quarta-feira, 16 de abril de 2014

Quem sabe, se não parti outrora, antes de mim, dum cais. Fernando Pessoa

[...]
Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve com uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha.
Ah, quem sabe, quem sabe,
Se não parti outrora, antes de mim,
Dum cais; se não deixei, navio ao sol
Oblíquo da madrugada,
Uma outra espécie de porto?
Quem sabe se não deixei, antes de a hora
Do mundo exterior como eu o vejo
Raiar-se para mim,
Um grande cais cheio de pouca gente,
Duma grande cidade meio-desperta,
Duma enorme cidade comercial, crescida, apopléctica,
Tanto quanto isso pode ser fora do Espaço e do Tempo?
Sim, dum cais, dum cais dalgum modo material,
Real, visível como cais, cais realmente,
O Cais Absoluto por cujo modelo inconscientemente imitado,
Insensivelmente evocado,
Nós os homens construímos
Os nossos cais nos nossos portos,
Os nossos cais de pedra actual sobre água verdadeira,
Que depois de construídos se anunciam de repente
Coisas-Reais, Espíritos-Coisas, Entidades em Pedra-Almas,
A certos momentos nossos de sentimento-raiz
Quando no mundo-exterior como que se abre uma porta
E, sem que nada se altere,
Tudo se revela diverso.
Ah o Grande Cais donde partimos em Navios-Nações!
O Grande Cais Anterior, eterno e divino!
De que porto? Em que águas? E porque penso eu isto?
Grandes Cais como os outros cais, mas o ònico.
Cheio como eles de silêncios rumorosos nas antemanhãs,
E desabrochando com as manhãs num ruído de guindastes
E chegadas de comboios de mercadorias,
E sob a nuvem negra e ocasional e leve
Do fundo das chaminés das fábricas próximas
Que lhe sombreia o chão preto de carvão pequenino que brilha,
Como se fosse a sombra duma nuvem que passasse sobre água sombria.
Ah, que essencialidade de mistério e sentido parados
Em divino êxtase revelador
Ës horas cor de silêncios e angústias
Não é ponte entre qualquer cais e O Cais!
Cais negramente reflectido nas águas paradas,
Bulício a bordo dos navios,
Ó alma errante e instável da gente que anda embarcada,
Da gente simbólica que passa e com quem nada dura,
Que quando o navio volta ao porto
Há sempre qualquer alteração a bordo!
Ó fugas contínuas, idas, ebriedade do Diverso!
Alma eterna dos navegadores e das navegações!
Cascos reflectidos devagar nas águas,
Quando o navio larga do porto!
Flutuar como alma da vida, partir como voz,
Viver o momento tremulamente sobre águas eternas.
Acordar para dias mais directos que os dias da Europa.
Ver portos misteriosos sobre a solidão do mar,
Virar cabos longínquos para súbitas vastas paisagens
Por inumeráveis encostas atónitas...
Ah, as praias longínquas, os cais vistos de longe,
E depois as praias próximas, os cais vistos de perto.
O mistério de cada ida e de cada chegada,
A dolorosa instabilidade e incompreensibilidade
Deste impossível universo
A cada hora marítima mais na própria pele sentido!
O soluço absurdo que as nossas almas derramam
Sobre as extensões de mares diferentes com ilhas ao longe,
Sobre as ilhas longínquas das costas deixadas passar,
Sobre o crescer nítido dos portos, com as suas casas e a sua gente,
Para o navio que se aproxima.
Ah, a frescura das manhãs em que se chega,
E a palidez das manhãs em que se parte,
Quando as nossas entranhas se arrepanham
E uma vaga sensação parecida com um medo
— O medo ancestral de se afastar e partir,
o misterioso receio ancestral à Chegada e ao Novo —
Encolhe-nos a pele e agonia-nos,
E todo o nosso corpo angustiado sente,
Como se fosse a nossa alma,
Uma inexplicável vontade de poder sentir isto doutra maneira:
Uma saudade a qualquer coisa,
Uma perturbação de afeições a que vaga pátria?
A que costa? a que navio? a que cais?
Que se adoece em nós o pensamento,
E só fica um grande vácuo dentro de nós,
Uma oca saciedade de minutos marítimos,
E uma ansiedade vaga que seria tédio ou dor
Se soubesse como sê-lo...
[...]

Fernando Pessoa, Ode Marítima
Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).
1ª publicação in Orpheu n. 2. Lisboa, Abril-Junho 1915.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Sempre fui um mau turista. Vitorino Nemésio

Intitulei-os [o autor refere-se a textos poéticos produzidos por si quando, em meados dos anos 30  residiu em Bruxelas e exerceu a docência na Bélgica] Expresso Bruges-Coimbra, porque me saíram de uma rápida viagem, no retorno, a Knock-le-Zut, a pretexto de de um congresso de poetas, e incluí-os no meu volume de versos Nem Toda a Noite a Vida. Bruges-Coimbra - por atar dois nomes de cidades europeias lendárias: a nossa, que vivi tão fundo; a belga, que senti passo a passo e ainda assim muitos anos depois da navette que naturalmente fazia, como professor da Universidade de Bruxelas, entre a capital e Antuérpia.
Mas sempre fui mau turista, deixando perder as ocasiões, e, com eles as proximidades. Talvez até porque o viajar concreto, no poeta, tende ao reconhecimento ou à recognição de itinerários prévios, de viagens imaginárias.

Vitorino Nemésio, "Evocação", in Panorama, n. 16/IV série, Dezembro de 1966.
Publicado também Em Criticas Sobre Vitorino Nemésio, coord. de António C. Lucas. Lisboa, Livraria Bertrand, 1974, p. 62-63.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

O meu único pecado não é deixar este mundo mas deixar-te a ti. Maria Helena Vieira da Silva

Carta de Maria Helena Vieira da Silva a Arpad Szenes, enviada de Nova Iorque para Paris, datada de 10 de Outubro de 1961.

