- Tenho um favor a pedir-te - diz.
- Um favor?
- Posso seguir viagem a teu lado até chegarmos a Takamatsu? Não consigo descontrair-me quando vou sentada sem ninguém ao pé. Imagino sempre que vai aparecer alguém esquisito que se senta ao meu lado e depois já não consigo dormir. Quando comprei o bilhete disseram-me que eram tudo lugares separados, mas ao entrar vi logo que eram duplos. Preciso de passar pelas brasas antes de chegarmos, e tu pareces ser um tipo simpático. Pode ser?
- Não tem problema.
- Obrigado - diz ela. - "Em viagem, companhia, na vida, compaixão", como diz o ditado.
Haruki Murakami, Kafka à Beira-Mar, Alfragide, Leya, 2014, p. 30
terça-feira, 29 de abril de 2014
segunda-feira, 28 de abril de 2014
domingo, 27 de abril de 2014
A viagem de Fermina Daza (5). Gabriel Garcia Marquez
Na noite seguinte, com efeito, depois dele lhe ter ensinado
a dançar as valsas de Viena sob o céu sideral das Caraíbas, ele teve de ir à
casa de banho depois dela e quando voltou ao camarote encontrou-a nua na cama à
espera dele. Então foi ela quem tomou a iniciativa e entregou-se-lhe sem medo,
sem dor, com a alegria de uma aventura de mar alto, e sem mais vestígios de
cerimónia sangrenta além da rosa da honra no lençol. Ambos o fizeram bem, quase
como um milagre, e continuaram a fazê-lo bem de noite e de dia e cada vez
melhor durante o resto da viagem, e quando chegaram a La Rochelle entendiam-se
como velhos amantes.
Ficaram dezasseis meses na Europa, com base em Paris e
fazendo viagens curtas pelos países vizinhos. Durante esse tempo, fizeram amor
todos os dias e, mais de uma vez, nos domingos de Inverno, quando ficavam até à
hora de almoço a brincar na cama. Ele era um homem de bons ímpetos e, alem
disso, bem treinado, e ela não fora feita para perder com ninguém, de modo que
tiveram de se conformar com a partilha do poder na cama.
Gabriel Garcia Marquez, O Amor em Tempos de Cólera. Lisboa,
Publicações Dom Quixote, 1987, p. 174.
sábado, 26 de abril de 2014
A viagem de Fermina Daza (4). Gabriel Garcia Marquez
Então, tirou-lhe o lençol de cima e ela não só não se opôs
como o atirou para longe do beliche com um movimento rápido dos pés, porque já
não aguentava o calor. O seu corpo era ondulante e elástico, muito mais do que
quando estava vestida, e com um cheiro próprio a animal do campo que permitia
distingui-la entre todas as mulheres do mundo. Indefesa em plena luz, uma onde
de sangue a ferver subiu-lhe à cara e a única coisa de que se lembrou para o
ocultar foi pendurar-se ao pescoço do seu homem e beijá-lo profundamente, até
gastarem no beijo todo o ar que tinham para respirar.
Ele tinha consciência de que não a amava. Tinha casado com
ela porque gostava da sua altivez, da sua seriedade, da sua força, e também por
um grão de vaidade, mas, enquanto ela o beijava pela primeira vez, teve a
certeza de que não haveria nenhum obstáculo para que inventassem um grande
amor. Não falaram disso nessa primeira noite em que falaram de tudo até
amanhecer, nem haveriam de falar disso nunca. Mas, com o decorrer do tempo,
nenhum dos dois se enganou.
Ao amanhecer, quando adormeceram, ela continuava virgem, mas
não havia de ser por muito tempo.
Gabriel Garcia Marquez, O Amor em Tempos de Cólera. Lisboa,
Publicações Dom Quixote, 1987, p. 173.
