Fermina Daza e Florentino Ariza tinham ouvido tudo da mesa, mas o comandante não parecia importar-se com isso. Continuou a comer em silencio e via-se-lhe o mau humor até na maneira como violou as regras da etiqueta que sustentavam a reputação lendária dos comandantes do rio. Rebentou com a ponta da faca os quatro ovos estrelados e arrebanhou-os no seu prato com pedaços enormes de banana verde que metia inteiros na boca, mastigando-os com um deleite selvagem. Fermina Daza e Florentino Ariza observavam-no sem falar, à espera que fossem lidas as notas finais num banco da escola. Não tinham trocado uma palavra enquanto durou o diálogo com a patrulha sanitária nem faziam a menor ideia do que ia ser das suas vidas, mas ambos sabiam que o comandante estava a pensar por eles: via-se pelo latejar das fontes.
Enquanto ele despachava a ração dos ovos, a bandeja das rodelas de banana, o jarro de café com leite, o navio saiu da baía com as caldeiras sossegadas, abriu caminho pelos canais através dos lençóis de tarulla, o lótus fluvial de flores roxas e folhas enormes em forma de coração, e voltou aos pântanos. A água apresentava-se em furta-cores devido ao mundo de peixes que flutuavam de lado, mortos com a dinamite dos pescadores furtivos, e os pássaros da terra e da água voavam em círculos sobre eles com pios metálicos. O vento das Caraíbas meteu-se pelas janelas com o rebuliço dos pássaros, e Fermina Daza sentiu no sangue p latejar desordenado do seu livre-arbítrio. À direita, turvo e parcimonioso, estuário do rio Grande de La Magdalena espraiava-se até ao outro lado do mundo.
Quando já não restava nada que se comesse nos pratos, o comandante limpou os lábios com a ponta da toalha e falou numa gíria impudente que acabou de uma vez por todas com o prestígio do bem falar dos comandantes do rio. Pois não falou por eles nem para ninguém, e tentava chegar a um acordo com a própria fúria. A sua conclusão, ao cabo de uma longa fieira de impropérios violentos, foi que não via como sair do imbróglio em que se tinha metido com a bandeira da cólera.
Florentino Ariza escutou-o sem pestanejar. Depois olhou pela janela o círculo completo do quadrante da rosa náutica, o horizonte nítido, o céu de Dezembro sem uma única nuvem, as águas para sempre navegáveis e disse:
- Sigamos em frente, sempre em frente, outra vez até La Dorada.
Fermina Daza sentiu-se estremecer porque reconheceu a antiga voz iluminada pela graça do Espírito Santo e olhou para o comandante: ele era o destino. Mas o comandante não a viu, porque estava inundado pelo tremendo poder de inspiração de Florentino Ariza.
- Está a falar a sério? - perguntou-lhe.
- Desde que nasci - disse Florentino Ariza - nunca disse uma única coisa que não fosse a sério.
O comandante olhou para Fermina Daza e viu nas suas pestanas os primeiros pingos de um orvalho de Inverno. Depois olhou para Florentino Ariz, o seu domínio invencível, o seu amor impávido, e ficou assustado pela suspeita tardia de que é a vida, mais do que a morte, que não tem limites.
- E até quando pensa o senhor que podemos continuar neste ir e vir dum caralho? - perguntou-lhe.
Florentino Ariza tinha a resposta preparada há já cinquenta e três anos, sete meses e onze dias com todas as suas noites.
- Toda a vida - disse.
Gabriel Garcia Marquez, Amor nos Tempos de Cólera. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1987, p. 369-371.
quarta-feira, 7 de maio de 2014
terça-feira, 6 de maio de 2014
A viagem de Fermina Daza e Florentino Ariza (3). Gabriel Garcia Marquez
- Vai ser como morrer – disse.
Florentino Ariza surpreendeu-se porque era o adivinhar de um pensamento que não o abandonava desde que começara a viagem de regresso. Nem ele nem ela podiam imaginar-se noutra casa que não fosse o camarote, comendo de maneira que não a do navio, integrados numa vida que lhes seria alheia para sempre. Era, com efeito, como morrer. Não conseguiu dormir mais. Ficou deitado na cama com as duas mãos cruzadas sob a nuca. A um dado momento, a pontada de América Vicuña fê-lo retorcer-se de dor e não conseguiu adiar a verdade por mais tempo: fechou-se na casa de banho e chorou à sua vontade, sem pressa, até à última lágrima. Só então teve a coragem de confessar quanto a tinha amado.
