O visitante ocidental que pela primeira vez chega a Goa e Cochim enfrentará provavelmente a vertigem do caos à sua volta e dentro se si. Quando começa a familiarizar-se com a estonteante exuberância e com as contradições coexistentes, quando julga começar a entender a complexidade das castas, dos cultos e costumes tão diferentes, quando começa a fixar nomes, imagens, atributos dos deuses, tudo lhe foge de súbito, tudo se torna de novo confuso, como se o véu de Maia voltasse a cobrir a indecifrável irrealidade da Índia real.
Quem regressa de uma terra tão diversa traz fragmentos de caras, casas, ruas, cheiros, quartos, uma carga de imagens que, na alfândega-roleta do lembrar e esquecer, deveria pagar excesso de bagagem. Vim carregado de cores e de cansaço mas inteiro e em estado razoável, bem melhor dos que outrora, contentes por regressarem, cantavam:
Lá vos digo que há fadigas
tantas mortes, tantas brigas
e perigos descompassados
que assim vimos destroçados
pelados como formigas.
Vim ainda carregado de algo mais, um outro modo de olhar, a certeza de não pertencer àquele tipo de viajante que não fala do que vê, mas do que imagina ou deseja ver. Trouxe comigo um bloco confusamente escrevinhado, uma curiosidade acrescentada, uma crescente descrença na elegância da descrença. E tornei-me mais atento à infindável memória do mundo, mais capaz de escutar o incansável murmúrio do mundo.
Almeida Faria, O Murmúrio do Mundo. A Índia Revisitada. Desenhos de Bárbara Assis Pacheco. 2ª edição. Lisboa, Tinta da China, 2012.
quinta-feira, 12 de junho de 2014
quarta-feira, 11 de junho de 2014
terça-feira, 10 de junho de 2014
Já foi voluptuosa descoberta. Eugénio de Andrade
Barcos ou aves
De noite eram barcos, de manhã são aves:
entram cantando pela casa.
Juntos vão pelos dias como irmãos
gémeos, dependentes
uns dos outros como estrelas
da mesma constelação.
Cada viagem já foi voluptuosa
descoberta de emoções
de porto em porto; agora
é só o gosto inteligente
de regressar à pequena praça
de muros caiados, à casa
onde o corpo se reconheceu noutro corpo,
fiéis a esta luz, este mar.
Eugénio de Andrade, Poesia. Vila Nova de Gaia, Rosto Editora, 2011, p 603-604.
De noite eram barcos, de manhã são aves:
entram cantando pela casa.
Juntos vão pelos dias como irmãos
gémeos, dependentes
uns dos outros como estrelas
da mesma constelação.
Cada viagem já foi voluptuosa
descoberta de emoções
de porto em porto; agora
é só o gosto inteligente
de regressar à pequena praça
de muros caiados, à casa
onde o corpo se reconheceu noutro corpo,
fiéis a esta luz, este mar.
Eugénio de Andrade, Poesia. Vila Nova de Gaia, Rosto Editora, 2011, p 603-604.
segunda-feira, 9 de junho de 2014
O olhar espalmado. Eugénio de Andrade
Notas de viagem
Os amieiros, a casa em ruína,
o olhar
espalmado entre as folhas
do livro, as nasaladas
vozes das crianças sobre a água,
a boca da sombra onde as maçãs
ardem com brilhos de metal,
a repentina
aparição do silêncio
ao fundo das escadas
a porta aberta
sobre a descarnada luz da cal.
Eugénio de Andrade, Poesia. Vila Nova de Gaia, Rosto Editora, 2011, p 546
Os amieiros, a casa em ruína,
o olhar
espalmado entre as folhas
do livro, as nasaladas
vozes das crianças sobre a água,
a boca da sombra onde as maçãs
ardem com brilhos de metal,
a repentina
aparição do silêncio
ao fundo das escadas
a porta aberta
sobre a descarnada luz da cal.
Eugénio de Andrade, Poesia. Vila Nova de Gaia, Rosto Editora, 2011, p 546
domingo, 8 de junho de 2014
Passagem Norte-Oeste.John Everett Millais
John Everett Millais,The North-West Passage, 1874
Nota da Tate Modern
The north-west passage was the unnavigable sea route round North America which was thought to provide a passage to the East. In time, it became synonymous with failure, adversity and death, with men and ships battling against hopeless odds in a frozen wilderness. Millais painted this picture in 1874 when another English expedition was setting off. Previous representations had shown had explored the desolate beauty of the terrain with details such as wrecked ships to underline the futility of man’s ambition. Millais encapsulates the risks of such a voyage primarily through the old seaman, with his grim, distant look and clenched fist.
sábado, 7 de junho de 2014
Corre mundo e conta histórias. Hans Christian Andersen
Era uma vez um mercador, que era tão rico que podia calcetar toda a rua, e quase uma ruelazinha ainda, com moedas de prata. Mas não o fez, sabia empregar o seu dinheiro de outro modo e se despendia um xelim, recebia um táler em troca. Assim era o mercador…e assim morreu.
O filho ficou então com todo esse dinheiro e levou a vida a divertir-se. Foi todas as noites a mascaradas, armou papagaios com as notas de táleres e fez saltitar sobre a superfície do mar moedas de ouro em vez de pedrinhas. Bem podia o dinheiro sumir-se e assim sucedeu. Por fim não possuía mais do que quatro xelins e não tinha outra roupa senão um velho roupão e um par de pantufas. Então não se importaram mais os amigos com ele, pois já não podiam ir juntos para a rua; mas um deles, que era bom, mandou-lhe uma velha arca e disse: - Enche-a! – Sim, estava tudo muito bem, mas ele não tinha nada para a encher e assim sentou-se ele próprio na arca.
Era uma arca cómica. Logo que se premia a fechadura, a arca punha-se a voar. Foi isso que fez, bumba!, voou com ele por aí acima através da chaminé, alto por sobre as nuvens, cada vez mais longe. Rangia no fundo e ele estava com medo de que se fizesse em pedaços, pois sendo assim vinha a dar um bem bonito salto. Deus nos livre disso! E chegou à terra dos turcos. A arca, escondeu-a no bosque, sob folhas murchas e dirigiu-se à cidade. Bem o podia fazer, pois os turcos andam todos como ele, em roupão e pantufas. Encontrou assim uma ama com uma criancinha.
- Ouve, ama de turcos! – disse ele. – Que palácio é este grande, junto à cidade? As janelas são tão altas!
- Mora lá a filha do rei! – disse ela. – Foi-lhe profetizado que seria infeliz por causa de um namorado e por isso ninguém pode aproximar-se dela, sem o rei e a rainha estarem na sua companhia!