Nova Iorque, 10 X 61
Meu drága Arpad
Esta carta é para deitar no lixo sem ser lida. Mas, se por azar eu não chegar ao meu destino, tu vais lê-la e este é o meu testamento. Sou a única responsável por ir de avião. Peço-te, não culpes ninguém! Era-me impossível ir de barco, já não podia suportar estar mais tempo longe de ti. Acho que não me vai acontecer nada. Vejo toda esta gente que vai e volta, porque é que eu iria morrer? Eu. Mas se, como já te disse, pela minha imprudência, e pela minha impaciência, eu não chegar ao destino, ficas a saber que o meu único pecado não é deixar este mundo mas deixar-te a ti. Mas eu acredito que não te vou deixar e é para te encontrar mais depressa, meu único amor, que vou de avião.
Mas se esta minha certeza me enganar, sê religioso e bom e reencontrar-nos-emos sempre.
Bicho

Nos automóveis, a cada instante, arrisco tanto como de avião.
Este é o meu raciocínio, gostava que estas palavras pudessem atravessar o Atlântico antes da minha chegada, depois de amanhã, para te sossegarem.
Não culpes ninguém. Não te zangues com ninguém, sou eu que tenho a certeza de chegar.
Amo o avião, o ar, mas tenho remorsos de gostar deles por gostar de ti. Daqui a algumas horas estarei no ar.
Beijo-te.

Escrita Íntima. Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes, Correspondência:1932-1961. Lisboa. INCM, 2013, p. 220.
Maria et Arpad, c. 1930

domingo, 13 de abril de 2014

São grandiosas todas as vistas do Porto que dão sobre o rio Douro. Daniel Martins de Moura Guimarães

Porto (89 321 h.)

É a segunda cidade do reino e a sua população muito comercial e activa. É lindo e pitoresco o aspecto do Porto, principalmente visto de Vila Nova de Gaia, como são grandiosas todas as vistas que dão sobre o rio Douro. É curioso ver o movimento constante nos principais pontos de comércio, como alfândega, Ribeira, ruas de S. João, Ingleses, Ferreira Borges, Belomonte, Flores, S.to António, Clérigos e Almada, e largos de S. Domingos, de S. Bento, dos Loios e de D. Pedro; ao mesmo tempo que são lindas e sossegadas as extensas ruas da Boavista, dos Bragas, da Rainha, do Costa Cabral, de S.ta Catarina, da Alegria, da Duquesa de Bragança, Formosa, de Fernandes Tomás, etc.

D. M. de M. G, Guia do Amador das Belas Artes. Porto, Tipografia Comercial, 1871, p. 41-42.

Lisboa e Nápoles são as cidades mais bem situadas que visitei. Daniel Martins de Moura Guimarães

Lisboa (260 000 habitantes)

Começo por Lisboa. Devo-lhe a preferencia por ser a capital da minha pátria e ter sido o ponto de partida das minhas viagens na Europa.
Dos geógrafos e historiadores Urcullu, Cesar Fanin, Balbi, Bouillet e Ferdinand Denys, o primeiro dá-lhe 265 000 habitantes e todos os outros 260 000. O último fazendo menção do nosso recenseamento de 1836, que assinava a Lisboa 220 000 almas, não o admite. No que porém ninguém concordará é nos 169 823 habitantes do recenseamento de 1864. Explica-se no entretanto esta diferença, notando que os autores, a quem aludo, se referem à população desde Xabregas até Belém, e o recenseamento simplesmente à de intra muros.
Lisboa e Nápoles são as cidades mais bem situadas que visitei. Para bem se apreciar a beleza da primeira, não basta olhá-la de muitos e magníficos pontos de vista que tem, como Penha de França, castelo de S. Jorge, S. Pedro de Alcântara, etc. É preciso entrar a barra num lindo dia de Abril a Junho, quando as colinas marginais estão vestidas de verdura, entre a qual parecem esvoaçar as alvejantes velas duma multidão de moinhos, e ver este espectáculo ainda realçado por lindas habitações campestres, até que, onde o Tejo é mais majestoso, se ergue a cidade em anfiteatro sobre vários outeiros, que ostentam como em exposição os seus templos e palácios. Em frente da cidade é que as águas do rio, misturando-se ainda com as do Oceano, formam um soberbo golfo que, não excedendo a meia légua de largura entre Belém e a Praça do Comércio, é de duas léguas entre a alfândega e o Barreiro, e de três léguas entre Braço de Prata, arrabalde a Leste, e a vila de Aldeia Galega. Quem, como disse, entrar a barra numa bela manhã daquela estação e se não electrizar à vista de tal conjunto, ou é em demasia fleumático ou sofre de maneira que está insensível a todas as comoções.

