há-de acabar, mas por ora ainda é assim. Também eu surdi no cais e furei por meio da multidão com o meu raminho de flores. Descobri a bordo o rosto da dama do teatro. À luz da tarde e em traje de passeio parecia-me um pouco diferente, menos senhoril e preciosa. Helma não aparecia. Mas lá por fim, tímida e com um riso sem mira, apareceu por detrás de todos. Acenei-lhe com o meu ramo de ervilhas de cheiro até que o seu vago sorriso se fixou em mim.
Aquele sorriso era uma das tais coisas que me sensibilizavam.
Como me hei-de eu manter na delicada posição de preceptora que se respeita?, queria ele dizer ali. Esta posição era perturbada pelo contacto com os novos estranhos.
A despedida dos diplomatas, embora em férias, ainda era sublinhada por um elegante ramo de rosas e a dela por um modesto punhado de ervilhas... Mas não era isso que a chocava certamente; devia ser a partida, o desconhecido, sentir-se só!

Irene Lisboa, Esta Cidade! 2a edição. Lisboa, Presença, 1995. p. 58-59.