Fermina Daza e Florentino Ariza tinham ouvido tudo da mesa, mas o comandante não parecia importar-se com isso. Continuou a comer em silencio e via-se-lhe o mau humor até na maneira como violou as regras da etiqueta que sustentavam a reputação lendária dos comandantes do rio. Rebentou com a ponta da faca os quatro ovos estrelados e arrebanhou-os no seu prato com pedaços enormes de banana verde que metia inteiros na boca, mastigando-os com um deleite selvagem. Fermina Daza e Florentino Ariza observavam-no sem falar, à espera que fossem lidas as notas finais num banco da escola. Não tinham trocado uma palavra enquanto durou o diálogo com a patrulha sanitária nem faziam a menor ideia do que ia ser das suas vidas, mas ambos sabiam que o comandante estava a pensar por eles: via-se pelo latejar das fontes.
Enquanto ele despachava a ração dos ovos, a bandeja das rodelas de banana, o jarro de café com leite, o navio saiu da baía com as caldeiras sossegadas, abriu caminho pelos canais através dos lençóis de tarulla, o lótus fluvial de flores roxas e folhas enormes em forma de coração, e voltou aos pântanos. A água apresentava-se em furta-cores devido ao mundo de peixes que flutuavam de lado, mortos com a dinamite dos pescadores furtivos, e os pássaros da terra e da água voavam em círculos sobre eles com pios metálicos. O vento das Caraíbas meteu-se pelas janelas com o rebuliço dos pássaros, e Fermina Daza sentiu no sangue p latejar desordenado do seu livre-arbítrio. À direita, turvo e parcimonioso, estuário do rio Grande de La Magdalena espraiava-se até ao outro lado do mundo.
Quando já não restava nada que se comesse nos pratos, o comandante limpou os lábios com a ponta da toalha e falou numa gíria impudente que acabou de uma vez por todas com o prestígio do bem falar dos comandantes do rio. Pois não falou por eles nem para ninguém, e tentava chegar a um acordo com a própria fúria. A sua conclusão, ao cabo de uma longa fieira de impropérios violentos, foi que não via como sair do imbróglio em que se tinha metido com a bandeira da cólera.
Florentino Ariza escutou-o sem pestanejar. Depois olhou pela janela o círculo completo do quadrante da rosa náutica, o horizonte nítido, o céu de Dezembro sem uma única nuvem, as águas para sempre navegáveis e disse:
- Sigamos em frente, sempre em frente, outra vez até La Dorada.
Fermina Daza sentiu-se estremecer porque reconheceu a antiga voz iluminada pela graça do Espírito Santo e olhou para o comandante: ele era o destino. Mas o comandante não a viu, porque estava inundado pelo tremendo poder de inspiração de Florentino Ariza.
- Está a falar a sério? - perguntou-lhe.
- Desde que nasci - disse Florentino Ariza - nunca disse uma única coisa que não fosse a sério.
O comandante olhou para Fermina Daza e viu nas suas pestanas os primeiros pingos de um orvalho de Inverno. Depois olhou para Florentino Ariz, o seu domínio invencível, o seu amor impávido, e ficou assustado pela suspeita tardia de que é a vida, mais do que a morte, que não tem limites.
- E até quando pensa o senhor que podemos continuar neste ir e vir dum caralho? - perguntou-lhe.
Florentino Ariza tinha a resposta preparada há já cinquenta e três anos, sete meses e onze dias com todas as suas noites.
- Toda a vida - disse.
Gabriel Garcia Marquez, Amor nos Tempos de Cólera. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1987, p. 369-371.
quarta-feira, 7 de maio de 2014
terça-feira, 6 de maio de 2014
A viagem de Fermina Daza e Florentino Ariza (3). Gabriel Garcia Marquez
- Vai ser como morrer – disse.
Florentino Ariza surpreendeu-se porque era o adivinhar de um pensamento que não o abandonava desde que começara a viagem de regresso. Nem ele nem ela podiam imaginar-se noutra casa que não fosse o camarote, comendo de maneira que não a do navio, integrados numa vida que lhes seria alheia para sempre. Era, com efeito, como morrer. Não conseguiu dormir mais. Ficou deitado na cama com as duas mãos cruzadas sob a nuca. A um dado momento, a pontada de América Vicuña fê-lo retorcer-se de dor e não conseguiu adiar a verdade por mais tempo: fechou-se na casa de banho e chorou à sua vontade, sem pressa, até à última lágrima. Só então teve a coragem de confessar quanto a tinha amado.
Quando se levantaram já vestidos para o desembarque, tinham deixado ara trás os canais e os pântanos da antiga passagem espanhola e navegavam por entre os escombros dos barcos e dos tanques de óleos mortos da baía. Erguia-se uma quinta-feira radiosa sobre as cúpulas douradas da cidade dos vice-reis, mas, do tombadilho, Fermina Daza não conseguiu suportar a pestilência das suas glórias, a arrogância dos seus baluartes profanados pelas iguanas: o horror da vida real. Nem ele, nem ela, sem o dizerem, se sentiram capazes de se renderem de um modo tão fácil.
Encontraram o comandante na sala de jantar, num estado de desordem que não estava de acordo com a pulcritude dos seus hábitos: a barba por fazer, os olhos raiados pela insónia, a roupa transpirada da noite anterior, a fala alterada pelos arrotos a anis. Zenaida dormia. Começava a tomar o pequeno almoço em silêncio quando um barco a gasolina da Inspecção Sanitária mandou parar o barco.
O comandante, da ponte de comando, respondeu aos gritos às perguntas da patrulha armada. Queriam saber que tipo de peste traziam a bordo, quantos passageiros vinham, quanto estavam doentes, que possibilidades havia de novos contágios. O comandante respondeu que só traziam três passageiros, todos com cólera, e que se mantinham em total reclusão. Nem os que deviam ter subido em La Dorada, nem os vinte e sete homens da tripulação tinham tido qualquer contacto com eles. Mas o comandante da patrulha não se deu por satisfeito e ordenou que saíssem da baía e que esperassem no pântano de Las Mercedes até às duas da tarde, enquanto se preparavam os trâmites para o navio ficar de quarentena. O comandante soltou um palavrão de carroceiro e com um gesto feito com a mão mandou o piloto dar meia volta e voltar aos pântanos.
