quarta-feira, 30 de abril de 2014

Cinco semanas de balão (1). Edouard Riou

 1. Capa da 1ª edição da obra de Jules Verne Cinq Semaines en ballon, J. Hetzel et Compagnie, 1863. Ilustrações de Edouard Riou (1833-1900)
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2 - Le soir même, Kennedy, moitié inquiet, moitié exaspéré, prenait le chemin de fer à General Railway station, et le lendemain il arrivait à Londres.

3 - La cale du Resolute fut aménagée de manière à loger l’aérostat ; il y fut transporté avec les plus grandes précautions dans la journée du 18 février ; on l’emmagasina au fond du navire, de manière à prévenir tout accident ; la nacelle et ses accessoires, les ancres, les cordes, les vivres, les caisses à eau que l’on devait remplir à l’arrivée, tout fut arrimé sous les yeux de Fergusson.

4 - «Voyez-vous, mes amis, quand on a goûté de ce genre de locomotion, on ne peut plus s’en passer ; aussi, à notre prochaine expédition, au lieu d’aller de côté, nous irons droit devant nous en montant toujours.
- Bon ! dans la lune alors, dit un auditeur émerveillé.

5 – Les bagages des trois voyageurs furent transportés à la maison du consul. On se disposait à débarquer le ballon sur la plage de Zanzibar ; il y avait près du mât des signaux un emplacement favorable, auprès d’une énorme construction qui l’eut abrité des vents d’est. Cette grosse tour, semblable à un tonneau dressé sur sa base, et près duquel la tonne d’Heidelberg n’eut été qu’un simple baril, servait de fort, et sur sa plate-forme veillaient des Beloutchis armés de lances, sorte de garnisaires fainéants et braillards.

6 - Les ancres, les cordes, les instruments, les couvertures de voyage, la tente, les vivres, les armes, durent prendre dans la nacelle la place qui leur était assignée ; la provision d’eau fut faite à Zanzibar. Les deux cents livres de lest furent réparties dans cinquante sacs placés au fond de la nacelle, mais cependant à portée de la main.

7 - Au bout de deux heures, le Victoria, poussé avec une vitesse d’un peu plus de huit milles, gagna sensiblement la côte. Le docteur résolut de se rapprocher de terre ; il modéra la flamme du chalumeau, et bientôt le ballon descendit à 300 pieds du sol.

8 - Le Victoria passa près d’un village que, sur sa carte, le docteur reconnut être le Kaole. Toute la population rassemblée poussait des hurlements de colère et de crainte ; des flèches furent vainement dirigées contre ce monstre des airs, qui se balançait majestueusement au-dessus de toutes ces fureurs impuissantes.

9 - Le vent portait au sud, mais le docteur ne s’inquiéta pas de cette direction ; elle lui permettait au contraire de suivre la route tracée par les capitaines Burton et Speke.

10 - À midi, le docteur, en consultant sa carte, estima qu’il se trouvait au-dessus du pays d’Uzaramo La campagne se montrait hérissée de cocotiers, de papayers, de cotonniers, au-dessus desquels le Victoria paraissait se jouer. Joe trouvait cette végétation toute naturelle, du moment qu’il s’agissait de l’Afrique. Kennedy apercevait des lièvres et des cailles qui ne demandaient pas mieux que de recevoir un coup de fusil ; mais c’eût été de la poudre perdue, attendu l’impossibilité de ramasser le gibier.

11 - Le repas du soir fut préparé ; les voyageurs, excités par leur promenade aérienne, firent une large brèche à leurs provisions.
«Quel chemin avons-nous fait aujourd’hui ?» demanda Kennedy en avalant des morceaux inquiétants.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Posso seguir viagem a teu lado? Haruki Murakami

- Tenho um favor a pedir-te - diz.
- Um favor?
- Posso seguir viagem a teu lado até chegarmos a Takamatsu? Não consigo descontrair-me quando vou sentada sem ninguém ao pé. Imagino sempre que vai aparecer alguém esquisito que se senta ao meu lado e depois já não consigo dormir. Quando comprei o bilhete disseram-me que eram tudo lugares separados, mas ao entrar vi logo que eram duplos. Preciso de passar pelas brasas antes de chegarmos, e tu pareces ser um tipo simpático. Pode ser?
- Não tem problema.
- Obrigado - diz ela. - "Em viagem, companhia, na vida, compaixão", como diz o ditado.

