terça-feira, 20 de maio de 2014

Fuga para o Egipto. Adam Elsheimer

Adam Elsheimer (1574-1620), The Flight into Egypt, ca. 1605 

Adam Elsheimer, The Flight into Egypt, ca 1609.



segunda-feira, 19 de maio de 2014

Viagem a Cantão (2). Blasco Ibañez

- O senhor não vá, tornam a dizer-me. A população de Cantão está furiosa contra os brancos e, de um momento para o outro, pode haver uma carnificina. Depois virá a intervenção armada das potências e também os castigos e as indemnizações, mas o que tiver sido morto na revolta, morto continuará.
Vou, apesar de tudo, a Cantão, e a viagem foi curta, fatigante, quase inútil. Há um caminho de ferro que parte de Hong-Kong, mas há mais de um ano que não funciona. A linha é inglesa, e, como o Presidente da República de Cantão ficou, repetidas vezes, com o material circulante, os directores julgaram conveniente suspender o serviço. Viajamos pelo rio em vapores cómodos á moda americana, com várias cobertas, que são uma espécie de hotéis flutuantes.
Passamos por entre as numerosas ilhas do estuário, seguindo uns canais dourados pelo sol nascente, com margens de verde escuro. Já dentro do rio, atravessamos um estreito que os descobridores portugueses chamaram Boca de Tigre. À ida, navegando contra a corrente, gastámos umas seis horas; o regresso, como era natural, levou menos tempo.
Apesar dos europeus se terem estabelecido há já três séculos em Cantão, ainda vivem à parte, ocupando o bairro denominado Shameen, separado do resto da povoação por um canal e que é o local onde antigamente estavam as feitorias. Hoje Shameen é uma cidade de tipo americano, com edifícios de muitos andares e vários hotéis, dos quais o Vitória é o melhor e mais concorrido. A quarta parte dos moradores deste Cantão branco são franceses e os restantes de língua inglesa.  O Christian College, estabelecimento importantíssimo mantido pelos missionários dos Estados Unidos, serve de Universidade a muitas centenas de mancebos da região, que aí recebem educação moderna. O resto de Cantão ocupa uma área enorme e está habitado por mais de dois milhões de chineses. As antigas muralhas, parecidas com as de Pequim, foram cortadas em vários pontos para se dar expansão à cidade. Além disso, parte dos habitantes, mais de cento e cinquenta mil, vivem no rio em sampanes.
A população flutuante de Cantão foi sempre objecto de curiosidade para os viajantes. Os bairros formam grupos, como os agrupamentos de edifícios nas cidades terrestres. As bordas tocam-se e os vizinhos passam indistintamente de uma coberta para outra. Canais estreitos separam estes bairros de embarcações, servindo de vielas pelas quais deslizam pequenas canoas. Há sampanes que são lojas em que se vende o indispensável para as necessidades daquela povoação anfíbia. Outros barcos velhíssimos servem de templos, e bonzos de vida vagabunda vivem misturados com os habitantes da Cantão fluvial, mendigos, contrabandistas e figurantes eternos de todas as revoltas.
Também flutuaram, durante séculos, junto das margens do rio Pérola os afamados barcos de flores. O leitor sabe, sem dúvida, para que servem essas casas aquáticas, ligadas à terra por uma ligeira ponte e com galerias cobertas de plantas trepadeiras e de vasos com flores. A tripulação, chamemos-lhe assim, é de mulheres com o rosto pintado e túnicas de cores primaveris. Esses barcos de flores, iluminados toda a noite, enchem as águas escuras de reflexos dourados e músicas alegres. Dos seus pátios sobem foguetes que cortam a escuridão celeste com golpes de luz sibilante e multicolor.
São restaurantes e palácios de amor fácil para as pessoas libertinas da região. O europeu que consiga entrar num barco de flores sai quase sempre espancado pelos fregueses. Mais de uma vez o visitante branco tem desaparecido no leito lodoso do rio.
Ainda há muitos barcos de flores, mas não chegamos e vê-los sequer por fora. Os viajantes que acabámos de chegar a Cantão só conhecemos as ruas semi-europeias do bairro de Shameen, entre o cais de desembarque e o hotel Vitória, mas atravessámos de ricsha.
Os chineses de Cantão parecem-nos menos educados, mais desordeiros e insolentes, que os de outras cidades. Ao verem-nos passar de gritam em tom agressivo; dirigem-se aos companheiros que puxam pelas nossas ricshas, e, embora não possa compreender o que dizem, quer-me parecer que adivinho as suas palavras pelos gestos com que as acompanham. Insultam com certeza os patrícios que servem de cavalos aos brancos. Nota-se na multidão uma excitação extraordinária, sem dúvida por causa dos cruzadores ancorados no rio. Há numerosos navios de guerra ingleses, franceses e norte-americanos, além de um cruzador italiano e outro português, todos com os canhões prontos a entrar em acção.
Depois do almoço no Hotel Vitória, quando os mais curiosos nos dispúnhamos a sair para as ruas dos bairros chineses, para visitarmos os seus afamados armazéns de porcelana, chegam-nos alguns emissários dos cônsules e participam-nos que seria razoável e prudente regressarmos imediatamente a Hong-Kong.  [...]
Partimos às primeiras horas da tarde, vendo novamente os bairros flutuantes da Cantão fluvial e, já na noite plena, chegámos aos nossos camarotes do Franconia.
No dia seguinte falo com os meus amigos de Hong-Kong em ir a Macau, e isto lhes causa mais espanto que a viagem a Cantão. Dizem todos o mesmo:
- Não vá, senhor. Os piratas, sempre que lhe convém, atacam o vapor correio. Ainda há poucos meses, levaram prisioneiros todos os que lá iam.