-Gabriel Garcia Marquez, Amor nos Tempos de Cólera. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1987, p. 368-369.
segunda-feira, 5 de maio de 2014
A viagem de Fermina Daza e Florentino Ariza (2). Gabriel Garcia Marquez
Na véspera da chegada fizeram uma festa com grinaldas de papel e lanternas coloridas. A chuva cessou ao entardecer. O comandante e Zenaida dançaram muito juntos os primeiros boleros que nesses anos começavam a estilhaçar corações. Florentino Ariza atreveu-se a sugerir a Fermina Daza que dançassem a sua valsa confidencial, mas ela recusou. No entanto, durante toda a noite, marcou o compasso com a cabeça e os saltos dos sapatos e houve até um momento em que dançou sentada sem dar-se conta, enquanto o comandante se confundia com a sua meiga energúmena na penumbra do bolero. Bebeu tanto licor de anis que tiveram de ajudá-la a subir as escadas e teve um ataque de riso com lágrimas que chegou a assustar toda a gente. Porém, quando conseguiu controlá-lo no remanso perfumado do camarote, fizeram um amor tranquilo e são, de avós maltratados, que iria fixar-se na sua memória como a melhor recordação daquela viagem lunática. Já não se sentiam como noivos recentes, ao contrário do que supunham o comandante e Zenaida e ainda menos como amantes tardios. Era como se tivessem saltado por cima do árduo calvário da vida conjugal e tivessem entrado directamente e sem mais delongas no amor. Seguiam em silêncio como dois velhos esposos escaldados pela vida, para lá das armadilhas da paixão, para lá das trapaças brutais das ilusões dos reflexos dos desenganos: para lá do amor. Pois tinham vivido juntos o suficiente para se darem conta de que o amor era amor em qualquer tempo e em qualquer lugar, mas tanto mais denso quanto mais próximo da morte.
Acordaram às seis. Ela com a dor de cabeça perfumada de anis e com o coração aturdido pela sensação de que o doutor Juvenal Urbino tinha voltado, mais gordo e mais jovem do que quando caíra da árvore e estava sentado na cadeira de baloiço à espera dela à porta de casa. No entanto estava suficientemente lúcida para dar-se conta de que não era o efeito do anis mas sim da iminência do regresso.
Gabriel Garcia Marquez, Amor nos Tempos de Cólera. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1987, p. 367-368.
Acordaram às seis. Ela com a dor de cabeça perfumada de anis e com o coração aturdido pela sensação de que o doutor Juvenal Urbino tinha voltado, mais gordo e mais jovem do que quando caíra da árvore e estava sentado na cadeira de baloiço à espera dela à porta de casa. No entanto estava suficientemente lúcida para dar-se conta de que não era o efeito do anis mas sim da iminência do regresso.
Gabriel Garcia Marquez, Amor nos Tempos de Cólera. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1987, p. 367-368.
sábado, 3 de maio de 2014
A viagem de Fermina Daza e Florentino Ariza (1). Gabriel Garcia Marquez
Durante o dia jogavam às cartas, comiam até não poder mais, faziam umas sestas de granito que os deixavam exaustos e mal o sol descia, davam largas à orquestra e bebiam licor de anis com salmão passando dos limites da saciedade. Foi uma viagem rápida, com o navio leve e águas favoráveis, melhoradas pelas torrentes que se precipitavam dos cumes onde choveu tanto naquela semana como durante todo o trajecto. Algumas aldeias disparavam tiros de canhão misericordiosos para afastar a cólera e eles agradeciam com um rugido triste. Os navios de qualquer companhia que se cruzavam com eles pelo caminho mandavam-lhe sinais de condolências. Na povoação de Magangué, onde nasceu Mercedes, carregaram lenha para o resto da viagem.
Fermina Daza assustou-se quando começou a sentir a sirene do navio dentro do ouvido são, mas, no segundo dia de anis, ouvia melhor dos dois. Descobriu que as rosas tinham mais perfume do que antes, que os pássaros ao amanhecer cantavam muito melhor que antes e que Deus tinha feito um manatim* e o colocara no areal de Tamalameque só para a acordar.
O comandante ouviu-o, deixou o navio à deriva e viram por fim a matrona enorme a amamentar a sua cria nos braços. Nem Florentino nem Fermina se deram conta de quanto se confundiam: ela ajudava-.o com os clisteres, levantava-se antes deles para lhe escovar a dentadura postiça que ele deixava no copo enquanto dormia e resolveu o problema dos óculos perdidos, pois conseguia ler e passajar com os dele. Certa manhã, ao acordar, viu-o na sombra a pregar um botão na camisa e apressou-se a fazê-lo antes que se repetisse a frase ritual de fazerem falta duas esposas. Em troca, a única coisa que ela precisou dele foi que lhe pusesse uma ventosa por causa de uma dor nas costas.
Florentino Ariza, pelo seu lado, pôs-se a remexer nas nostalgias com o violino da orquestra e em meio dia foi capaz de executar para ela a valsa d'A Deusa Coroada, e tocou-a durante horas até o obrigarem a parar. Uma noite, pela primeira vez na sua via, Fermina Daza acordou sufocada por um pranto que não era de raiva mas de pena, pela recordação dos velhinhos do bote assassinados à paulada pelo barqueiro. Por outro lado, a chuva incessante não a comoveu e pensou demasiado tarde que Paris talvez não tivesse sido tão lúgubre como ela achava, nem Santa Fé tinha tantos enterros pelas ruas. O sonho de outras viagens futuras com Florentino Ariza ergueu-se no horizonte: viagens malucas, sem tantos baús, sem compromissos sociais: viagens de amor.
Gabriel Garcia Marquez, Amor nos Tempos de Cólera. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1987, p. 366-367.
* Manatim ou peixe-boi. Mamífero de grande dimensões (chega quase aos três metros) que habita os grandes rios da América do Sul, nomeadamente o Amazonas.
Fermina Daza assustou-se quando começou a sentir a sirene do navio dentro do ouvido são, mas, no segundo dia de anis, ouvia melhor dos dois. Descobriu que as rosas tinham mais perfume do que antes, que os pássaros ao amanhecer cantavam muito melhor que antes e que Deus tinha feito um manatim* e o colocara no areal de Tamalameque só para a acordar.
O comandante ouviu-o, deixou o navio à deriva e viram por fim a matrona enorme a amamentar a sua cria nos braços. Nem Florentino nem Fermina se deram conta de quanto se confundiam: ela ajudava-.o com os clisteres, levantava-se antes deles para lhe escovar a dentadura postiça que ele deixava no copo enquanto dormia e resolveu o problema dos óculos perdidos, pois conseguia ler e passajar com os dele. Certa manhã, ao acordar, viu-o na sombra a pregar um botão na camisa e apressou-se a fazê-lo antes que se repetisse a frase ritual de fazerem falta duas esposas. Em troca, a única coisa que ela precisou dele foi que lhe pusesse uma ventosa por causa de uma dor nas costas.
