quinta-feira, 24 de abril de 2014

A viagem de Fermina Daza (2). Gabriel Garcia Marquez


O doutor Juvenal Urbino sentiu-a deslizar junto a ele como um bichinho assustado, tentando afastar-se tanto quanto possível, num beliche onde era difícil estarem dois sem se tocarem. Pegou-lhe na mão, fria e crispada de terror, entrelaçou-lhe os dedos, e quase como num sussurro começou a contar-lhe as suas recordações de outras viagens por mar. Ela estava novamente tensa, porque, ao voltar à cama, deu conta que ele se despira completamente enquanto ela estava na casa de banho, e isto reavivou-lhe o pânico do passo seguinte. Mas o passo seguinte demorou várias horas, pois o doutor Urbino continuou a falar muito devagar, enquanto se ia apoderando milímetro a milímetro da confiança do seu corpo. Falou-lhe de Paris, do amor de Paris, dos namorados de Paris que se beijavam na rua, nos transportes públicos, nos terraços floridos dos cafés abertos ao hálito de fogo e aos acordeões lânguidos do Verão e que faziam amor de pé nos cais do Sena sem que ninguém os incomodasse. Enquanto falava na sombra, acariciou-lhe a curva do colo com as pontas dos dedos, acariciou-lhe a penugem sedosa dos braços, o ventre evasivo, e quando sentiu que a tensão tinha cedido fez uma primeira tentativa para lhe levantar a camisa de dormir, mas ela impediu-o com um impulso típico do seu carácter. Disse: “Sei fazer isso sozinha”. Tirou-a, com efeito, e depois ficou tão imóvel que o doutor Urbino teria pensado que já não estava ali se não fosse o calor solarengo do seu corpo nas trevas.
Passado um bocado voltou a pegar-lhe na mão e então sentiu-a morna e solta, mas ainda húmida de um orvalho terno. Ficaram outro bocado calados e imóveis, ele à espreita da ocasião para o passo seguinte, e ela à espera dele sem saber donde, enquanto a escuridão se ia dilatando com a sua respiração cada vez mais intensa. Ele largou-a então e deu um salto no vazio: humedeceu com a língua a ponta do dedo anelar, tocou-lhe ao de leve no mamilo desprevenido e ela sentiu uma descarga de morte como se lhe tivessem tocado num nervo vivo. Ficou contente por estar às escuras para que ele não visse o rubor intenso que a estremeceu até às raízes do crânio. “Calma”, disse-lhe ele, muito sereno. “Não te esqueças que os conheço”. Sentiu-a sorrir e a sua voz foi doce e nova nas trevas.
- Lembro-me muito bem – disse – e ainda não me passou a raiva.
Então ele soube que tinham dobrado o cabo da boa esperança [...]

Gabriel Garcia Marquez, O Amor em Tempos de Cólera. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1987, p. 170-171.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

A viagem de Fermina Daza (1). Gabriel Garcia Marquez

Nem na primeira noite de mar bravo, nem nas seguintes de navegação tranquila, nem nunca na sua muito longa vida matrimonial ocorreram os actos de barbárie temidos por Fermina Daza. A primeira, apesar do tamanho do barco e dos luxos do camarote, foi uma repetição horrível da escuna de Riohacha, e o marido foi um médico solícito que não dormiu nem um instante para a consolar, que era a única coisa que um médico demasiado eminente sabia fazer contra o enjoo. Mas a tempestade amainou ao terceiro dia , depois do porto de La Guayra, e já nessa altura tinham estado tanto tempo juntos, haviam conversado tanto que se sentiam amigos de longa data. Na quarta noite, quando ambos reataram os seus hábitos normais, o doutor Juvenal Urbino surpreendeu-se com o facto de a sua jovem esposa não rezar antes de dormir. Ela foi sincera com ele: a hipocrisia das freiras tinha-lhe criado uma aversão contra os rituais, mas a sua fé estava intacta e tinha aprendido a conservá-la em silencio. Disse: “Prefiro entender-me directamente com Deus”. Ele compreendeu as suas razões e desde aí cada um praticou a sua religião à sua maneira. Tinham noivado breve, mas bastante informal para a época, pois o doutor Urbino visitava-a em casa, sem serem vigiados, todas os dias ao fim da tarde. Ela não lhe teria permitido nem que ele lhe tocasse na ponta dos dedos sem a bênção episcopal, mas ele também não o tinha tentado. Foi na primeira noite de mar calmo, já na cama mas ainda vestidos, que ele iniciou as primeiras carícias, e fê-lo com tanto cuidado que a ela lhe pareceu natural a sugestão para que vestisse a camisa de dormir. Foi trocar de roupa na casa de banho, mas antes apagou as luzes do camarote e, quando saiu com a camisa de noite, calafetou com trapos as frinchas da porta para deixar a cama na mais completa escuridão. Enquanto o fazia, disse de bom humor:
 - Que queres, doutor? É a primeira vez que durmo com um desconhecido. 