Vicente Blasco Ibañez, A Volta ao Mundo. 2ª edição, Lisboa, Livraria Peninsular Editora, 1944.  2º vol., p. 174-177. A edição original, com o título La vuelta al mundo de un novelista  é de1925. Informações úteis sobre V. Blasco Ibañez podem ser encontradas no site http://www.blascoibanez.es/index.html, da Fundación Centro de Estúdios Vicente Blasco Ibañez.

domingo, 18 de maio de 2014

Viagem a Cantão (1). Blasco Ibañez

Quero visitar a cidade de Cantão, e dizem-me todos a mesma coisa:
- O senhor não vá. Parece que andam todos os dias aos tiros os partidários do doutor e os seus contrários. Além disso, se se juntarem, uns e outros, será para matarem os europeus por causa das alfândegas.
Sei que há algum exagero nestas informações, mas que de qualquer modo é fora de dúvida que a capital da China do Sul vive, há tempos a esta parte, em estado de revolta.
Cantão foi a única metrópole do Extremo Oriente que europeus e americanos conheceram durante séculos. Pequim permaneceu fechada para o mundo branco até ao último terço do século XIX. Os filhos do Céu, desejosos de conservarem isolados o seu vasto império, concederam Cantão como único porto em podiam dar entrada os navios das nações cristãs.
Quando os portugueses do século XVI ancoraram pela primeira vez em frente dessa cidade, viram que outros navegantes não europeus os haviam precedido no descobrimento. Eram os marinheiros árabes que, desde muito antes, aí tinham depósitos de mercadorias e uma mesquita. Durante cem anos, os capitães portugueses monopolizaram o comércio com Cantão, trazendo à Europa, pelo Cabo da Boa Esperança, as sedas e porcelanas. Os espanhóis adquiriram esses mesmos géneros em Manila, enviados pelos negociantes cantoneses e a Nau de Acapulco levava-os até Nova Espanha através do Pacífico.
Ia já bem adiantado o século XVII quando os ingleses começaram a visitar Cantão para carregarem nos seus navios o chá, erva cada vez mais apreciada na Europa e América, e que deu vida a uma navegação para abastecer os mercados de Liverpool, Salem, Boston e Nova Iorque. Essa afluência de barcos europeus e americanos fomentou a emigração indígena, à qual se deve o facto de todos os chineses espalhados pelo mundo serem das províncias do sul e considerarem Cantão a verdadeira capital, de preferência a Pequim.
Acumulando alguns desses emigrantes fortunas consideráveis na América, o seu desejo foi voltarem para Cantão para as desfrutarem, aumentando a riqueza da cidade. Os que não regressaram à pátria mantiveram correspondência com as famílias, e tudo isso fez que Cantão seguisse o movimento liberal da nossa época, pensando de maneira diferente do resto do Império.
Têm sido cantoneses o mais ilustrados chineses dos últimos tempos. De há maio século para cá, a mocidade intelectual de Cantão tem completado os estudos nos Estados Unidos e na Europa. Alem disso, esses chineses do sul são mais inquietos e menos pacientes que os do norte. Os seus antepassados foram muitas vezes piratas ou viveram nas montanhas como rebeldes. Nos últimos anos do Império, os cantoneses entoavam pelas ruas cantigas injuriosas para o Filho do Céu e governantes de Pequim, sem que as autoridades imperiais da cidade ousassem tomar providências contra tais irreverências.
Como era lógico, o movimento republicano que pôs termo à dinastia dos Muito Puros teve origem em Cantão. Mas estabelecida a República, os filhos desta cidade recusaram-se a continuar a ser governados de Pequim, como no tempo do Império, declarando-se independentes e constituindo a chamada República do sul.
Este separatismo não é um coisa incidental, inventada pelas divergências dos partidos políticos. Na realidade, existem duas Chinas, completamente diferentes. O habitante de Pequim, de estatura elevada, sereno de rosto, parco de palavras, meio tártaro e meio mandchu, não se parece com o chinês exuberante, imaginativo, de individualismo ingovernável, que povoa as províncias meridionais e que, ao espalhar-se como emigrante pela América, se intitula orgulhosamente cantonês.
O doutor Sun Yat Sen, fundador da República do sul e seu eterno Presidente, é um médico de Cantão, que estudou nos Estados Unidos, trabalhando com energia no tempo do Império para fazer triunfar a República. Agora porém dentro da sua própria casa luta com adversários numerosos, que lhe dificultam a politica interna e, além disso, faz frente às nações estrangeiras, mantenedoras do governo de Pequim, que se negam a reconhecer a República do sul.
No momento actual sustenta luta aberta com todas as potências. Estas cobram rendimentos das alfândegas chinesas e, depois de haverem guardado parte deles para indemnizações concedidas há anos, entregam o resto ao governo de Pequim. O doutor Presidente do sul opõe-se a que as potências intervenham nas alfândegas dependentes de Cantão, se elas não se comprometerem a entregar-lhe  excesso, dado até agora aos seus inimigos de Pequim.
Encontram-se actualmente ancorados no rio Pérola navios de guerra de todas as nações que têm interesses na China, para intimidarem Sun Yat Sen com essa demonstração naval.