sexta-feira, 25 de abril de 2014
A viagem de Fermina Daza (3). Gabriel Garcia Marquez
Então ele soube que tinham dobrado o cabo da boa esperança,
e voltou a pegar-lhe na mão grande e fofa e cobriu-a de beijinhos órfãos,
primeiro o metacarpo áspero, os longos dedos clarividentes, as unhas diáfanas,
e depois o hieróglifo do seu destino na palma suada. Ela não soube como foi que
a sua mão chegou até ao peito dele e tropeçou com alguma coisa que não
conseguiu decifrar. Ele disse-lhe: “É um escapulario”. Ela acariciou-lhe os
pêlos do peito e depois agarrou no matagal todo com os cinco dedos para
arrancar pela raiz. “Com mais força”, disse ele. Ela tentou até onde sabia que
não o magoava e depois foi a sua mão que procurou a mão dele perdida nas
trevas. Mas ele não a deixou entrelaçar-lhe os dedos e agarrou-lhe a mão pelo
pulso e foi-lha conduzindo ao longo do corpo com uma força invisível mas muito bem dirigida, até que ela sentiu o sopro ardente de um animal em carne viva, sem
forma corporal, mas ansioso e arvorado. Ao contrário do que ele imaginou, até
mesmo ao contrario do que ela teria imaginado, não retirou a mão, nem a deixou
inerte onde ele a pôs, e, encomendando-se de corpo e alma à Santíssima Virgem,
apertou os dentes com medo de rir da sua própria loucura, e começou a
identificar pelo tacto o inimigo encabritado, a conhecer o seu tamanho, a força
do seu braço, a extensão das suas asas, assustada com a sua determinação mas
compadecida da sua solidão, fazendo-o seu com uma curiosidade minuciosa que
alguém menos sabedor que o seu marido teria confundido com carícias. Ele apelou
para as suas últimas forças para resistir à vertigem do escrutínio mortal, até
que ela o soltou com uma graça infantil como se o tivesse atirado para o lixo.
- Nunca consegui perceber como é esse aparelho – disse.
Então ele explicou-lhe a sério com o seu método magistral,
enquanto lhe conduzia a mão pelos sítios que ia mencionando e ela deixava-o
levar-lha com uma obediência de aluna exemplar. Ele sugeriu, num momento
propício, que tudo aquilo era mais fácil com a luz acesa. Ia acendê-la, mas ela
deteve-lhe o braço dizendo: “Vejo melhor com as mãos”. Na verdade queria
acender a luz. Mas queria fazê-lo ela, sem que ninguém lho mandasse, e assim
foi. Ele viu-a então em posição fetal, alem de estar coberta pelo lençol, sob a
claridade repentina. Mas viu-a segurar outra vez sem afectações o animal da sua
curiosidade, virou-o do direito e do avesso, observou-o com um interesse que já
começava a parecer mais do que científico, e disse em conclusão: “É tão feio,
tão feio que ainda é mais feio que o das mulheres”. Ele concordou e assinalou
outros inconvenientes mais graves do que a fealdade. Disse: “É como o filho
mais velho: passa-se a vida a trabalhar para ele, a sacrificar tudo por ele, e
na hora da verdade acaba por fazer o que lhe der na real gana”. Ela continuou a
examiná-lo, perguntando para que servia isto e para que servia aquilo e quando
achou que estava bem informada, tomou-lhe o peso com as duas mãos, para
concluir que nem pelo peso valia a pena e deixou-o cair com uma careta de
menosprezo.
- Além do mais, acho que lhe sobram demasiadas coisas –
disse.
Ele ficou perplexo. A proposta original para a sua tese de
licenciatura tinha sido essa: a conveniência de simplificar o organismo humano.
Parecia antiquado, com muitas funções inúteis ou repetidas que foram imprescindíveis
para outras idades do género humano, mas não para a nossa. Sim: podia ser mais
simples e, por essa razão, menos vulnerável. Concluiu: “É uma coisa que só pode
ser feita por Deus, é claro, mas de qualquer maneira seria bom deixá-lo
estabelecido em termos teóricos”. Ela riu-se divertida, de um modo tão natural
que ele aproveitou a ocasião para a abraçar e deu-lhe o primeiro beijo na boca.
Ela correspondeu-lhe e ele continuou a dar-lhe beijos muito suaves nas faces,
no nariz, nas pálpebras, enquanto deslizava a mão por baixo do lençol, e
acariciou-lhe o púbis redondo e ralo: um púbis de japonesa. Ela não lhe afastou
a mão, mas conservou a sua em estado de alerta para o caso de ele avançar mais
um passo.
- Não vamos continuar com a aula de medicina – disse.
- Não – disse ele. – Esta vai ser de amor.
