Lisboa (260 000 habitantes)
Começo por Lisboa. Devo-lhe a preferencia por ser a capital da minha pátria e ter sido o ponto de partida das minhas viagens na Europa.
Dos geógrafos e historiadores Urcullu, Cesar Fanin, Balbi, Bouillet e Ferdinand Denys, o primeiro dá-lhe 265 000 habitantes e todos os outros 260 000. O último fazendo menção do nosso recenseamento de 1836, que assinava a Lisboa 220 000 almas, não o admite. No que porém ninguém concordará é nos 169 823 habitantes do recenseamento de 1864. Explica-se no entretanto esta diferença, notando que os autores, a quem aludo, se referem à população desde Xabregas até Belém, e o recenseamento simplesmente à de intra muros.
Lisboa e Nápoles são as cidades mais bem situadas que visitei. Para bem se apreciar a beleza da primeira, não basta olhá-la de muitos e magníficos pontos de vista que tem, como Penha de França, castelo de S. Jorge, S. Pedro de Alcântara, etc. É preciso entrar a barra num lindo dia de Abril a Junho, quando as colinas marginais estão vestidas de verdura, entre a qual parecem esvoaçar as alvejantes velas duma multidão de moinhos, e ver este espectáculo ainda realçado por lindas habitações campestres, até que, onde o Tejo é mais majestoso, se ergue a cidade em anfiteatro sobre vários outeiros, que ostentam como em exposição os seus templos e palácios. Em frente da cidade é que as águas do rio, misturando-se ainda com as do Oceano, formam um soberbo golfo que, não excedendo a meia légua de largura entre Belém e a Praça do Comércio, é de duas léguas entre a alfândega e o Barreiro, e de três léguas entre Braço de Prata, arrabalde a Leste, e a vila de Aldeia Galega. Quem, como disse, entrar a barra numa bela manhã daquela estação e se não electrizar à vista de tal conjunto, ou é em demasia fleumático ou sofre de maneira que está insensível a todas as comoções.
D. M. de M. G, Guia do Amador das Belas Artes. Porto, Tipografia Comercial, 1871, p. 7-8.
domingo, 13 de abril de 2014
sábado, 12 de abril de 2014
Guia do amador de Belas Artes. Daniel Martins de Moura Guimarães
Sem fins lucrativos, e sem ideias de vanglória, ofereço hoje ao publico o presente livro.
Antes porém que o leitor o analise, seja-me lícito expor as causas que o motivaram.
Querendo viajar pela Europa em 1865, procurei um guia que me desse notícia do que pelos diversos países existe de mais notável. Em português não encontrei nenhum completo.
O único existente, o Luso-Brasileiro, era já antigo, e por essa razão insuficiente, visto que uma grande parte das coisas tinha sofrido a natural alteração do tempo, principalmente no tocante a estradas, colecções, hotéis, etc.
O melhor que encontrei foi o de Mr. Baedecker, escrito em francês, mas com o grande inconveniente de não descrever a nossa península, sendo além disso demasiado extenso, pois ocupam oito volumes os guias para a Europa central. Tive mais tarde para suprir aquela deficiência, de comprar outro, o de Mr. Laringe, vindo assim a achar-me com o pecúlio de informações que desejava, mas derramadas em quatro mil e tantas páginas. Em 1867, querendo fazer uma terceira viagem, achei-me embaraçado com tantos guias; fiz um resumo do que havia de mais notável nos países que havia percorrido, levando simplesmente os volumes relativos aos que ia ver de novo.
Mas quantas viagens se aumentam depois de estar-se em marcha?
Quantas pessoas não têm, antes de empreendê-las, o tempo ou a paciência precisa para tantas notas?
E a quantas, enfim, deixa de ser familiar a língua francesa?
Estas considerações fizeram-me conceber a esperança de que, mesmo sem habilitações, poderia contribuir para popularizar a nossa maior ou menos riqueza em belas artes, quase virgens de explorações estrangeiras; publicando um guia ao qual adicionasse opiniões competentes e sinaleiras àquele respeito, e que, pela sua utilidadeno que é descritivo, se tornasse, a bem dizer, um meio de forçar o viajante leigo a adquirir instruções sobre a pintura, minha mania ou paixão dominante.
Divdi portanto o meu trabalho em duas partes, entrando na primeira o que é simplesmente descritivo, para o que me auxiliei dos guias já mencionados, e com respeito a Portugal de alguns esclarecimentos do Sr. Vilhena Barbosa e de outros cavalheiros, que estou certo não mo levarão a mal.
Na segunda parte, exclusivamente artística, dividi a pintura por escolas, parecendo-me assim estabelecer melhor o paralelo do que temos produxzido neste ramo e mais facilmente avaliar a importância relativa do lugar que nele ocupamos.