D. M. de M. G, Guia do Amador das Belas Artes. Porto, Tipografia Comercial, 1871, p. 7-8.

sábado, 12 de abril de 2014

Guia do amador de Belas Artes. Daniel Martins de Moura Guimarães

Sem fins lucrativos, e sem ideias de vanglória, ofereço hoje ao publico o presente livro.
Antes porém que o leitor o analise, seja-me lícito expor as causas que o motivaram.
Querendo viajar pela Europa em 1865, procurei um guia que me desse notícia do que pelos diversos países existe de mais notável. Em português não encontrei nenhum completo.
O único existente, o Luso-Brasileiro, era já antigo, e por essa razão insuficiente, visto que uma grande parte das coisas tinha sofrido a natural alteração do tempo, principalmente no tocante a estradas, colecções, hotéis, etc.
O melhor que encontrei foi o de Mr. Baedecker, escrito em francês, mas com o grande inconveniente de não descrever a nossa península, sendo além disso demasiado extenso, pois ocupam oito volumes os guias para a Europa central. Tive mais tarde para suprir aquela deficiência, de comprar outro, o de Mr. Laringe, vindo assim a achar-me com o pecúlio de informações que desejava, mas derramadas em quatro mil e tantas páginas. Em 1867, querendo fazer uma terceira viagem, achei-me embaraçado com tantos guias; fiz um resumo do que havia de mais notável nos países que havia percorrido, levando simplesmente os volumes relativos aos que ia ver de novo.
Mas quantas viagens se aumentam depois de estar-se em marcha?
Quantas pessoas não têm, antes de empreendê-las, o tempo ou a paciência precisa para tantas notas?
E a quantas, enfim, deixa de ser familiar a língua francesa?
Estas considerações fizeram-me conceber a esperança de que, mesmo sem habilitações, poderia contribuir para popularizar a nossa maior ou menos riqueza em belas artes, quase virgens de explorações estrangeiras; publicando um guia ao qual adicionasse opiniões competentes e sinaleiras àquele respeito, e que, pela sua utilidadeno que é descritivo, se tornasse, a bem dizer, um meio de forçar o viajante leigo a adquirir instruções sobre a pintura, minha mania ou paixão dominante.
Divdi portanto o meu trabalho em duas partes, entrando na primeira o que é simplesmente descritivo, para o que me auxiliei dos guias já mencionados, e com respeito a Portugal de alguns esclarecimentos do Sr. Vilhena Barbosa e de outros cavalheiros, que estou certo não mo levarão a mal.
Na segunda parte, exclusivamente artística, dividi a pintura por escolas, parecendo-me assim estabelecer melhor o paralelo do que temos produxzido neste ramo e mais facilmente avaliar a importância relativa do lugar que nele ocupamos.
Para isso, auxiliei-me de diversos escritores, adoptando em geral a opinião de Mr. Louis Viardot, e com relação a Portugal a de Mr. Raczynski, cujas obras de ambos não ocupam menos de outras quatro mil e tantas páginas.
Creio pois deste modo ter explicado o meu fim e merecer desculpa de ter denominado Guia do Amador de Belas Artes um tão insignificante trabalho, levando-se-me em conta que o apresento como um resumo das obras que mencionei, que entra aqui muito amor pelo que é nosso, e que o líquido do que produzir será em benefício do Asilo de Mendicidade do Porto, minha pátria.

D. M. de M. G, Guia do Amador das Belas Artes. Porto, Tipografia Comercial, 1871, p. 3-5.

Notas:
Daniel Martins de Moura Guimarães, natural de Gondomar, partiu para o Brasil, em 1844. Tinha dezassete anos. Regressou ao Porto, em 1867, senhor de uma apreciável fortuna. Tornou-se negociante de arte e investiu na indústria e nos serviços. Viajou pela América, Europa e Oriente. Fundou, em 1894, o Grande Hotel do Porto, na Rua de Santa Catarina. Entre a sua descendência, refira-se o seu trineto Pedro Abrunhosa.


Louis Viardot publicou entre 1852 e 1855 Les Musées d'Europe. Guide et Memento de l'artiste et du voyageur, 5 volumes (Itália, Espanha; Alemanha; Inglaterra, Bélgica, Holanda e Rússia; França)

Atanazy Raczynski publicou em 1846, em Paris, Les arts en Portugal : lettres adressées a la société artistique et scientifique de Berlin et accompagnées de documents

Vilhena Barbosa publicou em 1860 As cidades e vilas da monarquia portuguesa que têm brasão de armas.

Karl Baedeker, alemão, fundou em 1827 uma empresa editora de livros de viagens. A editora teve continuidade, após a mote de Karl, pelas mãos dos seus filhos. Os livros que publicou foram popularizados com o nome da própria editora.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Errante aqui e ali. William Shakespeare

CX
Ai de mim, é verdade, errante aqui e ali
truão me viram todos, vendi ao desbarato
o que mais caro tinha, meu íntimo despi,
de novas afeições fiz velho desacato.
E ainda mais verdade é que olhei a virtude
alheado e indif'rente: mas ao coração deram
tais desvios ao fim uma outra juventude
e que me és todo o amor ensaios pior's disseram.
Toma o que não acaba. Fiz o que fiz. Prometo:
Não mais hei-de aguçar este meu apetite
de nova provação dar ao antigo afecto,
Deus deste amor que quero agora me limite-
Pois dá-me então guarida, ó meu céu mais perfeito,
dentro desse teu puro e desvelado peito.

Vasco Graça Moura, Dezassete Sonetos de Shakespeare, com um desenho de José Rodrigues. Porto, O Oiro do Dia, 1977, p. 9.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Vários bilhetes de combóio e de avião, contas de hotéis. Maria do Rosário Pedreira