Gabriel Garcia Marquez, O Amor em Tempos de Cólera. Lisboa,
Publicações Dom Quixote, 1987, p. 171-173.
quinta-feira, 24 de abril de 2014
A viagem de Fermina Daza (2). Gabriel Garcia Marquez
O doutor Juvenal Urbino sentiu-a deslizar junto a ele como
um bichinho assustado, tentando afastar-se tanto quanto possível, num beliche
onde era difícil estarem dois sem se tocarem. Pegou-lhe na mão, fria e crispada
de terror, entrelaçou-lhe os dedos, e quase como num sussurro começou a
contar-lhe as suas recordações de outras viagens por mar. Ela estava novamente
tensa, porque, ao voltar à cama, deu conta que ele se despira completamente
enquanto ela estava na casa de banho, e isto reavivou-lhe o pânico do passo
seguinte. Mas o passo seguinte demorou várias horas, pois o doutor Urbino
continuou a falar muito devagar, enquanto se ia apoderando milímetro a
milímetro da confiança do seu corpo. Falou-lhe de Paris, do amor de Paris, dos
namorados de Paris que se beijavam na rua, nos transportes públicos, nos
terraços floridos dos cafés abertos ao hálito de fogo e aos acordeões lânguidos
do Verão e que faziam amor de pé nos cais do Sena sem que ninguém os
incomodasse. Enquanto falava na sombra, acariciou-lhe a curva do colo com as
pontas dos dedos, acariciou-lhe a penugem sedosa dos braços, o ventre evasivo,
e quando sentiu que a tensão tinha cedido fez uma primeira tentativa para lhe
levantar a camisa de dormir, mas ela impediu-o com um impulso típico do seu
carácter. Disse: “Sei fazer isso sozinha”. Tirou-a, com efeito, e depois ficou
tão imóvel que o doutor Urbino teria pensado que já não estava ali se não fosse
o calor solarengo do seu corpo nas trevas.
Passado um bocado voltou a pegar-lhe na mão e então sentiu-a
morna e solta, mas ainda húmida de um orvalho terno. Ficaram outro bocado
calados e imóveis, ele à espreita da ocasião para o passo seguinte, e ela à
espera dele sem saber donde, enquanto a escuridão se ia dilatando com a sua
respiração cada vez mais intensa. Ele largou-a então e deu um salto no vazio:
humedeceu com a língua a ponta do dedo anelar, tocou-lhe ao de leve no mamilo
desprevenido e ela sentiu uma descarga de morte como se lhe tivessem tocado num
nervo vivo. Ficou contente por estar às escuras para que ele não visse o rubor intenso que a estremeceu até às raízes do crânio. “Calma”, disse-lhe ele, muito
sereno. “Não te esqueças que os conheço”. Sentiu-a sorrir e a sua voz foi doce
e nova nas trevas.
- Lembro-me muito bem – disse – e ainda não me passou a
raiva.
Então ele soube que tinham dobrado o cabo da boa esperança
[...]
Gabriel Garcia Marquez, O Amor em Tempos de Cólera. Lisboa,
Publicações Dom Quixote, 1987, p. 170-171.
quarta-feira, 23 de abril de 2014
A viagem de Fermina Daza (1). Gabriel Garcia Marquez
Nem na primeira noite de mar bravo, nem nas seguintes de navegação tranquila, nem nunca na sua muito longa vida matrimonial ocorreram os actos de barbárie temidos por Fermina Daza. A primeira, apesar do tamanho do barco e dos luxos do camarote, foi uma repetição horrível da escuna de Riohacha, e o marido foi um médico solícito que não dormiu nem um instante para a consolar, que era a única coisa que um médico demasiado eminente sabia fazer contra o enjoo. Mas a tempestade amainou ao terceiro dia , depois do porto de La Guayra, e já nessa altura tinham estado tanto tempo juntos, haviam conversado tanto que se sentiam amigos de longa data. Na quarta noite, quando ambos reataram os seus hábitos normais, o doutor Juvenal Urbino surpreendeu-se com o facto de a sua jovem esposa não rezar antes de dormir. Ela foi sincera com ele: a hipocrisia das freiras tinha-lhe criado uma aversão contra os rituais, mas a sua fé estava intacta e tinha aprendido a conservá-la em silencio. Disse: “Prefiro entender-me directamente com Deus”. Ele compreendeu as suas razões e desde aí cada um praticou a sua religião à sua maneira. Tinham noivado breve, mas bastante informal para a época, pois o doutor Urbino visitava-a em casa, sem serem vigiados, todas os dias ao fim da tarde. Ela não lhe teria permitido nem que ele lhe tocasse na ponta dos dedos sem a bênção episcopal, mas ele também não o tinha tentado. Foi na primeira noite de mar calmo, já na cama mas ainda vestidos, que ele iniciou as primeiras carícias, e fê-lo com tanto cuidado que a ela lhe pareceu natural a sugestão para que vestisse a camisa de dormir. Foi trocar de roupa na casa de banho, mas antes apagou as luzes do camarote e, quando saiu com a camisa de noite, calafetou com trapos as frinchas da porta para deixar a cama na mais completa escuridão. Enquanto o fazia, disse de bom humor:
- Que queres, doutor? É a primeira vez que durmo com um desconhecido.
