terça-feira, 20 de maio de 2014

Fuga para o Egipto. Adam Elsheimer

Adam Elsheimer (1574-1620), The Flight into Egypt, ca. 1605 

Adam Elsheimer, The Flight into Egypt, ca 1609.



segunda-feira, 19 de maio de 2014

Viagem a Cantão (2). Blasco Ibañez

- O senhor não vá, tornam a dizer-me. A população de Cantão está furiosa contra os brancos e, de um momento para o outro, pode haver uma carnificina. Depois virá a intervenção armada das potências e também os castigos e as indemnizações, mas o que tiver sido morto na revolta, morto continuará.
Vou, apesar de tudo, a Cantão, e a viagem foi curta, fatigante, quase inútil. Há um caminho de ferro que parte de Hong-Kong, mas há mais de um ano que não funciona. A linha é inglesa, e, como o Presidente da República de Cantão ficou, repetidas vezes, com o material circulante, os directores julgaram conveniente suspender o serviço. Viajamos pelo rio em vapores cómodos á moda americana, com várias cobertas, que são uma espécie de hotéis flutuantes.
Passamos por entre as numerosas ilhas do estuário, seguindo uns canais dourados pelo sol nascente, com margens de verde escuro. Já dentro do rio, atravessamos um estreito que os descobridores portugueses chamaram Boca de Tigre. À ida, navegando contra a corrente, gastámos umas seis horas; o regresso, como era natural, levou menos tempo.
Apesar dos europeus se terem estabelecido há já três séculos em Cantão, ainda vivem à parte, ocupando o bairro denominado Shameen, separado do resto da povoação por um canal e que é o local onde antigamente estavam as feitorias. Hoje Shameen é uma cidade de tipo americano, com edifícios de muitos andares e vários hotéis, dos quais o Vitória é o melhor e mais concorrido. A quarta parte dos moradores deste Cantão branco são franceses e os restantes de língua inglesa.  O Christian College, estabelecimento importantíssimo mantido pelos missionários dos Estados Unidos, serve de Universidade a muitas centenas de mancebos da região, que aí recebem educação moderna. O resto de Cantão ocupa uma área enorme e está habitado por mais de dois milhões de chineses. As antigas muralhas, parecidas com as de Pequim, foram cortadas em vários pontos para se dar expansão à cidade. Além disso, parte dos habitantes, mais de cento e cinquenta mil, vivem no rio em sampanes.
A população flutuante de Cantão foi sempre objecto de curiosidade para os viajantes. Os bairros formam grupos, como os agrupamentos de edifícios nas cidades terrestres. As bordas tocam-se e os vizinhos passam indistintamente de uma coberta para outra. Canais estreitos separam estes bairros de embarcações, servindo de vielas pelas quais deslizam pequenas canoas. Há sampanes que são lojas em que se vende o indispensável para as necessidades daquela povoação anfíbia. Outros barcos velhíssimos servem de templos, e bonzos de vida vagabunda vivem misturados com os habitantes da Cantão fluvial, mendigos, contrabandistas e figurantes eternos de todas as revoltas.
Também flutuaram, durante séculos, junto das margens do rio Pérola os afamados barcos de flores. O leitor sabe, sem dúvida, para que servem essas casas aquáticas, ligadas à terra por uma ligeira ponte e com galerias cobertas de plantas trepadeiras e de vasos com flores. A tripulação, chamemos-lhe assim, é de mulheres com o rosto pintado e túnicas de cores primaveris. Esses barcos de flores, iluminados toda a noite, enchem as águas escuras de reflexos dourados e músicas alegres. Dos seus pátios sobem foguetes que cortam a escuridão celeste com golpes de luz sibilante e multicolor.
São restaurantes e palácios de amor fácil para as pessoas libertinas da região. O europeu que consiga entrar num barco de flores sai quase sempre espancado pelos fregueses. Mais de uma vez o visitante branco tem desaparecido no leito lodoso do rio.
Ainda há muitos barcos de flores, mas não chegamos e vê-los sequer por fora. Os viajantes que acabámos de chegar a Cantão só conhecemos as ruas semi-europeias do bairro de Shameen, entre o cais de desembarque e o hotel Vitória, mas atravessámos de ricsha.
Os chineses de Cantão parecem-nos menos educados, mais desordeiros e insolentes, que os de outras cidades. Ao verem-nos passar de gritam em tom agressivo; dirigem-se aos companheiros que puxam pelas nossas ricshas, e, embora não possa compreender o que dizem, quer-me parecer que adivinho as suas palavras pelos gestos com que as acompanham. Insultam com certeza os patrícios que servem de cavalos aos brancos. Nota-se na multidão uma excitação extraordinária, sem dúvida por causa dos cruzadores ancorados no rio. Há numerosos navios de guerra ingleses, franceses e norte-americanos, além de um cruzador italiano e outro português, todos com os canhões prontos a entrar em acção.
Depois do almoço no Hotel Vitória, quando os mais curiosos nos dispúnhamos a sair para as ruas dos bairros chineses, para visitarmos os seus afamados armazéns de porcelana, chegam-nos alguns emissários dos cônsules e participam-nos que seria razoável e prudente regressarmos imediatamente a Hong-Kong.  [...]
Partimos às primeiras horas da tarde, vendo novamente os bairros flutuantes da Cantão fluvial e, já na noite plena, chegámos aos nossos camarotes do Franconia.
No dia seguinte falo com os meus amigos de Hong-Kong em ir a Macau, e isto lhes causa mais espanto que a viagem a Cantão. Dizem todos o mesmo:
- Não vá, senhor. Os piratas, sempre que lhe convém, atacam o vapor correio. Ainda há poucos meses, levaram prisioneiros todos os que lá iam.