 Gabriel Garcia Marquez, O Amor em Tempos de Cólera. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1987, p. 169-170.

terça-feira, 22 de abril de 2014

segunda-feira, 21 de abril de 2014

A passagem do Styx. Joachim Patinir

Joachim Patinir (1485-1524), Traversée du monde souterrain [entre 1515 e 1524],
(Musée du Prado, Madrid).

Esta pintura de Patinir destaca por su originalidad y su composición, distinta a la habitual, formada por planos paralelos escalonados. Favorecido por el formato apaisado de la tabla, el autor divide verticalmente el espacio en tres zonas, una a cada lado del ancho río, en el que Caronte navega en su barca con un alma.Tomando como fuente de inspiración las representaciones anteriores del Paraíso o del Purgatorio del Bosco, decisivas en su proceso y creación final,  Patinir reúne en una única composición imágenes bíblicas junto a otras del mundo grecorromano. El ángel situado en un promontorio, los otros dos, no lejos de éste, que acompañan a las almas, y algunos más, junto con otras almas minúsculas, al fondo, permiten conocer a la izquierda el Paraíso cristiano. Por el contrario, el Cancerbero parece identificar el Infierno representado a la derecha con Hades, asociándolo con la mitología griega, lo mismo que Caronte con su barca. Patinir sitúa la escena en el momento en que Caronte ha llegado al lugar en que se abre un canal a cada lado de la Estigia, momento de la decisión final, cuando el alma a la que conduce tiene que optar por uno de los dos caminos. Debe conocer la diferencia entre el camino difícil, señalado por el ángel desde el promontorio, que lleva a la salvación, al Paraíso, y el fácil, con prados y árboles frutales a la orilla, que se estrecha al pasar la curvatura oculta por los árboles y conduce directamente a la condenación, al Infierno. El modo en que Patinir representa el alma, de estricto perfil, con el rostro y el cuerpo girado en dirección al camino fácil, que lleva a la perdición, confirma que ya ha hecho su elección y que esa es la vía que va a seguir.A fines de la Edad Media existía toda una serie de metáforas para expresar esta idea, tanto bíblica como clásica. De todas ellas, Patinir parece haberse inspirado en el Evangelio de San Mateo. No hay duda de que refleja en esta obra el pesimismo de una época tan turbulenta como la que le tocó vivir, en plena Reforma protestante.  Al llevar a cabo esta obra, Patinir la convierte en unmemento mori, en un recordatorio, a quien la contemple, para que quede avisado de que es preciso prepararse para este momento e, imitando a Cristo, seguir el camino difícil, sin hacer caso de los falsos paraísos y tentaciones engañosas (Texto extractado de Silva, P. en:Patinir, Museo Nacional del Prado, 2007, pp. 150-163).