- Obrigado! – disse o filho do mercador e foi depois para o bosque, sentou-se na arca, voou para o telhado e deslizando entrou pela janela do aposento em que estava a princesa.
Estava deitada no sofá a dormir. Era tão bonita que o filho do mercador teve de a beijar. Ela acordou e ficou muito assustada, mas ele disse que era o deus dos turcos que tinha descido pelo ar e isso pareceu-lhe bem a ela.
Sentaram-se assim ao lado um do outro e ele contou-lhe histórias sobre os olhos dela, que eram os mais lindos lagos de tons escuros em que os pensamentos nadavam como sereias. E falou-lhe da sua testa que era uma montanha de neve com as mais belas grutas e figuras e contou-lhe de como as cegonhas trazem os bebés.
Oh! Eram histórias bem bonitas! Assim se declarou à princesa e ela disse logo que sim.
- Mas tem de vir aqui no sábado – disse ela. – O rei e a rainha estão comigo para o chá. Ficarão muito orgulhosos de eu receber o deus dos turcos, mas veja se sabe uma história verdadeiramente bonita, pois os meus pais gostam muito de histórias. A minha mãe gosta que elas sejam morais e finas e meu pai divertidas, para se rir!
- Sim, não trago outro presente de noivado senão uma história! – disse ele. E então separaram-se, mas a princesa deu-lhe um sabre, incrustado com moedas de ouro e, a estas, bem sabia como utilizá-las.
Voou lá para fora, comprou um roupão novo e sentou-se no bosque a compor uma história que teria de ficar pronta até sábado. E fácil não era.
Ficou por fim pronta e chegou o sábado.
O rei e a rainha e toda a corte esperavam, convidados para o chá da princesa. Ele foi admiravelmente bem recebido!
- Quer então contar uma história? – disse a rainha. – Uma que seja de sentido profundo e instrutivo!
- Mas que faça também rir! – disse o rei.
- Certamente! – disse ele e começou a contar. Temos de ouvi-la bem!
Era uma vez um pacote de fósforos, extraordinariamente orgulhoso pelo facto de ser de alta estirpe. A sua árvore genealógica, quer dizer, o grande abeto, de que eram um pedacinho, tinha sido uma grande árvore antiga do bosque. Os fósforos estavam agora na prateleira entre um isqueiro e uma velha panela de ferro e entre si contavam histórias da juventude. – Sim, quando estávamos no ramo verde! – diziam eles. – Estávamos então verdadeiramente num ramo verde! Todas as manhãs e todas as noites chá de diamantes, que era o orvalho. Todos os dias tínhamos luz do sol, quando o sol brilhava e todas aves vinham contar-nos histórias. Bem podíamos aperceber-nos de que éramos ricos, pois as árvores de folha caduca só estavam vestidas no Verão, mas a nossa família possuía meios para ter vestuário verde tanto no Verão como no Inverno. Vieram então os lenhadores, foi a grande revolução e a nossa família dispersou-se. O tronco obteve um lugar no mastro real num belo navio que podia navegar à volta do mundo, se quisesse. Os outros ramos foram para outros lugares e nós temos agora a tarefa de acender a luz para a arraia-miúda. Por isso somos gente distinta vinda parar aqui, à cozinha.
- Sim, comigo passa-se de outro modo! – disse a panela de ferro, ao lado da qual estavam os fósforos. – Desde que vim ao mundo que sou esfregada e posta ao lume continuamente! Cuido dos alimentos sólidos e sou, a nem dizer, a coisa primeira aqui em casa. A minha única alegria é, depois da refeição, ficar aqui limpa e bonita na prateleira e ter uma conversa razoada com os camaradas. Mas, se exceptuarmos o balde de água que, uma vez por outra, desce ao jardim, vivemos sempre dentro de portas. O nosso único porta-novas é o cesto de compras, mas ele fala tão violentamente contra governo e o povo! Sim, outro dia até um velho pote caiu lá de cima, de medo, e desfez-se em pedaços! Tem cá umas ideias! Vou-vos dizer! – Agora está a falar demais! – disse o isqueiro e o aço bateu na pederneira de modo que faiscou. – Não queremos ter uma noite agradável?
- Sim, falemos sobre aquele de nós que é o mais distinto! – disseram os fósforos.
- Não, não gosto de falar de mim…– disse a panela de ferro. – Façamos uma espécie de serão! Começo eu. Vou contar-lhes algo que cada um já viveu. Podem compreender melhor a situação e é mais agradável. Junto ao Báltico, nas baías dinamarquesas…
- É um lindo começo! – disseram todos os pratos. – Vai ser certamente uma história de que se irá gostar.
- Sim, aí passei a minha juventude, em casa de uma família tranquila. Os móveis eram polidos, o chão esfregado e havia cortinas lavadas todos os quinze dias!
- Como conta isso de modo tão interessante! – disse o espanador. – Pode-se perceber logo que o narrador é feminino. Há em tudo algo de asseado!
- Sim, sente-se isso! – disse o balde de água e deu assim, de alegria, um saltinho, de modo que fez “clatch” no chão.
E a panela continuou a contar e o fim foi tão bom como o princípio.
Todos os pratos matraquearam de alegria e o espanador foi buscar salsa verde do buraco de areia e coroou a panela, pois sabia que isso aborreceria os outros e pensou “se a coroo hoje, vai coroar-me ela amanhã”.
- Agora vou dançar! – disse a tenaz e dançou. Deus meu! Como sabia pôr uma perna no ar! O velho pano que cobria a cadeira ao canto rasgou-se ao vê-la. – Posso ser coroada? – perguntou a tenaz. E foi-o.
“É populaça da pior!” pensaram os fósforos.
Agora era a vez de o samovar cantar, mas estava resfriado, disse ele, não o podia fazer sem estar a ferver. Era, porém, simples delicadeza. Não queria cantar, senão quando se encontrava à mesa dos senhores.
Na janela estava uma velha pena, com a qual a criada costumava escrever. Nada havia de notável nela, senão que fora mergulhada demasiado fundo no tinteiro e por isso se julgava grande. – Se o samovar não quer cantar – disse ela – deixá-lo! Lá fora, numa gaiola, está um rouxinol que sabe cantar. Verdadeiramente, não estudou nada, mas não queremos malzizer esta noite, pois não ?!
- Acho muito impróprio – disse a chaleira que era a cantora da cozinha e meia-irmã do samovar – que se tenha de ouvir um pássaro estrangeiro! Isso é patriótico? Quero ouvir a opinião do cesto de compras!