Para isso, auxiliei-me de diversos escritores, adoptando em geral a opinião de Mr. Louis Viardot, e com relação a Portugal a de Mr. Raczynski, cujas obras de ambos não ocupam menos de outras quatro mil e tantas páginas.
Creio pois deste modo ter explicado o meu fim e merecer desculpa de ter denominado Guia do Amador de Belas Artes um tão insignificante trabalho, levando-se-me em conta que o apresento como um resumo das obras que mencionei, que entra aqui muito amor pelo que é nosso, e que o líquido do que produzir será em benefício do Asilo de Mendicidade do Porto, minha pátria.
D. M. de M. G, Guia do Amador das Belas Artes. Porto, Tipografia Comercial, 1871, p. 3-5.
Notas:
Daniel Martins de Moura Guimarães, natural de Gondomar, partiu para o Brasil, em 1844. Tinha dezassete anos. Regressou ao Porto, em 1867, senhor de uma apreciável fortuna. Tornou-se negociante de arte e investiu na indústria e nos serviços. Viajou pela América, Europa e Oriente. Fundou, em 1894, o Grande Hotel do Porto, na Rua de Santa Catarina. Entre a sua descendência, refira-se o seu trineto Pedro Abrunhosa.
Antes porém que o leitor o analise, seja-me lícito expor as causas que o motivaram.
Querendo viajar pela Europa em 1865, procurei um guia que me desse notícia do que pelos diversos países existe de mais notável. Em português não encontrei nenhum completo.
O único existente, o Luso-Brasileiro, era já antigo, e por essa razão insuficiente, visto que uma grande parte das coisas tinha sofrido a natural alteração do tempo, principalmente no tocante a estradas, colecções, hotéis, etc.
O melhor que encontrei foi o de Mr. Baedecker, escrito em francês, mas com o grande inconveniente de não descrever a nossa península, sendo além disso demasiado extenso, pois ocupam oito volumes os guias para a Europa central. Tive mais tarde para suprir aquela deficiência, de comprar outro, o de Mr. Laringe, vindo assim a achar-me com o pecúlio de informações que desejava, mas derramadas em quatro mil e tantas páginas. Em 1867, querendo fazer uma terceira viagem, achei-me embaraçado com tantos guias; fiz um resumo do que havia de mais notável nos países que havia percorrido, levando simplesmente os volumes relativos aos que ia ver de novo.
Mas quantas viagens se aumentam depois de estar-se em marcha?
Quantas pessoas não têm, antes de empreendê-las, o tempo ou a paciência precisa para tantas notas?
E a quantas, enfim, deixa de ser familiar a língua francesa?
Estas considerações fizeram-me conceber a esperança de que, mesmo sem habilitações, poderia contribuir para popularizar a nossa maior ou menos riqueza em belas artes, quase virgens de explorações estrangeiras; publicando um guia ao qual adicionasse opiniões competentes e sinaleiras àquele respeito, e que, pela sua utilidadeno que é descritivo, se tornasse, a bem dizer, um meio de forçar o viajante leigo a adquirir instruções sobre a pintura, minha mania ou paixão dominante.
Divdi portanto o meu trabalho em duas partes, entrando na primeira o que é simplesmente descritivo, para o que me auxiliei dos guias já mencionados, e com respeito a Portugal de alguns esclarecimentos do Sr. Vilhena Barbosa e de outros cavalheiros, que estou certo não mo levarão a mal.
Na segunda parte, exclusivamente artística, dividi a pintura por escolas, parecendo-me assim estabelecer melhor o paralelo do que temos produxzido neste ramo e mais facilmente avaliar a importância relativa do lugar que nele ocupamos.
Para isso, auxiliei-me de diversos escritores, adoptando em geral a opinião de Mr. Louis Viardot, e com relação a Portugal a de Mr. Raczynski, cujas obras de ambos não ocupam menos de outras quatro mil e tantas páginas.
Creio pois deste modo ter explicado o meu fim e merecer desculpa de ter denominado Guia do Amador de Belas Artes um tão insignificante trabalho, levando-se-me em conta que o apresento como um resumo das obras que mencionei, que entra aqui muito amor pelo que é nosso, e que o líquido do que produzir será em benefício do Asilo de Mendicidade do Porto, minha pátria.
D. M. de M. G, Guia do Amador das Belas Artes. Porto, Tipografia Comercial, 1871, p. 3-5.
Notas:
Daniel Martins de Moura Guimarães, natural de Gondomar, partiu para o Brasil, em 1844. Tinha dezassete anos. Regressou ao Porto, em 1867, senhor de uma apreciável fortuna. Tornou-se negociante de arte e investiu na indústria e nos serviços. Viajou pela América, Europa e Oriente. Fundou, em 1894, o Grande Hotel do Porto, na Rua de Santa Catarina. Entre a sua descendência, refira-se o seu trineto Pedro Abrunhosa.
