terça-feira, 17 de junho de 2014

E lembrai-vos do homem que vai naquela caranguejola, meu Deus! Ray Bradbury

- As Máquinas da Alegria! - declarou o Padre Brian. - Será uma delas em que o senhor está remexendo? E outra aquilo que estamos vendo, o foguetão na sua torre de lançamento?
- Desta vez, pode muito bem ser - murmurou Vittorini. - Se subir com um homem lá dentro e conseguir dar a volta ao mundo, com ele vivo, enquanto nós daqui o estamos a ver, muito bem sentados, isso será sem dúvida uma alegria.
O foguetão estava quase preparado para a largada e o padre Brian fechou os olhos durante um momento: - Perdoai-me, Jesus - pensou ele - perdoai o orgulho de um velho e perdoai a Vittorini os seus despeitos. Ajudai-me a compreender o que vou presenciar esta noite e deixai-me ficar acordado e bem disposto até de manhã, se tanto for preciso. Deixai que aquela coisa suba em boas condições e assim volte cá para baixo. E lembrai-vos do homem que vai naquela caranguejola, meu Deus! Lembrai-vos dele e acompanhai-o. E ajudai-me, Senhor, quando vier o Verão, pois, tão certo como eu estar aqui, o padre Vittorini e os garotos cá do bairro hão-se querer deitar foguetões na pátio da reitoria. Todos eles olharão o céu, como quem espera a manhã da Redenção e vós, ajudai-me ó meu Deus! a ser como essas crianças em face da grande noite do tempo e do vácuo onde habitais. E ajudai-me a caminhar em frente para ir acender o próximo foguetão da Noite da Independência e acompanhar o padre italiano, com o rosto nimbado da mesma expressão de criança satisfeita perante essa  festa de luz que pondes à nossa disposição e nos deixais gozar.
Abriu os olhos.
Vozes lá ao longe, no Cabo Canaveral, gritavam numa confusão. Estranhas forças fantásticas surgiam no écran. Estava ele a sorver a última gota de vinho quando alguém lhe tocou no cotovelo:
- Padre Brian - murmurou-lhe ao ouvido o padre Vittorini - aperte o seu cinto de segurança.
- Vou apertar - respondeu o padre Brian - Vou apertar. E obrigado.
Recostou-se na cadeira e fechou os olhos, a aguardar a explosão. Esperava pelo fogo. Esperava pelo embate e pela voz que lhe ensinaria aquela coisa estúpida, estranha, disparatada e portentosa que era contar de diante para trás....até zero.

Ray Bradbury, "As Máquinas da Alegria", in As Máquinas da Alegria, Lisboa, Livros do Brasil, s/d. [edição original: 1949-1964].

segunda-feira, 16 de junho de 2014

A passageira da cabine 54. Henri de Toulouse-Lautrec

Henri de Toulouse-Lautrec, The Passenger from Cabin 54 - On a Cruise (La passagère du 54-Promenade en yacht), 1896.

Color lithograph poster with brush, crayon, and spatter. Fine Arts Museums of San Francisco. Achenbach Foundation for Graphic Arts, Bruno and Sadie Adriani Collection.

domingo, 15 de junho de 2014

Nõ teño poder de me partir. D. Fernando de Meneses

Pois que nõ teño poder
Senhora, de me partir
De vos amar [d]e querer
Por vostro quero morir
E moiro de ma dama

Cantiga gravada no frontal da arca tumular de D. Fernando de Meneses e D. Brites de Andrade, do terceiro quartel do século XV.

Emídio M. Ferreira, Um Pensamento de Pedra. Os Jacentes Duplos Medievais e o Túmulo dos Pinheiro na Colegiada de Guimarães. Guimarães, Fundação Cidade de Guimarães, 2013, p. 152.

sábado, 14 de junho de 2014

The Boyhood of Raleigh. John Everett Millais

John Everett Millais, The Boyhood of Raleigh1870
Nota da Tate Modern
This painting shows an episode from the childhood of the famous sixteenth-century explorer Sir Walter Raleigh. It remains one of Millais’s most popular pictures. The young Raleigh and his brother are listening with rapt attention to the tales of ‘wonders on sea and land’ told by a ‘sunburnt, stalwart Genoese sailor’.Millais is thus showing us a national hero in the making. The toy ship in the lower left suggests Raleigh’s future adventures at sea. Millais painted the background to the picture on the Devon coast near Exeter, not far from where Raleigh had been born.


