Quando lá cheguei pela primeira vez [a Paris], as primeiras ruas com que me deparei, a saída da estação, quais primeiras palavras de um desconhecido! não eram senão manifestações de uma essência ainda pouco clara mas já incomparável. Nós não percebemos praticamente nenhum objecto, do mesmo modo que não vemos os olhos de uma cara em particular, mas o seu olhar e a sua expressão. Há um sentido latente, difundido pela paisagem ou pela cidade, que surge para nós uma como evidência específica sem que tenhamos necessidade de a definir. Só emergem como actos expressos as percepções ambíguas, isto é, aquelas a que nós próprios damos um sentido pela atitude que tomamos ou que respondem a questões postas por nós.
Maurice Merleau-Ponty, Phénoménologie de la Perception. Paris, Éditions Gallimard, 1987, p. 325.
sexta-feira, 30 de maio de 2014
quinta-feira, 29 de maio de 2014
quarta-feira, 28 de maio de 2014
terça-feira, 27 de maio de 2014
Vindos dos mais variados locais para beberem vinho do Porto. Dulce Magalhães
A cafetaria Soraya
Este estabelecimento, designado oficialmente como "café", situa-se no centro histórico de Vila Nova de Gaia, mais precisamente na zona ribeirinha.
O seu interior é de dimensões bastante reduzidas, cabendo aí apenas duas mesas de quatro lugares.
[...] À falta de clientes que se faz sentir aos dias de semana junta-se também o facto de serem quase sempre os mesmos a frequentarem este espaço, com a excepção de raras situações.
Pelo contrário, aos fins de semana e feriados o estabelecimento é bastante mais concorrido, nomeadamente ao domingo, incidindo nestes dias da semana o maior dinamismo da clientela. De registar que aos domingos, durante o período da manhã e especialmente antes do almoço, a afluência das pessoas é enorme. Trata-se, na sua maioria, de clientes semanais que provêm dos mais variados locais do norte do país, para beberem o vinho do Porto que aqui é servido - note-se que, em média, a sua maioria ingere uma garrafa de vinho do Porto que partilham uns com os outros. Esta realidade acutilante repercute-se nos lucros da casa, uma vez que é voz corrente que ao domingo de manhã de ganha para o resto da semana.
O volume de clientes é de tal ordem elevado, ao domingo de manhã - não só na Soraya mas em estabelecimentos idênticos e contíguos -, que se torna impossível contabilizá-los. Ainda assim, e tentando uma pequena aproximação, dir-se-ia que habitualmente estão presentes 40 a 50 indivíduos entre o minúsculo espaço interior, o passeio imediatamente a seguir e ainda uma certa expansão dos clientes pelo passeio oposto, posicionando-se em redor dos carros, de caixas de fruta vazias ou mesmo dos tubos de obras onde colocam os cálices de vinho do Porto - as "buchas" de pão e queijo também lá adquirido, uma carrinha que se posiciona enfrente dos estabelecimentos, os aperitivos, e não raro a própria garrafa de vinho do Porto.
[...] São visíveis relacionamentos muito animados, muito vivos e muito calorosos, entre os clientes do mesmo grupo. À mesma mesa sentam-se todos quantos lá cabem, com o seu cálice de vinho do Porto e frequentemente um pratinho de aperitivos ou queijo. Como as mesas são em número reduzido, encontram-se muitos grupinhos em pé, em volta, por exemplo, de um caixote a servir de mesa, ou de um banco emprestado por uma das lojas, onde rapidamente improvisam uma mesa. Também nestes casos a conversa é animada e solta e os relacionamentos parecem facilitados pela proximidade, senão social pelo menos física. Aliás a proximidade física facilita o outro tipo de proximidade, mas entendida como real e vivida entre iguais.
Dulce Magalhães, Vinhos: Arte e Manhas em Consumos Sociais. Apreensão de Uma Prática Sociocultural em Contexto de Mudanca. Porto, Edições Afrontamento, 2010, p. 127-132
Este estabelecimento, designado oficialmente como "café", situa-se no centro histórico de Vila Nova de Gaia, mais precisamente na zona ribeirinha.
O seu interior é de dimensões bastante reduzidas, cabendo aí apenas duas mesas de quatro lugares.