Haruki Murakami, Kafka à Beira-Mar, Alfragide, Leya, 2014, p. 30

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Viagens e viajantes nas Tentações de Santo Antão. Hieronimus Bosch





 Hieronimus Bosch, pormenores de As Tentações de Santo Antão, cerca de 1500.

domingo, 27 de abril de 2014

A viagem de Fermina Daza (5). Gabriel Garcia Marquez


Na noite seguinte, com efeito, depois dele lhe ter ensinado a dançar as valsas de Viena sob o céu sideral das Caraíbas, ele teve de ir à casa de banho depois dela e quando voltou ao camarote encontrou-a nua na cama à espera dele. Então foi ela quem tomou a iniciativa e entregou-se-lhe sem medo, sem dor, com a alegria de uma aventura de mar alto, e sem mais vestígios de cerimónia sangrenta além da rosa da honra no lençol. Ambos o fizeram bem, quase como um milagre, e continuaram a fazê-lo bem de noite e de dia e cada vez melhor durante o resto da viagem, e quando chegaram a La Rochelle entendiam-se como velhos amantes.
Ficaram dezasseis meses na Europa, com base em Paris e fazendo viagens curtas pelos países vizinhos. Durante esse tempo, fizeram amor todos os dias e, mais de uma vez, nos domingos de Inverno, quando ficavam até à hora de almoço a brincar na cama. Ele era um homem de bons ímpetos e, alem disso, bem treinado, e ela não fora feita para perder com ninguém, de modo que tiveram de se conformar com a partilha do poder na cama.

Gabriel Garcia Marquez, O Amor em Tempos de Cólera. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1987, p. 174.

sábado, 26 de abril de 2014

A viagem de Fermina Daza (4). Gabriel Garcia Marquez


Então, tirou-lhe o lençol de cima e ela não só não se opôs como o atirou para longe do beliche com um movimento rápido dos pés, porque já não aguentava o calor. O seu corpo era ondulante e elástico, muito mais do que quando estava vestida, e com um cheiro próprio a animal do campo que permitia distingui-la entre todas as mulheres do mundo. Indefesa em plena luz, uma onde de sangue a ferver subiu-lhe à cara e a única coisa de que se lembrou para o ocultar foi pendurar-se ao pescoço do seu homem e beijá-lo profundamente, até gastarem no beijo todo o ar que tinham para respirar.
Ele tinha consciência de que não a amava. Tinha casado com ela porque gostava da sua altivez, da sua seriedade, da sua força, e também por um grão de vaidade, mas, enquanto ela o beijava pela primeira vez, teve a certeza de que não haveria nenhum obstáculo para que inventassem um grande amor. Não falaram disso nessa primeira noite em que falaram de tudo até amanhecer, nem haveriam de falar disso nunca. Mas, com o decorrer do tempo, nenhum dos dois se enganou.
Ao amanhecer, quando adormeceram, ela continuava virgem, mas não havia de ser por muito tempo.

Gabriel Garcia Marquez, O Amor em Tempos de Cólera. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1987, p. 173.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