Começara, pois, por tirar a fronha a uma das almofadas que durante a noite secretamente escorregara para fora da cama. Assim, ir-se-ia para sempre a imagem de Alberto, a lembrança do seu corpo apressado junto ao meu, as manhãs vazias e silenciosas que a sua ausência começava a tecer antes mesmo de abandonar a casa, de sair da cama onde cada um de nós dormira com duas almofadas, ele porque assim se acostumara e eu apenas para o poder olhar, durante a noite, enquanto não conseguisse adormecer. Porém, depois da almofada, haveria muito mais a fazer. Deitar fora os remédios que não fora eu a tomar e, com eles, duas escovas de dentes que não me pertenciam, uma bisnaga velha de creme para a barba, um par de meias pretas de algodão, um pente de metal, uma caneta verde, um frasco de perfume quase no fim, uma agenda com três anos, as fotocópias de um original de um livre de Filipe que já tinha sido publicado, um convite para o lançamento, os recortes de jornal com as críticas, vários bilhetes de combóio e de avião, contas de hotéis, guardanapos de papel escritos pela mão de Javier à mesa dos restaurantes, vamos sair daqui agora e fazer amor?, a terceira semana de Janeiro de alguns anos antes recortada de um calendário, um ramo de alecrim seco arrancado no cabo Espichel, um postal de Finisterra, outro da Irlanda, um com o rosto de Eliot quando jovem e ainda outro com o de Lenine, muitos iguais, a preto e branco, da cancela de um jardim em França, uma planta da cidade do Porto, fotografias de viagens, uma bala, uma nota de cem escudos rasgada ao meio, uma carteira de fósforos que dizia às vezes é muito difícil olhar para ti, um folheto turístico do Faial, uma marca de livro com um trevo, um pé de azálias que não pegara e ainda assim ficara enterrado no vaso, uma caixa de cigarrilhas incompleta, a embalagem cilíndrica verde e dourada de uma garrafa de malte comprada no aeroporto de Dublin, vários livros que nunca descobriria exactamente do quem eram, um isqueiro que já não acendia, um panfletos que me tinham dado na estação de Euston havia muito tempo, papel de carta de todos os lugares por onde passara, um cartão de sócio de um clube de vinhos, o programa de um espectáculo de música galesa, um autocolante do festival de cinema se Tróia, uma dúzia de revistas literárias, uma madeixa loura do cabelo do meu amante, um livro de versos dedicados a uma outra mulher, mais versos nunca publicados, dezenas deles, mais retratos que ainda cheiravam bem como os lugares onde tinham sido tirados, e o meu nome espalhado pelos muitos envelopes das cartas que um dia dividira por vários montes, como se também o meu amor se tivesse sempre dividido por esses homens que agora eu queria esquecer, e esqueceria, para sempre.

Maria do Rosário Pedreira, Alguns Homens, Duas Mulheres e Eu, Lisboa, Gradiva, 1993, p. 149-150.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Cidade imaginaria (4)

O centro


Entrou no café, quase deserto àquela hora, em busca do esquivo Franz Kafka, mas foi o som de um telemóvel que lhe prendeu a atenção. - Sim, estou bem. Já fiz o reconhecimento do trajecto. Era inevitável seguir a conversa em português. - António - apresentou-se ele. Desculpe, não pude deixar de ouvir. Ela sorriu: - Oh, fui apanhada! Fez bem em apresentar-se. Amália. Quer sentar-se à minha mesa?
Sem reservas, ela contou-lhe o motivo da vinda a Praga. Participava em corridas de meia maratona em cidades europeias. Lisboa, Paris, Barcelona, Dublin, Pisa, Berlim... Todos os anos, escolhia uma e marcava as férias de acordo com a data das provas. Fazia uma preparação cuidada de modo a não ter problemas em concluir o percurso. Gostava da sensação de correr entre gente de tantas paragens, idades e condições sociais. Adorava ver os centros históricos das cidades como palco por momentos exclusivo de gente que andava a pé, as ruas cortadas ao trânsito, as praças com gente a ver e a incitar, ou, simplesmente a sorrir. Estavam a 7 Maio, a corrida teria lugar dois dias depois, Dia da Europa. - Tenho de confessar que é uma forma original de coleccionar cidades - disse ele, surpreendido.
Combinaram novo encontro nesse dia, ao fim da tarde na Praça da Cidade. Sentaram-se numa esplanada, de frente para a torre do relógio medieval. Pediram cerveja, uma salada de tomate com mozzarella e pesto.
Agora era ela quem inquiria o motivo que o trouxera à cidade. - Queria experimentar a sensação de estar no centro - respondeu ele. Crescera numa pequena cidade, sonhando com Lisboa, o centro de Portugal. Frequentara a Universidade, no tempo da guerra colonial, sonhando com Paris, o centro da liberdade. Tornara-se professor, sonhando com Florença, o centro da civilização. Deambulara pelo mundo sonhando com Praga, o centro da Europa.
- Vais assistir à corrida amanhã? - perguntou ela. - Sim, mas vais ter de me descobrir. - Fá-lo-ei - respondeu ela.
Encetara o último terço da corrida, pela rua Resslova, na margem do Vitava, quando o avistou. Empunhava um cartaz, mas não conseguiu perceber o que dizia. Reconheceu o prédio da esquina, a "Casa Dançante". Sabia que tinha sido construído sob o patrocínio de Vacklav Havel. "Fred e Ginger", fora assim denominado. - Oh, pensou, ele encontrou o seu "centro", a utopia que preencheu o quarteirão bombardeado em 1945. Um símbolo de fragilidade e emoção.

[Texto publicado na edição do semanário Região de Leiria. de 4 de Abril de 2014]



terça-feira, 8 de abril de 2014

Memórias de Castelo Branco (6)