Vicente Blasco Ibañez, A Volta ao Mundo. 2ª edição, Lisboa, Livraria Peninsular Editora, 1944.  2º vol., p. 171-174. A edição original, com o título La vuelta al mundo de un novelista  é de1925. Informações úteis sobre V. Blasco Ibañez podem ser encontradas no site http://www.blascoibanez.es/index.html, da Fundación Centro de Estúdios Vicente Blasco Ibañez.

sábado, 17 de maio de 2014

Onde Ícaro caiu. Brueghel o Velho

Pieter Brueghel the Elder (1526/1530–1569), Landscape with the Fall of Icarus, Ca 1558
Royal Museums of Fine Arts of Belgium  



sexta-feira, 16 de maio de 2014

Agora à Índia há-de ir! João Pedro Grabato Dias

DCXVI
Agora há-de ir à Índia! Agora tem
uma luzida Armada com que irá
partir do restelinho de Bheleém
até a Calicute, à Jáfa, à
sumptuosa Gôa, a todo o além-
-mar lusitano onde Ataíde está
na esteira dos antigos viso-reis;
que o Luso não esqueceu as suas leis!

DCXVII
Que não lhe traigam ora mais rezões
do grande luxo que é fretar a Armada!
Esta, Deos lha pediu! E as legiões
de cherubins que vê na revoltada
turbulência das núvens são rezões
de uma Rezão mais alto levantada
que o impele adiante pola renda
do Grande Mar na Lusitana Senda.

DCXVIII
Agora à Índia há-de ir! que lhe não venham
com censuras e mêdos e perdêres
de mulheres caprichadas que se arranham
só porque um raio vêem, e nos dizêres
que contam nos despois mais se reganham!
Não lhe venham com falas de mulheres
que Êle é já homem! E quem não quer segui-lo
pois que fique ao borralho bem tranquilo!

DCXIX
Outra coisa ouvirá que não conselhos
peganhados de tanto amolecer
que se pronto os desculpa é porque a velhos
as cousas diz na falta de as dizer!
Não ouvirá a railhos nem a relhos
que os orelhos não podem padecer
mais do que as santas ordens lá de cima
com que Seu Capitão o instrue e anima!