[...] À falta de clientes que se faz sentir aos dias de semana junta-se também o facto de serem quase sempre os mesmos a frequentarem este espaço, com a excepção de raras situações.
Pelo contrário, aos fins de semana e feriados o estabelecimento é bastante mais concorrido, nomeadamente ao domingo, incidindo nestes dias da semana o maior dinamismo da clientela. De registar que aos domingos, durante o período da manhã e especialmente antes do almoço, a afluência das pessoas é enorme. Trata-se, na sua maioria, de clientes semanais que provêm dos mais variados locais do norte do país, para beberem o vinho do Porto que aqui é servido - note-se que, em média, a sua maioria ingere uma garrafa de vinho do Porto que partilham uns com os outros. Esta realidade acutilante repercute-se nos lucros da casa, uma vez que é voz corrente que ao domingo de manhã de ganha para o resto da semana.
O volume de clientes é de tal ordem elevado, ao domingo de manhã - não só na Soraya mas em estabelecimentos idênticos e contíguos -, que se torna impossível contabilizá-los. Ainda assim, e tentando uma pequena aproximação, dir-se-ia que habitualmente estão presentes 40 a 50 indivíduos entre o minúsculo espaço interior, o passeio imediatamente a seguir e ainda uma certa expansão dos clientes pelo passeio oposto, posicionando-se em redor dos carros, de caixas de fruta vazias ou mesmo dos tubos de obras onde colocam os cálices de vinho do Porto - as "buchas" de pão e queijo também lá adquirido, uma carrinha que se posiciona enfrente dos estabelecimentos, os aperitivos, e não raro a própria garrafa de vinho do Porto.
[...] São visíveis relacionamentos muito animados, muito vivos e muito calorosos, entre os clientes do mesmo grupo. À mesma mesa sentam-se todos quantos lá cabem, com o seu cálice de vinho do Porto e frequentemente um pratinho de aperitivos ou queijo. Como as mesas são em número reduzido, encontram-se muitos grupinhos em pé, em volta, por exemplo, de um caixote a servir de mesa, ou de um banco emprestado por uma das lojas, onde rapidamente improvisam uma mesa. Também nestes casos a conversa é animada e solta e os relacionamentos parecem facilitados pela proximidade, senão social pelo menos física. Aliás a proximidade física facilita o outro tipo de proximidade, mas entendida como real e vivida entre iguais.
Dulce Magalhães, Vinhos: Arte e Manhas em Consumos Sociais. Apreensão de Uma Prática Sociocultural em Contexto de Mudanca. Porto, Edições Afrontamento, 2010, p. 127-132
segunda-feira, 26 de maio de 2014
Viagem à Lua (1902). Georges Méliès
Le Voyage dans la Lune, A Trip to the Moon (France, 1902), the screen's first science fiction story, was a 14 minute masterpiece (nearly one reel in length (about 825 feet)), created by imaginative French director and master magician Georges Melies (1861-1938) in his version of the Jules Verne story. The silent film's plot, a light-hearted satire criticizing the conservative scientific community of its time, was inspired by Jules Verne's From the Earth to the Moon (1865) and H. G. Wells' First Men in the Moon (1901).
domingo, 25 de maio de 2014
Vejam, de passagem, a capital, mas ide mais longe observar o país. Jean-Jacques Rousseau
Todas as capitais se assemelham, nelas todos os povos se misturam e os costumes se confundem. Não é aí que é preciso ir para estudar as nações. Paris e Londres são a meu ver a mesma cidade. Os seus habitantes tem preconceitos diferentes, mas não menos uns que outros e os preceitos práticos que adoptam são os mesmos. Sabemos que há espécies de homens que se vão tornando parecidas ao longo da vida. Sabemos que ocorre por todo o lado a indiferenciação do povo e a desigualdade das fortunas. Se me referem uma cidade formada por duzentas mil almas, sei logo como nela se vive. O que sabemos à partida sobre esses lugares torna inútil ir lá para aprender.