domingo, 20 de abril de 2014

A viagem de Lorenzo Daza. Gabriel Garcia Marquez


“De modo que lhe vim fazer uma súplica”, disse Lorenzo Daza. Molhou a ponta do charuto na aguardente de anis, deu-lhe uma chupadela sem fumo e concluiu com a voz embargada:
- Afaste-se do nosso caminho.
Florentino Ariza tinha-o escutado entre goles de aguardente de anis, e tão absorto estava na revelação do passado de Fermina Daza [filha de Lorenzo Daza] que nem sequer se perguntou que diria quando tivesse que falar. Mas, chegado o momento, compenetrou-se de que fosse o que fosse que dissesse comprometeria o seu destino.
- O senhor falou com ela? – perguntou.
- Isso não lhe diz respeito – respondeu Lorenzo Daza.
- Pergunto-lho porque me parece que quem tem de decidir é ela.
- Nada disso – disse Lorenzo Daza. – Isto é um assunto de homens e resolve-se entre homens.
O tom tinha-se tornado ameaçador e um cliente de uma mesa próxima voltou-se para os observar. Florentino Ariza falou com a voz mais ténue mas com a determinação mais imperiosa de que foi capaz:
- De todos os modos – disse – não lhe posso dar qualquer resposta sem saber o que ela pensa. Seria uma traição.
Então Lorenzo Daza encostou-se para trás na cadeira com as pálpebras avermelhadas e húmidas, e o olho esquerdo girou na sua órbita e ficou torcido para fora. Também baixou a voz.
- Não me obrigue a dar-lhe um tiro – disse.
Florentino Ariza sentiu que as entranhas se lhe enchiam de uma espuma fria. Mas a voz não lhe tremeu porque também ele se sentiu iluminado pelo Espírito Santo-
- Dê-mo – disse, com a mão sobre o peito. – Não há maior glória que morrer de amor.
Loren Daza teve de olhá-lo de lado, como os papagaios, para o encontrar com o olho torcido. Não pronunciou as três palavras, pois mais pareceu que as cuspiu sílaba a sílaba:
- Fi-lho-da-pu-ta!
Naquela mesma semana levou a filha para a viagem do esquecimento. Não lhe dando qualquer explicação, irrompeu pelo seu quarto com os bigodes sujos pela ira misturada com tabaco mastigado e ordenou-lhe que fizesse as malas. Ela perguntou-lhe onde iam e ele respondeu: “Para a morte”. Assustada com aquela resposta que se parecia de mais com a verdade, decidiu fazer-lhe frente com a mesma coragem dos dias anteriores, mas ele puxou do cinto com fivela de cobre maciço e deu uma chicotada na mesa que ressoou por toda a casa como o disparo de uma espingarda. Fermina Daza conhecia muito bem até onde podia ir a sua própria força e quando a devia utilizar, de modo que fez uma mala com duas esteiras e uma rede, e meteu em dois grandes baús todas as suas roupas, com a certeza de que esta era ma viagem sem regresso. Antes de se vestir, fechou-se na casa de banho e conseguiu escrever a Florentino Ariza uma breve carta de despedida num folha arrancada do rolo de papel higiénico. Depois cortou pela nuca uma trança completa com a tesoura de podar, enrolou-a dentro de um estojo de veludo bordado a fio de ouro e enviou-o juntamente com a carta.

Gabriel Garcia Marquez, O Amor em Tempos de Cólera. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1987, p. 93-94.

sábado, 19 de abril de 2014

Depois de matar a noite nas tascas da capital, o vagabundo... Camilo José Cela

Às escuras sob a quente lona, por entre cadeiras de baloiço, aparadores, camas desmontadas e gaiolas vazias, aos saltos e safanões pelos caminhos e despenhadeiros de Castela, o vagabundo - que nunca pôs o nariz de fora a não ser para fumar um ou outro cigarro, não fosse o diabo fazer com que ele queimasse os móveis de Dom Frederico - viu-se em Madrid, ao cair da tarde, fresco e ligeiro como se não tivesse caminhado nem uma légua, coisa que, vendo bem, também não era mentira.
- Então? Fez boa viagem?
- Se fiz!
Depois de matar a noite nas tascas da capital - humildes e acolhedoras tabernas de tintorro e cerveja com gasosa; o palito de dentes espetado no queijo manchego; o passarinho frito e a anchova em vinagre: a sardinha em azeite, a ginjinha e os resultados dos jogos de futebol mostrados no quadro preto  - a gastar uns tostões para obsequiar o motorista do camião, e depois de ter ido cumprimentar a menina Finita, que vivia em Gravina, nº 20, instituição que já não é nem uma sombra do que foi, o vagabundo, no dia seguinte, sai de Madrid como pensa que se deve sair de Madrid, ao meio dia em ponto e já a cair a bola do relógio da Puerta del Sol.
- Vamos embora?
- O senhor é que manda.