6. Regresso a Lisboa
Antes de sair de Castelo Branco, resolvi despedir-me do Reitor. Mau grado a frieza quase hostil com que me recebera e o incidente gerado com a tentativa de forçar todo o corpo docente a comparecer perante o Presidente da República, as nossas relações tinham-se amenizado no final do ano. Foi uma despedida cordial, em que trocámos até algumas graças. Quando me preparava para sair do seu gabinete, interpelou-me: - tem perspectivas de colocação em Lisboa? -  Não estou certo, respondi. - Terá sempre aqui um lugar, se as coisas por qualquer motivo não lhe correrem bem, disse então. Fiquei surpreendido e agradado.
Mas eu queria muito voltar a Lisboa. A distancia a que ficava de Castelo Branco era terrível. Saindo desta cidade no Sábado por volta das 12h30 (tinha aulas ao Sábado de manhã), chegava a Santa Apolónia ao fim da tarde. Regressava no dia seguinte, Domingo, saindo de Santa Apolónia por volta das 21 e chegando a Castelo Branco já de madrugada. Duas viagens longas e incómodas, e de duração sempre imprevisível, que deixavam entre si pouco mais de 24 horas. Tempo insuficiente para manter relacionamentos intelectuais e afectivos, viver a cidade de que gostava, ir às livrarias e aos cafés, ao teatro, ao cinema, a exposições, deambular pelas ruas. Tinha ainda que concluir o 4º ano do Curso, sem o que não me poderia inscrever no seminário que dava acesso à elaboração da tese e conclusão da licenciatura, daí resultando mais constrangimento aos meus tempos livres.
Com a criação dos bacharelatos decidida em 1968 pelo Ministro José Hermano Saraiva, todos os que, como, eu tinham concluído o 2º ano do Curso, ficaram na insólita situação de terem já efectuado cadeiras que passaram a pertencer aos planos de estudos do 4º ano. Assim sendo, eu pudera inscrever-me em 1970/1971 em salvo erro apenas duas cadeiras, Numismática e Paleografia e Diplomática, as quais frequentei no regime de voluntário, uma vez que não podia assistir às aulas. Devo dizer que a inscrição era fundamental também por um motivo crucial: obter o adiamento militar concedido a quem provasse encontrar-se a frequentar um curso superior nos cinco anos posteriores ao ano que perfizera 20 anos.
Os meses em que permaneci em Castelo Branco foram, nestas condições, devastadores para o meu círculo de amigos e de solidariedades pessoais e intelectuais. A distância interrompeu abruptamente relações que não mais foram reatadas, cortou laços e desvaneceu memórias intensas e fortes de camaradagem e partilha.
Em Lisboa, o mês de Agosto de 1971, pareceu-me mais deserto do que nunca. Ocupado em equipar a casa que com L. tinha alugado, não fui sequer às Caldas passar mais do que um fugaz fim de semana. Sem saber se e quando teria colocação, a gestão do pequeno pecúlio amealhado em Castelo Branco impunha uma severa restrição de gastos quotidianos. Voltei às traduções, com a ajuda do António Reis que procurei no Barreiro. Mas, curiosamente, a hipótese do jornalismo que tanto me atraíra um ano antes, nem sequer se colocou. A experiência de Castelo Branco fez-me reconhecer que ensinar era verdadeiramente o que eu queria fazer. Esperaria por isso que as "colocações" me ditassem onde o poderia fazer. Em Setembro, recebi a resposta: teria um horário na Escola Preparatória Manuel da Maia, em Campo de Ourique. Apresentei-me e comecei de imediato a preparar e dar aulas. E uma semana depois, tal como em Dezembro do ano anterior, chegou-me outro horário. Desta vez, no Liceu do Padre António Vieira, em Alvalade.


Avenida que conduz à estação e onde se localiza o antigo Liceu

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Memórias de Castelo Branco (5)


5. Relações
Tive contactos esporádicos e superficiais com o círculo político oposicionista de Castelo Branco. Não posso por isso tentar caracterizá-lo. Provavelmente estaria centrado em torno das figuras da CDE, que organizara listas no ano anterior ao da minha chegada a Castelo Branco. O apelido Paulouro era uma referencia regional. Eu tinha conhecido na Faculdade de Direito, em 1967, um dos membros da família e conhecia de nome o director do Jornal do Fundão, um dos mais conhecidos jornais locais da época. Mas não me lembro de ter falado com nenhum Paulouro em 70/71. Falei uma ou duas vezes com Manuel João Vieira, que integrara as listas CDE de 1969. E conheci aquela que talvez fosse a figura tutelar da CDE de então, o Dr. Vasco Luís Silva, que veio a ser Governador Civil do Distrito a seguir ao 25 de Abril. Como muitos professores que tinham sido proibidos de leccionar, dava explicações. Penso que tinha ligações ao sector intelectual do PCP, sendo sem dúvida um membro convicto da cultura neo-realista. Era um homem de modos sóbrios, que arrastava uma espécie de tristeza no olhar, onde podia ser antecipada o drama que se abateria brutalmente sobre os seus dias.
A minha condição de professor de passagem por Castelo Branco – nunca escondi a minha intenção de encontrar, se possível já no ano lectivo seguinte, colocação mais próxima de Lisboa – não favorecia o estabelecimento de relacionamentos mais sólidos no meio local. Eu viera de fora e nada fazia para modificar essa situação. Por outro lado, não me revia comummente nos temas políticos e culturais do neo-realismo, dos quais divergira no decurso das opções que fora efectuando entre 1966 e 1969, entre a minha entrada na Faculdade Direito de Lisboa e a conclusão do bacharelato em História. Ou seja,entre a declaração de Lennon "We're more popular than Jesus now" (1966) e a entrada dos tanques soviéticos em Praga (1969).
Entre os alunos, com um grupo heterogéneo estabeleci, como já referi, um relacionamento mais regular. Evitei cuidadosamente que o facto pudesse ter consequências objectivas ou subjectivas na relação professor-aluno. O certo é que não podia deixar de reconstituir em Castelo Branco um grupo de solidariedade e cumplicidade como sempre tinha acontecido desde que deixara a minha longínqua e isolada escolaridade aldeã, no final da década de 50.
Formado por rapazes e algumas raparigas das turmas do 7º Ano que leccionava, que fazia a cumplicidade deste grupo? A partilha de alguma preocupações enunciadas em termos geralmente um pouco vagos sobre o futuro de Portugal apanhado numa ratoeira entre a modernidade e a guerra colonial. Mas o que sobretudo unia este grupo era o gosto genuíno pelo jogo: jogávamos futebol, pingue-pongue, matraquilhos e monopólio, à mica. Ocasiões de encontro, de disputa, de anotação cuidadosa de aperfeiçoamentos, numa busca individual de superação. Mais do que a vitória individual ou colectiva, o objectivo do jogo era a partilha dos tempos, a convivência e essa juvenil procura da melhoria performativa.
No grupo de alunos sobressaía o Luís Silva. Era simultaneamente o mais maduro e o mais entusiasta. Parecia dotado de uma curiosidade insaciável. Era um rapaz bonito, de cabelo negro comprido e encaracolado. Sem dúvidas um dos melhores alunos do Liceu, era, além disso, dotado de uma energia transbordante e de uma crença inabalável no valor das ideias como condutoras da acção. Filho único do Dr. Vasco Silva certamente dele recebia exemplo e inspiração. O meu relacionamento intelectual com o Luís Silva foi mais longe do que com os outros, levando-o a expor-me dúvidas e inquietações que outros não formulavam ou não me confidenciavam e que ele próprio talvez não partilhasse com outros amigos.
No final do ano lectivo, o tempo das despedidas foi alegre. Quase todos iam prosseguir os estudos, em Coimbra ou em Lisboa e julgo que encaravam esse facto com mais ânimo ainda depois de terem privado com um professor que fizera recentemente esse mesmo percurso. Eu regressava a Lisboa, agora com outro quadro de vida e disposto a retomar os estudos para conclusão da licenciatura.
Trocámos telefones, dei-lhes o endereço da casa que alugara em Lisboa e combinámos encontros.
Nos primeiros dias de Novembro de 1971, pelo fim da tarde, um desses meus ex-alunos telefonou-me a dar a notícia. O Luís Silva, agora aluno do primeiro ano do Instituto Superior Técnico, falecera durante a noite. Uma insuficiência cardíaca, nunca detectada, cortara-lhe a vida em pleno sono.