É nas províncias recuadas onde há menos movimento, comércio, para onde os estrangeiros viajam menos, cujos habitantes se deslocam menos, mudam menos de fortuna ou de condição, que é preciso ir para estudar o gênio e os costumes de uma nação. Vejam, de passagem, a capital, mas ide mais longe observar o país. Os franceses não estão em Paris, estão em Touraine. Os ingleses são mais ingleses em Mercie que em Londres e os espanhóis mais espanhóis na Galiza que em Madrid. É a estas grandes distâncias que um povo se mostra tal qual e, sem mistura; é lá que os bons e os maus efeitos do governo mais se fazem sentir, como no fim de um grande raio a medida dos arcos é mais exacta.
Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), "Emile". Oeuvres complètes, vol. IV. Paris, Éditions Gallimard, 1980, p. 850.
É nas províncias recuadas onde há menos movimento, comércio, para onde os estrangeiros viajam menos, cujos habitantes se deslocam menos, mudam menos de fortuna ou de condição, que é preciso ir para estudar o gênio e os costumes de uma nação. Vejam, de passagem, a capital, mas ide mais longe observar o país. Os franceses não estão em Paris, estão em Touraine. Os ingleses são mais ingleses em Mercie que em Londres e os espanhóis mais espanhóis na Galiza que em Madrid. É a estas grandes distâncias que um povo se mostra tal qual e, sem mistura; é lá que os bons e os maus efeitos do governo mais se fazem sentir, como no fim de um grande raio a medida dos arcos é mais exacta.
Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), "Emile". Oeuvres complètes, vol. IV. Paris, Éditions Gallimard, 1980, p. 850.
sábado, 24 de maio de 2014
sexta-feira, 23 de maio de 2014
Talvez estivesse mesmo perdendo sua época. Clarice Lispector
Perseu abrigara-se da chuva na sala da estação, pousando a mala no banco. Cortara no dia anterior os cabelos. No rosto mais nu as orelhas pareciam separadas da cabeça: as faces um pouco ossudas davam-lhe um ar de fraqueza obstinada e, apesar disso, de tranquilidade.
Seu aspecto se transformara bastante desde a época em que andava com Lucrécia. Estava muito mais magro, menos bonito. Agora havia nele u modo de ter doçura que não estava mais na doçura: com o impermeável solto no corpo parecia um estrangeiro que entrasse numa cidade.
Chovia muito. A chuva nos trilhos ainda desertos tinha um sentido reservado de que ele parecia fazer parte.
Como havia tempo, ligou o rádio que em breve estalava captando o temporal longínquo - percebia-se porém o fio de música através das crepitações da electricidade. Perseu ouvia de pé, sem sonhos e sem que o que se chamaria de entender. A frase musical, muito nobre, era-lhe visível como o rádio. Apreendia o esforço da música com o mesmo esforço agradável, e tirava prazer dessa vaga rivalidade. Quando lhe perguntavam se gostava de música, dizia sorrindo com graça que gostar gostava, mas não compreendia, dava quase no mesmo ouvir bater na porta e ouvir música.
O rádio crepitava. Perseu escutava com força pacífica, alisando o peso de papéis da mesinha. Se vivesse em sua época seria tentado a achar que a musica o fazia sofrer. Mas este rapaz insignificante não tivera verdadeiras influências nem deixava marcas. Talvez estivesse mesmo perdendo sua época e tanta liberdade o deixasse muito aquém do que poderia se fosse constrangido. Mas ele parecia sempre arranjar-se em silêncio. Se não entendia as notas obscuras, acompanhava-as com uma pequena parte enigmática sua que se comprazia na nitidez do mistério. Quando a música cessou, desligou o rádio. As gotas tombavam da calha e a bilha que o chefe da estação deixara fora enchia-se d'água.
Perseu ficou repousando de pé. Estava cansado e tranquilo. Perto da boca duas ligeiras descidas prenunciavam as rugas de homem. Como não era particularmente de sua época, que o fazia sofrer, nem possuía uma cultura de onde escolher sentimentos - estava de pé, acariciando o peso de vidro, com as duas rugas se formando: intacto, pensativo, um pouco fatigado. Sem ser pai, já não era filho. Achava-se em ponto luminoso e neutro. E esta realidade ele não transmitiria a ninguém. A nenhuma mulher sobretudo. Como jamais daria sua harmonia lua forma de seu corpo. Poderia apaziguar uma mulher. Mas a sua paz estranha, ele não comunicaria.