Camilo José Cela, Vagabundo ao Serviço de Espanha. Antologia organizada por Ricardo Bada, Porto, Asa, 2002 [1ª edição 1948], p. 131-132

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Sherlock Holmes no Porto. Donan Coyle

Havia tempo já que a saúde de Sherlock Holmes não parecia satisfatória. As sumidades médicas inglesas a quem o apresentei eram, como eu, de opinião que só uma prolongada estação no Sul da Europa podia restabelecê-lo. Aconselharam-lhe Nice, Cannes, as vilas da Riviera italiana. Mas Sherlock Holmes não se resolvia a abandonar Londres. Passava dias inteiros estendido sobre uma preguiçadeira de verga na nossa casa de Baker-Street, envolto em nuvens de fumo que continuamente se escapavam do seu cachimbo de cerejeira. Negava-se quando vinham procurá-lo, e já três vezes se recusara a auxiliar as diligencias do nosso conhecido inspector Lestrade, da Scotland-Yard. Durante seis meses uma só vez condescendeu em sair da sua inacção. Foi no caso do assassinato de Hyde Park, em que Homes apresentou o verdadeiro culpado quando o tribunal ia pronunciar a condenação de um inocente.
Um dia, porém, foi-me necessário vir ao Porto para salvar importantes valores comprometidos na falência da casa Tompson and C.o, exportadora de vinhos. Perguntei a Sherlock Holmes se lhe não seria desagradável acompanhar-me.
- Pois vamos lá, dr. Watson, respondeu prontamente. Aí está uma boa oportunidade de ver que tal me dou com um clima do Sul.
Pode calcular-se o júbilo com que recebi a aquiescência de Holmes, não só pela boa companhia que me proporcionava, mas ainda pela certeza de que a sua saúde muito havia de lucrar com o passeio.
A viagem dispôs magnificamente o meu amigo, e decerto os leitores se recordam de que, mal desembarcado, logo averiguou um caso de evasões do Aljube que tanta retumbância teve.
Em pouco tempo, Sherlock Holmes readquiriu a antiga energia. Abandonou o maldito vício da cocaína, e como a estada lhe fosse salutar no Porto, resolvemos fixar aí a residência por alguns anos. Mistress Hudson, a nossa governanta de Londres, veio ter connosco. Abandonámos o Hotel de Francfort, onde de começo nos instalámos. Alugámos casa. Reatámos a nossa antiga vida de Baker-Street. Bem depressa começaram a  surgir por cima dos móveis, provetas e tubos de ensaio. Uma prateleira vergava ao peso de jornais relatando causas-crime. E já a um canto se anichara um forno de reverbero.
Foi então grande a série de causas célebres que a intervenção de Holmes elucidou. Não esqueceram ainda investigações como a do furto do Museu Zuaga, a do roubo da mala do correio de Braga, a da falsificação do Banco Lusitano, a do suposto filho do Conde de Campo Lindo e tantas outras.
O barulho que em torno destes casos fizeram os jornais foi considerável e por momentos abafou o ruído das questões políticas, que em Portugal são clamorosas.

Donan Coyle, introdução aos contos "O cadáver que se evade" e "O truc de Mr. Raymond" publicado no 1º vol. de Mundo Ilustrado, Porto, 1912.

O autor dos contos é João de Meira (1881-1913), usando o jocoso pseudónimo de Donan Coyle, médico, natural de Guimarães, que foi professor da Escola Médico-Cirúrgica do Porto e Director da Morgue do Porto.
Este texto foi publicado por Magalhães Basto em O Porto, na colecção "Antologia da Terra Portuguesa", Lisboa, Livraria Bertrand, s/d, [1960], p. 99-101.
Os dois contos de João de Meira foram republicados recentemente em Sherlock Holmes no Porto, de Donan Coyle (João de Meira). Colecção de minimis, nº 2, Ed. Sociedade Martins Sarmento, Guimarães, Dezembro de 2009.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

A viagem é geralmente o termo de um encontro com o mundo. Franck Michel

A viagem é geralmente o termo de um encontro com o mundo. Vamos em direção a um fim do mundo onde nos encontramos com o mundo. Desta imersão, ingerência ou convite nasce o principio de um possível encontro cultural e não apenas turístico. Deste modo, da identidade ao turismo a distancia é muitas vezes mais curta do que se pensa. De um lado, deparamo-nos com um regresso ao passado e à natureza com o objectivo de reforçar ou até de fixar um identidade em risco de perder reconhecimento em face do turbilhão da mundialização; do outro lado, está o sucesso da conservação e da preservação do legado ao qual se tenta insuflar um novo destino, turístico e mercantil, para que seja melhor (re)conhecido através da sua prévia "rentabilização". É um pouco desta maneira que todas as culturas se vêem puxadas para cima pelas suas raízes, depois realojadas num contexto que, afinal de contas, se assemelha a todos os outros, num espaço comum.