- Estou simplesmente desgostoso! – disse o cesto de compras. – Estou tão interiormente desgostosos como ninguém pode imaginar! Isto é maneira própria de passar a noite? Não seria mais acertado dar uma boa volta pela casa? Cada um iria para o seu lugar e eu dirigiria a confusão. Sempre seria outra coisa!
- Sim, façamos algazarra! – disseram todos. Nesse momento, a porta abriu-se. Era a criada. Ficaram todos quietos. Nenhum tugiu nem mugiu. Mas não havia panela alguma que não soubesse a sua valia e como era distinta.
“Sim, se tivesse querido”, pensavam elas, “teria sido verdadeiramente uma noite divertida!”
A criada pegou nos fósforos, fez fogo com eles. Deus meu! Como faiscaram e flamejaram!
“Agora podem todos ver”, pensaram eles, “que somos os primeiros! Que brilho temos! Que luz!” Mas, assim, arderam completamente.
- Foi uma bela história! – disse a rainha. – Senti-me perfeitamente na cozinha com os fósforos. Sim, vais ter a nossa filha!
- Certamente! – disse o rei. – Vais ter a nossa filha na segunda-feira! – Agora tratavam-no por “tu” pois ia ser da família.
A data da boda foi fixada e na noite anterior toda a cidade foi iluminada. Bolos e biscoitos voaram ao desbarato. Os rapazes da rua punham-se em bicos de pés, davam hurras e assobiavam com os dedos. Foi uma maravilha.
“Sim, tenho de ver se faço também alguma coisa”, pensou o filho do mercador. E comprou foguetes, estalinhos e todo o fogo de artifício que se podia imaginar. Carregou-o na arca e voou pelo ar.
Rutch! Como saltava! E como flamejava!
Todos os turcos deram pulos de contentes, de modo que as pantufas voaram-lhes até às orelhas. Um espectáculo do céu, assim, nunca se tinha visto. Agora podiam bem compreender que era o próprio deus dos turcos que ia casar com a princesa.
Logo que o filho do mercador desceu de novo com a sua arca ao bosque, pensou: “Quero ir agora à cidade para ouvir contar como viram o espectáculo!” E era bem natural que tivesse vontade disso.
Oh! O que contavam! Cada uma das pessoas a quem perguntou, tinha-o visto a seu modo, mas bonito tinha sido para todas.
- Eu vi o próprio deus dos turcos – disse uma. – Tinha os olhos como estrelas brilhantes e barba como água espumante!
- Voava com uma capa de fogo – disse outra. – Os mais lindos anjinhos espreitavam de dentro das pregas.
Sim, foram coisas bonitas que ouviu e no dia seguinte seriam as bodas.
Então voltou ao bosque para se sentar na sua arca… mas onde estava ela? A arca ardera completamente. Uma fagulha do fogo de artifício tinha ficado lá, dentro e ateara o fogo. Agora, a arca era cinza. Não podia voar mais. Não mais voltar para junto da noiva.
Ficou todo o dia no telhado à espera, está ainda à espera. Mas ele corre mundo e conta histórias. Não são já, contudo, tão divertidas como a que contou sobre o pacote de fósforos.
Hans Christian Andersen, “A arca voadora”, In Os Cisnes Selvagens e Outros Contos, Lisboa, Editorial Estampa, 2003, pp. 77-83.
O filho ficou então com todo esse dinheiro e levou a vida a divertir-se. Foi todas as noites a mascaradas, armou papagaios com as notas de táleres e fez saltitar sobre a superfície do mar moedas de ouro em vez de pedrinhas. Bem podia o dinheiro sumir-se e assim sucedeu. Por fim não possuía mais do que quatro xelins e não tinha outra roupa senão um velho roupão e um par de pantufas. Então não se importaram mais os amigos com ele, pois já não podiam ir juntos para a rua; mas um deles, que era bom, mandou-lhe uma velha arca e disse: - Enche-a! – Sim, estava tudo muito bem, mas ele não tinha nada para a encher e assim sentou-se ele próprio na arca.
Era uma arca cómica. Logo que se premia a fechadura, a arca punha-se a voar. Foi isso que fez, bumba!, voou com ele por aí acima através da chaminé, alto por sobre as nuvens, cada vez mais longe. Rangia no fundo e ele estava com medo de que se fizesse em pedaços, pois sendo assim vinha a dar um bem bonito salto. Deus nos livre disso! E chegou à terra dos turcos. A arca, escondeu-a no bosque, sob folhas murchas e dirigiu-se à cidade. Bem o podia fazer, pois os turcos andam todos como ele, em roupão e pantufas. Encontrou assim uma ama com uma criancinha.
- Ouve, ama de turcos! – disse ele. – Que palácio é este grande, junto à cidade? As janelas são tão altas!
- Mora lá a filha do rei! – disse ela. – Foi-lhe profetizado que seria infeliz por causa de um namorado e por isso ninguém pode aproximar-se dela, sem o rei e a rainha estarem na sua companhia!
- Obrigado! – disse o filho do mercador e foi depois para o bosque, sentou-se na arca, voou para o telhado e deslizando entrou pela janela do aposento em que estava a princesa.
Estava deitada no sofá a dormir. Era tão bonita que o filho do mercador teve de a beijar. Ela acordou e ficou muito assustada, mas ele disse que era o deus dos turcos que tinha descido pelo ar e isso pareceu-lhe bem a ela.
Sentaram-se assim ao lado um do outro e ele contou-lhe histórias sobre os olhos dela, que eram os mais lindos lagos de tons escuros em que os pensamentos nadavam como sereias. E falou-lhe da sua testa que era uma montanha de neve com as mais belas grutas e figuras e contou-lhe de como as cegonhas trazem os bebés.
Oh! Eram histórias bem bonitas! Assim se declarou à princesa e ela disse logo que sim.
- Mas tem de vir aqui no sábado – disse ela. – O rei e a rainha estão comigo para o chá. Ficarão muito orgulhosos de eu receber o deus dos turcos, mas veja se sabe uma história verdadeiramente bonita, pois os meus pais gostam muito de histórias. A minha mãe gosta que elas sejam morais e finas e meu pai divertidas, para se rir!
- Sim, não trago outro presente de noivado senão uma história! – disse ele. E então separaram-se, mas a princesa deu-lhe um sabre, incrustado com moedas de ouro e, a estas, bem sabia como utilizá-las.
Voou lá para fora, comprou um roupão novo e sentou-se no bosque a compor uma história que teria de ficar pronta até sábado. E fácil não era.