Quando se levantaram já vestidos para o desembarque, tinham deixado ara trás os canais e os pântanos da antiga passagem espanhola e navegavam por entre os escombros dos barcos e dos tanques de óleos mortos da baía. Erguia-se uma quinta-feira radiosa sobre as cúpulas douradas da cidade dos vice-reis, mas, do tombadilho, Fermina Daza não conseguiu suportar a pestilência das suas glórias, a arrogância dos seus baluartes profanados pelas iguanas: o horror da vida real. Nem ele, nem ela, sem o dizerem, se sentiram capazes de se renderem de um modo tão fácil.
Encontraram o comandante na sala de jantar, num estado de desordem que não estava de acordo com a pulcritude dos seus hábitos: a barba por fazer, os olhos raiados pela insónia, a roupa transpirada da noite anterior, a fala alterada pelos arrotos a anis. Zenaida dormia. Começava a tomar o pequeno almoço em silêncio quando um barco a gasolina da Inspecção Sanitária mandou parar o barco.
O comandante, da ponte de comando, respondeu aos gritos às perguntas da patrulha armada. Queriam saber que tipo de peste traziam a bordo, quantos passageiros vinham, quanto estavam doentes, que possibilidades havia de novos contágios. O comandante respondeu que só traziam três passageiros, todos com cólera, e que se mantinham em total reclusão. Nem os que deviam ter subido em La Dorada, nem os vinte e sete homens da tripulação tinham tido qualquer contacto com eles. Mas o comandante da patrulha não se deu por satisfeito e ordenou que saíssem da baía e que esperassem no pântano de Las Mercedes até às duas da tarde, enquanto se preparavam os trâmites para o navio ficar de quarentena. O comandante soltou um palavrão de carroceiro e com um gesto feito com a mão mandou o piloto dar meia volta e voltar aos pântanos.
-Gabriel Garcia Marquez, Amor nos Tempos de Cólera. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1987, p. 368-369.
segunda-feira, 5 de maio de 2014
A viagem de Fermina Daza e Florentino Ariza (2). Gabriel Garcia Marquez
Na véspera da chegada fizeram uma festa com grinaldas de papel e lanternas coloridas. A chuva cessou ao entardecer. O comandante e Zenaida dançaram muito juntos os primeiros boleros que nesses anos começavam a estilhaçar corações. Florentino Ariza atreveu-se a sugerir a Fermina Daza que dançassem a sua valsa confidencial, mas ela recusou. No entanto, durante toda a noite, marcou o compasso com a cabeça e os saltos dos sapatos e houve até um momento em que dançou sentada sem dar-se conta, enquanto o comandante se confundia com a sua meiga energúmena na penumbra do bolero. Bebeu tanto licor de anis que tiveram de ajudá-la a subir as escadas e teve um ataque de riso com lágrimas que chegou a assustar toda a gente. Porém, quando conseguiu controlá-lo no remanso perfumado do camarote, fizeram um amor tranquilo e são, de avós maltratados, que iria fixar-se na sua memória como a melhor recordação daquela viagem lunática. Já não se sentiam como noivos recentes, ao contrário do que supunham o comandante e Zenaida e ainda menos como amantes tardios. Era como se tivessem saltado por cima do árduo calvário da vida conjugal e tivessem entrado directamente e sem mais delongas no amor. Seguiam em silêncio como dois velhos esposos escaldados pela vida, para lá das armadilhas da paixão, para lá das trapaças brutais das ilusões dos reflexos dos desenganos: para lá do amor. Pois tinham vivido juntos o suficiente para se darem conta de que o amor era amor em qualquer tempo e em qualquer lugar, mas tanto mais denso quanto mais próximo da morte.
Acordaram às seis. Ela com a dor de cabeça perfumada de anis e com o coração aturdido pela sensação de que o doutor Juvenal Urbino tinha voltado, mais gordo e mais jovem do que quando caíra da árvore e estava sentado na cadeira de baloiço à espera dela à porta de casa. No entanto estava suficientemente lúcida para dar-se conta de que não era o efeito do anis mas sim da iminência do regresso.
Gabriel Garcia Marquez, Amor nos Tempos de Cólera. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1987, p. 367-368.