sexta-feira, 13 de junho de 2014

Enfrentar o touro. Lygia Fagundes Telles

É simples, Rosa, escuta, você está em pânico porque sente que está envelhecendo. Foge do trabalho, das pessoas, vai acabar fugindo de mim. Rosa Ambrósio, como vou fazer entrar nessa cabeça que não existe outra saída, existe? Para escapar da velhice, querida, só morrendo jovem, mas agora não dá mais. A solução é enfrentar sem fazer bico, de bom humor, se possível. Enfrentar o touro, vamos fazer uma viagem? Coisa rápida que a hora é de trabalho, Madrid, Barcelona, você compra seus perfumes, eu vou às touradas.
- Tenho pena do touro.
- Amo a Espanha. Quero te mostrar a água-furtada onde morei no Bairro Gótico, eh! vidão! Aqui está triste demais, minha geração perdeu a esperança, o povo desesperado. E você com essa mania da velhice, quer ser internada? É isso?

Lygia Fagundes Telles, As Horas Nuas. Lisboa. Editorial Presença. 2005 [ed. original 1989], p. 99-100.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Um outro modo de olhar. Almeida Faria

O visitante ocidental que pela primeira vez chega a Goa e Cochim enfrentará provavelmente a vertigem do caos à sua volta e dentro se si. Quando começa a familiarizar-se com a estonteante exuberância e com as contradições coexistentes, quando julga começar a entender a complexidade das castas, dos cultos e costumes tão diferentes, quando começa a fixar nomes, imagens, atributos dos deuses, tudo lhe foge de súbito, tudo se torna de novo confuso, como se o véu de Maia voltasse a cobrir a indecifrável irrealidade da Índia real.
Quem regressa de uma terra tão diversa traz fragmentos de caras, casas, ruas, cheiros, quartos, uma carga de imagens que, na alfândega-roleta do lembrar e esquecer, deveria pagar excesso de bagagem. Vim carregado de cores e de cansaço mas inteiro e em estado razoável, bem melhor dos que outrora, contentes por regressarem, cantavam:

Lá vos digo que há fadigas
tantas mortes, tantas brigas
e perigos descompassados
que assim vimos destroçados
pelados como formigas.

Vim ainda carregado de algo mais, um outro modo de olhar, a certeza de não pertencer àquele tipo de viajante que não fala do que vê, mas do que imagina ou deseja ver. Trouxe comigo um bloco confusamente escrevinhado, uma curiosidade acrescentada, uma crescente descrença na elegância da descrença. E tornei-me mais atento à infindável memória do mundo, mais capaz de escutar o incansável murmúrio do mundo.

Almeida Faria, O Murmúrio do Mundo. A Índia Revisitada. Desenhos de Bárbara Assis Pacheco. 2ª edição. Lisboa, Tinta da China, 2012.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Melancolia da partida. Georgio de Chirico

Giorgio de Chirico, The Melancholy of Departure, 1916


terça-feira, 10 de junho de 2014

Já foi voluptuosa descoberta. Eugénio de Andrade

Barcos ou aves

De noite eram barcos, de manhã são aves:
entram cantando pela casa.
Juntos vão pelos dias como irmãos
gémeos, dependentes
uns dos outros como estrelas
da mesma constelação.
Cada viagem já foi voluptuosa
descoberta de emoções
de porto em porto; agora
é só o gosto inteligente
de regressar à pequena praça
de muros caiados, à casa
onde o corpo se reconheceu noutro corpo,
fiéis a esta luz, este mar.

Eugénio de Andrade, Poesia. Vila Nova de Gaia, Rosto Editora, 2011, p 603-604.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

O olhar espalmado. Eugénio de Andrade

Notas de viagem

Os amieiros, a casa em ruína,
o olhar
espalmado entre as folhas
do livro, as nasaladas
vozes das crianças sobre a água,
a boca da sombra onde as maçãs
ardem com brilhos de metal,
a repentina
aparição do silêncio
ao fundo das escadas
a porta aberta
sobre a descarnada luz da cal.