Florentino Ariza, pelo seu lado, pôs-se a remexer nas nostalgias com o violino da orquestra e em meio dia foi capaz de executar para ela a valsa d'A Deusa Coroada, e tocou-a durante horas até o obrigarem a parar. Uma noite, pela primeira vez na sua via, Fermina Daza acordou sufocada por um pranto que não era de raiva mas de pena, pela recordação dos velhinhos do bote assassinados à paulada pelo barqueiro. Por outro lado, a chuva incessante não a comoveu e pensou demasiado tarde que Paris talvez não tivesse sido tão lúgubre como ela achava, nem Santa Fé tinha tantos enterros pelas ruas. O sonho de outras viagens futuras com Florentino Ariza ergueu-se no horizonte: viagens malucas, sem tantos baús, sem compromissos sociais: viagens de amor.
Gabriel Garcia Marquez, Amor nos Tempos de Cólera. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1987, p. 366-367.
* Manatim ou peixe-boi. Mamífero de grande dimensões (chega quase aos três metros) que habita os grandes rios da América do Sul, nomeadamente o Amazonas.
sexta-feira, 2 de maio de 2014
Cidade imaginária (5)
A passagem
Certificou-se, da porta aberta silenciosamente, que ele dormitava no cadeirão. A luz do fim da tarde penetrava pela janela parcialmente velada. Era possível vislumbrar lá fora o contorno verde escuro de uma colina arborizada e, num plano mais próximo, os telhados e os últimos pisos de um quarteirão urbano.
Compôs a manta que lhe protegia as pernas e passou-lhe ao de leve a mão pela testa. Ouviu-o sussurrar, como se o sonho irrompesse na semi-consciência:
- Porque vieste, então, a esta cidade?
Ela continuou o périplo pelo quarto, repondo a ordem dos objectos retirados do seu lugar próprio.
- Para continuar o jogo! Respondeu, baixinho, levando o candeeiro de pé para junto da secretária.
- Donde vens? Perguntou ele, continuando de olhos cerrados e respiração de adormecido.
- Do norte, de onde as cidades tem a energia do granito. - E da indústria. Pegou nos jornais espalhados pelo chão e cadeiras e deitou-os no cesto dos papéis.
- Onde domina o granito, há rios poderosos... - comentou ele.
- Vales profundos, margens arroteadas com sofrimento sem par. - E cidades que sonham pontes. Procurou no roupeiro sítio onde arrumar o casaco de malha abandonado nas costas da cadeira.
- Cidades que adoram ser cortejadas...
- Mas não seduzidas. Retorquiu ela.
- Pois, são cidades guerreiras... - Amas a tua cidade! Ele continuava sem dar sinais de ter acordado.
- A cidade onde crescemos acompanha-nos pela vida toda. Deitou-lhe água no copo e substituiu o guardanapo amarrotado.
- Que fazes por ela, pela tua cidade?
- Imagens.
Ele abriu os olhos, finalmente, e encarou-a fascinado.
- Capturas a tua cidade?
- Não é isso, acho eu. A fotografia dá atenção às coisas pequenas de que se faz a cidade. Repara: a roupa que se estende à janela nos domingos de sol. É sempre diferente. Há ruas que percorro centenas de vezes e, de cada vez, descubro novos aspectos, novos ângulos.
- Parece que descobriste a passagem entre as pedras e o tempo. - Sozinha?
- Há um amigo meu que me acompanha às vezes. Sorriu, enquanto lhe ajeitava o colarinho da camisa branca. - Mas parece mais interessado em mim que na cidade.
- Na tua cidade, as mulheres sorriem?
- Cantam com os lábios, sim, mais do que com a voz.
- E tu, sorris sempre assim?
Olharam-se de frente. Ele reparou no belo vestido estampado de flores em amarelo, verde e azul, uma mão acima do joelho, nas sandálias de couro que realçavam a elegância do corpo. Ela rodopiou sobre si própria, mirando-o furtivamente, para avaliar o efeito que produzia.
- Só para quem espera de mim este sorriso.
Texto publicado no semanário Região de Leiria, edição de 30 de Abril de 2014.
quinta-feira, 1 de maio de 2014
Depois das obras de Haussman, as mulheres de Paris parecem ter ficado mais feias. Karl Marx
Carta para Friedrich Engels, datada de 14 de Julho de 1869
Chegado a Paris na tarde de terça-feira da semana passada, voltei na segunda-feira [12 de Julho]. Consegui permanecer lá totalmente incógnito; no desembarque em Dieppe, passei pelos funcionários da alfândega e pela polícia sem que tenham intervindo, apesar de, curiosamente, algumas pessoas inocentes (entre elas um Yankee de cabelos negros que foi tomado por italiano) terem tido de apresentar os seus passaportes, e os Cavalheiros Franceses, em virtude de regulamentação recente, terem sido obrigados a revelar o nome. Em Paris fiquei alojado na rua Ste Placide, uma casa mobilada ao lado da dos Lafargue, sob o nome de A. Wiliams.
Circunscrevi a minha estadia à "family", com a qual flanei por quase toda a cidade. A zona em que habitam (Faubourg Saint-Germain ... etc.) não mudou muito, não foi haussmanizada. Como antes, ruas estreitas e mal-cheirosas. Em contrapartida, houve grande alterações na outra margem do Sena, a primeira das quais exactamente na frente do Louvre. As mulheres parecem ter ficado mais feias. O calor estava insuportável, sobretudo no comboio.
Nota:
O que levou Marx a correr a Paris naquele Verão de 1869 foi o estado de saúde física e psicológica do casal Lafargue: Laura, segunda filha de Karl Marx, nascida em 1845, casada desde Abril do ano anterior com Paul Lafargue. O casal tivera um filho, ainda em 1868, Charles-Étienne. Marx fora alertado para a situação frágil da família pelo pai de Paul, o médico François Lafargue.
O risco da viagem de Londres a Paris para Karl Marx residia na circunstância de ter sido proibido de entrar em França, na sequência da publicação em 1852 da obra 18 Brumaire de Louis Bonaparte. O pai e avó que de forma clandestina atravessou a Mancha em 1869 tinha 51 anos.
Karl Marx, Le Christophe Colomb du Capital. Textes choisis et présentés par Jean-Jacques Marie. Paria, La Quinzaine Littéraire, 2006, p. 190-191.
Chegado a Paris na tarde de terça-feira da semana passada, voltei na segunda-feira [12 de Julho]. Consegui permanecer lá totalmente incógnito; no desembarque em Dieppe, passei pelos funcionários da alfândega e pela polícia sem que tenham intervindo, apesar de, curiosamente, algumas pessoas inocentes (entre elas um Yankee de cabelos negros que foi tomado por italiano) terem tido de apresentar os seus passaportes, e os Cavalheiros Franceses, em virtude de regulamentação recente, terem sido obrigados a revelar o nome. Em Paris fiquei alojado na rua Ste Placide, uma casa mobilada ao lado da dos Lafargue, sob o nome de A. Wiliams.