Acordaram às seis. Ela com a dor de cabeça perfumada de anis e com o coração aturdido pela sensação de que o doutor Juvenal Urbino tinha voltado, mais gordo e mais jovem do que quando caíra da árvore e estava sentado na cadeira de baloiço à espera dela à porta de casa. No entanto estava suficientemente lúcida para dar-se conta de que não era o efeito do anis mas sim da iminência do regresso.
Gabriel Garcia Marquez, Amor nos Tempos de Cólera. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1987, p. 367-368.
sábado, 3 de maio de 2014
A viagem de Fermina Daza e Florentino Ariza (1). Gabriel Garcia Marquez
Durante o dia jogavam às cartas, comiam até não poder mais, faziam umas sestas de granito que os deixavam exaustos e mal o sol descia, davam largas à orquestra e bebiam licor de anis com salmão passando dos limites da saciedade. Foi uma viagem rápida, com o navio leve e águas favoráveis, melhoradas pelas torrentes que se precipitavam dos cumes onde choveu tanto naquela semana como durante todo o trajecto. Algumas aldeias disparavam tiros de canhão misericordiosos para afastar a cólera e eles agradeciam com um rugido triste. Os navios de qualquer companhia que se cruzavam com eles pelo caminho mandavam-lhe sinais de condolências. Na povoação de Magangué, onde nasceu Mercedes, carregaram lenha para o resto da viagem.
Fermina Daza assustou-se quando começou a sentir a sirene do navio dentro do ouvido são, mas, no segundo dia de anis, ouvia melhor dos dois. Descobriu que as rosas tinham mais perfume do que antes, que os pássaros ao amanhecer cantavam muito melhor que antes e que Deus tinha feito um manatim* e o colocara no areal de Tamalameque só para a acordar.
O comandante ouviu-o, deixou o navio à deriva e viram por fim a matrona enorme a amamentar a sua cria nos braços. Nem Florentino nem Fermina se deram conta de quanto se confundiam: ela ajudava-.o com os clisteres, levantava-se antes deles para lhe escovar a dentadura postiça que ele deixava no copo enquanto dormia e resolveu o problema dos óculos perdidos, pois conseguia ler e passajar com os dele. Certa manhã, ao acordar, viu-o na sombra a pregar um botão na camisa e apressou-se a fazê-lo antes que se repetisse a frase ritual de fazerem falta duas esposas. Em troca, a única coisa que ela precisou dele foi que lhe pusesse uma ventosa por causa de uma dor nas costas.
Florentino Ariza, pelo seu lado, pôs-se a remexer nas nostalgias com o violino da orquestra e em meio dia foi capaz de executar para ela a valsa d'A Deusa Coroada, e tocou-a durante horas até o obrigarem a parar. Uma noite, pela primeira vez na sua via, Fermina Daza acordou sufocada por um pranto que não era de raiva mas de pena, pela recordação dos velhinhos do bote assassinados à paulada pelo barqueiro. Por outro lado, a chuva incessante não a comoveu e pensou demasiado tarde que Paris talvez não tivesse sido tão lúgubre como ela achava, nem Santa Fé tinha tantos enterros pelas ruas. O sonho de outras viagens futuras com Florentino Ariza ergueu-se no horizonte: viagens malucas, sem tantos baús, sem compromissos sociais: viagens de amor.
Gabriel Garcia Marquez, Amor nos Tempos de Cólera. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1987, p. 366-367.
* Manatim ou peixe-boi. Mamífero de grande dimensões (chega quase aos três metros) que habita os grandes rios da América do Sul, nomeadamente o Amazonas.
Fermina Daza assustou-se quando começou a sentir a sirene do navio dentro do ouvido são, mas, no segundo dia de anis, ouvia melhor dos dois. Descobriu que as rosas tinham mais perfume do que antes, que os pássaros ao amanhecer cantavam muito melhor que antes e que Deus tinha feito um manatim* e o colocara no areal de Tamalameque só para a acordar.
O comandante ouviu-o, deixou o navio à deriva e viram por fim a matrona enorme a amamentar a sua cria nos braços. Nem Florentino nem Fermina se deram conta de quanto se confundiam: ela ajudava-.o com os clisteres, levantava-se antes deles para lhe escovar a dentadura postiça que ele deixava no copo enquanto dormia e resolveu o problema dos óculos perdidos, pois conseguia ler e passajar com os dele. Certa manhã, ao acordar, viu-o na sombra a pregar um botão na camisa e apressou-se a fazê-lo antes que se repetisse a frase ritual de fazerem falta duas esposas. Em troca, a única coisa que ela precisou dele foi que lhe pusesse uma ventosa por causa de uma dor nas costas.
