- O senhor não vá. Parece que andam todos os dias aos tiros os partidários do doutor e os seus contrários. Além disso, se se juntarem, uns e outros, será para matarem os europeus por causa das alfândegas.
Sei que há algum exagero nestas informações, mas que de qualquer modo é fora de dúvida que a capital da China do Sul vive, há tempos a esta parte, em estado de revolta.
Cantão foi a única metrópole do Extremo Oriente que europeus e americanos conheceram durante séculos. Pequim permaneceu fechada para o mundo branco até ao último terço do século XIX. Os filhos do Céu, desejosos de conservarem isolados o seu vasto império, concederam Cantão como único porto em podiam dar entrada os navios das nações cristãs.
Quando os portugueses do século XVI ancoraram pela primeira vez em frente dessa cidade, viram que outros navegantes não europeus os haviam precedido no descobrimento. Eram os marinheiros árabes que, desde muito antes, aí tinham depósitos de mercadorias e uma mesquita. Durante cem anos, os capitães portugueses monopolizaram o comércio com Cantão, trazendo à Europa, pelo Cabo da Boa Esperança, as sedas e porcelanas. Os espanhóis adquiriram esses mesmos géneros em Manila, enviados pelos negociantes cantoneses e a Nau de Acapulco levava-os até Nova Espanha através do Pacífico.
Ia já bem adiantado o século XVII quando os ingleses começaram a visitar Cantão para carregarem nos seus navios o chá, erva cada vez mais apreciada na Europa e América, e que deu vida a uma navegação para abastecer os mercados de Liverpool, Salem, Boston e Nova Iorque. Essa afluência de barcos europeus e americanos fomentou a emigração indígena, à qual se deve o facto de todos os chineses espalhados pelo mundo serem das províncias do sul e considerarem Cantão a verdadeira capital, de preferência a Pequim.
Acumulando alguns desses emigrantes fortunas consideráveis na América, o seu desejo foi voltarem para Cantão para as desfrutarem, aumentando a riqueza da cidade. Os que não regressaram à pátria mantiveram correspondência com as famílias, e tudo isso fez que Cantão seguisse o movimento liberal da nossa época, pensando de maneira diferente do resto do Império.
Têm sido cantoneses o mais ilustrados chineses dos últimos tempos. De há maio século para cá, a mocidade intelectual de Cantão tem completado os estudos nos Estados Unidos e na Europa. Alem disso, esses chineses do sul são mais inquietos e menos pacientes que os do norte. Os seus antepassados foram muitas vezes piratas ou viveram nas montanhas como rebeldes. Nos últimos anos do Império, os cantoneses entoavam pelas ruas cantigas injuriosas para o Filho do Céu e governantes de Pequim, sem que as autoridades imperiais da cidade ousassem tomar providências contra tais irreverências.
Como era lógico, o movimento republicano que pôs termo à dinastia dos Muito Puros teve origem em Cantão. Mas estabelecida a República, os filhos desta cidade recusaram-se a continuar a ser governados de Pequim, como no tempo do Império, declarando-se independentes e constituindo a chamada República do sul.
Este separatismo não é um coisa incidental, inventada pelas divergências dos partidos políticos. Na realidade, existem duas Chinas, completamente diferentes. O habitante de Pequim, de estatura elevada, sereno de rosto, parco de palavras, meio tártaro e meio mandchu, não se parece com o chinês exuberante, imaginativo, de individualismo ingovernável, que povoa as províncias meridionais e que, ao espalhar-se como emigrante pela América, se intitula orgulhosamente cantonês.
O doutor Sun Yat Sen, fundador da República do sul e seu eterno Presidente, é um médico de Cantão, que estudou nos Estados Unidos, trabalhando com energia no tempo do Império para fazer triunfar a República. Agora porém dentro da sua própria casa luta com adversários numerosos, que lhe dificultam a politica interna e, além disso, faz frente às nações estrangeiras, mantenedoras do governo de Pequim, que se negam a reconhecer a República do sul.
No momento actual sustenta luta aberta com todas as potências. Estas cobram rendimentos das alfândegas chinesas e, depois de haverem guardado parte deles para indemnizações concedidas há anos, entregam o resto ao governo de Pequim. O doutor Presidente do sul opõe-se a que as potências intervenham nas alfândegas dependentes de Cantão, se elas não se comprometerem a entregar-lhe excesso, dado até agora aos seus inimigos de Pequim.
Encontram-se actualmente ancorados no rio Pérola navios de guerra de todas as nações que têm interesses na China, para intimidarem Sun Yat Sen com essa demonstração naval.
Vicente Blasco Ibañez, A Volta ao Mundo. 2ª edição, Lisboa, Livraria Peninsular Editora, 1944. 2º vol., p. 171-174. A edição original, com o título La vuelta al mundo de un novelista é de1925. Informações úteis sobre V. Blasco Ibañez podem ser encontradas no site http://www.blascoibanez.es/index.html, da Fundación Centro de Estúdios Vicente Blasco Ibañez.















