Ficou por fim pronta e chegou o sábado.
O rei e a rainha e toda a corte esperavam, convidados para o chá da princesa. Ele foi admiravelmente bem recebido!
- Quer então contar uma história? – disse a rainha. – Uma que seja de sentido profundo e instrutivo!
- Mas que faça também rir! – disse o rei.
- Certamente! – disse ele e começou a contar. Temos de ouvi-la bem!
Era uma vez um pacote de fósforos, extraordinariamente orgulhoso pelo facto de ser de alta estirpe. A sua árvore genealógica, quer dizer, o grande abeto, de que eram um pedacinho, tinha sido uma grande árvore antiga do bosque. Os fósforos estavam agora na prateleira entre um isqueiro e uma velha panela de ferro e entre si contavam histórias da juventude. – Sim, quando estávamos no ramo verde! – diziam eles. – Estávamos então verdadeiramente num ramo verde! Todas as manhãs e todas as noites chá de diamantes, que era o orvalho. Todos os dias tínhamos luz do sol, quando o sol brilhava e todas aves vinham contar-nos histórias. Bem podíamos aperceber-nos de que éramos ricos, pois as árvores de folha caduca só estavam vestidas no Verão, mas a nossa família possuía meios para ter vestuário verde tanto no Verão como no Inverno. Vieram então os lenhadores, foi a grande revolução e a nossa família dispersou-se. O tronco obteve um lugar no mastro real num belo navio que podia navegar à volta do mundo, se quisesse. Os outros ramos foram para outros lugares e nós temos agora a tarefa de acender a luz para a arraia-miúda. Por isso somos gente distinta vinda parar aqui, à cozinha.
- Sim, comigo passa-se de outro modo! – disse a panela de ferro, ao lado da qual estavam os fósforos. – Desde que vim ao mundo que sou esfregada e posta ao lume continuamente! Cuido dos alimentos sólidos e sou, a nem dizer, a coisa primeira aqui em casa. A minha única alegria é, depois da refeição, ficar aqui limpa e bonita na prateleira e ter uma conversa razoada com os camaradas. Mas, se exceptuarmos o balde de água que, uma vez por outra, desce ao jardim, vivemos sempre dentro de portas. O nosso único porta-novas é o cesto de compras, mas ele fala tão violentamente contra governo e o povo! Sim, outro dia até um velho pote caiu lá de cima, de medo, e desfez-se em pedaços! Tem cá umas ideias! Vou-vos dizer! – Agora está a falar demais! – disse o isqueiro e o aço bateu na pederneira de modo que faiscou. – Não queremos ter uma noite agradável?
- Sim, falemos sobre aquele de nós que é o mais distinto! – disseram os fósforos.
- Não, não gosto de falar de mim…– disse a panela de ferro. – Façamos uma espécie de serão! Começo eu. Vou contar-lhes algo que cada um já viveu. Podem compreender melhor a situação e é mais agradável. Junto ao Báltico, nas baías dinamarquesas…
- É um lindo começo! – disseram todos os pratos. – Vai ser certamente uma história de que se irá gostar.
- Sim, aí passei a minha juventude, em casa de uma família tranquila. Os móveis eram polidos, o chão esfregado e havia cortinas lavadas todos os quinze dias!
- Como conta isso de modo tão interessante! – disse o espanador. – Pode-se perceber logo que o narrador é feminino. Há em tudo algo de asseado!
- Sim, sente-se isso! – disse o balde de água e deu assim, de alegria, um saltinho, de modo que fez “clatch” no chão.
E a panela continuou a contar e o fim foi tão bom como o princípio.
Todos os pratos matraquearam de alegria e o espanador foi buscar salsa verde do buraco de areia e coroou a panela, pois sabia que isso aborreceria os outros e pensou “se a coroo hoje, vai coroar-me ela amanhã”.
- Agora vou dançar! – disse a tenaz e dançou. Deus meu! Como sabia pôr uma perna no ar! O velho pano que cobria a cadeira ao canto rasgou-se ao vê-la. – Posso ser coroada? – perguntou a tenaz. E foi-o.
“É populaça da pior!” pensaram os fósforos.
Agora era a vez de o samovar cantar, mas estava resfriado, disse ele, não o podia fazer sem estar a ferver. Era, porém, simples delicadeza. Não queria cantar, senão quando se encontrava à mesa dos senhores.
Na janela estava uma velha pena, com a qual a criada costumava escrever. Nada havia de notável nela, senão que fora mergulhada demasiado fundo no tinteiro e por isso se julgava grande. – Se o samovar não quer cantar – disse ela – deixá-lo! Lá fora, numa gaiola, está um rouxinol que sabe cantar. Verdadeiramente, não estudou nada, mas não queremos malzizer esta noite, pois não ?!
- Acho muito impróprio – disse a chaleira que era a cantora da cozinha e meia-irmã do samovar – que se tenha de ouvir um pássaro estrangeiro! Isso é patriótico? Quero ouvir a opinião do cesto de compras!
- Estou simplesmente desgostoso! – disse o cesto de compras. – Estou tão interiormente desgostosos como ninguém pode imaginar! Isto é maneira própria de passar a noite? Não seria mais acertado dar uma boa volta pela casa? Cada um iria para o seu lugar e eu dirigiria a confusão. Sempre seria outra coisa!
- Sim, façamos algazarra! – disseram todos. Nesse momento, a porta abriu-se. Era a criada. Ficaram todos quietos. Nenhum tugiu nem mugiu. Mas não havia panela alguma que não soubesse a sua valia e como era distinta.
“Sim, se tivesse querido”, pensavam elas, “teria sido verdadeiramente uma noite divertida!”
A criada pegou nos fósforos, fez fogo com eles. Deus meu! Como faiscaram e flamejaram!
“Agora podem todos ver”, pensaram eles, “que somos os primeiros! Que brilho temos! Que luz!” Mas, assim, arderam completamente.
- Foi uma bela história! – disse a rainha. – Senti-me perfeitamente na cozinha com os fósforos. Sim, vais ter a nossa filha!
- Certamente! – disse o rei. – Vais ter a nossa filha na segunda-feira! – Agora tratavam-no por “tu” pois ia ser da família.
A data da boda foi fixada e na noite anterior toda a cidade foi iluminada. Bolos e biscoitos voaram ao desbarato. Os rapazes da rua punham-se em bicos de pés, davam hurras e assobiavam com os dedos. Foi uma maravilha.
“Sim, tenho de ver se faço também alguma coisa”, pensou o filho do mercador. E comprou foguetes, estalinhos e todo o fogo de artifício que se podia imaginar. Carregou-o na arca e voou pelo ar.