Florentino Ariza, pelo seu lado, pôs-se a remexer nas nostalgias com o violino da orquestra e em meio dia foi capaz de executar para ela a valsa d'A Deusa Coroada, e tocou-a durante horas até o obrigarem a parar. Uma noite, pela primeira vez na sua via, Fermina Daza acordou sufocada por um pranto que não era de raiva mas de pena, pela recordação dos velhinhos do bote assassinados à paulada pelo barqueiro. Por outro lado, a chuva incessante não a comoveu e pensou demasiado tarde que Paris talvez não tivesse sido tão lúgubre como ela achava, nem Santa Fé tinha tantos enterros pelas ruas. O sonho de outras viagens futuras com Florentino Ariza ergueu-se no horizonte: viagens malucas, sem tantos baús, sem compromissos sociais: viagens de amor.
Gabriel Garcia Marquez, Amor nos Tempos de Cólera. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1987, p. 366-367.
* Manatim ou peixe-boi. Mamífero de grande dimensões (chega quase aos três metros) que habita os grandes rios da América do Sul, nomeadamente o Amazonas.
sexta-feira, 2 de maio de 2014
Cidade imaginária (5)
A passagem
Certificou-se, da porta aberta silenciosamente, que ele dormitava no cadeirão. A luz do fim da tarde penetrava pela janela parcialmente velada. Era possível vislumbrar lá fora o contorno verde escuro de uma colina arborizada e, num plano mais próximo, os telhados e os últimos pisos de um quarteirão urbano.
Compôs a manta que lhe protegia as pernas e passou-lhe ao de leve a mão pela testa. Ouviu-o sussurrar, como se o sonho irrompesse na semi-consciência:
- Porque vieste, então, a esta cidade?
Ela continuou o périplo pelo quarto, repondo a ordem dos objectos retirados do seu lugar próprio.
- Para continuar o jogo! Respondeu, baixinho, levando o candeeiro de pé para junto da secretária.
- Donde vens? Perguntou ele, continuando de olhos cerrados e respiração de adormecido.
- Do norte, de onde as cidades tem a energia do granito. - E da indústria. Pegou nos jornais espalhados pelo chão e cadeiras e deitou-os no cesto dos papéis.
- Onde domina o granito, há rios poderosos... - comentou ele.
- Vales profundos, margens arroteadas com sofrimento sem par. - E cidades que sonham pontes. Procurou no roupeiro sítio onde arrumar o casaco de malha abandonado nas costas da cadeira.
- Cidades que adoram ser cortejadas...
- Mas não seduzidas. Retorquiu ela.
- Pois, são cidades guerreiras... - Amas a tua cidade! Ele continuava sem dar sinais de ter acordado.
- A cidade onde crescemos acompanha-nos pela vida toda. Deitou-lhe água no copo e substituiu o guardanapo amarrotado.
- Que fazes por ela, pela tua cidade?
- Imagens.
Ele abriu os olhos, finalmente, e encarou-a fascinado.
- Capturas a tua cidade?
- Não é isso, acho eu. A fotografia dá atenção às coisas pequenas de que se faz a cidade. Repara: a roupa que se estende à janela nos domingos de sol. É sempre diferente. Há ruas que percorro centenas de vezes e, de cada vez, descubro novos aspectos, novos ângulos.
- Parece que descobriste a passagem entre as pedras e o tempo. - Sozinha?
- Há um amigo meu que me acompanha às vezes. Sorriu, enquanto lhe ajeitava o colarinho da camisa branca. - Mas parece mais interessado em mim que na cidade.
- Na tua cidade, as mulheres sorriem?
- Cantam com os lábios, sim, mais do que com a voz.
- E tu, sorris sempre assim?
Olharam-se de frente. Ele reparou no belo vestido estampado de flores em amarelo, verde e azul, uma mão acima do joelho, nas sandálias de couro que realçavam a elegância do corpo. Ela rodopiou sobre si própria, mirando-o furtivamente, para avaliar o efeito que produzia.
- Só para quem espera de mim este sorriso.