Circunscrevi a minha estadia à "family", com a qual flanei por quase toda a cidade. A zona em que habitam (Faubourg Saint-Germain ... etc.) não mudou muito, não foi haussmanizada. Como antes, ruas estreitas e mal-cheirosas. Em contrapartida, houve grande alterações na outra margem do Sena, a primeira das quais exactamente na frente do Louvre. As mulheres parecem ter ficado mais feias. O calor estava insuportável, sobretudo no comboio.
Nota:
O que levou Marx a correr a Paris naquele Verão de 1869 foi o estado de saúde física e psicológica do casal Lafargue: Laura, segunda filha de Karl Marx, nascida em 1845, casada desde Abril do ano anterior com Paul Lafargue. O casal tivera um filho, ainda em 1868, Charles-Étienne. Marx fora alertado para a situação frágil da família pelo pai de Paul, o médico François Lafargue.
O risco da viagem de Londres a Paris para Karl Marx residia na circunstância de ter sido proibido de entrar em França, na sequência da publicação em 1852 da obra 18 Brumaire de Louis Bonaparte. O pai e avó que de forma clandestina atravessou a Mancha em 1869 tinha 51 anos.
Karl Marx, Le Christophe Colomb du Capital. Textes choisis et présentés par Jean-Jacques Marie. Paria, La Quinzaine Littéraire, 2006, p. 190-191.
quarta-feira, 30 de abril de 2014
Cinco semanas de balão (1). Edouard Riou
1. Capa da 1ª
edição da obra de Jules Verne Cinq Semaines en ballon, J.
Hetzel et Compagnie, 1863. Ilustrações de Edouard Riou (1833-1900)
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2 - Le soir même, Kennedy, moitié inquiet, moitié exaspéré,
prenait le chemin de fer à General Railway station, et le lendemain il arrivait
à Londres.
3 - La cale du Resolute fut aménagée de manière à loger
l’aérostat ; il y fut transporté avec les plus grandes précautions dans la
journée du 18 février ; on l’emmagasina au fond du navire, de manière à
prévenir tout accident ; la nacelle et ses accessoires, les ancres, les cordes,
les vivres, les caisses à eau que l’on devait remplir à l’arrivée, tout fut
arrimé sous les yeux de Fergusson.
4 - «Voyez-vous, mes amis, quand on a goûté de ce genre de
locomotion, on ne peut plus s’en passer ; aussi, à notre prochaine expédition,
au lieu d’aller de côté, nous irons droit devant nous en montant toujours.
- Bon ! dans la lune alors, dit un auditeur émerveillé.
5 – Les bagages des trois voyageurs furent transportés à la
maison du consul. On se disposait à débarquer le ballon sur la plage de
Zanzibar ; il y avait près du mât des signaux un emplacement favorable, auprès
d’une énorme construction qui l’eut abrité des vents d’est. Cette grosse tour,
semblable à un tonneau dressé sur sa base, et près duquel la tonne d’Heidelberg
n’eut été qu’un simple baril, servait de fort, et sur sa plate-forme veillaient
des Beloutchis armés de lances, sorte de garnisaires fainéants et braillards.
6 - Les ancres, les cordes, les instruments, les couvertures
de voyage, la tente, les vivres, les armes, durent prendre dans la nacelle la
place qui leur était assignée ; la provision d’eau fut faite à Zanzibar. Les
deux cents livres de lest furent réparties dans cinquante sacs placés au fond
de la nacelle, mais cependant à portée de la main.
7 - Au bout de deux heures, le Victoria, poussé avec une
vitesse d’un peu plus de huit milles, gagna sensiblement la côte. Le docteur
résolut de se rapprocher de terre ; il modéra la flamme du chalumeau, et
bientôt le ballon descendit à 300 pieds du sol.
8 - Le Victoria passa près d’un village que, sur
sa carte, le docteur reconnut être le Kaole. Toute la population rassemblée
poussait des hurlements de colère et de crainte ; des flèches furent vainement
dirigées contre ce monstre des airs, qui se balançait majestueusement au-dessus
de toutes ces fureurs impuissantes.
9 - Le vent portait au sud, mais le docteur ne s’inquiéta
pas de cette direction ; elle lui permettait au contraire de suivre la route
tracée par les capitaines Burton et Speke.
10 - À midi, le docteur, en consultant sa carte, estima qu’il
se trouvait au-dessus du pays d’Uzaramo La campagne se montrait hérissée
de cocotiers, de papayers, de cotonniers, au-dessus desquels le Victoria
paraissait se jouer. Joe trouvait cette végétation toute naturelle, du moment
qu’il s’agissait de l’Afrique. Kennedy apercevait des lièvres et des cailles
qui ne demandaient pas mieux que de recevoir un coup de fusil ; mais c’eût été
de la poudre perdue, attendu l’impossibilité de ramasser le gibier.
11 - Le repas du soir fut préparé ; les voyageurs, excités
par leur promenade aérienne, firent une large brèche à leurs provisions.
«Quel chemin avons-nous fait aujourd’hui ?» demanda
Kennedy en avalant des morceaux inquiétants.
terça-feira, 29 de abril de 2014
Posso seguir viagem a teu lado? Haruki Murakami
- Tenho um favor a pedir-te - diz.
- Um favor?
- Posso seguir viagem a teu lado até chegarmos a Takamatsu? Não consigo descontrair-me quando vou sentada sem ninguém ao pé. Imagino sempre que vai aparecer alguém esquisito que se senta ao meu lado e depois já não consigo dormir. Quando comprei o bilhete disseram-me que eram tudo lugares separados, mas ao entrar vi logo que eram duplos. Preciso de passar pelas brasas antes de chegarmos, e tu pareces ser um tipo simpático. Pode ser?
- Não tem problema.
- Obrigado - diz ela. - "Em viagem, companhia, na vida, compaixão", como diz o ditado.
Haruki Murakami, Kafka à Beira-Mar, Alfragide, Leya, 2014, p. 30
- Um favor?
- Posso seguir viagem a teu lado até chegarmos a Takamatsu? Não consigo descontrair-me quando vou sentada sem ninguém ao pé. Imagino sempre que vai aparecer alguém esquisito que se senta ao meu lado e depois já não consigo dormir. Quando comprei o bilhete disseram-me que eram tudo lugares separados, mas ao entrar vi logo que eram duplos. Preciso de passar pelas brasas antes de chegarmos, e tu pareces ser um tipo simpático. Pode ser?
- Não tem problema.
- Obrigado - diz ela. - "Em viagem, companhia, na vida, compaixão", como diz o ditado.