Rutch! Como saltava! E como flamejava!
Todos os turcos deram pulos de contentes, de modo que as pantufas voaram-lhes até às orelhas. Um espectáculo do céu, assim, nunca se tinha visto. Agora podiam bem compreender que era o próprio deus dos turcos que ia casar com a princesa.
Logo que o filho do mercador desceu de novo com a sua arca ao bosque, pensou: “Quero ir agora à cidade para ouvir contar como viram o espectáculo!” E era bem natural que tivesse vontade disso.
Oh! O que contavam! Cada uma das pessoas a quem perguntou, tinha-o visto a seu modo, mas bonito tinha sido para todas.
- Eu vi o próprio deus dos turcos – disse uma. – Tinha os olhos como estrelas brilhantes e barba como água espumante!
- Voava com uma capa de fogo – disse outra. – Os mais lindos anjinhos espreitavam de dentro das pregas.
Sim, foram coisas bonitas que ouviu e no dia seguinte seriam as bodas.
Então voltou ao bosque para se sentar na sua arca… mas onde estava ela? A arca ardera completamente. Uma fagulha do fogo de artifício tinha ficado lá, dentro e ateara o fogo. Agora, a arca era cinza. Não podia voar mais. Não mais voltar para junto da noiva.
Ficou todo o dia no telhado à espera, está ainda à espera. Mas ele corre mundo e conta histórias. Não são já, contudo, tão divertidas como a que contou sobre o pacote de fósforos.
Hans Christian Andersen, “A arca voadora”, In Os Cisnes Selvagens e Outros Contos, Lisboa, Editorial Estampa, 2003, pp. 77-83.
sexta-feira, 6 de junho de 2014
quinta-feira, 5 de junho de 2014
A Viagem (VI-VIII). Charles Beaudelaire
VI
Ó que infantil curiosidade!
Quereis saber o essencial?
Por toda a parte saltava à vista,
De alto abaixo da escala fatal,
O espectáculo repetitivo do imortal pecado.
A mulher, escrava vil orgulhosa e estúpida
Narcísica e amando-se sem escrúpulos;
O homem, tirano glutão devasso duro e cúpido
Escravo do escravo abaixo de cão
O carrasco que pune com prazer, o mártir que emudece;
A festa perfumada com temperos de sangue;
O veneno do poder reforçando o déspota,
E o povo que adora o látego que o embrutece;
Várias religiões que como a nossa pretendem escalar o céu -
A santidade? Como se dum leito de plumas se tratasse um delicado
Se espoja em pregos e crinas em busca de volúpia
A humanidade tagarela, ébria do seu génio
E louca. agora como o foi outrora,
Amaldiçoava deus numa imensa gritaria
Considerando-o seu mestre e semelhante
Porque ambos mergulhados em idêntica agonia.
Os mesmos parvos, amantes ousados da demência,
Fugindo do grande rebanho agregado pelo destino,
Refugiam-se nos imensos poderes do ópio!
VII
Estas a notícias de sempre do nosso globo,
O saber amargo que nos deixa a viagem!
O mundo monótono e pequeno
Dar-nos-á sempre a mesma imagem, a nossa -
Um oásis de horror num deserto de tédio.
Partir ou ficar? Se possível, ficar. Caso contrário, largar amarras,
Movimento de mobilidade são estratégias para iludir o tempo,
Funesto inimigo vigilante e nosso. E, depois, existem os compulsivos,
Como o Judeu errante e os apóstolos
Qualquer meio de transporte lhe serve
Para escapar à rede infam das relações impostas.
Outros há também que sabem matá-lo sem sair do berço.
Quando o tempo nos pisa a espinha,
Podemos sempre gritar: para a frente, caminha.
Noutros tempos ia-se para a China,
Os olhos fixos no horizonte e os cabelos ao vento.
Agora embarcamos para o mar das trevas,
Com o coração ligeiro de passageiros jovens.
Ouçam lá essas vozes encantadoras e fúnebres
Qu cantam: "Vinde por aqui, se quereis provar
O Lótus perfumado! É aqui que colhemos
Os frutos milagrosos de que o vosso coração tem fome;
Vinde. Inebriai-vos com a doçura estranha
Desta tarde que não será evanescente!"
Sabemos que espectro nos chama.
Sua voz é-nos familiar. São as Pílades.
Tendem os braços para nos abraçar.
Aquela a quem outrora beijávamos os joelhos
Diz-nos que nademos até Electra e refresquemos o coração.
VIII
Chegou a hora, levantemos âncora, esta terra nos entedia,
Ó morte, experiente mestra. Aparelhemos!
Sob o céu e a terra carregados de negro,
Nossos corações que já conheces irradiam.
Bebamos o teu veneno! Que ele nos reconforte!
Essa fogo inflama-nos tanto o cérebro
Que queremos mergulhar no fundo do desconhecido
- Céu ou inferno, pouco importa -
Para encontrarmos o novo e o seu repto.
Charles Baudelaire, As Flores do Mal. Tradução de Maria Gabriela Llansol. Lisboa, Relógio d'Água, 2003 [ed. original 1857], p. 295-299.
Ó que infantil curiosidade!
Quereis saber o essencial?
Por toda a parte saltava à vista,
De alto abaixo da escala fatal,
O espectáculo repetitivo do imortal pecado.
A mulher, escrava vil orgulhosa e estúpida
Narcísica e amando-se sem escrúpulos;
O homem, tirano glutão devasso duro e cúpido
Escravo do escravo abaixo de cão
O carrasco que pune com prazer, o mártir que emudece;
A festa perfumada com temperos de sangue;
O veneno do poder reforçando o déspota,
E o povo que adora o látego que o embrutece;
Várias religiões que como a nossa pretendem escalar o céu -
A santidade? Como se dum leito de plumas se tratasse um delicado
Se espoja em pregos e crinas em busca de volúpia
A humanidade tagarela, ébria do seu génio
E louca. agora como o foi outrora,
Amaldiçoava deus numa imensa gritaria
Considerando-o seu mestre e semelhante
Porque ambos mergulhados em idêntica agonia.
Os mesmos parvos, amantes ousados da demência,
Fugindo do grande rebanho agregado pelo destino,
Refugiam-se nos imensos poderes do ópio!
VII
Estas a notícias de sempre do nosso globo,
O saber amargo que nos deixa a viagem!
O mundo monótono e pequeno
Dar-nos-á sempre a mesma imagem, a nossa -
Um oásis de horror num deserto de tédio.