Louis Viardot publicou entre 1852 e 1855 Les Musées d'Europe. Guide et Memento de
l'artiste et du voyageur, 5 volumes (Itália, Espanha; Alemanha; Inglaterra,
Bélgica, Holanda e Rússia; França)
Atanazy Raczynski publicou em 1846, em Paris, Les arts en Portugal : lettres adressées a
la société artistique et scientifique de Berlin et accompagnées de documents
Vilhena Barbosa publicou em 1860 As cidades e vilas da monarquia portuguesa que têm brasão de armas.
Karl Baedeker, alemão, fundou em 1827 uma empresa editora de
livros de viagens. A editora teve continuidade, após a mote de Karl, pelas mãos
dos seus filhos. Os livros que publicou foram popularizados com o nome da
própria editora.
sexta-feira, 11 de abril de 2014
Errante aqui e ali. William Shakespeare
CX
Ai de mim, é verdade, errante aqui e ali
truão me viram todos, vendi ao desbarato
o que mais caro tinha, meu íntimo despi,
de novas afeições fiz velho desacato.
E ainda mais verdade é que olhei a virtude
alheado e indif'rente: mas ao coração deram
tais desvios ao fim uma outra juventude
e que me és todo o amor ensaios pior's disseram.
Toma o que não acaba. Fiz o que fiz. Prometo:
Não mais hei-de aguçar este meu apetite
de nova provação dar ao antigo afecto,
Deus deste amor que quero agora me limite-
Pois dá-me então guarida, ó meu céu mais perfeito,
dentro desse teu puro e desvelado peito.
Vasco Graça Moura, Dezassete Sonetos de Shakespeare, com um desenho de José Rodrigues. Porto, O Oiro do Dia, 1977, p. 9.
Ai de mim, é verdade, errante aqui e ali
truão me viram todos, vendi ao desbarato
o que mais caro tinha, meu íntimo despi,
de novas afeições fiz velho desacato.
E ainda mais verdade é que olhei a virtude
alheado e indif'rente: mas ao coração deram
tais desvios ao fim uma outra juventude
e que me és todo o amor ensaios pior's disseram.
Toma o que não acaba. Fiz o que fiz. Prometo:
Não mais hei-de aguçar este meu apetite
de nova provação dar ao antigo afecto,
Deus deste amor que quero agora me limite-
Pois dá-me então guarida, ó meu céu mais perfeito,
dentro desse teu puro e desvelado peito.
Vasco Graça Moura, Dezassete Sonetos de Shakespeare, com um desenho de José Rodrigues. Porto, O Oiro do Dia, 1977, p. 9.
quinta-feira, 10 de abril de 2014
Vários bilhetes de combóio e de avião, contas de hotéis. Maria do Rosário Pedreira
Começara, pois, por tirar a fronha a uma das almofadas que durante a noite secretamente escorregara para fora da cama. Assim, ir-se-ia para sempre a imagem de Alberto, a lembrança do seu corpo apressado junto ao meu, as manhãs vazias e silenciosas que a sua ausência começava a tecer antes mesmo de abandonar a casa, de sair da cama onde cada um de nós dormira com duas almofadas, ele porque assim se acostumara e eu apenas para o poder olhar, durante a noite, enquanto não conseguisse adormecer. Porém, depois da almofada, haveria muito mais a fazer. Deitar fora os remédios que não fora eu a tomar e, com eles, duas escovas de dentes que não me pertenciam, uma bisnaga velha de creme para a barba, um par de meias pretas de algodão, um pente de metal, uma caneta verde, um frasco de perfume quase no fim, uma agenda com três anos, as fotocópias de um original de um livre de Filipe que já tinha sido publicado, um convite para o lançamento, os recortes de jornal com as críticas, vários bilhetes de combóio e de avião, contas de hotéis, guardanapos de papel escritos pela mão de Javier à mesa dos restaurantes, vamos sair daqui agora e fazer amor?, a terceira semana de Janeiro de alguns anos antes recortada de um calendário, um ramo de alecrim seco arrancado no cabo Espichel, um postal de Finisterra, outro da Irlanda, um com o rosto de Eliot quando jovem e ainda outro com o de Lenine, muitos iguais, a preto e branco, da cancela de um jardim em França, uma planta da cidade do Porto, fotografias de viagens, uma bala, uma nota de cem escudos rasgada ao meio, uma carteira de fósforos que dizia às vezes é muito difícil olhar para ti, um folheto turístico do Faial, uma marca de livro com um trevo, um pé de azálias que não pegara e ainda assim ficara enterrado no vaso, uma caixa de cigarrilhas incompleta, a embalagem cilíndrica verde e dourada de uma garrafa de malte comprada no aeroporto de Dublin, vários livros que nunca descobriria exactamente do quem eram, um isqueiro que já não acendia, um panfletos que me tinham dado na estação de Euston havia muito tempo, papel de carta de todos os lugares por onde passara, um cartão de sócio de um clube de vinhos, o programa de um espectáculo de música galesa, um autocolante do festival de cinema se Tróia, uma dúzia de revistas literárias, uma madeixa loura do cabelo do meu amante, um livro de versos dedicados a uma outra mulher, mais versos nunca publicados, dezenas deles, mais retratos que ainda cheiravam bem como os lugares onde tinham sido tirados, e o meu nome espalhado pelos muitos envelopes das cartas que um dia dividira por vários montes, como se também o meu amor se tivesse sempre dividido por esses homens que agora eu queria esquecer, e esqueceria, para sempre.
