terça-feira, 3 de junho de 2014

Voyage to the Island of Articoles. Alexandre Alexeiff

Alexandre Alexeiff, Illustrations for André Maurois's 
A Voyage to the Island of Articoles, 1927


segunda-feira, 2 de junho de 2014

Viajar com Simone de Beuavoir (2). Éric Levéel

Mais do que uma advogada feminista [a obra mais famosa de Simone de Beauvoir, Le Deuxième Sexe, foi publicada em 1949], oferecia às suas congéneres uma porta de saída como aquela que ela própria tinha procurado em 1929, quando concluiu a sua agregação em Filosofia na Sorbonne e conheceu Jean-Paul Sartre. Uma vida se desenhava então, criada peça a peça pelas experiências, os encontros e as viagens de formação, de descoberta, e, mais tarde, políticas. Mademoiselle de Beauvoir iria certamente ver degradada a sua imagem junto do seu meio de origem, vista aí como uma hetaïre sem dote e sem relações sociais. Mas antes de mais e acima de tudo, ela transformar-se-ia numa mulher de verdade, numa pensadora de grande qualidade, fazendo da sua vida esse maravilhoso objecto que construímos do nosso modo ao longo dos anos e segundo dados objectivos deste mundo em vez dos dados enganadores ou falsos dos da sua envolvência de nascimento.
Le Deuxième Sexe esconde muitas coisa; é sempre a referencia e a obra imediatamente citada quando o nome de Simone de Beauvoir é mencionado. Mas é um erro grave limitar a experiência de uma vida a uma obra, por mais brilhante que seja. Nem é no vazio nem por acaso que alguém se torna a mãe do feminismo; é preciso observar-se, na sua própria existência criada, para a comparar à da maioria das mulheres. Mais do que dissertar longamente sobre as teses avançadas por Simone de Beauvoir a propósito da condição feminina em França e noutros países, precisamos de nos interrogar sobre como é que ela chegou àquelas conclusões tão pertinentes e e sempre tão tristemente actuais. Uma obra abriga o seu autor, é uma extensão do seu ser, um espelho da sua experiência pessoal.
Se se considerar, como Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, que a existência precede a essência e que, por consequência, ela é construída e não concebida segundo os caprichos de um Deus omnipresente, podemos então considerar que a viagem constitui um dado primordial da experiência existencial e humana de Simone de Beauvoir, no que isso implica de superação de uma situação e de projecção do outro. O homem e a mulher não são seres fixos mas seres em andamento; estar em situação é tentar chegar à autenticidade e é também tentar sair de si próprio para melhor se compreender. Viajar é em primeiro lugar apropriar-se do mundo.

Éric Levéel, "Introduction". Simone de Beauvoir. Tout Connaître du Monde. Colecção Voyager Avec... Paris, La Quinzaine Littéraire, 2008, p. 10-11.

domingo, 1 de junho de 2014

Viajar com Simone de Beauvoir (1). Éric Levéel

Há cem anos [106, tomando como referencia 2014], a 9 de Janeiro de 1908, Simone de Beauvoir nascia numa vivenda do Boulevard Raspail, a artéria ainda meio camponesa de Paris em crescimento da Belle Époque. Puro produto da burguesia e da pequena nobreza, ninguém poderia prever o percurso espantoso desta jovem católica bem comportada. Ela teria sido o que o seu meio dela esperava - se não tivesse acontecido que a Grande Guerra alterou o jogo e precipitou financeiramente Georges de Beauvoir na classe média, isto é, na plebe, para este dandy aristocrata. A bela vivenda rematada por frontão triangular acima do Dôme foi substituída por um apartamento decente mas mais exíguo na rua de Rennes. Esta mudança representou um recuo social que transformaria, numa dezena de anos, Mademoiselle Bertrand de Beauvoir em Castor, trabalhador e viajante.
Antes da viagem geográfica, houve a viagem interior, o que determinou esta existência singular. A viagem não tende necessariamente para os países exóticos, pode antes do mais desenrolar-se em si própria, no seio da sua própria cidade. Antes de descobrir o mundo, Simone de Beauvoir descobriu a sua cidade que na sua infância e adolescência se limitava à Rive Gauche e ao XVIème arrondissement. Até nos seus primeiros tempos de estudante, fazia um caminho estritamente traçado pela sua mãe. O seu primo Jacques, o grande amor infeliz da sua adolescência, fê-la descobrir lugares desconhecidos na sua própria vizinhança; a  experiência de equipas sociais permitiu-lhe aventurar-se no Este parisiense operário e popular de que a sua classe conservadora e reaccionária a teria querido proteger. A viagem beauvoiriana é polimorfa e inscreve-se numa opção de vida que faz apelo a um verdadeiro sistema filosófico fundado ma emancipação, na liberdade, na autenticidade. Faz igualmente apelo a uma curiosidade intelectual e a uma vontade de saber e de conhecer que são as bases primeiras da filosofia. Longe das teorias, a filosofia beuavoiriana é uma filosofia da experiência, das sensações e da descoberta de outro, seja onde for que ele se encontre.