Partir ou ficar? Se possível, ficar. Caso contrário, largar amarras,
Movimento de mobilidade são estratégias para iludir o tempo,
Funesto inimigo vigilante e nosso. E, depois, existem os compulsivos,
Como o Judeu errante e os apóstolos
Qualquer meio de transporte lhe serve
Para escapar à rede infam das relações impostas.
Outros há também que sabem matá-lo sem sair do berço.
Quando o tempo nos pisa a espinha,
Podemos sempre gritar: para a frente, caminha.
Noutros tempos ia-se para a China,
Os olhos fixos no horizonte e os cabelos ao vento.
Agora embarcamos para o mar das trevas,
Com o coração ligeiro de passageiros jovens.
Ouçam lá essas vozes encantadoras e fúnebres
Qu cantam: "Vinde por aqui, se quereis provar
O Lótus perfumado! É aqui que colhemos
Os frutos milagrosos de que o vosso coração tem fome;
Vinde. Inebriai-vos com a doçura estranha
Desta tarde que não será evanescente!"
Sabemos que espectro nos chama.
Sua voz é-nos familiar. São as Pílades.
Tendem os braços para nos abraçar.
Aquela a quem outrora beijávamos os joelhos
Diz-nos que nademos até Electra e refresquemos o coração.
VIII
Chegou a hora, levantemos âncora, esta terra nos entedia,
Ó morte, experiente mestra. Aparelhemos!
Sob o céu e a terra carregados de negro,
Nossos corações que já conheces irradiam.
Bebamos o teu veneno! Que ele nos reconforte!
Essa fogo inflama-nos tanto o cérebro
Que queremos mergulhar no fundo do desconhecido
- Céu ou inferno, pouco importa -
Para encontrarmos o novo e o seu repto.
Charles Baudelaire, As Flores do Mal. Tradução de Maria Gabriela Llansol. Lisboa, Relógio d'Água, 2003 [ed. original 1857], p. 295-299.
quarta-feira, 4 de junho de 2014
A viagem (I-V). Charles Beaudelaire
I
O miúdo que coleccionava mapas e cromos
Imagina que o seu gosto que cresce expande o universo;
Tão grande é o mundo à luz da vela, como provinciano
Se revela quando a memória o desdobra!
Um dia, nos vamos, o cérebro, em revoltas chamas,
O coração pleno de rancor de amargura e de desejo
E não paramos embalados pelo ritmo das vagas,
O nosso infinito ondulando com o mar finito.
Uns, felizes por escapar a uma pátria infame,
Outros, ao horror que o gregário lhe deixou,
Outros são os astrólogos afogados nos olhos de uma mulher
Uma Circe qualquer cheirando a perigo e a tirana.
Não querem voltar a bichos, razão por que a luz
O espaço e os céus inflamados os inebriam;
O frio que endurece e o sol que bronzeia
Apagam lentamente o rasto outrora dos afectos.
Para os verdadeiros viajantes, no entanto a viagem não tem porquê.
Corações leves, a balões semelhantes,
Nunca se afastam da rota que o destino traça -
"Vamos", apenas dizem. E vão.
Seus desejos são nuvens em mudança permanente,
Sonham inexperientes com volúpias dotadas de imprevisível -
Formas contínuas variáveis e desconhecidas
Cuja escrita o espírito humano nunca decifrou.
II
Não pode o berlinde abafar o pião, eis
Porque o imita - rodopio gira e dança.
Assim, o sonho e a realidade que o espicaça
Como um anjo cruel exigindo às estrelas que não brilhem.
Invulgar figura a de um cursor sem guia
Que, inexistente, é indiferente onde se fixa.
Esse cursor é o homem confiante no ponto ideal,
Na busca de repouso desliza como um louco.
Senão, vejamos.
A alma é um três mastros rumo à Ilha dos Amores;
Da ponte o mestre grita "olho vivo, marinheiro",
Da gávea uma voz lhe responde entusiasta
"Amores à vista, mestre". Engano. É mais um escolho.
Para o homem da vigia, cada ilha no horizonte
É a tal ilha assinalada no mapa do destino;
Sua imaginação alimenta-se dessa iguaria e,
Ao raiar do dia, apenas depara com recifes pela frente.
Pobre homem da vigia, vítima alucinada!
Não seria melhor pô-lo a ferros? Deitar ao mar
Esse marinheiro fantasista, inventor de américas,
Cujas miragens tornam o abismo, se possível, mais amargo?
Quantos vagabundos, de pés na lama,
Não sonham, de nariz no ar, com paraísos brilhantes!
Nas missangas que sua lanterna esclarece
Apenas vêem diamantes com seu olhar enfeitiçado.
III
Viajantes fantásticos,
Nos vossos olhares inscritos
Trazeis narrativas nobres e mares profundos.
Abri-nos o escrínio de vossas ricas memórias,
Essas jóias maravilhosas feitas de astros e éteres.
Farei desfilar por nossos espíritos como telas
Essas jóias na sua verdadeira panorâmica.
Viajaremos imóveis. Não precisamos de velas o de vapor
Para aliviar o tédio que nos aprisiona.
Digam? Que nos trazeis?
IV
Vimos areais vagas e astros
E, apesar dos perigos e dos imprevisíveis desastres,
Muitas vezes fomos acometidos de tédio, tal como aqui.
A glória do sol sobre o mar violeta,
O esplendor das cidades ao pôr-do-sol
Incendiavam nos nossos corações um ardor inquieto
De mergulhar num céu de reflexos apelativos.
Mas atenção, as mais ricas cidades, as mais vastas paisagens
Nunca exerceram sobre nós a misteriosa atracção
Que sempre exerce a mutabilidade das nuvens.
E havia o desejo. Deixava-nos inquietos
Se bem que a experiência do saber o reforce.
Ó desejo, ó frondosa árvore, mais vivaz do que o cipreste,
Crescerás sempre? Velha árvore nutrida pelo prazer,
Enquanto tua casca endurece e cresce,
Teus ramos querem ver o sol mais próximo!
Regressamos à viagem. Tivemos o cuidado
De trazer alguns esboços para o nosso álbum voraz;
Quanto mais exótica a imagem mais prestigiosa, não é verdade?
Reparai nestes ídolos com trombas de elefantes - saudámo-los.
Vede estes troncos constelados de jóias luminosas;
Estes palácios eram tão ricos de feérica pompa
Que para os nossos banqueiros seriam um sonho ruinoso.
E estes vestidos? Não são para os olhos uma autêntica maravilha?
Olhai para os dentes e os dedos destas mulheres cobertas de tinta!
Este encantador era tão perito que as suas próprias serpentes lhe faziam carícias.