Maria do Rosário Pedreira, Alguns Homens, Duas Mulheres e Eu, Lisboa, Gradiva, 1993, p. 149-150.
Maria do Rosário Pedreira, Alguns Homens, Duas Mulheres e Eu, Lisboa, Gradiva, 1993, p. 149-150.
quarta-feira, 9 de abril de 2014
Cidade imaginaria (4)
O centro
Entrou no café,
quase deserto àquela hora,
em busca do esquivo Franz Kafka, mas foi o som de um telemóvel que lhe prendeu a atenção. - Sim, estou bem. Já fiz o reconhecimento do
trajecto. Era inevitável
seguir a conversa em português.
- António - apresentou-se
ele. Desculpe, não pude
deixar de ouvir. Ela sorriu: - Oh, fui apanhada! Fez bem em apresentar-se. Amália. Quer sentar-se à minha mesa?
Sem reservas, ela contou-lhe o motivo da vinda a Praga.
Participava em corridas de meia maratona em cidades europeias. Lisboa, Paris,
Barcelona, Dublin, Pisa, Berlim... Todos os anos, escolhia uma e marcava as férias de acordo com a data das
provas. Fazia uma preparação
cuidada de modo a não ter
problemas em concluir o percurso. Gostava da sensação de correr entre gente de tantas paragens, idades
e condições sociais.
Adorava ver os centros históricos
das cidades como palco por momentos exclusivo de gente que andava a pé, as ruas cortadas ao trânsito, as praças com gente a ver e a incitar,
ou, simplesmente a sorrir. Estavam a 7 Maio, a corrida teria lugar dois dias
depois, Dia da Europa. - Tenho de confessar que é
uma forma original de coleccionar cidades - disse ele, surpreendido.
Combinaram novo encontro nesse dia, ao fim da tarde na Praça da Cidade. Sentaram-se numa
esplanada, de frente para a torre do relógio
medieval. Pediram cerveja, uma salada de tomate com mozzarella e pesto.
Agora era ela quem inquiria o motivo que o trouxera à cidade. - Queria experimentar a
sensação de estar no centro
- respondeu ele. Crescera numa pequena cidade, sonhando com Lisboa, o centro de
Portugal. Frequentara a Universidade, no tempo da guerra colonial, sonhando com
Paris, o centro da liberdade. Tornara-se professor, sonhando com Florença, o centro da civilização. Deambulara pelo mundo
sonhando com Praga, o centro da Europa.
- Vais assistir à corrida
amanhã? - perguntou ela. -
Sim, mas vais ter de me descobrir. - Fá-lo-ei
- respondeu ela.
Encetara o último
terço da corrida, pela rua
Resslova, na margem do Vitava, quando o avistou. Empunhava um cartaz, mas não conseguiu perceber o que
dizia. Reconheceu o prédio
da esquina, a "Casa Dançante".
Sabia que tinha sido construído
sob o patrocínio de Vacklav
Havel. "Fred e Ginger", fora assim denominado. - Oh, pensou, ele
encontrou o seu "centro", a utopia que preencheu o quarteirão bombardeado em 1945. Um símbolo de fragilidade e emoção.
[Texto publicado na edição do semanário Região de Leiria. de 4 de Abril de 2014]
terça-feira, 8 de abril de 2014
Memórias de Castelo Branco (6)
6. Regresso a Lisboa
Antes de sair de Castelo Branco, resolvi
despedir-me do Reitor. Mau grado a frieza quase hostil com que me recebera e o
incidente gerado com a tentativa de forçar todo o corpo docente a comparecer
perante o Presidente da República, as nossas relações tinham-se amenizado no
final do ano. Foi uma despedida cordial, em que trocámos até algumas graças.
Quando me preparava para sair do seu gabinete, interpelou-me: - tem
perspectivas de colocação em Lisboa? -
Não estou certo, respondi. - Terá sempre aqui um lugar, se as coisas por
qualquer motivo não lhe correrem bem, disse então. Fiquei surpreendido e
agradado.