A viagem de Fermina Daza (3). Gabriel Garcia Marquez


Então ele soube que tinham dobrado o cabo da boa esperança, e voltou a pegar-lhe na mão grande e fofa e cobriu-a de beijinhos órfãos, primeiro o metacarpo áspero, os longos dedos clarividentes, as unhas diáfanas, e depois o hieróglifo do seu destino na palma suada. Ela não soube como foi que a sua mão chegou até ao peito dele e tropeçou com alguma coisa que não conseguiu decifrar. Ele disse-lhe: “É um escapulario”. Ela acariciou-lhe os pêlos do peito e depois agarrou no matagal todo com os cinco dedos para arrancar pela raiz. “Com mais força”, disse ele. Ela tentou até onde sabia que não o magoava e depois foi a sua mão que procurou a mão dele perdida nas trevas. Mas ele não a deixou entrelaçar-lhe os dedos e agarrou-lhe a mão pelo pulso e foi-lha conduzindo ao longo do corpo com uma força invisível mas muito bem dirigida, até que ela sentiu o sopro ardente de um animal em carne viva, sem forma corporal, mas ansioso e arvorado. Ao contrário do que ele imaginou, até mesmo ao contrario do que ela teria imaginado, não retirou a mão, nem a deixou inerte onde ele a pôs, e, encomendando-se de corpo e alma à Santíssima Virgem, apertou os dentes com medo de rir da sua própria loucura, e começou a identificar pelo tacto o inimigo encabritado, a conhecer o seu tamanho, a força do seu braço, a extensão das suas asas, assustada com a sua determinação mas compadecida da sua solidão, fazendo-o seu com uma curiosidade minuciosa que alguém menos sabedor que o seu marido teria confundido com carícias. Ele apelou para as suas últimas forças para resistir à vertigem do escrutínio mortal, até que ela o soltou com uma graça infantil como se o tivesse atirado para o lixo.
- Nunca consegui perceber como é esse aparelho – disse.
Então ele explicou-lhe a sério com o seu método magistral, enquanto lhe conduzia a mão pelos sítios que ia mencionando e ela deixava-o levar-lha com uma obediência de aluna exemplar. Ele sugeriu, num momento propício, que tudo aquilo era mais fácil com a luz acesa. Ia acendê-la, mas ela deteve-lhe o braço dizendo: “Vejo melhor com as mãos”. Na verdade queria acender a luz. Mas queria fazê-lo ela, sem que ninguém lho mandasse, e assim foi. Ele viu-a então em posição fetal, alem de estar coberta pelo lençol, sob a claridade repentina. Mas viu-a segurar outra vez sem afectações o animal da sua curiosidade, virou-o do direito e do avesso, observou-o com um interesse que já começava a parecer mais do que científico, e disse em conclusão: “É tão feio, tão feio que ainda é mais feio que o das mulheres”. Ele concordou e assinalou outros inconvenientes mais graves do que a fealdade. Disse: “É como o filho mais velho: passa-se a vida a trabalhar para ele, a sacrificar tudo por ele, e na hora da verdade acaba por fazer o que lhe der na real gana”. Ela continuou a examiná-lo, perguntando para que servia isto e para que servia aquilo e quando achou que estava bem informada, tomou-lhe o peso com as duas mãos, para concluir que nem pelo peso valia a pena e deixou-o cair com uma careta de menosprezo.
- Além do mais, acho que lhe sobram demasiadas coisas – disse.
Ele ficou perplexo. A proposta original para a sua tese de licenciatura tinha sido essa: a conveniência de simplificar o organismo humano. Parecia antiquado, com muitas funções inúteis ou repetidas que foram imprescindíveis para outras idades do género humano, mas não para a nossa. Sim: podia ser mais simples e, por essa razão, menos vulnerável. Concluiu: “É uma coisa que só pode ser feita por Deus, é claro, mas de qualquer maneira seria bom deixá-lo estabelecido em termos teóricos”. Ela riu-se divertida, de um modo tão natural que ele aproveitou a ocasião para a abraçar e deu-lhe o primeiro beijo na boca. Ela correspondeu-lhe e ele continuou a dar-lhe beijos muito suaves nas faces, no nariz, nas pálpebras, enquanto deslizava a mão por baixo do lençol, e acariciou-lhe o púbis redondo e ralo: um púbis de japonesa. Ela não lhe afastou a mão, mas conservou a sua em estado de alerta para o caso de ele avançar mais um passo.
- Não vamos continuar com a aula de medicina – disse.
- Não – disse ele. – Esta vai ser de amor.