V
E que mais ainda?
Charles Baudelaire, As Flores do Mal. Tradução de Maria Gabriela Llansol. Lisboa, Relógio d'Água, 2003 [ed. original 1857], p. 289-295.
O miúdo que coleccionava mapas e cromos
Imagina que o seu gosto que cresce expande o universo;
Tão grande é o mundo à luz da vela, como provinciano
Se revela quando a memória o desdobra!
Um dia, nos vamos, o cérebro, em revoltas chamas,
O coração pleno de rancor de amargura e de desejo
E não paramos embalados pelo ritmo das vagas,
O nosso infinito ondulando com o mar finito.
Uns, felizes por escapar a uma pátria infame,
Outros, ao horror que o gregário lhe deixou,
Outros são os astrólogos afogados nos olhos de uma mulher
Uma Circe qualquer cheirando a perigo e a tirana.
Não querem voltar a bichos, razão por que a luz
O espaço e os céus inflamados os inebriam;
O frio que endurece e o sol que bronzeia
Apagam lentamente o rasto outrora dos afectos.
Para os verdadeiros viajantes, no entanto a viagem não tem porquê.
Corações leves, a balões semelhantes,
Nunca se afastam da rota que o destino traça -
"Vamos", apenas dizem. E vão.
Seus desejos são nuvens em mudança permanente,
Sonham inexperientes com volúpias dotadas de imprevisível -
Formas contínuas variáveis e desconhecidas
Cuja escrita o espírito humano nunca decifrou.
II
Não pode o berlinde abafar o pião, eis
Porque o imita - rodopio gira e dança.
Assim, o sonho e a realidade que o espicaça
Como um anjo cruel exigindo às estrelas que não brilhem.
Invulgar figura a de um cursor sem guia
Que, inexistente, é indiferente onde se fixa.
Esse cursor é o homem confiante no ponto ideal,
Na busca de repouso desliza como um louco.
Senão, vejamos.
A alma é um três mastros rumo à Ilha dos Amores;
Da ponte o mestre grita "olho vivo, marinheiro",
Da gávea uma voz lhe responde entusiasta
"Amores à vista, mestre". Engano. É mais um escolho.
Para o homem da vigia, cada ilha no horizonte
É a tal ilha assinalada no mapa do destino;
Sua imaginação alimenta-se dessa iguaria e,
Ao raiar do dia, apenas depara com recifes pela frente.
Pobre homem da vigia, vítima alucinada!
Não seria melhor pô-lo a ferros? Deitar ao mar
Esse marinheiro fantasista, inventor de américas,
Cujas miragens tornam o abismo, se possível, mais amargo?
Quantos vagabundos, de pés na lama,
Não sonham, de nariz no ar, com paraísos brilhantes!
Nas missangas que sua lanterna esclarece
Apenas vêem diamantes com seu olhar enfeitiçado.
III
Viajantes fantásticos,
Nos vossos olhares inscritos
Trazeis narrativas nobres e mares profundos.
Abri-nos o escrínio de vossas ricas memórias,
Essas jóias maravilhosas feitas de astros e éteres.
Farei desfilar por nossos espíritos como telas
Essas jóias na sua verdadeira panorâmica.
Viajaremos imóveis. Não precisamos de velas o de vapor
Para aliviar o tédio que nos aprisiona.
Digam? Que nos trazeis?
IV
Vimos areais vagas e astros
E, apesar dos perigos e dos imprevisíveis desastres,
Muitas vezes fomos acometidos de tédio, tal como aqui.
A glória do sol sobre o mar violeta,
O esplendor das cidades ao pôr-do-sol
Incendiavam nos nossos corações um ardor inquieto
De mergulhar num céu de reflexos apelativos.
Mas atenção, as mais ricas cidades, as mais vastas paisagens
Nunca exerceram sobre nós a misteriosa atracção
Que sempre exerce a mutabilidade das nuvens.
E havia o desejo. Deixava-nos inquietos
Se bem que a experiência do saber o reforce.
Ó desejo, ó frondosa árvore, mais vivaz do que o cipreste,
Crescerás sempre? Velha árvore nutrida pelo prazer,
Enquanto tua casca endurece e cresce,
Teus ramos querem ver o sol mais próximo!
Regressamos à viagem. Tivemos o cuidado
De trazer alguns esboços para o nosso álbum voraz;
Quanto mais exótica a imagem mais prestigiosa, não é verdade?
Reparai nestes ídolos com trombas de elefantes - saudámo-los.
Vede estes troncos constelados de jóias luminosas;
Estes palácios eram tão ricos de feérica pompa
Que para os nossos banqueiros seriam um sonho ruinoso.
E estes vestidos? Não são para os olhos uma autêntica maravilha?
Olhai para os dentes e os dedos destas mulheres cobertas de tinta!
Este encantador era tão perito que as suas próprias serpentes lhe faziam carícias.
V
E que mais ainda?
Charles Baudelaire, As Flores do Mal. Tradução de Maria Gabriela Llansol. Lisboa, Relógio d'Água, 2003 [ed. original 1857], p. 289-295.
terça-feira, 3 de junho de 2014
segunda-feira, 2 de junho de 2014
Viajar com Simone de Beuavoir (2). Éric Levéel
Mais do que uma advogada feminista [a obra mais famosa de Simone de Beauvoir, Le Deuxième Sexe, foi publicada em 1949], oferecia às suas congéneres uma porta de saída como aquela que ela própria tinha procurado em 1929, quando concluiu a sua agregação em Filosofia na Sorbonne e conheceu Jean-Paul Sartre. Uma vida se desenhava então, criada peça a peça pelas experiências, os encontros e as viagens de formação, de descoberta, e, mais tarde, políticas. Mademoiselle de Beauvoir iria certamente ver degradada a sua imagem junto do seu meio de origem, vista aí como uma hetaïre sem dote e sem relações sociais. Mas antes de mais e acima de tudo, ela transformar-se-ia numa mulher de verdade, numa pensadora de grande qualidade, fazendo da sua vida esse maravilhoso objecto que construímos do nosso modo ao longo dos anos e segundo dados objectivos deste mundo em vez dos dados enganadores ou falsos dos da sua envolvência de nascimento.