Mas eu queria muito voltar a Lisboa. A distancia
a que ficava de Castelo Branco era terrível. Saindo desta cidade no Sábado por
volta das 12h30 (tinha aulas ao Sábado de manhã), chegava a Santa Apolónia ao
fim da tarde. Regressava no dia seguinte, Domingo, saindo de Santa Apolónia por
volta das 21 e chegando a Castelo Branco já de madrugada. Duas viagens longas e
incómodas, e de duração sempre imprevisível,
que deixavam entre si pouco mais de 24 horas. Tempo insuficiente para manter
relacionamentos intelectuais e afectivos, viver a cidade de que gostava, ir às livrarias e aos cafés, ao teatro, ao
cinema, a exposições, deambular pelas ruas. Tinha ainda que concluir o 4º ano do Curso,
sem o que não me poderia inscrever no seminário que dava acesso à elaboração da tese e conclusão da licenciatura,
daí resultando mais constrangimento aos meus tempos livres.
Com a criação dos bacharelatos decidida em 1968
pelo Ministro José Hermano Saraiva, todos os que, como, eu tinham concluído o 2º ano do Curso,
ficaram na insólita situação de terem já efectuado cadeiras que passaram a
pertencer aos planos de estudos do 4º ano. Assim sendo, eu pudera inscrever-me em
1970/1971 em salvo erro apenas duas cadeiras, Numismática e Paleografia e
Diplomática, as quais frequentei no regime de voluntário, uma vez que não podia
assistir às
aulas. Devo dizer que a inscrição era fundamental também por um motivo crucial:
obter o adiamento militar concedido a quem provasse encontrar-se a frequentar
um curso superior nos cinco anos posteriores ao ano que perfizera 20 anos.
Os meses em que permaneci em Castelo Branco
foram, nestas condições, devastadores para o meu círculo de amigos e de
solidariedades pessoais e intelectuais. A distância interrompeu abruptamente
relações que não
mais foram reatadas, cortou laços e desvaneceu memórias intensas e fortes de
camaradagem e partilha.
Em Lisboa, o mês de Agosto de 1971, pareceu-me mais
deserto do que nunca. Ocupado em equipar a casa que com L. tinha alugado, não
fui sequer às
Caldas passar mais do que um fugaz fim de semana. Sem saber se e quando teria
colocação, a gestão
do pequeno pecúlio amealhado em Castelo Branco impunha uma severa restrição de
gastos quotidianos. Voltei às
traduções, com a ajuda do António Reis que procurei no Barreiro. Mas,
curiosamente, a hipótese do jornalismo que tanto me atraíra um ano antes, nem
sequer se colocou. A experiência
de Castelo Branco fez-me reconhecer que ensinar era verdadeiramente o que eu
queria fazer. Esperaria por isso que as "colocações" me ditassem onde o poderia
fazer. Em Setembro, recebi a resposta: teria um horário na Escola Preparatória
Manuel da Maia, em Campo de Ourique. Apresentei-me e comecei de imediato a
preparar e dar aulas. E uma semana depois, tal como em Dezembro do ano
anterior, chegou-me outro horário. Desta vez, no Liceu do Padre António Vieira,
em Alvalade.
Avenida que conduz à estação e onde se localiza o antigo Liceu
segunda-feira, 7 de abril de 2014
Memórias de Castelo Branco (5)
5. Relações
Tive contactos
esporádicos e superficiais com o círculo político oposicionista de Castelo
Branco. Não posso por isso tentar caracterizá-lo.
Provavelmente estaria centrado em torno das figuras da CDE, que organizara
listas no ano anterior ao da minha chegada a Castelo Branco. O apelido Paulouro
era uma referencia regional. Eu tinha conhecido na Faculdade de Direito, em
1967, um dos membros da família e conhecia de nome o director do Jornal do Fundão, um dos mais conhecidos
jornais locais da época.
Mas não me lembro de ter falado com nenhum Paulouro em 70/71.
Falei uma ou duas vezes com Manuel João Vieira, que integrara as listas CDE de
1969. E conheci aquela que talvez fosse a figura tutelar da CDE de então, o Dr.
Vasco Luís Silva, que
veio a ser Governador Civil do Distrito a seguir ao 25 de Abril. Como muitos
professores que tinham sido proibidos de leccionar, dava explicações.
Penso que tinha ligações ao sector intelectual do PCP, sendo sem dúvida um
membro convicto da cultura neo-realista. Era um homem de modos sóbrios, que
arrastava uma espécie de tristeza no olhar, onde podia ser antecipada o drama
que se abateria brutalmente sobre os seus dias.