Eugénio de Andrade, Poesia. Vila Nova de Gaia, Rosto Editora, 2011, p 546

domingo, 8 de junho de 2014

Passagem Norte-Oeste.John Everett Millais

John Everett Millais,The North-West Passage, 1874

Nota da Tate Modern
The north-west passage was the unnavigable sea route round North America which was thought to provide a passage to the East. In time, it became synonymous with failure, adversity and death, with men and ships battling against hopeless odds in a frozen wilderness. Millais painted this picture in 1874 when another English expedition was setting off. Previous representations had shown had explored the desolate beauty of the terrain with details such as wrecked ships to underline the futility of man’s ambition. Millais encapsulates the risks of such a voyage primarily through the old seaman, with his grim, distant look and clenched fist.

sábado, 7 de junho de 2014

Corre mundo e conta histórias. Hans Christian Andersen

Era uma vez um mercador, que era tão rico que podia calcetar toda a rua, e quase uma ruelazinha ainda, com moedas de prata. Mas não o fez, sabia empregar o seu dinheiro de outro modo e se despendia um xelim, recebia um táler em troca. Assim era o mercador…e assim morreu.
O filho ficou então com todo esse dinheiro e levou a vida a divertir-se. Foi todas as noites a mascaradas, armou papagaios com as notas de táleres e fez saltitar sobre a superfície do mar moedas de ouro em vez de pedrinhas. Bem podia o dinheiro sumir-se e assim sucedeu. Por fim não possuía mais do que quatro xelins e não tinha outra roupa senão um velho roupão e um par de pantufas. Então não se importaram mais os amigos com ele, pois já não podiam ir juntos para a rua; mas um deles, que era bom, mandou-lhe uma velha arca e disse: - Enche-a! – Sim, estava tudo muito bem, mas ele não tinha nada para a encher e assim sentou-se ele próprio na arca.
Era uma arca cómica. Logo que se premia a fechadura, a arca punha-se a voar. Foi isso que fez, bumba!, voou com ele por aí acima através da chaminé, alto por sobre as nuvens, cada vez mais longe. Rangia no fundo e ele estava com medo de que se fizesse em pedaços, pois sendo assim vinha a dar um bem bonito salto. Deus nos livre disso! E chegou à terra dos turcos. A arca, escondeu-a no bosque, sob folhas murchas e dirigiu-se à cidade. Bem o podia fazer, pois os turcos andam todos como ele, em roupão e pantufas. Encontrou assim uma ama com uma criancinha.
- Ouve, ama de turcos! – disse ele. – Que palácio é este grande, junto à cidade? As janelas são tão altas!
- Mora lá a filha do rei! – disse ela. – Foi-lhe profetizado que seria infeliz por causa de um namorado e por isso ninguém pode aproximar-se dela, sem o rei e a rainha estarem na sua companhia!
- Obrigado! – disse o filho do mercador e foi depois para o bosque, sentou-se na arca, voou para o telhado e deslizando entrou pela janela do aposento em que estava a princesa.
Estava deitada no sofá a dormir. Era tão bonita que o filho do mercador teve de a beijar. Ela acordou e ficou muito assustada, mas ele disse que era o deus dos turcos que tinha descido pelo ar e isso pareceu-lhe bem a ela.
Sentaram-se assim ao lado um do outro e ele contou-lhe histórias sobre os olhos dela, que eram os mais lindos lagos de tons escuros em que os pensamentos nadavam como sereias. E falou-lhe da sua testa que era uma montanha de neve com as mais belas grutas e figuras e contou-lhe de como as cegonhas trazem os bebés.
Oh! Eram histórias bem bonitas! Assim se declarou à princesa e ela disse logo que sim.
- Mas tem de vir aqui no sábado – disse ela. – O rei e a rainha estão comigo para o chá. Ficarão muito orgulhosos de eu receber o deus dos turcos, mas veja se sabe uma história verdadeiramente bonita, pois os meus pais gostam muito de histórias. A minha mãe gosta que elas sejam morais e finas e meu pai divertidas, para se rir!
- Sim, não trago outro presente de noivado senão uma história! – disse ele. E então separaram-se, mas a princesa deu-lhe um sabre, incrustado com moedas de ouro e, a estas, bem sabia como utilizá-las.
Voou lá para fora, comprou um roupão novo e sentou-se no bosque a compor uma história que teria de ficar pronta até sábado. E fácil não era.
Ficou por fim pronta e chegou o sábado.
O rei e a rainha e toda a corte esperavam, convidados para o chá da princesa. Ele foi admiravelmente bem recebido!
- Quer então contar uma história? – disse a rainha. – Uma que seja de sentido profundo e instrutivo!
- Mas que faça também rir! – disse o rei.
- Certamente! – disse ele e começou a contar. Temos de ouvi-la bem!