Texto publicado no semanário Região de Leiria, edição de 30 de Abril de 2014.
quinta-feira, 1 de maio de 2014
Depois das obras de Haussman, as mulheres de Paris parecem ter ficado mais feias. Karl Marx
Carta para Friedrich Engels, datada de 14 de Julho de 1869
Chegado a Paris na tarde de terça-feira da semana passada, voltei na segunda-feira [12 de Julho]. Consegui permanecer lá totalmente incógnito; no desembarque em Dieppe, passei pelos funcionários da alfândega e pela polícia sem que tenham intervindo, apesar de, curiosamente, algumas pessoas inocentes (entre elas um Yankee de cabelos negros que foi tomado por italiano) terem tido de apresentar os seus passaportes, e os Cavalheiros Franceses, em virtude de regulamentação recente, terem sido obrigados a revelar o nome. Em Paris fiquei alojado na rua Ste Placide, uma casa mobilada ao lado da dos Lafargue, sob o nome de A. Wiliams.
Circunscrevi a minha estadia à "family", com a qual flanei por quase toda a cidade. A zona em que habitam (Faubourg Saint-Germain ... etc.) não mudou muito, não foi haussmanizada. Como antes, ruas estreitas e mal-cheirosas. Em contrapartida, houve grande alterações na outra margem do Sena, a primeira das quais exactamente na frente do Louvre. As mulheres parecem ter ficado mais feias. O calor estava insuportável, sobretudo no comboio.
Nota:
O que levou Marx a correr a Paris naquele Verão de 1869 foi o estado de saúde física e psicológica do casal Lafargue: Laura, segunda filha de Karl Marx, nascida em 1845, casada desde Abril do ano anterior com Paul Lafargue. O casal tivera um filho, ainda em 1868, Charles-Étienne. Marx fora alertado para a situação frágil da família pelo pai de Paul, o médico François Lafargue.
O risco da viagem de Londres a Paris para Karl Marx residia na circunstância de ter sido proibido de entrar em França, na sequência da publicação em 1852 da obra 18 Brumaire de Louis Bonaparte. O pai e avó que de forma clandestina atravessou a Mancha em 1869 tinha 51 anos.
Karl Marx, Le Christophe Colomb du Capital. Textes choisis et présentés par Jean-Jacques Marie. Paria, La Quinzaine Littéraire, 2006, p. 190-191.
Chegado a Paris na tarde de terça-feira da semana passada, voltei na segunda-feira [12 de Julho]. Consegui permanecer lá totalmente incógnito; no desembarque em Dieppe, passei pelos funcionários da alfândega e pela polícia sem que tenham intervindo, apesar de, curiosamente, algumas pessoas inocentes (entre elas um Yankee de cabelos negros que foi tomado por italiano) terem tido de apresentar os seus passaportes, e os Cavalheiros Franceses, em virtude de regulamentação recente, terem sido obrigados a revelar o nome. Em Paris fiquei alojado na rua Ste Placide, uma casa mobilada ao lado da dos Lafargue, sob o nome de A. Wiliams.
Circunscrevi a minha estadia à "family", com a qual flanei por quase toda a cidade. A zona em que habitam (Faubourg Saint-Germain ... etc.) não mudou muito, não foi haussmanizada. Como antes, ruas estreitas e mal-cheirosas. Em contrapartida, houve grande alterações na outra margem do Sena, a primeira das quais exactamente na frente do Louvre. As mulheres parecem ter ficado mais feias. O calor estava insuportável, sobretudo no comboio.
Nota:
O que levou Marx a correr a Paris naquele Verão de 1869 foi o estado de saúde física e psicológica do casal Lafargue: Laura, segunda filha de Karl Marx, nascida em 1845, casada desde Abril do ano anterior com Paul Lafargue. O casal tivera um filho, ainda em 1868, Charles-Étienne. Marx fora alertado para a situação frágil da família pelo pai de Paul, o médico François Lafargue.
O risco da viagem de Londres a Paris para Karl Marx residia na circunstância de ter sido proibido de entrar em França, na sequência da publicação em 1852 da obra 18 Brumaire de Louis Bonaparte. O pai e avó que de forma clandestina atravessou a Mancha em 1869 tinha 51 anos.
Karl Marx, Le Christophe Colomb du Capital. Textes choisis et présentés par Jean-Jacques Marie. Paria, La Quinzaine Littéraire, 2006, p. 190-191.
quarta-feira, 30 de abril de 2014
Cinco semanas de balão (1). Edouard Riou
1. Capa da 1ª
edição da obra de Jules Verne Cinq Semaines en ballon, J.