A minha condição de professor de passagem por
Castelo Branco – nunca escondi a minha intenção de encontrar, se possível já no
ano lectivo seguinte, colocação mais próxima de Lisboa – não favorecia o
estabelecimento de relacionamentos mais sólidos no meio local. Eu viera de fora
e nada fazia para modificar essa situação. Por outro lado, não me revia
comummente nos temas políticos e culturais do neo-realismo, dos quais divergira
no decurso das opções que fora efectuando entre 1966 e 1969, entre a minha
entrada na Faculdade Direito de Lisboa e a conclusão do bacharelato em
História. Ou seja,entre a declaração de Lennon "We're more popular than Jesus now" (1966) e a
entrada dos tanques soviéticos em Praga (1969).
Entre os alunos, com um grupo heterogéneo
estabeleci, como já referi, um relacionamento mais regular. Evitei
cuidadosamente que o facto pudesse ter consequências objectivas ou subjectivas na
relação professor-aluno. O certo é que não podia deixar de reconstituir em Castelo
Branco um grupo de solidariedade e cumplicidade como sempre tinha acontecido
desde que deixara a minha longínqua e isolada escolaridade aldeã, no final da
década de 50.
Formado por rapazes e algumas raparigas das
turmas do 7º Ano
que leccionava, que fazia a cumplicidade deste grupo? A partilha de alguma
preocupações enunciadas em termos geralmente um pouco vagos sobre o futuro de
Portugal apanhado numa ratoeira entre a modernidade e a guerra colonial. Mas o
que sobretudo unia este grupo era o gosto genuíno pelo jogo: jogávamos futebol,
pingue-pongue, matraquilhos e monopólio, à mímica. Ocasiões de encontro, de disputa, de anotação
cuidadosa de aperfeiçoamentos, numa busca individual de superação. Mais do que
a vitória individual ou colectiva, o objectivo do jogo era a partilha dos
tempos, a convivência
e essa juvenil procura da melhoria performativa.
No grupo de
alunos sobressaía o Luís Silva. Era simultaneamente o mais
maduro e o mais entusiasta. Parecia dotado de uma curiosidade insaciável. Era
um rapaz bonito, de cabelo negro comprido e encaracolado. Sem dúvidas um dos
melhores alunos do Liceu, era, além disso, dotado de uma energia transbordante
e de uma crença inabalável no valor das ideias como condutoras da acção. Filho
único do Dr. Vasco Silva certamente dele recebia exemplo e inspiração. O meu
relacionamento intelectual com o Luís Silva foi mais longe do que com os
outros, levando-o a expor-me dúvidas e inquietações que outros não formulavam
ou não me confidenciavam e que ele próprio talvez não partilhasse com outros
amigos.
No final do ano lectivo, o tempo das despedidas
foi alegre. Quase todos iam prosseguir os estudos, em Coimbra ou em Lisboa e
julgo que encaravam esse facto com mais ânimo ainda depois de terem privado com
um professor que fizera recentemente esse mesmo percurso. Eu regressava a
Lisboa, agora com outro quadro de vida e disposto a retomar os estudos para
conclusão da licenciatura.
Trocámos telefones, dei-lhes o endereço da casa
que alugara em Lisboa e combinámos
encontros.
Nos primeiros dias de Novembro de 1971, pelo fim
da tarde, um desses meus ex-alunos telefonou-me a dar a notícia. O Luís Silva,
agora aluno do primeiro ano do Instituto Superior Técnico, falecera durante a
noite. Uma insuficiência cardíaca, nunca detectada, cortara-lhe a vida em pleno sono.
Edificio no qual funcionava a Assembleia.
domingo, 6 de abril de 2014
Memórias de Castelo Branco (4)
4. Arredores
Dos setes meses que permaneci em Castelo Branco,
em 1971, poucas lembranças conservo dos seus arredores. Além das idas aos colégios de Proença-a-Nova
e Fundão, por altura dos exames, creio que visitei Penha Garcia, Idanha-a-Nova
e Monsanto, Almortão, Vila Velha de Ródão e as margens do Ponsul. O facto de
não ter carro limitava-me a mobilidade e as frequentes vindas a Lisboa, aos
fins de semana, inutilizavam essa oportunidade para reconhecimento turístico do
espaço geográfico envolvente.
A visita a Monsanto e Idanha e sobretudo a Penha
Garcia foi-me proporcionada pelo prof. Guimarães (não me lembro do nome), um
professor de Geografia que acabava de se efectivar em Castelo Branco.
Organizava visitas de estudo com os seus alunos e eu inscrevi-me numa. Eram
visitas muito bem preparadas, com textos de apoio e orientação no terreno.