Franck Michel, Voyages Pluriels. Échanges et Mélanges. Paris, Éditions Livres du Monde, 2011, p. 105-106

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Quem sabe, se não parti outrora, antes de mim, dum cais. Fernando Pessoa

[...]
Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve com uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha.
Ah, quem sabe, quem sabe,
Se não parti outrora, antes de mim,
Dum cais; se não deixei, navio ao sol
Oblíquo da madrugada,
Uma outra espécie de porto?
Quem sabe se não deixei, antes de a hora
Do mundo exterior como eu o vejo
Raiar-se para mim,
Um grande cais cheio de pouca gente,
Duma grande cidade meio-desperta,
Duma enorme cidade comercial, crescida, apopléctica,
Tanto quanto isso pode ser fora do Espaço e do Tempo?
Sim, dum cais, dum cais dalgum modo material,
Real, visível como cais, cais realmente,
O Cais Absoluto por cujo modelo inconscientemente imitado,
Insensivelmente evocado,
Nós os homens construímos
Os nossos cais nos nossos portos,
Os nossos cais de pedra actual sobre água verdadeira,
Que depois de construídos se anunciam de repente
Coisas-Reais, Espíritos-Coisas, Entidades em Pedra-Almas,
A certos momentos nossos de sentimento-raiz
Quando no mundo-exterior como que se abre uma porta
E, sem que nada se altere,
Tudo se revela diverso.
Ah o Grande Cais donde partimos em Navios-Nações!
O Grande Cais Anterior, eterno e divino!
De que porto? Em que águas? E porque penso eu isto?
Grandes Cais como os outros cais, mas o ònico.
Cheio como eles de silêncios rumorosos nas antemanhãs,
E desabrochando com as manhãs num ruído de guindastes
E chegadas de comboios de mercadorias,
E sob a nuvem negra e ocasional e leve
Do fundo das chaminés das fábricas próximas
Que lhe sombreia o chão preto de carvão pequenino que brilha,
Como se fosse a sombra duma nuvem que passasse sobre água sombria.
Ah, que essencialidade de mistério e sentido parados
Em divino êxtase revelador
Ës horas cor de silêncios e angústias
Não é ponte entre qualquer cais e O Cais!
Cais negramente reflectido nas águas paradas,
Bulício a bordo dos navios,
Ó alma errante e instável da gente que anda embarcada,
Da gente simbólica que passa e com quem nada dura,
Que quando o navio volta ao porto
Há sempre qualquer alteração a bordo!
Ó fugas contínuas, idas, ebriedade do Diverso!
Alma eterna dos navegadores e das navegações!
Cascos reflectidos devagar nas águas,
Quando o navio larga do porto!
Flutuar como alma da vida, partir como voz,
Viver o momento tremulamente sobre águas eternas.
Acordar para dias mais directos que os dias da Europa.
Ver portos misteriosos sobre a solidão do mar,
Virar cabos longínquos para súbitas vastas paisagens
Por inumeráveis encostas atónitas...
Ah, as praias longínquas, os cais vistos de longe,
E depois as praias próximas, os cais vistos de perto.
O mistério de cada ida e de cada chegada,
A dolorosa instabilidade e incompreensibilidade
Deste impossível universo
A cada hora marítima mais na própria pele sentido!
O soluço absurdo que as nossas almas derramam
Sobre as extensões de mares diferentes com ilhas ao longe,
Sobre as ilhas longínquas das costas deixadas passar,
Sobre o crescer nítido dos portos, com as suas casas e a sua gente,
Para o navio que se aproxima.
Ah, a frescura das manhãs em que se chega,
E a palidez das manhãs em que se parte,
Quando as nossas entranhas se arrepanham
E uma vaga sensação parecida com um medo
— O medo ancestral de se afastar e partir,
o misterioso receio ancestral à Chegada e ao Novo —
Encolhe-nos a pele e agonia-nos,
E todo o nosso corpo angustiado sente,
Como se fosse a nossa alma,
Uma inexplicável vontade de poder sentir isto doutra maneira:
Uma saudade a qualquer coisa,
Uma perturbação de afeições a que vaga pátria?
A que costa? a que navio? a que cais?
Que se adoece em nós o pensamento,
E só fica um grande vácuo dentro de nós,
Uma oca saciedade de minutos marítimos,
E uma ansiedade vaga que seria tédio ou dor
Se soubesse como sê-lo...
[...]