Gabriel Garcia Marquez, O Amor em Tempos de Cólera. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1987, p. 171-173.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

A viagem de Fermina Daza (2). Gabriel Garcia Marquez


O doutor Juvenal Urbino sentiu-a deslizar junto a ele como um bichinho assustado, tentando afastar-se tanto quanto possível, num beliche onde era difícil estarem dois sem se tocarem. Pegou-lhe na mão, fria e crispada de terror, entrelaçou-lhe os dedos, e quase como num sussurro começou a contar-lhe as suas recordações de outras viagens por mar. Ela estava novamente tensa, porque, ao voltar à cama, deu conta que ele se despira completamente enquanto ela estava na casa de banho, e isto reavivou-lhe o pânico do passo seguinte. Mas o passo seguinte demorou várias horas, pois o doutor Urbino continuou a falar muito devagar, enquanto se ia apoderando milímetro a milímetro da confiança do seu corpo. Falou-lhe de Paris, do amor de Paris, dos namorados de Paris que se beijavam na rua, nos transportes públicos, nos terraços floridos dos cafés abertos ao hálito de fogo e aos acordeões lânguidos do Verão e que faziam amor de pé nos cais do Sena sem que ninguém os incomodasse. Enquanto falava na sombra, acariciou-lhe a curva do colo com as pontas dos dedos, acariciou-lhe a penugem sedosa dos braços, o ventre evasivo, e quando sentiu que a tensão tinha cedido fez uma primeira tentativa para lhe levantar a camisa de dormir, mas ela impediu-o com um impulso típico do seu carácter. Disse: “Sei fazer isso sozinha”. Tirou-a, com efeito, e depois ficou tão imóvel que o doutor Urbino teria pensado que já não estava ali se não fosse o calor solarengo do seu corpo nas trevas.
Passado um bocado voltou a pegar-lhe na mão e então sentiu-a morna e solta, mas ainda húmida de um orvalho terno. Ficaram outro bocado calados e imóveis, ele à espreita da ocasião para o passo seguinte, e ela à espera dele sem saber donde, enquanto a escuridão se ia dilatando com a sua respiração cada vez mais intensa. Ele largou-a então e deu um salto no vazio: humedeceu com a língua a ponta do dedo anelar, tocou-lhe ao de leve no mamilo desprevenido e ela sentiu uma descarga de morte como se lhe tivessem tocado num nervo vivo. Ficou contente por estar às escuras para que ele não visse o rubor intenso que a estremeceu até às raízes do crânio. “Calma”, disse-lhe ele, muito sereno. “Não te esqueças que os conheço”. Sentiu-a sorrir e a sua voz foi doce e nova nas trevas.
- Lembro-me muito bem – disse – e ainda não me passou a raiva.
Então ele soube que tinham dobrado o cabo da boa esperança [...]

Gabriel Garcia Marquez, O Amor em Tempos de Cólera. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1987, p. 170-171.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

A viagem de Fermina Daza (1). Gabriel Garcia Marquez

Nem na primeira noite de mar bravo, nem nas seguintes de navegação tranquila, nem nunca na sua muito longa vida matrimonial ocorreram os actos de barbárie temidos por Fermina Daza. A primeira, apesar do tamanho do barco e dos luxos do camarote, foi uma repetição horrível da escuna de Riohacha, e o marido foi um médico solícito que não dormiu nem um instante para a consolar, que era a única coisa que um médico demasiado eminente sabia fazer contra o enjoo. Mas a tempestade amainou ao terceiro dia , depois do porto de La Guayra, e já nessa altura tinham estado tanto tempo juntos, haviam conversado tanto que se sentiam amigos de longa data. Na quarta noite, quando ambos reataram os seus hábitos normais, o doutor Juvenal Urbino surpreendeu-se com o facto de a sua jovem esposa não rezar antes de dormir. Ela foi sincera com ele: a hipocrisia das freiras tinha-lhe criado uma aversão contra os rituais, mas a sua fé estava intacta e tinha aprendido a conservá-la em silencio. Disse: “Prefiro entender-me directamente com Deus”. Ele compreendeu as suas razões e desde aí cada um praticou a sua religião à sua maneira. Tinham noivado breve, mas bastante informal para a época, pois o doutor Urbino visitava-a em casa, sem serem vigiados, todas os dias ao fim da tarde. Ela não lhe teria permitido nem que ele lhe tocasse na ponta dos dedos sem a bênção episcopal, mas ele também não o tinha tentado. Foi na primeira noite de mar calmo, já na cama mas ainda vestidos, que ele iniciou as primeiras carícias, e fê-lo com tanto cuidado que a ela lhe pareceu natural a sugestão para que vestisse a camisa de dormir. Foi trocar de roupa na casa de banho, mas antes apagou as luzes do camarote e, quando saiu com a camisa de noite, calafetou com trapos as frinchas da porta para deixar a cama na mais completa escuridão. Enquanto o fazia, disse de bom humor:
 - Que queres, doutor? É a primeira vez que durmo com um desconhecido. 