Impressionou-me a ancestralidade e rudeza das construções e a estratificação
geológica muito marcada na paisagem. À ermida da Senhora do Almortão fui também em expedição
pedagógica, da responsabilidade do professor de Canto Coral (como então se designava a disciplina de
Educação Musical), Carlos Gama. Fomos em dia de ensaio para a
romaria (que se realiza duas semanas depois da Páscoa), para ouvirmos os
cantares e o toque dos adufes, manejados por mulheres beirãs trigueiras e com
os dedos tolhidos por atroses.
O professor Carlos Gama, além de dirigir
diversos grupos de canto e música na cidade (o Orfeón de Castelo Branco e a
Orquestra Típica Albicastrense), promovia e apreciava o convívio com os colegas
do Liceu. Os seus interesse porém não se cingiam à música.
Gostava de pescar e era um bom apreciador de gastronomia tradicional. Também
apreciava as paisagens surpreendentes da região, nomeadamente as do leito e
margens do Rio Ponsul, de facto uma das mais extraordinárias daquele
território.
Com o Professor Guimarães eu tivera já uma
visita guiada pelo leito do Ponsul junto a Penha Garcia. O Professor Gama
levou-me aos sectores localizados junto do ponto de encontro com o Tejo, perto
de Vila Velha de Ródão.
Nas tardes de Sábado, essas excursões tinham um final feliz
gastronómico. Num barracão aquecido por uma lareira, nas traseiras de uma
taberna de beira de estrada, o Professor Gama agenciava um jantar que envolvia
obrigatoriamente uma sopa de peixe de rio confeccionada na hora e com o peixe
pescado entre o momento da nossa chegada e o fim dos aperitivos (queijo,
chouriço, pão e vinho) e um coelho à
caçadora acompanhado de batata cozida.
Das experiências
gastronómicas da época, além dessa sopa de peixe
feita com fatias de pão
de trigo de véspera, caldo condimentado de cozer os peixes e
ovo escalfado, a mais marcante foi a da lampreia. Comi pela primeira vez
lampreia na Pensão Império, onde, como já referi, a comida era bem
confeccionada. A lampreia era um prato dos meses da Primavera e preparado aos
fins de semana. Alguns dos meus colegas desdenhavam a lampreia do Tejo,
exaltando a do Minho, mas para mim, que desconhecia por completo a existência daquela prato, declarei-me rendido
desde a primeira experiência.
A cozinha mais afamada de lampreia na altura situava-se em Vila Velha de Ródão.
A gastronomia do interior beirão colocou-me em
presença de alternativas ao peixe de mar. Além dos pequenos peixes de rio, a
boga, o achigã, e da lampreia, um peixe entrou também pela primeira vez na
minha ementa: o sável.
O sável acompanhava a época da lampreia e surgia
na mesa sobretudo na forma de delgadas postas fritas e conservadas em molho de
escabeche. Tapear, a meio da tarde, era um dos hábitos albicastrenses. Nos
cafés e pensões, serviam-se pratos com queijos e enchidos, lulas fritas e pão.
No tempo do sável, este destronava os concorrentes anteriores. A pequena
refeição era acompanhada por uma garrafa de vinho. Na época, a relação
qualidade-preço pendia a favor do Covilhã 1967 (um vinho da Adega Cooperativa
da Covilhã, que, creio, se denomina hoje Piornos).
sábado, 5 de abril de 2014
Memórias de Castelo Branco (3)
3. Provas
Foi precisamente a este expediente que recorri.
Informei-me sobre o mercado local desses instrumentos de salvação e
apresentei-me ao fornecedor na segunda-feira seguinte, munido do bilhete de
identidade e da contrapartida monetária que me tinham indicado. Sobre o motivo
da queixa, limitei-me a tossir e a declarar: gripe. À note telefonou-me, do Porto, o Artur. Uma
peripécia mais ou menos rocambolesca retivera-o ali desde o final da semana
anterior e não conseguiria regressar a Castelo Branco antes de um dia ou dois.
Contei-lhe o que se passara e como corria o sério risco de faltas
injustificadas. - Meu caro, tens que me ajudar, desencantando aí um atestado
médico e entregando-o na secretaria do Liceu - foi a resposta.
A empresa era arriscada, mas não havia
alternativa. No dia seguinte, lá subi as escadas do mesmo fornecedor e
apresentei-me tossindo e alegando gripe. O seu nome? – foi-me perguntado.
Debitei o nome completo do meu colega. Bilhete de Identidade? Esqueci-me, mas
sei o número de cor.
Pela primeira vez, o meu interlocutor olhou para mim, quase incrédulo.
E também sabe a data de emissão? Sim – retorqui, e debitei-a.