Era uma vez um pacote de fósforos, extraordinariamente orgulhoso pelo facto de ser de alta estirpe. A sua árvore genealógica, quer dizer, o grande abeto, de que eram um pedacinho, tinha sido uma grande árvore antiga do bosque. Os fósforos estavam agora na prateleira entre um isqueiro e uma velha panela de ferro e entre si contavam histórias da juventude. – Sim, quando estávamos no ramo verde! – diziam eles. – Estávamos então verdadeiramente num ramo verde! Todas as manhãs e todas as noites chá de diamantes, que era o orvalho. Todos os dias tínhamos luz do sol, quando o sol brilhava e todas aves vinham contar-nos histórias. Bem podíamos aperceber-nos de que éramos ricos, pois as árvores de folha caduca só estavam vestidas no Verão, mas a nossa família possuía meios para ter vestuário verde tanto no Verão como no Inverno. Vieram então os lenhadores, foi a grande revolução e a nossa família dispersou-se. O tronco obteve um lugar no mastro real num belo navio que podia navegar à volta do mundo, se quisesse. Os outros ramos foram para outros lugares e nós temos agora a tarefa de acender a luz para a arraia-miúda. Por isso somos gente distinta vinda parar aqui, à cozinha.
- Sim, comigo passa-se de outro modo! – disse a panela de ferro, ao lado da qual estavam os fósforos. – Desde que vim ao mundo que sou esfregada e posta ao lume continuamente! Cuido dos alimentos sólidos e sou, a nem dizer, a coisa primeira aqui em casa. A minha única alegria é, depois da refeição, ficar aqui limpa e bonita na prateleira e ter uma conversa razoada com os camaradas. Mas, se exceptuarmos o balde de água que, uma vez por outra, desce ao jardim, vivemos sempre dentro de portas. O nosso único porta-novas é o cesto de compras, mas ele fala tão violentamente contra governo e o povo! Sim, outro dia até um velho pote caiu lá de cima, de medo, e desfez-se em pedaços! Tem cá umas ideias! Vou-vos dizer! – Agora está a falar demais! – disse o isqueiro e o aço bateu na pederneira de modo que faiscou. – Não queremos ter uma noite agradável?
- Sim, falemos sobre aquele de nós que é o mais distinto! – disseram os fósforos.
- Não, não gosto de falar de mim…– disse a panela de ferro. – Façamos uma espécie de serão! Começo eu. Vou contar-lhes algo que cada um já viveu. Podem compreender melhor a situação e é mais agradável. Junto ao Báltico, nas baías dinamarquesas…
- É um lindo começo! – disseram todos os pratos. – Vai ser certamente uma história de que se irá gostar.
- Sim, aí passei a minha juventude, em casa de uma família tranquila. Os móveis eram polidos, o chão esfregado e havia cortinas lavadas todos os quinze dias!
- Como conta isso de modo tão interessante! – disse o espanador. – Pode-se perceber logo que o narrador é feminino. Há em tudo algo de asseado!
- Sim, sente-se isso! – disse o balde de água e deu assim, de alegria, um saltinho, de modo que fez “clatch” no chão.
E a panela continuou a contar e o fim foi tão bom como o princípio.
Todos os pratos matraquearam de alegria e o espanador foi buscar salsa verde do buraco de areia e coroou a panela, pois sabia que isso aborreceria os outros e pensou “se a coroo hoje, vai coroar-me ela amanhã”.
- Agora vou dançar! – disse a tenaz e dançou. Deus meu! Como sabia pôr uma perna no ar! O velho pano que cobria a cadeira ao canto rasgou-se ao vê-la. – Posso ser coroada? – perguntou a tenaz. E foi-o.
“É populaça da pior!” pensaram os fósforos.
Agora era a vez de o samovar cantar, mas estava resfriado, disse ele, não o podia fazer sem estar a ferver. Era, porém, simples delicadeza. Não queria cantar, senão quando se encontrava à mesa dos senhores.
Na janela estava uma velha pena, com a qual a criada costumava escrever. Nada havia de notável nela, senão que fora mergulhada demasiado fundo no tinteiro e por isso se julgava grande. – Se o samovar não quer cantar – disse ela – deixá-lo! Lá fora, numa gaiola, está um rouxinol que sabe cantar. Verdadeiramente, não estudou nada, mas não queremos malzizer esta noite, pois não ?!
- Acho muito impróprio – disse a chaleira que era a cantora da cozinha e meia-irmã do samovar – que se tenha de ouvir um pássaro estrangeiro! Isso é patriótico? Quero ouvir a opinião do cesto de compras!
- Estou simplesmente desgostoso! – disse o cesto de compras. – Estou tão interiormente desgostosos como ninguém pode imaginar! Isto é maneira própria de passar a noite? Não seria mais acertado dar uma boa volta pela casa? Cada um iria para o seu lugar e eu dirigiria a confusão. Sempre seria outra coisa!
- Sim, façamos algazarra! – disseram todos. Nesse momento, a porta abriu-se. Era a criada. Ficaram todos quietos. Nenhum tugiu nem mugiu. Mas não havia panela alguma que não soubesse a sua valia e como era distinta.
“Sim, se tivesse querido”, pensavam elas, “teria sido verdadeiramente uma noite divertida!”
A criada pegou nos fósforos, fez fogo com eles. Deus meu! Como faiscaram e flamejaram!
“Agora podem todos ver”, pensaram eles, “que somos os primeiros! Que brilho temos! Que luz!” Mas, assim, arderam completamente.