Éric Levéel, "Introduction". Simone de Beauvoir. Tout Connaître du Monde. Colecção Voyager Avec... Paris, La Quinzaine Littéraire, 2008, p. 9

sábado, 31 de maio de 2014

O embarque de Santa Úrsula. Claude Lorrain

Claude Lorrain, Seaport with the Embarkation of Saint Ursula
1641



sexta-feira, 30 de maio de 2014

Há um sentido latente, difundido pela paisagem ou pela cidade. Maurice Merleau-Ponty

Quando lá cheguei pela primeira vez [a Paris], as primeiras ruas com que me deparei, a saída da estação, quais primeiras palavras de um desconhecido! não eram senão manifestações de uma essência ainda pouco clara mas já incomparável. Nós não percebemos praticamente nenhum objecto, do mesmo modo que não vemos os olhos de uma cara em particular, mas o seu olhar e a sua expressão. Há um sentido latente, difundido pela paisagem ou pela cidade, que surge para nós uma como evidência específica sem que tenhamos necessidade de a definir. Só emergem como actos expressos as percepções ambíguas, isto é, aquelas a que nós próprios damos um sentido pela atitude que tomamos ou que respondem a questões postas por nós.

Maurice Merleau-Ponty, Phénoménologie de la Perception. Paris, Éditions Gallimard, 1987, p. 325.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Goodby. James Tissot

James Tissot, Goodbye, on the Mersey
 Ca.1881



quarta-feira, 28 de maio de 2014

The Old Roadside Inn. Edward Charles Williams and William Shayer

Edward Charles Williams (1807-1881) and William Shayer (1787-1879)
The Old Roadside Inn, S/d


terça-feira, 27 de maio de 2014

Vindos dos mais variados locais para beberem vinho do Porto. Dulce Magalhães

A cafetaria Soraya
Este estabelecimento, designado oficialmente como "café", situa-se no centro histórico de Vila Nova de Gaia, mais precisamente na zona ribeirinha.
O seu interior é de dimensões bastante reduzidas, cabendo aí apenas duas mesas de quatro lugares.
[...] À falta de clientes que se faz sentir aos dias de semana junta-se também o facto de serem quase sempre os mesmos a frequentarem este espaço, com a excepção de raras situações.
Pelo contrário, aos fins de semana e feriados o estabelecimento é bastante mais concorrido, nomeadamente ao domingo, incidindo nestes dias da semana o maior dinamismo da clientela. De registar que aos domingos, durante o período da manhã e especialmente antes do almoço, a afluência das pessoas é enorme. Trata-se, na sua maioria, de clientes semanais que provêm dos mais variados locais do norte do país, para beberem o vinho do Porto que aqui é servido - note-se que, em média, a sua maioria ingere uma garrafa de vinho do Porto que partilham uns com os outros. Esta realidade acutilante repercute-se nos lucros da casa, uma vez que é voz corrente que ao domingo de manhã de ganha para o resto da semana.
O volume de clientes é de tal ordem elevado, ao domingo de manhã - não só na Soraya mas em estabelecimentos idênticos e contíguos -, que se torna impossível contabilizá-los. Ainda assim, e tentando uma pequena aproximação, dir-se-ia que habitualmente estão presentes 40 a 50 indivíduos entre o minúsculo espaço interior, o passeio imediatamente a seguir e ainda uma certa expansão dos clientes pelo passeio oposto, posicionando-se em redor dos carros, de caixas de fruta vazias ou mesmo dos tubos de obras onde colocam os cálices de vinho do Porto - as "buchas" de pão e queijo também lá adquirido, uma carrinha que se posiciona enfrente dos estabelecimentos, os aperitivos, e não raro a própria garrafa de vinho do Porto.
[...] São visíveis relacionamentos muito animados, muito vivos e muito calorosos, entre os clientes do mesmo grupo. À mesma mesa sentam-se todos quantos lá cabem, com o seu cálice de vinho do Porto e frequentemente um pratinho de aperitivos ou queijo. Como as mesas são em número reduzido, encontram-se muitos grupinhos em pé, em volta, por exemplo, de um caixote a servir de mesa, ou de um banco emprestado por uma das lojas, onde rapidamente improvisam uma mesa. Também nestes casos a conversa é animada e solta e os relacionamentos parecem facilitados pela proximidade, senão social pelo menos física. Aliás a proximidade física facilita o outro tipo de proximidade, mas entendida como real e vivida entre iguais.