Edificio no qual funcionava a Assembleia.

domingo, 6 de abril de 2014

Memórias de Castelo Branco (4)

4. Arredores
Dos setes meses que permaneci em Castelo Branco, em 1971, poucas lembranças conservo dos seus arredores. Além das idas aos colégios de Proença-a-Nova e Fundão, por altura dos exames, creio que visitei Penha Garcia, Idanha-a-Nova e Monsanto, Almortão, Vila Velha de Ródão e as margens do Ponsul. O facto de não ter carro limitava-me a mobilidade e as frequentes vindas a Lisboa, aos fins de semana, inutilizavam essa oportunidade para reconhecimento turístico do espaço geográfico envolvente.
A visita a Monsanto e Idanha e sobretudo a Penha Garcia foi-me proporcionada pelo prof. Guimarães (não me lembro do nome), um professor de Geografia que acabava de se efectivar em Castelo Branco. Organizava visitas de estudo com os seus alunos e eu inscrevi-me numa. Eram visitas muito bem preparadas, com textos de apoio e orientação no terreno. Impressionou-me a ancestralidade e rudeza das construções e a estratificação geológica muito marcada na paisagem. À ermida da Senhora do Almortão fui também em expedição pedagógica, da responsabilidade do professor de Canto Coral (como então se designava a disciplina de Educação Musical), Carlos Gama. Fomos em dia de ensaio para a romaria (que se realiza duas semanas depois da Páscoa), para ouvirmos os cantares e o toque dos adufes, manejados por mulheres beirãs trigueiras e com os dedos tolhidos por atroses.
O professor Carlos Gama, além de dirigir diversos grupos de canto e música na cidade (o Orfeón de Castelo Branco e a Orquestra Típica Albicastrense), promovia e apreciava o convívio com os colegas do Liceu. Os seus interesse porém não se cingiam à música. Gostava de pescar e era um bom apreciador de gastronomia tradicional. Também apreciava as paisagens surpreendentes da região, nomeadamente as do leito e margens do Rio Ponsul, de facto uma das mais extraordinárias daquele território.
Com o Professor Guimarães eu tivera já uma visita guiada pelo leito do Ponsul junto a Penha Garcia. O Professor Gama levou-me aos sectores localizados junto do ponto de encontro com o Tejo, perto de Vila Velha de Ródão. Nas tardes de Sábado, essas excursões tinham um final feliz gastronómico. Num barracão aquecido por uma lareira, nas traseiras de uma taberna de beira de estrada, o Professor Gama agenciava um jantar que envolvia obrigatoriamente uma sopa de peixe de rio confeccionada na hora e com o peixe pescado entre o momento da nossa chegada e o fim dos aperitivos (queijo, chouriço, pão e vinho) e um coelho à caçadora acompanhado de batata cozida.
Das experiências gastronómicas da época, além dessa sopa de peixe feita com fatias de pão de trigo de véspera, caldo condimentado de cozer os peixes e ovo escalfado, a mais marcante foi a da lampreia. Comi pela primeira vez lampreia na Pensão Império, onde, como já referi, a comida era bem confeccionada. A lampreia era um prato dos meses da Primavera e preparado aos fins de semana. Alguns dos meus colegas desdenhavam a lampreia do Tejo, exaltando a do Minho, mas para mim, que desconhecia por completo a existência daquela prato, declarei-me rendido desde a primeira experiência. A cozinha mais afamada de lampreia na altura situava-se em Vila Velha de Ródão.
A gastronomia do interior beirão colocou-me em presença de alternativas ao peixe de mar. Além dos pequenos peixes de rio, a boga, o achigã, e da lampreia, um peixe entrou também pela primeira vez na minha ementa: o sável.
O sável acompanhava a época da lampreia e surgia na mesa sobretudo na forma de delgadas postas fritas e conservadas em molho de escabeche. Tapear, a meio da tarde, era um dos hábitos albicastrenses. Nos cafés e pensões, serviam-se pratos com queijos e enchidos, lulas fritas e pão. No tempo do sável, este destronava os concorrentes anteriores. A pequena refeição era acompanhada por uma garrafa de vinho. Na época, a relação qualidade-preço pendia a favor do Covilhã 1967 (um vinho da Adega Cooperativa da Covilhã, que, creio, se denomina hoje Piornos).