DCXX
Ele à Índia se irá! Pois esta Armada
e esta luzida tropa bem mantida
não servirão a cousa mais que nada
que esta nada fazer por toda a vida?
Não quer ouvir mais voz por protestada
a augurar-lhe cousas de partida!
Segue o seu Capitão. Deos vai a Gôa?!
Pois com ele se irá desta Lisboa.

DCXXI
Não há que dissuadi-lo. Todos calam
toda e qualquer razão por exterior
aos desejos do Rey que o não abalam
outros desejos que os de seu furor
em partir já enquanto os ventos falam
de propícia monção. Nem há valor
que, por justo, se imponha a este rey
que se julga regido de outra Ley!

DCXXII
Já a noute desceu quando se finda
a sessão de Conselho onde os conselhos
nem chegam a ouvir-se! O rey brinda
à Victória futura e pelos quelhos
que vão dar à Ribeira, a berlinda
abandona, metendo os tornozelhos
nas lamas da vazante. E olhando a luz
da lua, mui solene, traça a Cruz!

DCXXIII
Corre uma fresca aragem repentina
que eriça escamas tolas pelo rio
e musica nas cordas e chorina
dum pressago soluço de arripio.
- Dai-me um cavalo! - chegam-lhe uma crina
toda de prêto pês. - Já tanto frio!...
Chegam-lhe a capa toda em branco arminho
- Adeus! Entra-lhe a noite toda no caminho...

DCXXIV
Galopa feito vento pelo vento
que refresca mais pronto assim coagido
co'esta crina esta capa e este tormento
que o rasga fundo sem mais espora ou brido
que esse horror de ser vento mais que o vento...
Crúa espada com fio de granido...
Azourrague de bagas de pavor
sobre finas ilhargas de suor...

DCXXV
Galopa pelo escuro feito escuro
que tinge o arminho em rata de aço azul
as côxas forquilhadas num maduro
quente e frevoso escuro de paúl!
Rompe pela Alcáçova e ao muro
onde rasgada empena mostra o Sul
assoma num desvairo de ansiedade
auscultando o crescer da tempestade!

DCXXVI
Como um corpo de ovelhas voadoras
em rebanho de ladros e balidos -
- entre alcateias de uivos das sonoras
correrias dos lobos mal nutridos
que são os feros ventos - vêm nas horas
dum razar temeroso, com rangidos
onde um maior pavor se lhe acrescenta
as rogadoras nuvens da tormenta!

DCXXVII
Cordas grossas de chuva que borrasca
como açoute de pedra o lombo ao rio
forçam no paço entrada num som d'asca
nojosa e repetida. No vazio
da incredulidade em que se atasca
o Rey masca medonho desvario
de palavras soezes e profanas
que atira ao Céu como lançadas vaias!

DCXXVIII
Mas êste é um só momento! Uma rajada
em resposta à rajada! Logo volve
na pedra mais serena e tumulária
que imaginar se possa! Não devolve
já, ao vento, senão uma cansada
indiferença enojosa onde se move
como em pasta de pêz ou outro engonho
por onde deslocasse um lento sonho!...


As Quybyryacas. Poema Éthico em oitavas que corre como sendo de Luis Vaaz de Camões, em supeitíssima atribuição Frei Ioannes Garabatus.
Impressas em Moçambique, com rial privilégio de Jorge de Sena: em casa de Tempo Impressor, 1972.

João Pedro Grabato Dias, As Quibiríacas. Prefácio de Jorge de Sena. Lourenço Marques, Edição de J. P. Grabato D., Tempográfica, 1972,  Canto VI  [DCXVI-DCXXVIII].