Vicente Blasco Ibañez, A Volta ao Mundo. 2ª edição, Lisboa, Livraria Peninsular Editora, 1944.  2º vol., p. 174-177. A edição original, com o título La vuelta al mundo de un novelista  é de1925. Informações úteis sobre V. Blasco Ibañez podem ser encontradas no site http://www.blascoibanez.es/index.html, da Fundación Centro de Estúdios Vicente Blasco Ibañez.

domingo, 18 de maio de 2014

Viagem a Cantão (1). Blasco Ibañez

Quero visitar a cidade de Cantão, e dizem-me todos a mesma coisa:
- O senhor não vá. Parece que andam todos os dias aos tiros os partidários do doutor e os seus contrários. Além disso, se se juntarem, uns e outros, será para matarem os europeus por causa das alfândegas.
Sei que há algum exagero nestas informações, mas que de qualquer modo é fora de dúvida que a capital da China do Sul vive, há tempos a esta parte, em estado de revolta.
Cantão foi a única metrópole do Extremo Oriente que europeus e americanos conheceram durante séculos. Pequim permaneceu fechada para o mundo branco até ao último terço do século XIX. Os filhos do Céu, desejosos de conservarem isolados o seu vasto império, concederam Cantão como único porto em podiam dar entrada os navios das nações cristãs.
Quando os portugueses do século XVI ancoraram pela primeira vez em frente dessa cidade, viram que outros navegantes não europeus os haviam precedido no descobrimento. Eram os marinheiros árabes que, desde muito antes, aí tinham depósitos de mercadorias e uma mesquita. Durante cem anos, os capitães portugueses monopolizaram o comércio com Cantão, trazendo à Europa, pelo Cabo da Boa Esperança, as sedas e porcelanas. Os espanhóis adquiriram esses mesmos géneros em Manila, enviados pelos negociantes cantoneses e a Nau de Acapulco levava-os até Nova Espanha através do Pacífico.
Ia já bem adiantado o século XVII quando os ingleses começaram a visitar Cantão para carregarem nos seus navios o chá, erva cada vez mais apreciada na Europa e América, e que deu vida a uma navegação para abastecer os mercados de Liverpool, Salem, Boston e Nova Iorque. Essa afluência de barcos europeus e americanos fomentou a emigração indígena, à qual se deve o facto de todos os chineses espalhados pelo mundo serem das províncias do sul e considerarem Cantão a verdadeira capital, de preferência a Pequim.
Acumulando alguns desses emigrantes fortunas consideráveis na América, o seu desejo foi voltarem para Cantão para as desfrutarem, aumentando a riqueza da cidade. Os que não regressaram à pátria mantiveram correspondência com as famílias, e tudo isso fez que Cantão seguisse o movimento liberal da nossa época, pensando de maneira diferente do resto do Império.
Têm sido cantoneses o mais ilustrados chineses dos últimos tempos. De há maio século para cá, a mocidade intelectual de Cantão tem completado os estudos nos Estados Unidos e na Europa. Alem disso, esses chineses do sul são mais inquietos e menos pacientes que os do norte. Os seus antepassados foram muitas vezes piratas ou viveram nas montanhas como rebeldes. Nos últimos anos do Império, os cantoneses entoavam pelas ruas cantigas injuriosas para o Filho do Céu e governantes de Pequim, sem que as autoridades imperiais da cidade ousassem tomar providências contra tais irreverências.
Como era lógico, o movimento republicano que pôs termo à dinastia dos Muito Puros teve origem em Cantão. Mas estabelecida a República, os filhos desta cidade recusaram-se a continuar a ser governados de Pequim, como no tempo do Império, declarando-se independentes e constituindo a chamada República do sul.
Este separatismo não é um coisa incidental, inventada pelas divergências dos partidos políticos. Na realidade, existem duas Chinas, completamente diferentes. O habitante de Pequim, de estatura elevada, sereno de rosto, parco de palavras, meio tártaro e meio mandchu, não se parece com o chinês exuberante, imaginativo, de individualismo ingovernável, que povoa as províncias meridionais e que, ao espalhar-se como emigrante pela América, se intitula orgulhosamente cantonês.
O doutor Sun Yat Sen, fundador da República do sul e seu eterno Presidente, é um médico de Cantão, que estudou nos Estados Unidos, trabalhando com energia no tempo do Império para fazer triunfar a República. Agora porém dentro da sua própria casa luta com adversários numerosos, que lhe dificultam a politica interna e, além disso, faz frente às nações estrangeiras, mantenedoras do governo de Pequim, que se negam a reconhecer a República do sul.
No momento actual sustenta luta aberta com todas as potências. Estas cobram rendimentos das alfândegas chinesas e, depois de haverem guardado parte deles para indemnizações concedidas há anos, entregam o resto ao governo de Pequim. O doutor Presidente do sul opõe-se a que as potências intervenham nas alfândegas dependentes de Cantão, se elas não se comprometerem a entregar-lhe  excesso, dado até agora aos seus inimigos de Pequim.
Encontram-se actualmente ancorados no rio Pérola navios de guerra de todas as nações que têm interesses na China, para intimidarem Sun Yat Sen com essa demonstração naval.