Gabriel Garcia Marquez, O Amor em Tempos de Cólera. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1987, p. 169-170.
- Que queres, doutor? É a primeira vez que durmo com um desconhecido.
Gabriel Garcia Marquez, O Amor em Tempos de Cólera. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1987, p. 169-170.
terça-feira, 22 de abril de 2014
segunda-feira, 21 de abril de 2014
A passagem do Styx. Joachim Patinir
Joachim Patinir (1485-1524), Traversée du monde souterrain [entre 1515 e 1524],
(Musée du Prado, Madrid).
domingo, 20 de abril de 2014
A viagem de Lorenzo Daza. Gabriel Garcia Marquez
“De modo que lhe vim fazer uma súplica”, disse Lorenzo Daza.
Molhou a ponta do charuto na aguardente de anis, deu-lhe uma chupadela sem fumo
e concluiu com a voz embargada:
- Afaste-se do nosso caminho.
Florentino Ariza tinha-o escutado entre goles de aguardente
de anis, e tão absorto estava na revelação do passado de Fermina Daza [filha de
Lorenzo Daza] que nem sequer se perguntou que diria quando tivesse que falar.
Mas, chegado o momento, compenetrou-se de que fosse o que fosse que dissesse
comprometeria o seu destino.
- O senhor falou com ela? – perguntou.
- Isso não lhe diz respeito – respondeu Lorenzo Daza.
- Pergunto-lho porque me parece que quem tem de decidir é
ela.
- Nada disso – disse Lorenzo Daza. – Isto é um assunto de homens
e resolve-se entre homens.
O tom tinha-se tornado ameaçador e um cliente de uma mesa
próxima voltou-se para os observar. Florentino Ariza falou com a voz mais ténue
mas com a determinação mais imperiosa de que foi capaz:
- De todos os modos – disse – não lhe posso dar qualquer
resposta sem saber o que ela pensa. Seria uma traição.
Então Lorenzo Daza encostou-se para trás na cadeira com as
pálpebras avermelhadas e húmidas, e o olho esquerdo girou na sua órbita e ficou
torcido para fora. Também baixou a voz.
- Não me obrigue a dar-lhe um tiro – disse.
Florentino Ariza sentiu que as entranhas se lhe enchiam de
uma espuma fria. Mas a voz não lhe tremeu porque também ele se sentiu iluminado
pelo Espírito Santo-
- Dê-mo – disse, com a mão sobre o peito. – Não há maior
glória que morrer de amor.
Loren Daza teve de olhá-lo de lado, como os papagaios, para
o encontrar com o olho torcido. Não pronunciou as três palavras, pois mais
pareceu que as cuspiu sílaba a sílaba:
- Fi-lho-da-pu-ta!
Naquela mesma semana levou a filha para a viagem do
esquecimento. Não lhe dando qualquer explicação, irrompeu pelo seu quarto com
os bigodes sujos pela ira misturada com tabaco mastigado e ordenou-lhe que
fizesse as malas. Ela perguntou-lhe onde iam e ele respondeu: “Para a morte”.
Assustada com aquela resposta que se parecia de mais com a verdade, decidiu
fazer-lhe frente com a mesma coragem dos dias anteriores, mas ele puxou do
cinto com fivela de cobre maciço e deu uma chicotada na mesa que ressoou por
toda a casa como o disparo de uma espingarda. Fermina Daza conhecia muito bem
até onde podia ir a sua própria força e quando a devia utilizar, de modo que
fez uma mala com duas esteiras e uma rede, e meteu em dois grandes baús todas
as suas roupas, com a certeza de que esta era ma viagem sem regresso. Antes de
se vestir, fechou-se na casa de banho e conseguiu escrever a Florentino Ariza
uma breve carta de despedida num folha arrancada do rolo de papel higiénico.
Depois cortou pela nuca uma trança completa com a tesoura de podar, enrolou-a
dentro de um estojo de veludo bordado a fio de ouro e enviou-o juntamente com a
carta.