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Ilha de Graia. David Roberts

David Roberts, "Isle of Graia Gulf of Akabah Arabia Petraea". Ilustração do livro Holy Land, Syria, Idumea, Arabia, Egypt and Nubia, 1839



quarta-feira, 14 de maio de 2014

A partir do dia em que Colombo desembarcou nas ilhas. Eduardo Lourenço

A partir do dia em que Colombo desembarcou nas ilhas que na sua imaginação tinham um outro nome, os nossos laços de europeus com as novas terras e, ainda mais, com as novas gentes, estavam condenadas a uma ambiguidade sem saída. Mesmo inextricáveis, esses laços, antes de poderem ser a expressão natural da comunicação humana, tornaram-se "nós" que o tempo, em vez de desatar, só reforçou ainda mais. As relações que se estabeleceram então, entre Índios e Europeus, mudaram em profundidade a natureza e a identidade de uns e de outros. Mas não repentinamente, nem da mesma maneira. Com o tempo, a Europa e a América tornaram-se como que uma espécie de espelho mútuo, absorvendo e recusando, simultaneamente, a imagem partida em pedaços que elas reenviam uma à outra.

Eduardo Lourenço, "A Morte de Colombo", in Do Colonialismo Como Nosso Impensado. Organização e prefácio de Margarida Calafate Ribeiro e Roberto Vecchi. Lisboa, Gradiva, 2014, p. 328.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Início da viagem de Marco Polo, em 1271

Marco Polo saindo de Veneza, em 1271.  Pormenor de iluminura de um manuscrito de ca. 1400, da Biblioteca Bodleian, Universidade de Oxford.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Quand tu aimes il faut partir. Michel Estebe

Michel Estebe, Quand tu aimes il faut partir, 1991

quarta-feira, 7 de maio de 2014

A viagem de Fermina Daza e Florentino Ariza (4). Gabriel Garcia Marquez

Fermina Daza e Florentino Ariza tinham ouvido tudo da mesa, mas o comandante não parecia importar-se com isso. Continuou a comer em silencio e via-se-lhe o mau humor até na maneira como violou as regras da etiqueta que sustentavam a reputação lendária dos comandantes do rio. Rebentou com a ponta da faca os quatro ovos estrelados e arrebanhou-os no seu prato com pedaços enormes de banana verde que metia inteiros na boca, mastigando-os com um deleite selvagem. Fermina Daza e Florentino Ariza observavam-no sem falar, à espera que fossem lidas as notas finais num banco da escola. Não tinham trocado uma palavra enquanto durou o diálogo com a patrulha sanitária nem faziam a menor ideia do que ia ser das suas vidas, mas ambos sabiam que o comandante estava a pensar por eles: via-se pelo latejar das fontes.
Enquanto ele despachava a ração dos ovos, a bandeja das rodelas de banana, o jarro de café com leite, o navio saiu da baía com as caldeiras sossegadas, abriu caminho pelos canais através dos lençóis de tarulla, o lótus fluvial de flores roxas e folhas enormes em forma de coração, e voltou aos pântanos. A água apresentava-se em furta-cores devido ao mundo de peixes que flutuavam de lado, mortos com a dinamite dos pescadores furtivos, e os pássaros da terra e da água voavam em círculos sobre eles com pios metálicos. O vento das Caraíbas meteu-se pelas janelas com o rebuliço dos pássaros, e Fermina Daza sentiu no sangue p latejar desordenado do seu livre-arbítrio. À direita, turvo e parcimonioso,  estuário do rio Grande de La Magdalena espraiava-se até ao outro lado do mundo.
Quando já não restava nada que se comesse nos pratos, o comandante limpou os lábios com a ponta da toalha e falou numa gíria impudente que acabou de uma vez por todas com o prestígio do bem falar dos comandantes do rio. Pois não falou por eles nem para ninguém, e tentava chegar a um acordo com a própria fúria. A sua conclusão, ao cabo de uma longa fieira de impropérios violentos, foi que não via como sair do imbróglio em que se tinha metido com a bandeira da cólera.
Florentino Ariza escutou-o sem pestanejar. Depois olhou pela janela o círculo completo do quadrante da rosa náutica, o horizonte nítido, o céu de Dezembro sem uma única nuvem, as águas para sempre navegáveis e disse:
- Sigamos em frente, sempre em frente, outra vez até La Dorada.
Fermina Daza sentiu-se estremecer porque reconheceu a antiga voz iluminada pela graça do Espírito Santo e olhou para o comandante: ele era o destino. Mas o comandante não a viu, porque estava inundado pelo tremendo poder de inspiração de Florentino Ariza.
- Está a falar a sério? - perguntou-lhe.
- Desde que nasci - disse Florentino Ariza - nunca disse uma única coisa que não fosse a sério.
O comandante olhou para Fermina Daza e viu nas suas pestanas os primeiros pingos de um orvalho de Inverno. Depois olhou para Florentino Ariz, o seu domínio invencível, o seu amor impávido, e ficou assustado pela suspeita tardia de que é a vida, mais do que a morte, que não tem limites.
- E até quando pensa o senhor que podemos continuar neste ir e vir dum caralho? - perguntou-lhe.
Florentino Ariza tinha a resposta preparada há já cinquenta e três anos, sete meses e onze dias com todas as suas noites.
- Toda a vida - disse.