Haruki Murakami, Kafka à Beira-Mar, Alfragide, Leya, 2014, p. 30
segunda-feira, 28 de abril de 2014
domingo, 27 de abril de 2014
A viagem de Fermina Daza (5). Gabriel Garcia Marquez
Na noite seguinte, com efeito, depois dele lhe ter ensinado
a dançar as valsas de Viena sob o céu sideral das Caraíbas, ele teve de ir à
casa de banho depois dela e quando voltou ao camarote encontrou-a nua na cama à
espera dele. Então foi ela quem tomou a iniciativa e entregou-se-lhe sem medo,
sem dor, com a alegria de uma aventura de mar alto, e sem mais vestígios de
cerimónia sangrenta além da rosa da honra no lençol. Ambos o fizeram bem, quase
como um milagre, e continuaram a fazê-lo bem de noite e de dia e cada vez
melhor durante o resto da viagem, e quando chegaram a La Rochelle entendiam-se
como velhos amantes.
Ficaram dezasseis meses na Europa, com base em Paris e
fazendo viagens curtas pelos países vizinhos. Durante esse tempo, fizeram amor
todos os dias e, mais de uma vez, nos domingos de Inverno, quando ficavam até à
hora de almoço a brincar na cama. Ele era um homem de bons ímpetos e, alem
disso, bem treinado, e ela não fora feita para perder com ninguém, de modo que
tiveram de se conformar com a partilha do poder na cama.
Gabriel Garcia Marquez, O Amor em Tempos de Cólera. Lisboa,
Publicações Dom Quixote, 1987, p. 174.
sábado, 26 de abril de 2014
A viagem de Fermina Daza (4). Gabriel Garcia Marquez
Então, tirou-lhe o lençol de cima e ela não só não se opôs
como o atirou para longe do beliche com um movimento rápido dos pés, porque já
não aguentava o calor. O seu corpo era ondulante e elástico, muito mais do que
quando estava vestida, e com um cheiro próprio a animal do campo que permitia
distingui-la entre todas as mulheres do mundo. Indefesa em plena luz, uma onde
de sangue a ferver subiu-lhe à cara e a única coisa de que se lembrou para o
ocultar foi pendurar-se ao pescoço do seu homem e beijá-lo profundamente, até
gastarem no beijo todo o ar que tinham para respirar.
Ele tinha consciência de que não a amava. Tinha casado com
ela porque gostava da sua altivez, da sua seriedade, da sua força, e também por
um grão de vaidade, mas, enquanto ela o beijava pela primeira vez, teve a
certeza de que não haveria nenhum obstáculo para que inventassem um grande
amor. Não falaram disso nessa primeira noite em que falaram de tudo até
amanhecer, nem haveriam de falar disso nunca. Mas, com o decorrer do tempo,
nenhum dos dois se enganou.
Ao amanhecer, quando adormeceram, ela continuava virgem, mas
não havia de ser por muito tempo.
Gabriel Garcia Marquez, O Amor em Tempos de Cólera. Lisboa,
Publicações Dom Quixote, 1987, p. 173.
sexta-feira, 25 de abril de 2014
A viagem de Fermina Daza (3). Gabriel Garcia Marquez
Então ele soube que tinham dobrado o cabo da boa esperança,
e voltou a pegar-lhe na mão grande e fofa e cobriu-a de beijinhos órfãos,
primeiro o metacarpo áspero, os longos dedos clarividentes, as unhas diáfanas,
e depois o hieróglifo do seu destino na palma suada. Ela não soube como foi que
a sua mão chegou até ao peito dele e tropeçou com alguma coisa que não
conseguiu decifrar. Ele disse-lhe: “É um escapulario”. Ela acariciou-lhe os
pêlos do peito e depois agarrou no matagal todo com os cinco dedos para
arrancar pela raiz. “Com mais força”, disse ele. Ela tentou até onde sabia que
não o magoava e depois foi a sua mão que procurou a mão dele perdida nas
trevas. Mas ele não a deixou entrelaçar-lhe os dedos e agarrou-lhe a mão pelo
pulso e foi-lha conduzindo ao longo do corpo com uma força invisível mas muito bem dirigida, até que ela sentiu o sopro ardente de um animal em carne viva, sem
forma corporal, mas ansioso e arvorado. Ao contrário do que ele imaginou, até
mesmo ao contrario do que ela teria imaginado, não retirou a mão, nem a deixou
inerte onde ele a pôs, e, encomendando-se de corpo e alma à Santíssima Virgem,
apertou os dentes com medo de rir da sua própria loucura, e começou a
identificar pelo tacto o inimigo encabritado, a conhecer o seu tamanho, a força
do seu braço, a extensão das suas asas, assustada com a sua determinação mas
compadecida da sua solidão, fazendo-o seu com uma curiosidade minuciosa que
alguém menos sabedor que o seu marido teria confundido com carícias. Ele apelou
para as suas últimas forças para resistir à vertigem do escrutínio mortal, até
que ela o soltou com uma graça infantil como se o tivesse atirado para o lixo.
- Nunca consegui perceber como é esse aparelho – disse.
Então ele explicou-lhe a sério com o seu método magistral,
enquanto lhe conduzia a mão pelos sítios que ia mencionando e ela deixava-o
levar-lha com uma obediência de aluna exemplar. Ele sugeriu, num momento
propício, que tudo aquilo era mais fácil com a luz acesa. Ia acendê-la, mas ela
deteve-lhe o braço dizendo: “Vejo melhor com as mãos”. Na verdade queria
acender a luz. Mas queria fazê-lo ela, sem que ninguém lho mandasse, e assim
foi. Ele viu-a então em posição fetal, alem de estar coberta pelo lençol, sob a
claridade repentina. Mas viu-a segurar outra vez sem afectações o animal da sua
curiosidade, virou-o do direito e do avesso, observou-o com um interesse que já
começava a parecer mais do que científico, e disse em conclusão: “É tão feio,
tão feio que ainda é mais feio que o das mulheres”. Ele concordou e assinalou
outros inconvenientes mais graves do que a fealdade. Disse: “É como o filho
mais velho: passa-se a vida a trabalhar para ele, a sacrificar tudo por ele, e
na hora da verdade acaba por fazer o que lhe der na real gana”. Ela continuou a
examiná-lo, perguntando para que servia isto e para que servia aquilo e quando
achou que estava bem informada, tomou-lhe o peso com as duas mãos, para
concluir que nem pelo peso valia a pena e deixou-o cair com uma careta de
menosprezo.
- Além do mais, acho que lhe sobram demasiadas coisas –
disse.
Ele ficou perplexo. A proposta original para a sua tese de
licenciatura tinha sido essa: a conveniência de simplificar o organismo humano.
Parecia antiquado, com muitas funções inúteis ou repetidas que foram imprescindíveis
para outras idades do género humano, mas não para a nossa. Sim: podia ser mais
simples e, por essa razão, menos vulnerável. Concluiu: “É uma coisa que só pode
ser feita por Deus, é claro, mas de qualquer maneira seria bom deixá-lo
estabelecido em termos teóricos”. Ela riu-se divertida, de um modo tão natural
que ele aproveitou a ocasião para a abraçar e deu-lhe o primeiro beijo na boca.