Casa, junto ao rio Ponsul, onde se comia sopa de peixe
Ponte sobre o rio Ponsul
Restaurante Rei Wamba, Vila Velha de Ródão (hoje também abandonado)

sábado, 5 de abril de 2014

Memórias de Castelo Branco (3)


3. Provas
Foi precisamente a este expediente que recorri. Informei-me sobre o mercado local desses instrumentos de salvação e apresentei-me ao fornecedor na segunda-feira seguinte, munido do bilhete de identidade e da contrapartida monetária que me tinham indicado. Sobre o motivo da queixa, limitei-me a tossir e a declarar: gripe. À note telefonou-me, do Porto, o Artur. Uma peripécia mais ou menos rocambolesca retivera-o ali desde o final da semana anterior e não conseguiria regressar a Castelo Branco antes de um dia ou dois. Contei-lhe o que se passara e como corria o sério risco de faltas injustificadas. - Meu caro, tens que me ajudar, desencantando aí um atestado médico e entregando-o na secretaria do Liceu - foi a resposta.
A empresa era arriscada, mas não havia alternativa. No dia seguinte, lá subi as escadas do mesmo fornecedor e apresentei-me tossindo e alegando gripe. O seu nome? – foi-me perguntado. Debitei o nome completo do meu colega. Bilhete de Identidade? Esqueci-me, mas sei o número de cor. Pela primeira vez, o meu interlocutor olhou para mim, quase incrédulo. E também sabe a data de emissão? Sim – retorqui, e debitei-a.
Como se pode perceber deste abreviado relato memorialistico, não enfrentei dificuldades significativas de integração, tanto no quotidiano escolar como no meio local. Pouco tempo decorrido sobre o início do ano de 1971, adquirira um crescente à vontade na relação com alunos e colegas, conseguira dominar os problemas do irrequietismo adolescente nas turmas dos mais novos e afirmar um razoável domínio das matérias exigentes da leccionação aos mais velhos. De alguns colegas mais velhos, recebera mesmo manifestações de apreço e simpatia, e, à mediada que o tempo passava, o gelo inicial do próprio reitor por vezes parecia querer derreter.
Terminadas as aulas, os meus serviços podiam ser dispensados. Em princípio, os professores provisórios não faziam exames, limitando-se a colaborar em tarefas de vigilância nas provas escritas. A 7 de Julho, o mais tardar, perdiam o vínculo precário que os ligava ao Estado. Mas, em finais de Junho, Catanas Diogo chamou-me ao seu gabinete para me dizer que contava comigo para ver provas escritas e talvez fazer algumas orais, pelo que podia contar com trabalho (e remuneração) até ao fim do mês de Julho.
Assim sucedeu. Fiz vigilâncias de escritas em Castelo Branco e no colégio de Proença a Nova (onde cheguei no velho carro do velho professor de matemática Lopes Dias que cortava as curvas a direito num exercício de improvável sucesso). Era uma prática corrente os professores de liceu irem fazer exames aos colégios da área (recordo de mais tarde, quando professor no Padre António Veira em Lisboa ir fazer exames aos colégios de São João de Brito e Padre Manuel Bernardes).
Uma tarde, regressado de prova orais em Castelo Branco, tinha na pensão uma mensagem inesperada: o Reitor telefonara a pedir que me fosse encontrar com ele à esplanada do café Avis (o café frequentada pelo elementos conservadores da cidade). Tudo aquilo me pareceu estranho: o pedido, o local de encontro, vindo de alguém que eu nunca encontrara num café, sequer na rua.
Intrigado corri a confirmar a mensagem. E lá estava, na sua figura franzina e de outro tempo, o temido Catanas Diogo. A conversa foi tão inusitada que eu tive dificuldade em perceber exactamente do que se tratava. Mas entendi o que me pedia: que no dia seguinte, em vez das provas orais que me estavam destinadas em Castelo Branco, eu me deslocasse de manhã ao Fundão, para aí substituir um professor no júri das provas de Filosofia. Tratava-se de uma emergência. Embaraçado mas determinado, o reitor ainda disse: confio em si para esta missão. Na sua competência, no seu bom senso e na sua juventude. Eu ficarei atento e à mínima dificuldade, pode estar certo de que não deixarei de agir. Mas tenho a certeza de que vai conseguir dominar a situação.
À noite tomei conhecimento de qual ela era verdadeiramente. Nesse dia, o professor destacado para fazer as orais de filosofia no Fundão só aprovara um aluno. Indignados, os pais tinham invadido as instalações do colégio e durante algum tempo “sequestrado” o júri. Alegavam que as perguntas eram capciosas e destinadas a intimidar os jovens e não a descobrir o que sabiam. Só com a intervenção da GNR os professores tinham podido regressar a Castelo Branco.
Investido da missão apaziguadora que o reitor me confiara entrei no Colégio do Fundão, com os restantes membros do júri, apreensivo e circunspecto. O Director recebeu-nos à porta, mas não fez referencia aos acontecimentos da véspera. Junto dele, a filha, saudou-me com afectividade. Tinha sido minha colega na Faculdade. Este encontro aliviou a tensão.
O dia de exames decorreu sem incidentes. A sala estava cheia quando a sessão se iniciou e foi esvaziando ao longo da manhã, sinal de que a normalidade regressara às salas do Colégio. O Presidente do júri, um experiente professor de Geografia, fez questão, no regresso, de me deixar junto da Pensão Império. Catanas Diogo, nervoso, aguardava, ali mesmo, a nossa chegada para confirmar as boas notícias.