Gabriel Garcia Marquez, O Amor em Tempos de Cólera. Lisboa,
Publicações Dom Quixote, 1987, p. 93-94.
sábado, 19 de abril de 2014
Depois de matar a noite nas tascas da capital, o vagabundo... Camilo José Cela
Às escuras sob a quente lona, por entre cadeiras de baloiço, aparadores, camas desmontadas e gaiolas vazias, aos saltos e safanões pelos caminhos e despenhadeiros de Castela, o vagabundo - que nunca pôs o nariz de fora a não ser para fumar um ou outro cigarro, não fosse o diabo fazer com que ele queimasse os móveis de Dom Frederico - viu-se em Madrid, ao cair da tarde, fresco e ligeiro como se não tivesse caminhado nem uma légua, coisa que, vendo bem, também não era mentira.
- Então? Fez boa viagem?
- Se fiz!
Depois de matar a noite nas tascas da capital - humildes e acolhedoras tabernas de tintorro e cerveja com gasosa; o palito de dentes espetado no queijo manchego; o passarinho frito e a anchova em vinagre: a sardinha em azeite, a ginjinha e os resultados dos jogos de futebol mostrados no quadro preto - a gastar uns tostões para obsequiar o motorista do camião, e depois de ter ido cumprimentar a menina Finita, que vivia em Gravina, nº 20, instituição que já não é nem uma sombra do que foi, o vagabundo, no dia seguinte, sai de Madrid como pensa que se deve sair de Madrid, ao meio dia em ponto e já a cair a bola do relógio da Puerta del Sol.
- Vamos embora?
- O senhor é que manda.
Camilo José Cela, Vagabundo ao Serviço de Espanha. Antologia organizada por Ricardo Bada, Porto, Asa, 2002 [1ª edição 1948], p. 131-132
- Então? Fez boa viagem?
- Se fiz!
Depois de matar a noite nas tascas da capital - humildes e acolhedoras tabernas de tintorro e cerveja com gasosa; o palito de dentes espetado no queijo manchego; o passarinho frito e a anchova em vinagre: a sardinha em azeite, a ginjinha e os resultados dos jogos de futebol mostrados no quadro preto - a gastar uns tostões para obsequiar o motorista do camião, e depois de ter ido cumprimentar a menina Finita, que vivia em Gravina, nº 20, instituição que já não é nem uma sombra do que foi, o vagabundo, no dia seguinte, sai de Madrid como pensa que se deve sair de Madrid, ao meio dia em ponto e já a cair a bola do relógio da Puerta del Sol.
- Vamos embora?
- O senhor é que manda.
Camilo José Cela, Vagabundo ao Serviço de Espanha. Antologia organizada por Ricardo Bada, Porto, Asa, 2002 [1ª edição 1948], p. 131-132
sexta-feira, 18 de abril de 2014
Sherlock Holmes no Porto. Donan Coyle
Havia tempo já que a saúde de Sherlock Holmes não parecia satisfatória. As sumidades médicas inglesas a quem o apresentei eram, como eu, de opinião que só uma prolongada estação no Sul da Europa podia restabelecê-lo. Aconselharam-lhe Nice, Cannes, as vilas da Riviera italiana. Mas Sherlock Holmes não se resolvia a abandonar Londres. Passava dias inteiros estendido sobre uma preguiçadeira de verga na nossa casa de Baker-Street, envolto em nuvens de fumo que continuamente se escapavam do seu cachimbo de cerejeira. Negava-se quando vinham procurá-lo, e já três vezes se recusara a auxiliar as diligencias do nosso conhecido inspector Lestrade, da Scotland-Yard. Durante seis meses uma só vez condescendeu em sair da sua inacção. Foi no caso do assassinato de Hyde Park, em que Homes apresentou o verdadeiro culpado quando o tribunal ia pronunciar a condenação de um inocente.
Um dia, porém, foi-me necessário vir ao Porto para salvar importantes valores comprometidos na falência da casa Tompson and C.o, exportadora de vinhos. Perguntei a Sherlock Holmes se lhe não seria desagradável acompanhar-me.
- Pois vamos lá, dr. Watson, respondeu prontamente. Aí está uma boa oportunidade de ver que tal me dou com um clima do Sul.
Pode calcular-se o júbilo com que recebi a aquiescência de Holmes, não só pela boa companhia que me proporcionava, mas ainda pela certeza de que a sua saúde muito havia de lucrar com o passeio.
A viagem dispôs magnificamente o meu amigo, e decerto os leitores se recordam de que, mal desembarcado, logo averiguou um caso de evasões do Aljube que tanta retumbância teve.