Ela correspondeu-lhe e ele continuou a dar-lhe beijos muito suaves nas faces,
no nariz, nas pálpebras, enquanto deslizava a mão por baixo do lençol, e
acariciou-lhe o púbis redondo e ralo: um púbis de japonesa. Ela não lhe afastou
a mão, mas conservou a sua em estado de alerta para o caso de ele avançar mais
um passo.
- Não vamos continuar com a aula de medicina – disse.
- Não – disse ele. – Esta vai ser de amor.
Gabriel Garcia Marquez, O Amor em Tempos de Cólera. Lisboa,
Publicações Dom Quixote, 1987, p. 171-173.
quinta-feira, 24 de abril de 2014
A viagem de Fermina Daza (2). Gabriel Garcia Marquez
O doutor Juvenal Urbino sentiu-a deslizar junto a ele como
um bichinho assustado, tentando afastar-se tanto quanto possível, num beliche
onde era difícil estarem dois sem se tocarem. Pegou-lhe na mão, fria e crispada
de terror, entrelaçou-lhe os dedos, e quase como num sussurro começou a
contar-lhe as suas recordações de outras viagens por mar. Ela estava novamente
tensa, porque, ao voltar à cama, deu conta que ele se despira completamente
enquanto ela estava na casa de banho, e isto reavivou-lhe o pânico do passo
seguinte. Mas o passo seguinte demorou várias horas, pois o doutor Urbino
continuou a falar muito devagar, enquanto se ia apoderando milímetro a
milímetro da confiança do seu corpo. Falou-lhe de Paris, do amor de Paris, dos
namorados de Paris que se beijavam na rua, nos transportes públicos, nos
terraços floridos dos cafés abertos ao hálito de fogo e aos acordeões lânguidos
do Verão e que faziam amor de pé nos cais do Sena sem que ninguém os
incomodasse. Enquanto falava na sombra, acariciou-lhe a curva do colo com as
pontas dos dedos, acariciou-lhe a penugem sedosa dos braços, o ventre evasivo,
e quando sentiu que a tensão tinha cedido fez uma primeira tentativa para lhe
levantar a camisa de dormir, mas ela impediu-o com um impulso típico do seu
carácter. Disse: “Sei fazer isso sozinha”. Tirou-a, com efeito, e depois ficou
tão imóvel que o doutor Urbino teria pensado que já não estava ali se não fosse
o calor solarengo do seu corpo nas trevas.
Passado um bocado voltou a pegar-lhe na mão e então sentiu-a
morna e solta, mas ainda húmida de um orvalho terno. Ficaram outro bocado
calados e imóveis, ele à espreita da ocasião para o passo seguinte, e ela à
espera dele sem saber donde, enquanto a escuridão se ia dilatando com a sua
respiração cada vez mais intensa. Ele largou-a então e deu um salto no vazio:
humedeceu com a língua a ponta do dedo anelar, tocou-lhe ao de leve no mamilo
desprevenido e ela sentiu uma descarga de morte como se lhe tivessem tocado num
nervo vivo. Ficou contente por estar às escuras para que ele não visse o rubor intenso que a estremeceu até às raízes do crânio. “Calma”, disse-lhe ele, muito
sereno. “Não te esqueças que os conheço”. Sentiu-a sorrir e a sua voz foi doce
e nova nas trevas.
- Lembro-me muito bem – disse – e ainda não me passou a
raiva.
Então ele soube que tinham dobrado o cabo da boa esperança
[...]
Gabriel Garcia Marquez, O Amor em Tempos de Cólera. Lisboa,
Publicações Dom Quixote, 1987, p. 170-171.
quarta-feira, 23 de abril de 2014
A viagem de Fermina Daza (1). Gabriel Garcia Marquez
Nem na primeira noite de mar bravo, nem nas seguintes de navegação tranquila, nem nunca na sua muito longa vida matrimonial ocorreram os actos de barbárie temidos por Fermina Daza. A primeira, apesar do tamanho do barco e dos luxos do camarote, foi uma repetição horrível da escuna de Riohacha, e o marido foi um médico solícito que não dormiu nem um instante para a consolar, que era a única coisa que um médico demasiado eminente sabia fazer contra o enjoo. Mas a tempestade amainou ao terceiro dia , depois do porto de La Guayra, e já nessa altura tinham estado tanto tempo juntos, haviam conversado tanto que se sentiam amigos de longa data. Na quarta noite, quando ambos reataram os seus hábitos normais, o doutor Juvenal Urbino surpreendeu-se com o facto de a sua jovem esposa não rezar antes de dormir. Ela foi sincera com ele: a hipocrisia das freiras tinha-lhe criado uma aversão contra os rituais, mas a sua fé estava intacta e tinha aprendido a conservá-la em silencio. Disse: “Prefiro entender-me directamente com Deus”. Ele compreendeu as suas razões e desde aí cada um praticou a sua religião à sua maneira. Tinham noivado breve, mas bastante informal para a época, pois o doutor Urbino visitava-a em casa, sem serem vigiados, todas os dias ao fim da tarde. Ela não lhe teria permitido nem que ele lhe tocasse na ponta dos dedos sem a bênção episcopal, mas ele também não o tinha tentado. Foi na primeira noite de mar calmo, já na cama mas ainda vestidos, que ele iniciou as primeiras carícias, e fê-lo com tanto cuidado que a ela lhe pareceu natural a sugestão para que vestisse a camisa de dormir. Foi trocar de roupa na casa de banho, mas antes apagou as luzes do camarote e, quando saiu com a camisa de noite, calafetou com trapos as frinchas da porta para deixar a cama na mais completa escuridão. Enquanto o fazia, disse de bom humor:
- Que queres, doutor? É a primeira vez que durmo com um desconhecido.
Gabriel Garcia Marquez, O Amor em Tempos de Cólera. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1987, p. 169-170.
- Que queres, doutor? É a primeira vez que durmo com um desconhecido.
Gabriel Garcia Marquez, O Amor em Tempos de Cólera. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1987, p. 169-170.
terça-feira, 22 de abril de 2014
segunda-feira, 21 de abril de 2014
A passagem do Styx. Joachim Patinir
Joachim Patinir (1485-1524), Traversée du monde souterrain [entre 1515 e 1524],
(Musée du Prado, Madrid).
domingo, 20 de abril de 2014
A viagem de Lorenzo Daza. Gabriel Garcia Marquez
“De modo que lhe vim fazer uma súplica”, disse Lorenzo Daza.
Molhou a ponta do charuto na aguardente de anis, deu-lhe uma chupadela sem fumo
e concluiu com a voz embargada:
- Afaste-se do nosso caminho.