Gabriel Garcia Marquez, Amor nos Tempos de Cólera. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1987, p. 369-371.

terça-feira, 6 de maio de 2014

A viagem de Fermina Daza e Florentino Ariza (3). Gabriel Garcia Marquez

- Vai ser como morrer – disse.
Florentino Ariza surpreendeu-se porque era o adivinhar de um pensamento que não o abandonava desde que começara a viagem de regresso. Nem ele nem ela podiam imaginar-se noutra casa que não fosse o camarote, comendo de maneira que não a do navio, integrados numa vida que lhes seria alheia para sempre. Era, com efeito, como morrer. Não conseguiu dormir mais. Ficou deitado na cama com as duas mãos cruzadas sob a nuca. A um dado momento, a pontada de América Vicuña fê-lo retorcer-se de dor e não conseguiu adiar a verdade por mais tempo: fechou-se na casa de banho e chorou à sua vontade, sem pressa, até à última lágrima. Só então teve a coragem de confessar quanto a tinha amado.
Quando se levantaram já vestidos para o desembarque, tinham deixado ara trás os canais e os pântanos da antiga passagem espanhola e navegavam por entre os escombros dos barcos e dos tanques de óleos mortos da baía. Erguia-se uma quinta-feira radiosa sobre as cúpulas douradas da cidade dos vice-reis, mas, do tombadilho, Fermina Daza não conseguiu suportar a pestilência das suas glórias, a arrogância dos seus baluartes profanados pelas iguanas: o horror da vida real. Nem ele, nem ela, sem o dizerem, se sentiram capazes de se renderem de um modo tão fácil.
Encontraram o comandante na sala de jantar, num estado de desordem que não estava de acordo com a pulcritude dos seus hábitos:  a barba por fazer, os olhos raiados pela insónia, a roupa transpirada da noite anterior, a fala alterada pelos arrotos a anis. Zenaida dormia. Começava a tomar o pequeno almoço em silêncio quando um barco a gasolina da Inspecção Sanitária mandou parar o barco.
O comandante, da ponte de comando, respondeu aos gritos às perguntas da patrulha armada. Queriam saber que tipo de peste traziam a bordo, quantos passageiros vinham, quanto estavam doentes, que possibilidades havia de novos contágios. O comandante respondeu que só traziam três passageiros, todos com cólera, e que se mantinham em total reclusão. Nem os que deviam ter subido em La Dorada, nem os vinte e sete homens da tripulação tinham tido qualquer contacto com eles. Mas o comandante da patrulha não se deu por satisfeito e ordenou que saíssem da baía e que esperassem no pântano de Las Mercedes até às duas da tarde, enquanto se preparavam os trâmites para o navio ficar de quarentena. O comandante soltou um palavrão de carroceiro e com um gesto feito com a mão mandou o piloto dar meia volta e voltar aos pântanos.
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Gabriel Garcia Marquez, Amor nos Tempos de Cólera. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1987, p. 368-369.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