Vicente Blasco Ibañez, A Volta ao Mundo. 2ª edição, Lisboa, Livraria Peninsular Editora, 1944.  2º vol., p. 171-174. A edição original, com o título La vuelta al mundo de un novelista  é de1925. Informações úteis sobre V. Blasco Ibañez podem ser encontradas no site http://www.blascoibanez.es/index.html, da Fundación Centro de Estúdios Vicente Blasco Ibañez.

sábado, 17 de maio de 2014

Onde Ícaro caiu. Brueghel o Velho

Pieter Brueghel the Elder (1526/1530–1569), Landscape with the Fall of Icarus, Ca 1558
Royal Museums of Fine Arts of Belgium  



sexta-feira, 16 de maio de 2014

Agora à Índia há-de ir! João Pedro Grabato Dias

DCXVI
Agora há-de ir à Índia! Agora tem
uma luzida Armada com que irá
partir do restelinho de Bheleém
até a Calicute, à Jáfa, à
sumptuosa Gôa, a todo o além-
-mar lusitano onde Ataíde está
na esteira dos antigos viso-reis;
que o Luso não esqueceu as suas leis!

DCXVII
Que não lhe traigam ora mais rezões
do grande luxo que é fretar a Armada!
Esta, Deos lha pediu! E as legiões
de cherubins que vê na revoltada
turbulência das núvens são rezões
de uma Rezão mais alto levantada
que o impele adiante pola renda
do Grande Mar na Lusitana Senda.

DCXVIII
Agora à Índia há-de ir! que lhe não venham
com censuras e mêdos e perdêres
de mulheres caprichadas que se arranham
só porque um raio vêem, e nos dizêres
que contam nos despois mais se reganham!
Não lhe venham com falas de mulheres
que Êle é já homem! E quem não quer segui-lo
pois que fique ao borralho bem tranquilo!

DCXIX
Outra coisa ouvirá que não conselhos
peganhados de tanto amolecer
que se pronto os desculpa é porque a velhos
as cousas diz na falta de as dizer!
Não ouvirá a railhos nem a relhos
que os orelhos não podem padecer
mais do que as santas ordens lá de cima
com que Seu Capitão o instrue e anima!

DCXX
Ele à Índia se irá! Pois esta Armada
e esta luzida tropa bem mantida
não servirão a cousa mais que nada
que esta nada fazer por toda a vida?
Não quer ouvir mais voz por protestada
a augurar-lhe cousas de partida!
Segue o seu Capitão. Deos vai a Gôa?!
Pois com ele se irá desta Lisboa.

DCXXI
Não há que dissuadi-lo. Todos calam
toda e qualquer razão por exterior
aos desejos do Rey que o não abalam
outros desejos que os de seu furor
em partir já enquanto os ventos falam
de propícia monção. Nem há valor
que, por justo, se imponha a este rey
que se julga regido de outra Ley!