Dulce Magalhães, Vinhos: Arte e Manhas em Consumos Sociais. Apreensão de Uma Prática Sociocultural em Contexto de Mudanca. Porto, Edições Afrontamento, 2010, p. 127-132

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Viagem à Lua (1902). Georges Méliès



Le Voyage dans la Lune, A Trip to the Moon (France, 1902), the screen's first science fiction story, was a 14 minute masterpiece (nearly one reel in length (about 825 feet)), created by imaginative French director and master magician Georges Melies (1861-1938) in his version of the Jules Verne story. The silent film's plot, a light-hearted satire criticizing the conservative scientific community of its time, was inspired by Jules Verne's From the Earth to the Moon (1865) and H. G. Wells' First Men in the Moon (1901).

domingo, 25 de maio de 2014

Vejam, de passagem, a capital, mas ide mais longe observar o país. Jean-Jacques Rousseau

Todas as capitais se assemelham, nelas todos os povos se misturam e os costumes se confundem. Não é aí que é preciso ir para estudar as nações. Paris e Londres são a meu ver a mesma cidade. Os seus habitantes tem preconceitos diferentes, mas não menos uns que outros e os preceitos práticos que adoptam são os mesmos. Sabemos que há espécies de homens que se vão tornando parecidas ao longo da vida. Sabemos que ocorre por todo o lado a indiferenciação do povo e a desigualdade das fortunas. Se me referem uma cidade formada por duzentas mil almas, sei logo como nela se vive. O que sabemos à partida sobre esses lugares torna inútil ir lá para aprender.
É nas províncias recuadas onde há menos movimento, comércio, para onde os estrangeiros viajam menos, cujos habitantes se deslocam menos, mudam menos de fortuna ou de condição, que é preciso ir para estudar o gênio e os costumes de uma nação. Vejam, de passagem, a capital, mas ide mais longe observar o país. Os franceses não estão em Paris, estão em Touraine. Os ingleses são mais ingleses em Mercie que em Londres e os espanhóis mais espanhóis na Galiza que em Madrid. É a estas grandes distâncias que um povo se mostra tal qual e, sem mistura; é lá que os bons e os maus efeitos do governo mais se fazem sentir, como no fim de um grande raio a medida dos arcos é mais exacta.

Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), "Emile". Oeuvres complètes, vol. IV. Paris, Éditions Gallimard, 1980, p. 850.

sábado, 24 de maio de 2014

Dom Quixote. Honoré Daumier

Honoré Daumier (1808-1879). Litografia da série "Dom Quichotte"


sexta-feira, 23 de maio de 2014

Talvez estivesse mesmo perdendo sua época. Clarice Lispector

Perseu abrigara-se da chuva na sala da estação, pousando a mala no banco. Cortara no dia anterior os cabelos. No rosto mais nu as orelhas pareciam separadas da cabeça: as faces um pouco ossudas davam-lhe um ar de fraqueza obstinada e, apesar disso, de tranquilidade.
Seu aspecto se transformara bastante desde a época em que andava com Lucrécia. Estava muito mais magro, menos bonito. Agora havia nele u modo de ter doçura que não estava mais na doçura: com o impermeável solto no corpo parecia um estrangeiro que entrasse numa cidade.
Chovia muito. A chuva nos trilhos ainda desertos tinha um sentido reservado de que ele parecia fazer parte.
Como havia tempo, ligou o rádio que em breve estalava captando o temporal longínquo - percebia-se porém o fio de música através das crepitações da electricidade. Perseu ouvia de pé, sem sonhos e sem que o que se chamaria de entender. A frase musical, muito nobre, era-lhe visível como o rádio. Apreendia o esforço da música com o mesmo esforço agradável, e tirava prazer dessa vaga rivalidade. Quando lhe perguntavam se gostava de música, dizia sorrindo com graça que gostar gostava, mas não compreendia, dava quase no mesmo ouvir bater na porta e ouvir música.
O rádio crepitava. Perseu escutava com força pacífica, alisando o peso de papéis da mesinha. Se vivesse em sua época seria tentado a achar que a musica o fazia sofrer. Mas este rapaz insignificante não tivera verdadeiras influências nem deixava marcas. Talvez estivesse mesmo perdendo sua época e tanta liberdade o deixasse muito aquém do que poderia se fosse constrangido. Mas ele parecia sempre arranjar-se em silêncio. Se não entendia as notas obscuras, acompanhava-as com uma pequena parte enigmática sua que se comprazia na nitidez do mistério. Quando a música cessou, desligou o rádio. As gotas tombavam da calha e a bilha que o chefe da estação deixara fora enchia-se d'água.
Perseu ficou repousando de pé. Estava cansado e tranquilo. Perto da boca duas ligeiras descidas prenunciavam as rugas de homem. Como não era particularmente de sua época, que o fazia sofrer, nem possuía uma cultura de onde escolher sentimentos - estava de pé, acariciando o peso de vidro, com as duas rugas se formando: intacto, pensativo, um pouco fatigado. Sem ser pai, já não era filho. Achava-se em ponto luminoso e neutro. E esta realidade ele não transmitiria a ninguém. A nenhuma mulher sobretudo. Como jamais daria sua harmonia lua forma de seu corpo. Poderia apaziguar uma mulher. Mas a sua paz estranha, ele não comunicaria.
O sino da estação anunciava a partida. Perseu entrou no vagão, dispôs a mala sob o banco. Quanto o trem partiu, agitou-se feliz olhando para os lados.

Clarice Lispector, A Cidade Sitiada. Rio de Janeiro, Editora Rocco, 1998, p. 167-168.