O sino da estação anunciava a partida. Perseu entrou no vagão, dispôs a mala sob o banco. Quanto o trem partiu, agitou-se feliz olhando para os lados.
Clarice Lispector, A Cidade Sitiada. Rio de Janeiro, Editora Rocco, 1998, p. 167-168.
Seu aspecto se transformara bastante desde a época em que andava com Lucrécia. Estava muito mais magro, menos bonito. Agora havia nele u modo de ter doçura que não estava mais na doçura: com o impermeável solto no corpo parecia um estrangeiro que entrasse numa cidade.
Chovia muito. A chuva nos trilhos ainda desertos tinha um sentido reservado de que ele parecia fazer parte.
Como havia tempo, ligou o rádio que em breve estalava captando o temporal longínquo - percebia-se porém o fio de música através das crepitações da electricidade. Perseu ouvia de pé, sem sonhos e sem que o que se chamaria de entender. A frase musical, muito nobre, era-lhe visível como o rádio. Apreendia o esforço da música com o mesmo esforço agradável, e tirava prazer dessa vaga rivalidade. Quando lhe perguntavam se gostava de música, dizia sorrindo com graça que gostar gostava, mas não compreendia, dava quase no mesmo ouvir bater na porta e ouvir música.
O rádio crepitava. Perseu escutava com força pacífica, alisando o peso de papéis da mesinha. Se vivesse em sua época seria tentado a achar que a musica o fazia sofrer. Mas este rapaz insignificante não tivera verdadeiras influências nem deixava marcas. Talvez estivesse mesmo perdendo sua época e tanta liberdade o deixasse muito aquém do que poderia se fosse constrangido. Mas ele parecia sempre arranjar-se em silêncio. Se não entendia as notas obscuras, acompanhava-as com uma pequena parte enigmática sua que se comprazia na nitidez do mistério. Quando a música cessou, desligou o rádio. As gotas tombavam da calha e a bilha que o chefe da estação deixara fora enchia-se d'água.
Perseu ficou repousando de pé. Estava cansado e tranquilo. Perto da boca duas ligeiras descidas prenunciavam as rugas de homem. Como não era particularmente de sua época, que o fazia sofrer, nem possuía uma cultura de onde escolher sentimentos - estava de pé, acariciando o peso de vidro, com as duas rugas se formando: intacto, pensativo, um pouco fatigado. Sem ser pai, já não era filho. Achava-se em ponto luminoso e neutro. E esta realidade ele não transmitiria a ninguém. A nenhuma mulher sobretudo. Como jamais daria sua harmonia lua forma de seu corpo. Poderia apaziguar uma mulher. Mas a sua paz estranha, ele não comunicaria.
O sino da estação anunciava a partida. Perseu entrou no vagão, dispôs a mala sob o banco. Quanto o trem partiu, agitou-se feliz olhando para os lados.
Clarice Lispector, A Cidade Sitiada. Rio de Janeiro, Editora Rocco, 1998, p. 167-168.
quinta-feira, 22 de maio de 2014
Usar a bússola. Mestre de Beaucicaut
Navigateurs utilisant la boussole. Miniature extraite d'un manuscrit (début du XVe siècle) du Livre des merveilles du monde, de Marco Polo.
Exemplar ilustrado pelos Mestre de Boucicaut e de Bedford.
quarta-feira, 21 de maio de 2014
Quando lhe perguntam a correr de onde é, ela diz Brasil; quando lhe perguntam com tempo, ela diz Portugal. Alexandra Lucas Coelho
Minnie e Yves em São Gabriel
Conhecemo-nos na igreja e despedimo-nos no teatro. O teatro pertence à igreja e eles não pertencem a ninguém. Ela nasceu na Madeira, ele nasceu no Canadá, moraram em Brasília, agora moram em São Gabriel da Cachoeira, Alto Rio Negro, Amazónia, não muito longe da fronteira entre Brasil, Colômbia e Venezuela.
Chamam-lhe Minnie. A Madeira dela não tinha túneis, era lá na Ponta de São Lourenço, hoje reserva natural. Os pais vieram fundar Brasília, adolescência entre pensadores e artistas, de Agostinho da Silva a Darcy Ribeiro. Depois, sex, drugs and rock’n roll, dois maridos, um filho de cada. E depois Yves.