Hetzel et Compagnie, 1863. Ilustrações de Edouard Riou (1833-1900)
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
2 - Le soir même, Kennedy, moitié inquiet, moitié exaspéré,
prenait le chemin de fer à General Railway station, et le lendemain il arrivait
à Londres.
3 - La cale du Resolute fut aménagée de manière à loger
l’aérostat ; il y fut transporté avec les plus grandes précautions dans la
journée du 18 février ; on l’emmagasina au fond du navire, de manière à
prévenir tout accident ; la nacelle et ses accessoires, les ancres, les cordes,
les vivres, les caisses à eau que l’on devait remplir à l’arrivée, tout fut
arrimé sous les yeux de Fergusson.
4 - «Voyez-vous, mes amis, quand on a goûté de ce genre de
locomotion, on ne peut plus s’en passer ; aussi, à notre prochaine expédition,
au lieu d’aller de côté, nous irons droit devant nous en montant toujours.
- Bon ! dans la lune alors, dit un auditeur émerveillé.
5 – Les bagages des trois voyageurs furent transportés à la
maison du consul. On se disposait à débarquer le ballon sur la plage de
Zanzibar ; il y avait près du mât des signaux un emplacement favorable, auprès
d’une énorme construction qui l’eut abrité des vents d’est. Cette grosse tour,
semblable à un tonneau dressé sur sa base, et près duquel la tonne d’Heidelberg
n’eut été qu’un simple baril, servait de fort, et sur sa plate-forme veillaient
des Beloutchis armés de lances, sorte de garnisaires fainéants et braillards.
6 - Les ancres, les cordes, les instruments, les couvertures
de voyage, la tente, les vivres, les armes, durent prendre dans la nacelle la
place qui leur était assignée ; la provision d’eau fut faite à Zanzibar. Les
deux cents livres de lest furent réparties dans cinquante sacs placés au fond
de la nacelle, mais cependant à portée de la main.
7 - Au bout de deux heures, le Victoria, poussé avec une
vitesse d’un peu plus de huit milles, gagna sensiblement la côte. Le docteur
résolut de se rapprocher de terre ; il modéra la flamme du chalumeau, et
bientôt le ballon descendit à 300 pieds du sol.
8 - Le Victoria passa près d’un village que, sur
sa carte, le docteur reconnut être le Kaole. Toute la population rassemblée
poussait des hurlements de colère et de crainte ; des flèches furent vainement
dirigées contre ce monstre des airs, qui se balançait majestueusement au-dessus
de toutes ces fureurs impuissantes.
9 - Le vent portait au sud, mais le docteur ne s’inquiéta
pas de cette direction ; elle lui permettait au contraire de suivre la route
tracée par les capitaines Burton et Speke.
10 - À midi, le docteur, en consultant sa carte, estima qu’il
se trouvait au-dessus du pays d’Uzaramo La campagne se montrait hérissée
de cocotiers, de papayers, de cotonniers, au-dessus desquels le Victoria
paraissait se jouer. Joe trouvait cette végétation toute naturelle, du moment
qu’il s’agissait de l’Afrique. Kennedy apercevait des lièvres et des cailles
qui ne demandaient pas mieux que de recevoir un coup de fusil ; mais c’eût été
de la poudre perdue, attendu l’impossibilité de ramasser le gibier.
11 - Le repas du soir fut préparé ; les voyageurs, excités
par leur promenade aérienne, firent une large brèche à leurs provisions.
«Quel chemin avons-nous fait aujourd’hui ?» demanda
Kennedy en avalant des morceaux inquiétants.
terça-feira, 29 de abril de 2014
Posso seguir viagem a teu lado? Haruki Murakami
- Tenho um favor a pedir-te - diz.
- Um favor?
- Posso seguir viagem a teu lado até chegarmos a Takamatsu? Não consigo descontrair-me quando vou sentada sem ninguém ao pé. Imagino sempre que vai aparecer alguém esquisito que se senta ao meu lado e depois já não consigo dormir. Quando comprei o bilhete disseram-me que eram tudo lugares separados, mas ao entrar vi logo que eram duplos. Preciso de passar pelas brasas antes de chegarmos, e tu pareces ser um tipo simpático. Pode ser?
- Não tem problema.
- Obrigado - diz ela. - "Em viagem, companhia, na vida, compaixão", como diz o ditado.