- Foi uma bela história! – disse a rainha. – Senti-me perfeitamente na cozinha com os fósforos. Sim, vais ter a nossa filha!
- Certamente! – disse o rei. – Vais ter a nossa filha na segunda-feira! – Agora tratavam-no por “tu” pois ia ser da família.
A data da boda foi fixada e na noite anterior toda a cidade foi iluminada. Bolos e biscoitos voaram ao desbarato. Os rapazes da rua punham-se em bicos de pés, davam hurras e assobiavam com os dedos. Foi uma maravilha.
“Sim, tenho de ver se faço também alguma coisa”, pensou o filho do mercador. E comprou foguetes, estalinhos e todo o fogo de artifício que se podia imaginar. Carregou-o na arca e voou pelo ar.
Rutch! Como saltava! E como flamejava!
Todos os turcos deram pulos de contentes, de modo que as pantufas voaram-lhes até às orelhas. Um espectáculo do céu, assim, nunca se tinha visto. Agora podiam bem compreender que era o próprio deus dos turcos que ia casar com a princesa.
Logo que o filho do mercador desceu de novo com a sua arca ao bosque, pensou: “Quero ir agora à cidade para ouvir contar como viram o espectáculo!” E era bem natural que tivesse vontade disso.
Oh! O que contavam! Cada uma das pessoas a quem perguntou, tinha-o visto a seu modo, mas bonito tinha sido para todas.
- Eu vi o próprio deus dos turcos – disse uma. – Tinha os olhos como estrelas brilhantes e barba como água espumante!
- Voava com uma capa de fogo – disse outra. – Os mais lindos anjinhos espreitavam de dentro das pregas.
Sim, foram coisas bonitas que ouviu e no dia seguinte seriam as bodas.

Então voltou ao bosque para se sentar na sua arca… mas onde estava ela? A arca ardera completamente. Uma fagulha do fogo de artifício tinha ficado lá, dentro e ateara o fogo. Agora, a arca era cinza. Não podia voar mais. Não mais voltar para junto da noiva.
Ficou todo o dia no telhado à espera, está ainda à espera. Mas ele corre mundo e conta histórias. Não são já, contudo, tão divertidas como a que contou sobre o pacote de fósforos.

Hans Christian Andersen, “A arca voadora”, In Os Cisnes Selvagens e Outros Contos, Lisboa, Editorial Estampa, 2003, pp. 77-83.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Viagem de Beaudelaire. Sidney Nolan

Sidney Nolan, Illustration to the ‘Voyage by Beaudelaire’, 1965