 Gabriel Garcia Marquez, O Amor em Tempos de Cólera. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1987, p. 169-170.

terça-feira, 22 de abril de 2014

segunda-feira, 21 de abril de 2014

A passagem do Styx. Joachim Patinir

Joachim Patinir (1485-1524), Traversée du monde souterrain [entre 1515 e 1524],
(Musée du Prado, Madrid).

Esta pintura de Patinir destaca por su originalidad y su composición, distinta a la habitual, formada por planos paralelos escalonados. Favorecido por el formato apaisado de la tabla, el autor divide verticalmente el espacio en tres zonas, una a cada lado del ancho río, en el que Caronte navega en su barca con un alma.Tomando como fuente de inspiración las representaciones anteriores del Paraíso o del Purgatorio del Bosco, decisivas en su proceso y creación final,  Patinir reúne en una única composición imágenes bíblicas junto a otras del mundo grecorromano. El ángel situado en un promontorio, los otros dos, no lejos de éste, que acompañan a las almas, y algunos más, junto con otras almas minúsculas, al fondo, permiten conocer a la izquierda el Paraíso cristiano. Por el contrario, el Cancerbero parece identificar el Infierno representado a la derecha con Hades, asociándolo con la mitología griega, lo mismo que Caronte con su barca. Patinir sitúa la escena en el momento en que Caronte ha llegado al lugar en que se abre un canal a cada lado de la Estigia, momento de la decisión final, cuando el alma a la que conduce tiene que optar por uno de los dos caminos. Debe conocer la diferencia entre el camino difícil, señalado por el ángel desde el promontorio, que lleva a la salvación, al Paraíso, y el fácil, con prados y árboles frutales a la orilla, que se estrecha al pasar la curvatura oculta por los árboles y conduce directamente a la condenación, al Infierno. El modo en que Patinir representa el alma, de estricto perfil, con el rostro y el cuerpo girado en dirección al camino fácil, que lleva a la perdición, confirma que ya ha hecho su elección y que esa es la vía que va a seguir.A fines de la Edad Media existía toda una serie de metáforas para expresar esta idea, tanto bíblica como clásica. De todas ellas, Patinir parece haberse inspirado en el Evangelio de San Mateo. No hay duda de que refleja en esta obra el pesimismo de una época tan turbulenta como la que le tocó vivir, en plena Reforma protestante.  Al llevar a cabo esta obra, Patinir la convierte en unmemento mori, en un recordatorio, a quien la contemple, para que quede avisado de que es preciso prepararse para este momento e, imitando a Cristo, seguir el camino difícil, sin hacer caso de los falsos paraísos y tentaciones engañosas (Texto extractado de Silva, P. en:Patinir, Museo Nacional del Prado, 2007, pp. 150-163).