Haruki Murakami, Kafka à Beira-Mar, Alfragide, Leya, 2014, p. 30
- Um favor?
- Posso seguir viagem a teu lado até chegarmos a Takamatsu? Não consigo descontrair-me quando vou sentada sem ninguém ao pé. Imagino sempre que vai aparecer alguém esquisito que se senta ao meu lado e depois já não consigo dormir. Quando comprei o bilhete disseram-me que eram tudo lugares separados, mas ao entrar vi logo que eram duplos. Preciso de passar pelas brasas antes de chegarmos, e tu pareces ser um tipo simpático. Pode ser?
- Não tem problema.
- Obrigado - diz ela. - "Em viagem, companhia, na vida, compaixão", como diz o ditado.
Haruki Murakami, Kafka à Beira-Mar, Alfragide, Leya, 2014, p. 30
segunda-feira, 28 de abril de 2014
domingo, 27 de abril de 2014
A viagem de Fermina Daza (5). Gabriel Garcia Marquez
Na noite seguinte, com efeito, depois dele lhe ter ensinado
a dançar as valsas de Viena sob o céu sideral das Caraíbas, ele teve de ir à
casa de banho depois dela e quando voltou ao camarote encontrou-a nua na cama à
espera dele. Então foi ela quem tomou a iniciativa e entregou-se-lhe sem medo,
sem dor, com a alegria de uma aventura de mar alto, e sem mais vestígios de
cerimónia sangrenta além da rosa da honra no lençol. Ambos o fizeram bem, quase
como um milagre, e continuaram a fazê-lo bem de noite e de dia e cada vez
melhor durante o resto da viagem, e quando chegaram a La Rochelle entendiam-se
como velhos amantes.
Ficaram dezasseis meses na Europa, com base em Paris e
fazendo viagens curtas pelos países vizinhos. Durante esse tempo, fizeram amor
todos os dias e, mais de uma vez, nos domingos de Inverno, quando ficavam até à
hora de almoço a brincar na cama. Ele era um homem de bons ímpetos e, alem
disso, bem treinado, e ela não fora feita para perder com ninguém, de modo que
tiveram de se conformar com a partilha do poder na cama.
Gabriel Garcia Marquez, O Amor em Tempos de Cólera. Lisboa,
Publicações Dom Quixote, 1987, p. 174.
sábado, 26 de abril de 2014
A viagem de Fermina Daza (4). Gabriel Garcia Marquez
Então, tirou-lhe o lençol de cima e ela não só não se opôs
como o atirou para longe do beliche com um movimento rápido dos pés, porque já
não aguentava o calor. O seu corpo era ondulante e elástico, muito mais do que
quando estava vestida, e com um cheiro próprio a animal do campo que permitia
distingui-la entre todas as mulheres do mundo. Indefesa em plena luz, uma onde
de sangue a ferver subiu-lhe à cara e a única coisa de que se lembrou para o
ocultar foi pendurar-se ao pescoço do seu homem e beijá-lo profundamente, até
gastarem no beijo todo o ar que tinham para respirar.
Ele tinha consciência de que não a amava. Tinha casado com
ela porque gostava da sua altivez, da sua seriedade, da sua força, e também por
um grão de vaidade, mas, enquanto ela o beijava pela primeira vez, teve a
certeza de que não haveria nenhum obstáculo para que inventassem um grande
amor. Não falaram disso nessa primeira noite em que falaram de tudo até
amanhecer, nem haveriam de falar disso nunca. Mas, com o decorrer do tempo,
nenhum dos dois se enganou.
Ao amanhecer, quando adormeceram, ela continuava virgem, mas
não havia de ser por muito tempo.
Gabriel Garcia Marquez, O Amor em Tempos de Cólera. Lisboa,
Publicações Dom Quixote, 1987, p. 173.