Yves foi jesuíta mas não chegou a ser padre, e hoje tanto fala de budismo zen, como dos sufis do Afeganistão, como está em São Gabriel da Cachoeira por causa do bispo. Foi professor de sociologia na Universidade de Brasília.
Assim se conheceram. Namoraram oito anos em casas separadas, a seguir casaram e “deu muito certo”.
Quando os filhos (dois dela, um dele), ficaram grandes, Minnie e Yves procuraram um lugar para trabalhar com os índios. São Gabriel era o município mais indígena do Brasil e D. Edson, padre próximo da Teologia da Libertação, acabara de ser nomeado bispo. Vieram ter com ele.
A diocese tinha uma casa livre ao lado do teatrinho que D. Edson recuperara. Minnie e Yves alugaram-na. Por Yves, diz Minnie, tinham ficado a morar numa cabana, com uma muda de roupa. Mas ao ver a casa, Minnie não hesitou.
Mosaicos no chão, portadas azuis de madeira, paredes brancas enfeitadas com a cestaria em arumã dos índios baniwa, mais as telas que Minnie pinta.
É o que vemos ao chegar, na nossa última noite em São Gabriel. Na véspera, Yves viera ao nosso encontro na igreja, quando esperávamos entrevistados que não chegaram a aparecer. E chamara Minnie, por ela ser madeirense. Minnie veio com um sorriso que nunca acabou, ficámos logo convidados para almoçar no dia seguinte. Acabámos por transformar o almoço em jantar, e às sete lá estávamos, com D. Edson e o padre António por comensais. Grão-de-bico, beringela, quinoa, vinho chileno, chocolate e pudim de pão, com várias voltas de conversa.
Minnie folheia álbuns sobre os yanomami, mostra desenhos dos baré, com quem trabalhou.
— Eu achava que lhes ia ensinar algo e eles é que sabiam tudo.
Não só pinta como sabe do que pintam os índios no corpo, grafismos sofisticados, oblíquos, por vezes curvos, como aquela asa negra nas omoplatas de uma mulher.
Yves trata da política, sabe o que se passa de Brasília a São Gabriel, trabalha com os presos, indígenas que muitas vezes não tiveram qualquer defesa.
Vamos ao teatro, pelas ervas, depois de jantar. Minnie abre as portas, acende as luzes, iluminando plateia e palco, e daí passamos aos bastidores, que já em si são uma festa. Porque há cabeças de cobra e de jacaré pintadas de verde, com línguas vermelhas de fora. Há saias de palha, cocares de penas, colares de dentes. Há perucas com cristas punks e perucas aos caracóis cor de laranja. Minnie diverte-se com a ideia de experimentarmos tudo. Uma garota de 60 e picos, que ainda não perdeu o travo madeirense. Quando lhe perguntam a correr de onde é, ela diz Brasil. Quando lhe perguntam com tempo, ela diz Portugal.
— Mas não viveria em Portugal.
A casa de Brasília lá está, fora os 2000 livros que Yves já deu. Podiam viver em qualquer lugar, numa praia menos remota, menos quente, mais confortável. Se a muitos brasileiros do Rio, de São Paulo ou de Brasília, Manaus já parece uma espécie de castigo, que dizer de São Gabriel, 1200 quilómetros rio acima?
Nem os filhos os visitam. Tem mosquitos, sabe-se lá o quê.
Mas é por tudo isso que Minnie e Yves aqui moram. Porque aqui estão os que estão longe, aqueles que para muitos brancos não existem.
Alexandra Lucas Coelho, Vai, Brasil. Lisboa. Tinta da China, 2013, p. 156-157.
Conhecemo-nos na igreja e despedimo-nos no teatro. O teatro pertence à igreja e eles não pertencem a ninguém. Ela nasceu na Madeira, ele nasceu no Canadá, moraram em Brasília, agora moram em São Gabriel da Cachoeira, Alto Rio Negro, Amazónia, não muito longe da fronteira entre Brasil, Colômbia e Venezuela.