domingo, 20 de abril de 2014

A viagem de Lorenzo Daza. Gabriel Garcia Marquez


“De modo que lhe vim fazer uma súplica”, disse Lorenzo Daza. Molhou a ponta do charuto na aguardente de anis, deu-lhe uma chupadela sem fumo e concluiu com a voz embargada:
- Afaste-se do nosso caminho.
Florentino Ariza tinha-o escutado entre goles de aguardente de anis, e tão absorto estava na revelação do passado de Fermina Daza [filha de Lorenzo Daza] que nem sequer se perguntou que diria quando tivesse que falar. Mas, chegado o momento, compenetrou-se de que fosse o que fosse que dissesse comprometeria o seu destino.
- O senhor falou com ela? – perguntou.
- Isso não lhe diz respeito – respondeu Lorenzo Daza.
- Pergunto-lho porque me parece que quem tem de decidir é ela.
- Nada disso – disse Lorenzo Daza. – Isto é um assunto de homens e resolve-se entre homens.
O tom tinha-se tornado ameaçador e um cliente de uma mesa próxima voltou-se para os observar. Florentino Ariza falou com a voz mais ténue mas com a determinação mais imperiosa de que foi capaz:
- De todos os modos – disse – não lhe posso dar qualquer resposta sem saber o que ela pensa. Seria uma traição.
Então Lorenzo Daza encostou-se para trás na cadeira com as pálpebras avermelhadas e húmidas, e o olho esquerdo girou na sua órbita e ficou torcido para fora. Também baixou a voz.
- Não me obrigue a dar-lhe um tiro – disse.
Florentino Ariza sentiu que as entranhas se lhe enchiam de uma espuma fria. Mas a voz não lhe tremeu porque também ele se sentiu iluminado pelo Espírito Santo-
- Dê-mo – disse, com a mão sobre o peito. – Não há maior glória que morrer de amor.
Loren Daza teve de olhá-lo de lado, como os papagaios, para o encontrar com o olho torcido. Não pronunciou as três palavras, pois mais pareceu que as cuspiu sílaba a sílaba:
- Fi-lho-da-pu-ta!
Naquela mesma semana levou a filha para a viagem do esquecimento. Não lhe dando qualquer explicação, irrompeu pelo seu quarto com os bigodes sujos pela ira misturada com tabaco mastigado e ordenou-lhe que fizesse as malas. Ela perguntou-lhe onde iam e ele respondeu: “Para a morte”. Assustada com aquela resposta que se parecia de mais com a verdade, decidiu fazer-lhe frente com a mesma coragem dos dias anteriores, mas ele puxou do cinto com fivela de cobre maciço e deu uma chicotada na mesa que ressoou por toda a casa como o disparo de uma espingarda. Fermina Daza conhecia muito bem até onde podia ir a sua própria força e quando a devia utilizar, de modo que fez uma mala com duas esteiras e uma rede, e meteu em dois grandes baús todas as suas roupas, com a certeza de que esta era ma viagem sem regresso. Antes de se vestir, fechou-se na casa de banho e conseguiu escrever a Florentino Ariza uma breve carta de despedida num folha arrancada do rolo de papel higiénico. Depois cortou pela nuca uma trança completa com a tesoura de podar, enrolou-a dentro de um estojo de veludo bordado a fio de ouro e enviou-o juntamente com a carta.

Gabriel Garcia Marquez, O Amor em Tempos de Cólera. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1987, p. 93-94.

sábado, 19 de abril de 2014

Depois de matar a noite nas tascas da capital, o vagabundo... Camilo José Cela

Às escuras sob a quente lona, por entre cadeiras de baloiço, aparadores, camas desmontadas e gaiolas vazias, aos saltos e safanões pelos caminhos e despenhadeiros de Castela, o vagabundo - que nunca pôs o nariz de fora a não ser para fumar um ou outro cigarro, não fosse o diabo fazer com que ele queimasse os móveis de Dom Frederico - viu-se em Madrid, ao cair da tarde, fresco e ligeiro como se não tivesse caminhado nem uma légua, coisa que, vendo bem, também não era mentira.
- Então? Fez boa viagem?
- Se fiz!
Depois de matar a noite nas tascas da capital - humildes e acolhedoras tabernas de tintorro e cerveja com gasosa; o palito de dentes espetado no queijo manchego; o passarinho frito e a anchova em vinagre: a sardinha em azeite, a ginjinha e os resultados dos jogos de futebol mostrados no quadro preto  - a gastar uns tostões para obsequiar o motorista do camião, e depois de ter ido cumprimentar a menina Finita, que vivia em Gravina, nº 20, instituição que já não é nem uma sombra do que foi, o vagabundo, no dia seguinte, sai de Madrid como pensa que se deve sair de Madrid, ao meio dia em ponto e já a cair a bola do relógio da Puerta del Sol.
- Vamos embora?
- O senhor é que manda.

Camilo José Cela, Vagabundo ao Serviço de Espanha. Antologia organizada por Ricardo Bada, Porto, Asa, 2002 [1ª edição 1948], p. 131-132