sexta-feira, 25 de abril de 2014
A viagem de Fermina Daza (3). Gabriel Garcia Marquez
Então ele soube que tinham dobrado o cabo da boa esperança,
e voltou a pegar-lhe na mão grande e fofa e cobriu-a de beijinhos órfãos,
primeiro o metacarpo áspero, os longos dedos clarividentes, as unhas diáfanas,
e depois o hieróglifo do seu destino na palma suada. Ela não soube como foi que
a sua mão chegou até ao peito dele e tropeçou com alguma coisa que não
conseguiu decifrar. Ele disse-lhe: “É um escapulario”. Ela acariciou-lhe os
pêlos do peito e depois agarrou no matagal todo com os cinco dedos para
arrancar pela raiz. “Com mais força”, disse ele. Ela tentou até onde sabia que
não o magoava e depois foi a sua mão que procurou a mão dele perdida nas
trevas. Mas ele não a deixou entrelaçar-lhe os dedos e agarrou-lhe a mão pelo
pulso e foi-lha conduzindo ao longo do corpo com uma força invisível mas muito bem dirigida, até que ela sentiu o sopro ardente de um animal em carne viva, sem
forma corporal, mas ansioso e arvorado. Ao contrário do que ele imaginou, até
mesmo ao contrario do que ela teria imaginado, não retirou a mão, nem a deixou
inerte onde ele a pôs, e, encomendando-se de corpo e alma à Santíssima Virgem,
apertou os dentes com medo de rir da sua própria loucura, e começou a
identificar pelo tacto o inimigo encabritado, a conhecer o seu tamanho, a força
do seu braço, a extensão das suas asas, assustada com a sua determinação mas
compadecida da sua solidão, fazendo-o seu com uma curiosidade minuciosa que
alguém menos sabedor que o seu marido teria confundido com carícias. Ele apelou
para as suas últimas forças para resistir à vertigem do escrutínio mortal, até
que ela o soltou com uma graça infantil como se o tivesse atirado para o lixo.
- Nunca consegui perceber como é esse aparelho – disse.
Então ele explicou-lhe a sério com o seu método magistral,
enquanto lhe conduzia a mão pelos sítios que ia mencionando e ela deixava-o
levar-lha com uma obediência de aluna exemplar. Ele sugeriu, num momento
propício, que tudo aquilo era mais fácil com a luz acesa. Ia acendê-la, mas ela
deteve-lhe o braço dizendo: “Vejo melhor com as mãos”. Na verdade queria
acender a luz. Mas queria fazê-lo ela, sem que ninguém lho mandasse, e assim
foi. Ele viu-a então em posição fetal, alem de estar coberta pelo lençol, sob a
claridade repentina. Mas viu-a segurar outra vez sem afectações o animal da sua
curiosidade, virou-o do direito e do avesso, observou-o com um interesse que já
começava a parecer mais do que científico, e disse em conclusão: “É tão feio,
tão feio que ainda é mais feio que o das mulheres”. Ele concordou e assinalou
outros inconvenientes mais graves do que a fealdade. Disse: “É como o filho
mais velho: passa-se a vida a trabalhar para ele, a sacrificar tudo por ele, e
na hora da verdade acaba por fazer o que lhe der na real gana”. Ela continuou a
examiná-lo, perguntando para que servia isto e para que servia aquilo e quando
achou que estava bem informada, tomou-lhe o peso com as duas mãos, para
concluir que nem pelo peso valia a pena e deixou-o cair com uma careta de
menosprezo.
- Além do mais, acho que lhe sobram demasiadas coisas –
disse.
Ele ficou perplexo. A proposta original para a sua tese de
licenciatura tinha sido essa: a conveniência de simplificar o organismo humano.
Parecia antiquado, com muitas funções inúteis ou repetidas que foram imprescindíveis
para outras idades do género humano, mas não para a nossa. Sim: podia ser mais
simples e, por essa razão, menos vulnerável. Concluiu: “É uma coisa que só pode
ser feita por Deus, é claro, mas de qualquer maneira seria bom deixá-lo
estabelecido em termos teóricos”. Ela riu-se divertida, de um modo tão natural
que ele aproveitou a ocasião para a abraçar e deu-lhe o primeiro beijo na boca.
Ela correspondeu-lhe e ele continuou a dar-lhe beijos muito suaves nas faces,
no nariz, nas pálpebras, enquanto deslizava a mão por baixo do lençol, e
acariciou-lhe o púbis redondo e ralo: um púbis de japonesa. Ela não lhe afastou
a mão, mas conservou a sua em estado de alerta para o caso de ele avançar mais
um passo.
- Não vamos continuar com a aula de medicina – disse.
- Não – disse ele. – Esta vai ser de amor.
Gabriel Garcia Marquez, O Amor em Tempos de Cólera. Lisboa,
Publicações Dom Quixote, 1987, p. 171-173.
Subscrever:
Mensagens (Atom)