Florentino Ariza tinha-o escutado entre goles de aguardente
de anis, e tão absorto estava na revelação do passado de Fermina Daza [filha de
Lorenzo Daza] que nem sequer se perguntou que diria quando tivesse que falar.
Mas, chegado o momento, compenetrou-se de que fosse o que fosse que dissesse
comprometeria o seu destino.
- O senhor falou com ela? – perguntou.
- Isso não lhe diz respeito – respondeu Lorenzo Daza.
- Pergunto-lho porque me parece que quem tem de decidir é
ela.
- Nada disso – disse Lorenzo Daza. – Isto é um assunto de homens
e resolve-se entre homens.
O tom tinha-se tornado ameaçador e um cliente de uma mesa
próxima voltou-se para os observar. Florentino Ariza falou com a voz mais ténue
mas com a determinação mais imperiosa de que foi capaz:
- De todos os modos – disse – não lhe posso dar qualquer
resposta sem saber o que ela pensa. Seria uma traição.
Então Lorenzo Daza encostou-se para trás na cadeira com as
pálpebras avermelhadas e húmidas, e o olho esquerdo girou na sua órbita e ficou
torcido para fora. Também baixou a voz.
- Não me obrigue a dar-lhe um tiro – disse.
Florentino Ariza sentiu que as entranhas se lhe enchiam de
uma espuma fria. Mas a voz não lhe tremeu porque também ele se sentiu iluminado
pelo Espírito Santo-
- Dê-mo – disse, com a mão sobre o peito. – Não há maior
glória que morrer de amor.
Loren Daza teve de olhá-lo de lado, como os papagaios, para
o encontrar com o olho torcido. Não pronunciou as três palavras, pois mais
pareceu que as cuspiu sílaba a sílaba:
- Fi-lho-da-pu-ta!
Naquela mesma semana levou a filha para a viagem do
esquecimento. Não lhe dando qualquer explicação, irrompeu pelo seu quarto com
os bigodes sujos pela ira misturada com tabaco mastigado e ordenou-lhe que
fizesse as malas. Ela perguntou-lhe onde iam e ele respondeu: “Para a morte”.
Assustada com aquela resposta que se parecia de mais com a verdade, decidiu
fazer-lhe frente com a mesma coragem dos dias anteriores, mas ele puxou do
cinto com fivela de cobre maciço e deu uma chicotada na mesa que ressoou por
toda a casa como o disparo de uma espingarda. Fermina Daza conhecia muito bem
até onde podia ir a sua própria força e quando a devia utilizar, de modo que
fez uma mala com duas esteiras e uma rede, e meteu em dois grandes baús todas
as suas roupas, com a certeza de que esta era ma viagem sem regresso. Antes de
se vestir, fechou-se na casa de banho e conseguiu escrever a Florentino Ariza
uma breve carta de despedida num folha arrancada do rolo de papel higiénico.
Depois cortou pela nuca uma trança completa com a tesoura de podar, enrolou-a
dentro de um estojo de veludo bordado a fio de ouro e enviou-o juntamente com a
carta.
Gabriel Garcia Marquez, O Amor em Tempos de Cólera. Lisboa,
Publicações Dom Quixote, 1987, p. 93-94.
sábado, 19 de abril de 2014
Depois de matar a noite nas tascas da capital, o vagabundo... Camilo José Cela
Às escuras sob a quente lona, por entre cadeiras de baloiço, aparadores, camas desmontadas e gaiolas vazias, aos saltos e safanões pelos caminhos e despenhadeiros de Castela, o vagabundo - que nunca pôs o nariz de fora a não ser para fumar um ou outro cigarro, não fosse o diabo fazer com que ele queimasse os móveis de Dom Frederico - viu-se em Madrid, ao cair da tarde, fresco e ligeiro como se não tivesse caminhado nem uma légua, coisa que, vendo bem, também não era mentira.
- Então? Fez boa viagem?
- Se fiz!
Depois de matar a noite nas tascas da capital - humildes e acolhedoras tabernas de tintorro e cerveja com gasosa; o palito de dentes espetado no queijo manchego; o passarinho frito e a anchova em vinagre: a sardinha em azeite, a ginjinha e os resultados dos jogos de futebol mostrados no quadro preto - a gastar uns tostões para obsequiar o motorista do camião, e depois de ter ido cumprimentar a menina Finita, que vivia em Gravina, nº 20, instituição que já não é nem uma sombra do que foi, o vagabundo, no dia seguinte, sai de Madrid como pensa que se deve sair de Madrid, ao meio dia em ponto e já a cair a bola do relógio da Puerta del Sol.
- Vamos embora?
- O senhor é que manda.
Camilo José Cela, Vagabundo ao Serviço de Espanha. Antologia organizada por Ricardo Bada, Porto, Asa, 2002 [1ª edição 1948], p. 131-132
- Então? Fez boa viagem?
- Se fiz!
Depois de matar a noite nas tascas da capital - humildes e acolhedoras tabernas de tintorro e cerveja com gasosa; o palito de dentes espetado no queijo manchego; o passarinho frito e a anchova em vinagre: a sardinha em azeite, a ginjinha e os resultados dos jogos de futebol mostrados no quadro preto - a gastar uns tostões para obsequiar o motorista do camião, e depois de ter ido cumprimentar a menina Finita, que vivia em Gravina, nº 20, instituição que já não é nem uma sombra do que foi, o vagabundo, no dia seguinte, sai de Madrid como pensa que se deve sair de Madrid, ao meio dia em ponto e já a cair a bola do relógio da Puerta del Sol.
- Vamos embora?
- O senhor é que manda.
Camilo José Cela, Vagabundo ao Serviço de Espanha. Antologia organizada por Ricardo Bada, Porto, Asa, 2002 [1ª edição 1948], p. 131-132
sexta-feira, 18 de abril de 2014
Sherlock Holmes no Porto. Donan Coyle
Havia tempo já que a saúde de Sherlock Holmes não parecia satisfatória. As sumidades médicas inglesas a quem o apresentei eram, como eu, de opinião que só uma prolongada estação no Sul da Europa podia restabelecê-lo. Aconselharam-lhe Nice, Cannes, as vilas da Riviera italiana. Mas Sherlock Holmes não se resolvia a abandonar Londres. Passava dias inteiros estendido sobre uma preguiçadeira de verga na nossa casa de Baker-Street, envolto em nuvens de fumo que continuamente se escapavam do seu cachimbo de cerejeira. Negava-se quando vinham procurá-lo, e já três vezes se recusara a auxiliar as diligencias do nosso conhecido inspector Lestrade, da Scotland-Yard. Durante seis meses uma só vez condescendeu em sair da sua inacção. Foi no caso do assassinato de Hyde Park, em que Homes apresentou o verdadeiro culpado quando o tribunal ia pronunciar a condenação de um inocente.