Em pouco tempo, Sherlock Holmes readquiriu a antiga energia. Abandonou o maldito vício da cocaína, e como a estada lhe fosse salutar no Porto, resolvemos fixar aí a residência por alguns anos. Mistress Hudson, a nossa governanta de Londres, veio ter connosco. Abandonámos o Hotel de Francfort, onde de começo nos instalámos. Alugámos casa. Reatámos a nossa antiga vida de Baker-Street. Bem depressa começaram a surgir por cima dos móveis, provetas e tubos de ensaio. Uma prateleira vergava ao peso de jornais relatando causas-crime. E já a um canto se anichara um forno de reverbero.
Foi então grande a série de causas célebres que a intervenção de Holmes elucidou. Não esqueceram ainda investigações como a do furto do Museu Zuaga, a do roubo da mala do correio de Braga, a da falsificação do Banco Lusitano, a do suposto filho do Conde de Campo Lindo e tantas outras.
O barulho que em torno destes casos fizeram os jornais foi considerável e por momentos abafou o ruído das questões políticas, que em Portugal são clamorosas.
Donan Coyle, introdução aos contos "O cadáver que se evade" e "O truc de Mr. Raymond" publicado no 1º vol. de Mundo Ilustrado, Porto, 1912.
O autor dos contos é João de Meira (1881-1913), usando o jocoso pseudónimo de Donan Coyle, médico, natural de Guimarães, que foi professor da Escola Médico-Cirúrgica do Porto e Director da Morgue do Porto.
Este texto foi publicado por Magalhães Basto em O Porto, na colecção "Antologia da Terra Portuguesa", Lisboa, Livraria Bertrand, s/d, [1960], p. 99-101.
Os dois contos de João de Meira foram republicados recentemente em Sherlock Holmes no Porto, de Donan Coyle (João de Meira). Colecção de minimis, nº 2, Ed. Sociedade Martins Sarmento, Guimarães, Dezembro de 2009.
Um dia, porém, foi-me necessário vir ao Porto para salvar importantes valores comprometidos na falência da casa Tompson and C.o, exportadora de vinhos. Perguntei a Sherlock Holmes se lhe não seria desagradável acompanhar-me.
- Pois vamos lá, dr. Watson, respondeu prontamente. Aí está uma boa oportunidade de ver que tal me dou com um clima do Sul.
Pode calcular-se o júbilo com que recebi a aquiescência de Holmes, não só pela boa companhia que me proporcionava, mas ainda pela certeza de que a sua saúde muito havia de lucrar com o passeio.
A viagem dispôs magnificamente o meu amigo, e decerto os leitores se recordam de que, mal desembarcado, logo averiguou um caso de evasões do Aljube que tanta retumbância teve.
Em pouco tempo, Sherlock Holmes readquiriu a antiga energia. Abandonou o maldito vício da cocaína, e como a estada lhe fosse salutar no Porto, resolvemos fixar aí a residência por alguns anos. Mistress Hudson, a nossa governanta de Londres, veio ter connosco. Abandonámos o Hotel de Francfort, onde de começo nos instalámos. Alugámos casa. Reatámos a nossa antiga vida de Baker-Street. Bem depressa começaram a surgir por cima dos móveis, provetas e tubos de ensaio. Uma prateleira vergava ao peso de jornais relatando causas-crime. E já a um canto se anichara um forno de reverbero.
Foi então grande a série de causas célebres que a intervenção de Holmes elucidou. Não esqueceram ainda investigações como a do furto do Museu Zuaga, a do roubo da mala do correio de Braga, a da falsificação do Banco Lusitano, a do suposto filho do Conde de Campo Lindo e tantas outras.
O barulho que em torno destes casos fizeram os jornais foi considerável e por momentos abafou o ruído das questões políticas, que em Portugal são clamorosas.
Donan Coyle, introdução aos contos "O cadáver que se evade" e "O truc de Mr. Raymond" publicado no 1º vol. de Mundo Ilustrado, Porto, 1912.
O autor dos contos é João de Meira (1881-1913), usando o jocoso pseudónimo de Donan Coyle, médico, natural de Guimarães, que foi professor da Escola Médico-Cirúrgica do Porto e Director da Morgue do Porto.
Este texto foi publicado por Magalhães Basto em O Porto, na colecção "Antologia da Terra Portuguesa", Lisboa, Livraria Bertrand, s/d, [1960], p. 99-101.
Os dois contos de João de Meira foram republicados recentemente em Sherlock Holmes no Porto, de Donan Coyle (João de Meira). Colecção de minimis, nº 2, Ed. Sociedade Martins Sarmento, Guimarães, Dezembro de 2009.
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