Chamam-lhe Minnie. A Madeira dela não tinha túneis, era lá na Ponta de São Lourenço, hoje reserva natural. Os pais vieram fundar Brasília, adolescência entre pensadores e artistas, de Agostinho da Silva a Darcy Ribeiro. Depois, sex, drugs and rock’n roll, dois maridos, um filho de cada. E depois Yves.
Yves foi jesuíta mas não chegou a ser padre, e hoje tanto fala de budismo zen, como dos sufis do Afeganistão, como está em São Gabriel da Cachoeira por causa do bispo. Foi professor de sociologia na Universidade de Brasília.
Assim se conheceram. Namoraram oito anos em casas separadas, a seguir casaram e “deu muito certo”.
Quando os filhos (dois dela, um dele), ficaram grandes, Minnie e Yves procuraram um lugar para trabalhar com os índios. São Gabriel era o município mais indígena do Brasil e D. Edson, padre próximo da Teologia da Libertação, acabara de ser nomeado bispo. Vieram ter com ele.
A diocese tinha uma casa livre ao lado do teatrinho que D. Edson recuperara. Minnie e Yves alugaram-na. Por Yves, diz Minnie, tinham ficado a morar numa cabana, com uma muda de roupa. Mas ao ver a casa, Minnie não hesitou.
Mosaicos no chão, portadas azuis de madeira, paredes brancas enfeitadas com a cestaria em arumã dos índios baniwa, mais as telas que Minnie pinta.
É o que vemos ao chegar, na nossa última noite em São Gabriel. Na véspera, Yves viera ao nosso encontro na igreja, quando esperávamos entrevistados que não chegaram a aparecer. E chamara Minnie, por ela ser madeirense. Minnie veio com um sorriso que nunca acabou, ficámos logo convidados para almoçar no dia seguinte. Acabámos por transformar o almoço em jantar, e às sete lá estávamos, com D. Edson e o padre António por comensais. Grão-de-bico, beringela, quinoa, vinho chileno, chocolate e pudim de pão, com várias voltas de conversa.
Minnie folheia álbuns sobre os yanomami, mostra desenhos dos baré, com quem trabalhou.
— Eu achava que lhes ia ensinar algo e eles é que sabiam tudo.
Não só pinta como sabe do que pintam os índios no corpo, grafismos sofisticados, oblíquos, por vezes curvos, como aquela asa negra nas omoplatas de uma mulher.
Yves trata da política, sabe o que se passa de Brasília a São Gabriel, trabalha com os presos, indígenas que muitas vezes não tiveram qualquer defesa.
Vamos ao teatro, pelas ervas, depois de jantar. Minnie abre as portas, acende as luzes, iluminando plateia e palco, e daí passamos aos bastidores, que já em si são uma festa. Porque há cabeças de cobra e de jacaré pintadas de verde, com línguas vermelhas de fora. Há saias de palha, cocares de penas, colares de dentes. Há perucas com cristas punks e perucas aos caracóis cor de laranja. Minnie diverte-se com a ideia de experimentarmos tudo. Uma garota de 60 e picos, que ainda não perdeu o travo madeirense. Quando lhe perguntam a correr de onde é, ela diz Brasil. Quando lhe perguntam com tempo, ela diz Portugal.
— Mas não viveria em Portugal.
A casa de Brasília lá está, fora os 2000 livros que Yves já deu. Podiam viver em qualquer lugar, numa praia menos remota, menos quente, mais confortável. Se a muitos brasileiros do Rio, de São Paulo ou de Brasília, Manaus já parece uma espécie de castigo, que dizer de São Gabriel, 1200 quilómetros rio acima?
Nem os filhos os visitam. Tem mosquitos, sabe-se lá o quê.
Mas é por tudo isso que Minnie e Yves aqui moram. Porque aqui estão os que estão longe, aqueles que para muitos brancos não existem.
Alexandra Lucas Coelho, Vai, Brasil. Lisboa. Tinta da China, 2013, p. 156-157.
terça-feira, 20 de maio de 2014
Fuga para o Egipto. Adam Elsheimer
Adam Elsheimer (1574-1620), The Flight into Egypt, ca. 1605
Adam Elsheimer, The Flight into Egypt, ca 1609.
Subscrever:
Mensagens (Atom)