Fernando Pessoa, Ode Marítima
Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).
1ª publicação in Orpheu n. 2. Lisboa, Abril-Junho 1915.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Sempre fui um mau turista. Vitorino Nemésio

Intitulei-os [o autor refere-se a textos poéticos produzidos por si quando, em meados dos anos 30  residiu em Bruxelas e exerceu a docência na Bélgica] Expresso Bruges-Coimbra, porque me saíram de uma rápida viagem, no retorno, a Knock-le-Zut, a pretexto de de um congresso de poetas, e incluí-os no meu volume de versos Nem Toda a Noite a Vida. Bruges-Coimbra - por atar dois nomes de cidades europeias lendárias: a nossa, que vivi tão fundo; a belga, que senti passo a passo e ainda assim muitos anos depois da navette que naturalmente fazia, como professor da Universidade de Bruxelas, entre a capital e Antuérpia.
Mas sempre fui mau turista, deixando perder as ocasiões, e, com eles as proximidades. Talvez até porque o viajar concreto, no poeta, tende ao reconhecimento ou à recognição de itinerários prévios, de viagens imaginárias.

Vitorino Nemésio, "Evocação", in Panorama, n. 16/IV série, Dezembro de 1966.
Publicado também Em Criticas Sobre Vitorino Nemésio, coord. de António C. Lucas. Lisboa, Livraria Bertrand, 1974, p. 62-63.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

O meu único pecado não é deixar este mundo mas deixar-te a ti. Maria Helena Vieira da Silva

Carta de Maria Helena Vieira da Silva a Arpad Szenes, enviada de Nova Iorque para Paris, datada de 10 de Outubro de 1961.

Nova Iorque, 10 X 61
Meu drága Arpad
Esta carta é para deitar no lixo sem ser lida. Mas, se por azar eu não chegar ao meu destino, tu vais lê-la e este é o meu testamento. Sou a única responsável por ir de avião. Peço-te, não culpes ninguém! Era-me impossível ir de barco, já não podia suportar estar mais tempo longe de ti. Acho que não me vai acontecer nada. Vejo toda esta gente que vai e volta, porque é que eu iria morrer? Eu. Mas se, como já te disse, pela minha imprudência, e pela minha impaciência, eu não chegar ao destino, ficas a saber que o meu único pecado não é deixar este mundo mas deixar-te a ti. Mas eu acredito que não te vou deixar e é para te encontrar mais depressa, meu único amor, que vou de avião.
Mas se esta minha certeza me enganar, sê religioso e bom e reencontrar-nos-emos sempre.
Bicho

Nos automóveis, a cada instante, arrisco tanto como de avião.
Este é o meu raciocínio, gostava que estas palavras pudessem atravessar o Atlântico antes da minha chegada, depois de amanhã, para te sossegarem.
Não culpes ninguém. Não te zangues com ninguém, sou eu que tenho a certeza de chegar.
Amo o avião, o ar, mas tenho remorsos de gostar deles por gostar de ti. Daqui a algumas horas estarei no ar.
Beijo-te.

Escrita Íntima. Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes, Correspondência:1932-1961. Lisboa. INCM, 2013, p. 220.
Maria et Arpad, c. 1930

domingo, 13 de abril de 2014

São grandiosas todas as vistas do Porto que dão sobre o rio Douro. Daniel Martins de Moura Guimarães

Porto (89 321 h.)

É a segunda cidade do reino e a sua população muito comercial e activa. É lindo e pitoresco o aspecto do Porto, principalmente visto de Vila Nova de Gaia, como são grandiosas todas as vistas que dão sobre o rio Douro. É curioso ver o movimento constante nos principais pontos de comércio, como alfândega, Ribeira, ruas de S. João, Ingleses, Ferreira Borges, Belomonte, Flores, S.to António, Clérigos e Almada, e largos de S. Domingos, de S. Bento, dos Loios e de D. Pedro; ao mesmo tempo que são lindas e sossegadas as extensas ruas da Boavista, dos Bragas, da Rainha, do Costa Cabral, de S.ta Catarina, da Alegria, da Duquesa de Bragança, Formosa, de Fernandes Tomás, etc.

D. M. de M. G, Guia do Amador das Belas Artes. Porto, Tipografia Comercial, 1871, p. 41-42.