DCXXII
Já a noute desceu quando se finda
a sessão de Conselho onde os conselhos
nem chegam a ouvir-se! O rey brinda
à Victória futura e pelos quelhos
que vão dar à Ribeira, a berlinda
abandona, metendo os tornozelhos
nas lamas da vazante. E olhando a luz
da lua, mui solene, traça a Cruz!

DCXXIII
Corre uma fresca aragem repentina
que eriça escamas tolas pelo rio
e musica nas cordas e chorina
dum pressago soluço de arripio.
- Dai-me um cavalo! - chegam-lhe uma crina
toda de prêto pês. - Já tanto frio!...
Chegam-lhe a capa toda em branco arminho
- Adeus! Entra-lhe a noite toda no caminho...

DCXXIV
Galopa feito vento pelo vento
que refresca mais pronto assim coagido
co'esta crina esta capa e este tormento
que o rasga fundo sem mais espora ou brido
que esse horror de ser vento mais que o vento...
Crúa espada com fio de granido...
Azourrague de bagas de pavor
sobre finas ilhargas de suor...

DCXXV
Galopa pelo escuro feito escuro
que tinge o arminho em rata de aço azul
as côxas forquilhadas num maduro
quente e frevoso escuro de paúl!
Rompe pela Alcáçova e ao muro
onde rasgada empena mostra o Sul
assoma num desvairo de ansiedade
auscultando o crescer da tempestade!

DCXXVI
Como um corpo de ovelhas voadoras
em rebanho de ladros e balidos -
- entre alcateias de uivos das sonoras
correrias dos lobos mal nutridos
que são os feros ventos - vêm nas horas
dum razar temeroso, com rangidos
onde um maior pavor se lhe acrescenta
as rogadoras nuvens da tormenta!

DCXXVII
Cordas grossas de chuva que borrasca
como açoute de pedra o lombo ao rio
forçam no paço entrada num som d'asca
nojosa e repetida. No vazio
da incredulidade em que se atasca
o Rey masca medonho desvario
de palavras soezes e profanas
que atira ao Céu como lançadas vaias!

DCXXVIII
Mas êste é um só momento! Uma rajada
em resposta à rajada! Logo volve
na pedra mais serena e tumulária
que imaginar se possa! Não devolve
já, ao vento, senão uma cansada
indiferença enojosa onde se move
como em pasta de pêz ou outro engonho
por onde deslocasse um lento sonho!...


As Quybyryacas. Poema Éthico em oitavas que corre como sendo de Luis Vaaz de Camões, em supeitíssima atribuição Frei Ioannes Garabatus.
Impressas em Moçambique, com rial privilégio de Jorge de Sena: em casa de Tempo Impressor, 1972.

João Pedro Grabato Dias, As Quibiríacas. Prefácio de Jorge de Sena. Lourenço Marques, Edição de J. P. Grabato D., Tempográfica, 1972,  Canto VI  [DCXVI-DCXXVIII].

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Ilha de Graia. David Roberts

David Roberts, "Isle of Graia Gulf of Akabah Arabia Petraea". Ilustração do livro Holy Land, Syria, Idumea, Arabia, Egypt and Nubia, 1839



quarta-feira, 14 de maio de 2014

A partir do dia em que Colombo desembarcou nas ilhas. Eduardo Lourenço

A partir do dia em que Colombo desembarcou nas ilhas que na sua imaginação tinham um outro nome, os nossos laços de europeus com as novas terras e, ainda mais, com as novas gentes, estavam condenadas a uma ambiguidade sem saída. Mesmo inextricáveis, esses laços, antes de poderem ser a expressão natural da comunicação humana, tornaram-se "nós" que o tempo, em vez de desatar, só reforçou ainda mais. As relações que se estabeleceram então, entre Índios e Europeus, mudaram em profundidade a natureza e a identidade de uns e de outros. Mas não repentinamente, nem da mesma maneira. Com o tempo, a Europa e a América tornaram-se como que uma espécie de espelho mútuo, absorvendo e recusando, simultaneamente, a imagem partida em pedaços que elas reenviam uma à outra.

Eduardo Lourenço, "A Morte de Colombo", in Do Colonialismo Como Nosso Impensado. Organização e prefácio de Margarida Calafate Ribeiro e Roberto Vecchi. Lisboa, Gradiva, 2014, p. 328.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Início da viagem de Marco Polo, em 1271

Marco Polo saindo de Veneza, em 1271.  Pormenor de iluminura de um manuscrito de ca. 1400, da Biblioteca Bodleian, Universidade de Oxford.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Quand tu aimes il faut partir. Michel Estebe

Michel Estebe, Quand tu aimes il faut partir, 1991