Le Deuxième Sexe esconde muitas coisa; é sempre a referencia e a obra imediatamente citada quando o nome de Simone de Beauvoir é mencionado. Mas é um erro grave limitar a experiência de uma vida a uma obra, por mais brilhante que seja. Nem é no vazio nem por acaso que alguém se torna a mãe do feminismo; é preciso observar-se, na sua própria existência criada, para a comparar à da maioria das mulheres. Mais do que dissertar longamente sobre as teses avançadas por Simone de Beauvoir a propósito da condição feminina em França e noutros países, precisamos de nos interrogar sobre como é que ela chegou àquelas conclusões tão pertinentes e e sempre tão tristemente actuais. Uma obra abriga o seu autor, é uma extensão do seu ser, um espelho da sua experiência pessoal.
Se se considerar, como Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, que a existência precede a essência e que, por consequência, ela é construída e não concebida segundo os caprichos de um Deus omnipresente, podemos então considerar que a viagem constitui um dado primordial da experiência existencial e humana de Simone de Beauvoir, no que isso implica de superação de uma situação e de projecção do outro. O homem e a mulher não são seres fixos mas seres em andamento; estar em situação é tentar chegar à autenticidade e é também tentar sair de si próprio para melhor se compreender. Viajar é em primeiro lugar apropriar-se do mundo.
Éric Levéel, "Introduction". Simone de Beauvoir. Tout Connaître du Monde. Colecção Voyager Avec... Paris, La Quinzaine Littéraire, 2008, p. 10-11.
Le Deuxième Sexe esconde muitas coisa; é sempre a referencia e a obra imediatamente citada quando o nome de Simone de Beauvoir é mencionado. Mas é um erro grave limitar a experiência de uma vida a uma obra, por mais brilhante que seja. Nem é no vazio nem por acaso que alguém se torna a mãe do feminismo; é preciso observar-se, na sua própria existência criada, para a comparar à da maioria das mulheres. Mais do que dissertar longamente sobre as teses avançadas por Simone de Beauvoir a propósito da condição feminina em França e noutros países, precisamos de nos interrogar sobre como é que ela chegou àquelas conclusões tão pertinentes e e sempre tão tristemente actuais. Uma obra abriga o seu autor, é uma extensão do seu ser, um espelho da sua experiência pessoal.
Se se considerar, como Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, que a existência precede a essência e que, por consequência, ela é construída e não concebida segundo os caprichos de um Deus omnipresente, podemos então considerar que a viagem constitui um dado primordial da experiência existencial e humana de Simone de Beauvoir, no que isso implica de superação de uma situação e de projecção do outro. O homem e a mulher não são seres fixos mas seres em andamento; estar em situação é tentar chegar à autenticidade e é também tentar sair de si próprio para melhor se compreender. Viajar é em primeiro lugar apropriar-se do mundo.
Éric Levéel, "Introduction". Simone de Beauvoir. Tout Connaître du Monde. Colecção Voyager Avec... Paris, La Quinzaine Littéraire, 2008, p. 10-11.
domingo, 1 de junho de 2014
Viajar com Simone de Beauvoir (1). Éric Levéel
Há cem anos [106, tomando como referencia 2014], a 9 de Janeiro de 1908, Simone de Beauvoir nascia numa vivenda do Boulevard Raspail, a artéria ainda meio camponesa de Paris em crescimento da Belle Époque. Puro produto da burguesia e da pequena nobreza, ninguém poderia prever o percurso espantoso desta jovem católica bem comportada. Ela teria sido o que o seu meio dela esperava - se não tivesse acontecido que a Grande Guerra alterou o jogo e precipitou financeiramente Georges de Beauvoir na classe média, isto é, na plebe, para este dandy aristocrata. A bela vivenda rematada por frontão triangular acima do Dôme foi substituída por um apartamento decente mas mais exíguo na rua de Rennes. Esta mudança representou um recuo social que transformaria, numa dezena de anos, Mademoiselle Bertrand de Beauvoir em Castor, trabalhador e viajante.
Antes da viagem geográfica, houve a viagem interior, o que determinou esta existência singular. A viagem não tende necessariamente para os países exóticos, pode antes do mais desenrolar-se em si própria, no seio da sua própria cidade. Antes de descobrir o mundo, Simone de Beauvoir descobriu a sua cidade que na sua infância e adolescência se limitava à Rive Gauche e ao XVIème arrondissement. Até nos seus primeiros tempos de estudante, fazia um caminho estritamente traçado pela sua mãe. O seu primo Jacques, o grande amor infeliz da sua adolescência, fê-la descobrir lugares desconhecidos na sua própria vizinhança; a experiência de equipas sociais permitiu-lhe aventurar-se no Este parisiense operário e popular de que a sua classe conservadora e reaccionária a teria querido proteger. A viagem beauvoiriana é polimorfa e inscreve-se numa opção de vida que faz apelo a um verdadeiro sistema filosófico fundado ma emancipação, na liberdade, na autenticidade. Faz igualmente apelo a uma curiosidade intelectual e a uma vontade de saber e de conhecer que são as bases primeiras da filosofia. Longe das teorias, a filosofia beuavoiriana é uma filosofia da experiência, das sensações e da descoberta de outro, seja onde for que ele se encontre.
Éric Levéel, "Introduction". Simone de Beauvoir. Tout Connaître du Monde. Colecção Voyager Avec... Paris, La Quinzaine Littéraire, 2008, p. 9
Antes da viagem geográfica, houve a viagem interior, o que determinou esta existência singular. A viagem não tende necessariamente para os países exóticos, pode antes do mais desenrolar-se em si própria, no seio da sua própria cidade. Antes de descobrir o mundo, Simone de Beauvoir descobriu a sua cidade que na sua infância e adolescência se limitava à Rive Gauche e ao XVIème arrondissement. Até nos seus primeiros tempos de estudante, fazia um caminho estritamente traçado pela sua mãe. O seu primo Jacques, o grande amor infeliz da sua adolescência, fê-la descobrir lugares desconhecidos na sua própria vizinhança; a experiência de equipas sociais permitiu-lhe aventurar-se no Este parisiense operário e popular de que a sua classe conservadora e reaccionária a teria querido proteger. A viagem beauvoiriana é polimorfa e inscreve-se numa opção de vida que faz apelo a um verdadeiro sistema filosófico fundado ma emancipação, na liberdade, na autenticidade. Faz igualmente apelo a uma curiosidade intelectual e a uma vontade de saber e de conhecer que são as bases primeiras da filosofia. Longe das teorias, a filosofia beuavoiriana é uma filosofia da experiência, das sensações e da descoberta de outro, seja onde for que ele se encontre.
Éric Levéel, "Introduction". Simone de Beauvoir. Tout Connaître du Monde. Colecção Voyager Avec... Paris, La Quinzaine Littéraire, 2008, p. 9
Subscrever:
Mensagens (Atom)



++by+Alexandre+Alexeiff.jpg)