Café Avis (o Café Arcadia, entretanto desaparecido, situava-se à direita)

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Memórias de Castelo Branco (2)

2. Professor no liceu
As férias desse Natal de 1970 dediquei-as pois ao estudo do programa de Filosofia do 7º ano do liceu. Recuperei o compêndio pelo qual estudara, o famoso “Bonifácio” de má memória – ao qual, contra minha vontade, o meu nome andou sempre associado – comprei o do “Saraiva” e revolvi velhos apontamentos anti-pedagógicamente ditados pela Dr.ª Deolinda Ribeiro. Mas a salvação veio de um excelente manual utilizado no Liceu Francês e que descobri numa das livrarias do Campo Grande. Adquiri também as antologias de textos de Filosofia e Psicologia organizadas pelos Professores Joel Serrão e Borges de Macedo. Com esta bibliografia, devidamente lida e passada a esquemas e notas, senti-me enfim em condições de enfrentar a tarefa de preparar jovens de 17 e 18 anos para o exame de filosofia, convicto de que estaria mais habilitado para esse efeito do que os professores que me tinham cabido em sorte 5 anos antes...
Os meus pais quiseram acompanhar-me, no regresso a Castelo Branco A  minha mãe, em particular, fazia questão de verificar as condições que eu deveria ajustar para uma estadia prolongada. Feitas as contas ao montante total das viagens, concluíram pela vantagem de alugar um carro de praça. Fecharam o negócio com um motorista conhecido e lá partimos do Carvalhal Benfeito, Caldas da Rainha, num dos primeiros dias de um Janeiro escuro e chuvoso. A partir de Abrantes, à chuva juntou-se o frio e, mais à frente, os primeiros flocos de neve. Em Vila Velha de Rodão, a altura de neve na estrada era já tão significativa que o nosso condutor se declarou incapaz de prosseguir. “Paremos enquanto é tempo; mais à frente podemos ficar empanados e ter de dormir no carro” – disse.
Em Vila Velha de Ródão, soubemos que os comboios para o nosso destino ainda funcionavam. Foi assim que, já de noite, chegámos a Castelo Branco. Cansados, ansiosos, cheios de frio, carregando malas de livros e de roupa. Dirigimo-nos à Pensão Império, a unidade hoteleira com a qual pré-contratara um aluguer de quarto com refeições e tratamento de roupa por 1500$00.
O meu vencimento ia ser de cerca de 4700$00 por mês. Os professores provisórios eram então contratados de Outubro a Junho, ou seja por 9 meses (no meu caso de meados de Dezembro a Junho). Os subsídios de férias e natal não constavam dos direitos dos funcionários públicos. Em contrapartida, os seus salários não pagavam impostos.
A minha mãe “aprovou” as instalações. Na Império, eu dispunha de um quarto com janela e uma mesa de trabalho e um pequeno lavatório (a casa de banho, com duche e sanitários, encontrava-se no corredor, servindo 5 quartos). A comida era abundante e de boa qualidade. Como o meu contrato era ao mês e eu saía algumas vezes ao fim de semana, era compensado podendo convidar colegas a almoçar ou jantar comigo sem qualquer pagamento.
Depressa estabeleci uma rotina em Castelo Branco. As manhãs de Segunda a Sábado eram ocupadas com aulas. Depois de almoço ficava na pensão a trabalhar. Ao fim da tarde saía para praticar algum desporto. Fiz-me sócio da Assembleia, um clube das elites locais onde se podia jogar ténis de mesa. Na maior das vezes era com alunos que jogava. Em determinada altura fui convidado para me filiar no Benfica e Castelo Branco e por algum tempo integrei a sua equipa de competição. Depois de jantar, voltava a sair para tomar um café com colegas. O Turismo (situado no Hotel com o mesmo nome) e o Arcádia eram os meus cafés preferidos. Os colegas que aí vinham conversar eram poucos: o já aludido Joaquim Artur Marques de Carvalho, um professor de Educação Física, conhecido por "El Bigodón", um professor de Ciências cujo nome não recordo, o maestro Carlos Gama, professor de Canto Coral. Do Joaquim Artur sentia-me mais próximo, tanto em razão da formação em História, como de outros interesses intelectuais. Acontecia que terminado o café, regressando os colegas às suas casas, era  procurado por alunos que me vinham acompanhar à Pensão aproveitando para conversar sobre os mais variados assuntos. De facto eu sentia-me muitas vezes mais próximo daqueles jovens do que dos meus colegas e embora julgasse saber que a camaradagem entre professores e alunos era motivo de apreensão por parte de alguns professores do liceu, nunca fui admoestado ou advertido pessoalmente pelo facto. Também é certo que nunca senti em qualquer das duas turmas de 7 º ano – uma masculina outra feminina – qualquer ameaça ao clima de trabalho e aprendizagem motivado por essa cumplicidade conquistada fora da escola. Nos fins de semana em que fiquei em Castelo Branco, aceitei convites para participar em piqueniques e outras realizações de convívio organizados pelos estudantes. Com as raparigas o relacionamento foi bem menos próximo e intenso. Aparentemente preferiam a Pastelaria Belar, onde os rapazes as procuravam. Mesmo assim, recordo-me que por vezes apareciam no café Turismo ou na Pensão Império para me colocaram dúvidas ou me pedirem opinião sobre leituras.
Apesar do conservadorismo dominante no Liceu, só uma vez senti a pressão institucional dele resultante. Tratou-se de uma ocasião determinada: uma visita do Presidente da República à cidade. Aos professores foi distribuída uma carta circular assinada pelo Reitor convidando-os para uma sessão de cumprimentos que iria ter lugar na ocasião – um Domingo – no Governo Civil. Pedia-se que confirmassem a presença. Dois dias antes da data prevista, o Reitor deve ter verificado que o número de professores disponíveis para cumprimentar o Almirante era decepcionante. Tomou então uma medida que a todos colheu de surpresa: convocou, ao abrigo dos poderes que a Lei lhe conferia, uma reunião do Conselho Escolar para o dia, local e hora em que Américo Tomás estaria no Governo Civil. Como se sabe, a falta de um professor a um Conselho Escolar só podia ser justificada com atestado médico.


Pastelaria Belar (preferida pelas alunas e suas mães)
Edificio do antigo Governo Civil de Castelo Branco