A viagem de Fermina Daza e Florentino Ariza (2). Gabriel Garcia Marquez

Na véspera da chegada fizeram uma festa com grinaldas de papel e lanternas coloridas. A chuva cessou ao entardecer. O comandante e Zenaida dançaram muito juntos os primeiros boleros que nesses anos começavam a estilhaçar corações. Florentino Ariza atreveu-se a sugerir a Fermina Daza que dançassem a sua valsa confidencial, mas ela recusou. No entanto, durante toda a noite, marcou o compasso com a cabeça e os saltos dos sapatos e houve até um momento em que dançou sentada sem dar-se conta, enquanto o comandante se confundia com a sua meiga energúmena na penumbra do bolero. Bebeu tanto licor de anis que tiveram de ajudá-la a subir as escadas e teve um ataque de riso com lágrimas que chegou a assustar toda a gente. Porém, quando conseguiu controlá-lo no remanso perfumado do camarote, fizeram um amor tranquilo e são, de avós maltratados, que iria fixar-se na sua memória como a melhor recordação daquela viagem lunática. Já não se sentiam como noivos recentes, ao contrário do que supunham o comandante e Zenaida e ainda menos como amantes tardios. Era como se tivessem saltado por cima do árduo calvário da vida conjugal e tivessem entrado directamente e sem mais delongas no amor. Seguiam em silêncio como dois velhos esposos escaldados pela vida, para lá das armadilhas da paixão, para lá das trapaças brutais das ilusões dos reflexos dos desenganos: para lá do amor. Pois tinham vivido juntos o suficiente para se darem conta de que o amor era amor em qualquer tempo e em qualquer lugar, mas tanto mais denso quanto mais próximo da morte.
Acordaram às seis. Ela com a dor de cabeça perfumada de anis e com o coração aturdido pela sensação de que o doutor Juvenal Urbino tinha voltado, mais gordo e mais jovem do que quando caíra da árvore e estava sentado na cadeira de baloiço à espera dela à porta de casa. No entanto estava suficientemente lúcida para dar-se conta de que não era o efeito do anis mas sim da iminência do regresso.


Gabriel Garcia Marquez, Amor nos Tempos de Cólera. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1987, p. 367-368.

sábado, 3 de maio de 2014

A viagem de Fermina Daza e Florentino Ariza (1). Gabriel Garcia Marquez

Durante o dia jogavam às cartas, comiam até não poder mais, faziam umas sestas de granito que os deixavam exaustos e mal o sol descia, davam largas à orquestra e bebiam licor de anis com salmão passando dos limites da saciedade. Foi uma viagem rápida, com o navio leve e águas favoráveis, melhoradas pelas torrentes que se precipitavam dos cumes onde choveu tanto naquela semana como durante todo o trajecto. Algumas aldeias disparavam tiros de canhão misericordiosos para afastar a cólera e eles agradeciam com um rugido triste. Os navios de qualquer companhia que se cruzavam com eles pelo caminho mandavam-lhe sinais de condolências. Na povoação de Magangué, onde nasceu Mercedes, carregaram lenha para o resto da viagem.
Fermina Daza assustou-se quando começou a sentir a sirene do navio dentro do ouvido são, mas, no segundo dia de anis, ouvia melhor dos dois. Descobriu que as rosas tinham mais perfume do que antes, que os pássaros ao amanhecer cantavam muito melhor que antes e que Deus tinha feito um manatim* e o colocara no areal de Tamalameque só para a acordar.
O comandante ouviu-o, deixou o navio à deriva e viram por fim a matrona enorme a amamentar a sua cria nos braços. Nem Florentino nem Fermina se deram conta de quanto se confundiam: ela ajudava-.o com os clisteres, levantava-se antes deles para lhe escovar a dentadura postiça que ele deixava no copo enquanto dormia e resolveu o problema dos óculos perdidos, pois conseguia ler e passajar com os dele. Certa manhã, ao acordar, viu-o na sombra a pregar um botão na camisa e apressou-se a fazê-lo antes que se repetisse a frase ritual de fazerem falta duas esposas. Em troca, a única coisa que ela precisou dele foi que lhe pusesse uma ventosa por causa de uma dor nas costas.
Florentino Ariza, pelo seu lado, pôs-se a remexer nas nostalgias com o violino da orquestra e em meio dia foi capaz de executar para ela a valsa d'A Deusa Coroada, e tocou-a durante horas até o obrigarem a parar. Uma noite, pela primeira vez na sua via, Fermina Daza acordou sufocada por um pranto que não era de raiva mas de pena, pela recordação dos velhinhos do bote assassinados à paulada pelo barqueiro. Por outro lado, a chuva incessante não a comoveu e pensou demasiado tarde que Paris talvez não tivesse sido tão lúgubre como ela achava, nem Santa Fé tinha tantos enterros pelas ruas. O sonho de outras viagens futuras com Florentino Ariza ergueu-se no horizonte: viagens malucas, sem tantos baús, sem compromissos sociais: viagens de amor.

Gabriel Garcia Marquez, Amor nos Tempos de Cólera. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1987, p. 366-367.

* Manatim ou peixe-boi. Mamífero de grande dimensões (chega quase aos três metros) que habita os grandes rios da América do Sul, nomeadamente o Amazonas.