Todas as capitais se assemelham, nelas todos os povos se misturam e os costumes se confundem. Não é aí que é preciso ir para estudar as nações. Paris e Londres são a meu ver a mesma cidade. Os seus habitantes tem preconceitos diferentes, mas não menos uns que outros e os preceitos práticos que adoptam são os mesmos. Sabemos que há espécies de homens que se vão tornando parecidas ao longo da vida. Sabemos que ocorre por todo o lado a indiferenciação do povo e a desigualdade das fortunas. Se me referem uma cidade formada por duzentas mil almas, sei logo como nela se vive. O que sabemos à partida sobre esses lugares torna inútil ir lá para aprender.
É nas províncias recuadas onde há menos movimento, comércio, para onde os estrangeiros viajam menos, cujos habitantes se deslocam menos, mudam menos de fortuna ou de condição, que é preciso ir para estudar o gênio e os costumes de uma nação. Vejam, de passagem, a capital, mas ide mais longe observar o país. Os franceses não estão em Paris, estão em Touraine. Os ingleses são mais ingleses em Mercie que em Londres e os espanhóis mais espanhóis na Galiza que em Madrid. É a estas grandes distâncias que um povo se mostra tal qual e, sem mistura; é lá que os bons e os maus efeitos do governo mais se fazem sentir, como no fim de um grande raio a medida dos arcos é mais exacta.
Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), "Emile".
Oeuvres complètes, vol. IV. Paris, Éditions Gallimard, 1980, p. 850.