Um dia, porém, foi-me necessário vir ao Porto para salvar importantes valores comprometidos na falência da casa Tompson and C.o, exportadora de vinhos. Perguntei a Sherlock Holmes se lhe não seria desagradável acompanhar-me.
- Pois vamos lá, dr. Watson, respondeu prontamente. Aí está uma boa oportunidade de ver que tal me dou com um clima do Sul.
Pode calcular-se o júbilo com que recebi a aquiescência de Holmes, não só pela boa companhia que me proporcionava, mas ainda pela certeza de que a sua saúde muito havia de lucrar com o passeio.
A viagem dispôs magnificamente o meu amigo, e decerto os leitores se recordam de que, mal desembarcado, logo averiguou um caso de evasões do Aljube que tanta retumbância teve.
Em pouco tempo, Sherlock Holmes readquiriu a antiga energia. Abandonou o maldito vício da cocaína, e como a estada lhe fosse salutar no Porto, resolvemos fixar aí a residência por alguns anos. Mistress Hudson, a nossa governanta de Londres, veio ter connosco. Abandonámos o Hotel de Francfort, onde de começo nos instalámos. Alugámos casa. Reatámos a nossa antiga vida de Baker-Street. Bem depressa começaram a surgir por cima dos móveis, provetas e tubos de ensaio. Uma prateleira vergava ao peso de jornais relatando causas-crime. E já a um canto se anichara um forno de reverbero.
Foi então grande a série de causas célebres que a intervenção de Holmes elucidou. Não esqueceram ainda investigações como a do furto do Museu Zuaga, a do roubo da mala do correio de Braga, a da falsificação do Banco Lusitano, a do suposto filho do Conde de Campo Lindo e tantas outras.
O barulho que em torno destes casos fizeram os jornais foi considerável e por momentos abafou o ruído das questões políticas, que em Portugal são clamorosas.
Donan Coyle, introdução aos contos "O cadáver que se evade" e "O truc de Mr. Raymond" publicado no 1º vol. de Mundo Ilustrado, Porto, 1912.
O autor dos contos é João de Meira (1881-1913), usando o jocoso pseudónimo de Donan Coyle, médico, natural de Guimarães, que foi professor da Escola Médico-Cirúrgica do Porto e Director da Morgue do Porto.
Este texto foi publicado por Magalhães Basto em O Porto, na colecção "Antologia da Terra Portuguesa", Lisboa, Livraria Bertrand, s/d, [1960], p. 99-101.
Os dois contos de João de Meira foram republicados recentemente em Sherlock Holmes no Porto, de Donan Coyle (João de Meira). Colecção de minimis, nº 2, Ed. Sociedade Martins Sarmento, Guimarães, Dezembro de 2009.
Um dia, porém, foi-me necessário vir ao Porto para salvar importantes valores comprometidos na falência da casa Tompson and C.o, exportadora de vinhos. Perguntei a Sherlock Holmes se lhe não seria desagradável acompanhar-me.
- Pois vamos lá, dr. Watson, respondeu prontamente. Aí está uma boa oportunidade de ver que tal me dou com um clima do Sul.
Pode calcular-se o júbilo com que recebi a aquiescência de Holmes, não só pela boa companhia que me proporcionava, mas ainda pela certeza de que a sua saúde muito havia de lucrar com o passeio.
A viagem dispôs magnificamente o meu amigo, e decerto os leitores se recordam de que, mal desembarcado, logo averiguou um caso de evasões do Aljube que tanta retumbância teve.
Em pouco tempo, Sherlock Holmes readquiriu a antiga energia. Abandonou o maldito vício da cocaína, e como a estada lhe fosse salutar no Porto, resolvemos fixar aí a residência por alguns anos. Mistress Hudson, a nossa governanta de Londres, veio ter connosco. Abandonámos o Hotel de Francfort, onde de começo nos instalámos. Alugámos casa. Reatámos a nossa antiga vida de Baker-Street. Bem depressa começaram a surgir por cima dos móveis, provetas e tubos de ensaio. Uma prateleira vergava ao peso de jornais relatando causas-crime. E já a um canto se anichara um forno de reverbero.
Foi então grande a série de causas célebres que a intervenção de Holmes elucidou. Não esqueceram ainda investigações como a do furto do Museu Zuaga, a do roubo da mala do correio de Braga, a da falsificação do Banco Lusitano, a do suposto filho do Conde de Campo Lindo e tantas outras.
O barulho que em torno destes casos fizeram os jornais foi considerável e por momentos abafou o ruído das questões políticas, que em Portugal são clamorosas.
Donan Coyle, introdução aos contos "O cadáver que se evade" e "O truc de Mr. Raymond" publicado no 1º vol. de Mundo Ilustrado, Porto, 1912.
O autor dos contos é João de Meira (1881-1913), usando o jocoso pseudónimo de Donan Coyle, médico, natural de Guimarães, que foi professor da Escola Médico-Cirúrgica do Porto e Director da Morgue do Porto.
Este texto foi publicado por Magalhães Basto em O Porto, na colecção "Antologia da Terra Portuguesa", Lisboa, Livraria Bertrand, s/d, [1960], p. 99-101.
Os dois contos de João de Meira foram republicados recentemente em Sherlock Holmes no Porto, de Donan Coyle (João de Meira). Colecção de minimis, nº 2, Ed. Sociedade Martins Sarmento, Guimarães, Dezembro de 2009.
quinta-feira, 17 de abril de 2014
A viagem é geralmente o termo de um encontro com o mundo. Franck Michel
A viagem é geralmente o termo de um encontro com o mundo. Vamos em direção a um fim do mundo onde nos encontramos com o mundo. Desta imersão, ingerência ou convite nasce o principio de um possível encontro cultural e não apenas turístico. Deste modo, da identidade ao turismo a distancia é muitas vezes mais curta do que se pensa. De um lado, deparamo-nos com um regresso ao passado e à natureza com o objectivo de reforçar ou até de fixar um identidade em risco de perder reconhecimento em face do turbilhão da mundialização; do outro lado, está o sucesso da conservação e da preservação do legado ao qual se tenta insuflar um novo destino, turístico e mercantil, para que seja melhor (re)conhecido através da sua prévia "rentabilização". É um pouco desta maneira que todas as culturas se vêem puxadas para cima pelas suas raízes, depois realojadas num contexto que, afinal de contas, se assemelha a todos os outros, num espaço comum.
Franck Michel, Voyages Pluriels. Échanges et Mélanges. Paris, Éditions Livres du Monde, 2011, p. 105-106
Franck Michel, Voyages Pluriels. Échanges et Mélanges. Paris, Éditions Livres du Monde, 2011, p. 105-106
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