Como se pode perceber deste abreviado relato
memorialistico, não enfrentei dificuldades significativas de integração, tanto
no quotidiano escolar como no meio local. Pouco tempo decorrido sobre o início
do ano de 1971, adquirira um crescente à vontade na relação
com alunos e colegas, conseguira dominar os problemas do irrequietismo
adolescente nas turmas dos mais novos e afirmar um razoável domínio das matérias exigentes da leccionação
aos mais velhos. De alguns colegas mais velhos, recebera mesmo manifestações de
apreço e simpatia, e, à mediada que o tempo passava, o gelo
inicial do próprio reitor por vezes parecia querer derreter.
Terminadas as aulas, os meus serviços podiam ser
dispensados. Em princípio, os professores provisórios não faziam exames,
limitando-se a colaborar em tarefas de vigilância nas provas escritas. A 7 de
Julho, o mais tardar, perdiam o vínculo precário que os ligava ao Estado. Mas,
em finais de Junho, Catanas Diogo chamou-me ao seu gabinete para me dizer que
contava comigo para ver provas escritas e talvez fazer algumas orais, pelo que
podia contar com trabalho (e remuneração) até ao fim do mês de Julho.
Assim sucedeu. Fiz vigilâncias de escritas em
Castelo Branco e no colégio de Proença a Nova (onde cheguei no velho carro do
velho professor de matemática Lopes Dias que cortava as curvas a direito num
exercício de improvável
sucesso). Era uma prática corrente os professores de liceu irem fazer exames
aos colégios da área (recordo de mais tarde, quando professor no Padre António
Veira em Lisboa ir fazer exames aos colégios de São João de Brito e
Padre Manuel Bernardes).
Uma tarde, regressado de prova orais em Castelo
Branco, tinha na pensão uma mensagem inesperada: o Reitor telefonara a pedir
que me fosse encontrar com ele à
esplanada do café Avis (o café frequentada pelo elementos
conservadores da cidade). Tudo aquilo me pareceu estranho: o pedido, o local de
encontro, vindo de alguém que eu nunca encontrara num café, sequer na rua.
Intrigado corri a confirmar a mensagem. E lá
estava, na sua figura franzina e de outro tempo, o temido Catanas Diogo. A
conversa foi tão inusitada que eu tive dificuldade em perceber exactamente do
que se tratava. Mas entendi o que me pedia: que no dia seguinte, em vez das
provas orais que me estavam destinadas em Castelo Branco, eu me deslocasse de
manhã ao Fundão, para aí substituir um professor no júri das provas de
Filosofia. Tratava-se de uma emergência.
Embaraçado mas determinado, o reitor ainda disse: confio em si para esta
missão. Na sua competência,
no seu bom senso e na sua juventude. Eu ficarei atento e à mínima dificuldade, pode estar certo de
que não deixarei de agir. Mas tenho a certeza de que vai conseguir dominar a
situação.
À noite
tomei conhecimento de qual ela era verdadeiramente. Nesse dia, o professor
destacado para fazer as orais de filosofia no Fundão só aprovara um aluno.
Indignados, os pais tinham invadido as instalações do colégio e durante algum
tempo “sequestrado”
o júri. Alegavam que as perguntas eram capciosas e destinadas a intimidar os
jovens e não a descobrir o que sabiam. Só com a intervenção da GNR os
professores tinham podido regressar a Castelo Branco.
Investido da missão apaziguadora que o reitor me
confiara entrei no Colégio do Fundão, com os restantes membros do júri,
apreensivo e circunspecto. O Director recebeu-nos à porta, mas não fez referencia aos
acontecimentos da véspera. Junto dele, a filha, saudou-me com afectividade.
Tinha sido minha colega na Faculdade. Este encontro aliviou a tensão.
O dia de exames decorreu sem incidentes. A sala
estava cheia quando a sessão se iniciou e foi esvaziando ao longo da manhã,
sinal de que a normalidade regressara às salas do Colégio. O Presidente do júri, um experiente
professor de Geografia, fez questão, no regresso, de me deixar junto da Pensão
Império. Catanas Diogo, nervoso, aguardava, ali mesmo, a nossa chegada para
confirmar as boas notícias.
Café Avis (o Café Arcadia, entretanto desaparecido, situava-se à direita)
sexta-feira, 4 de abril de 2014
Memórias de Castelo Branco (2)
2. Professor no liceu
As férias desse Natal de 1970 dediquei-as pois
ao estudo do programa de Filosofia do 7º ano do liceu. Recuperei o compêndio pelo qual estudara, o famoso “Bonifácio” de má memória
– ao qual, contra minha vontade, o meu nome andou sempre associado – comprei o
do “Saraiva” e revolvi velhos apontamentos anti-pedagógicamente ditados pela
Dr.ª Deolinda Ribeiro. Mas a salvação veio de um excelente manual utilizado no
Liceu Francês
e que descobri numa das livrarias do Campo Grande. Adquiri também as antologias
de textos de Filosofia e Psicologia organizadas pelos Professores Joel Serrão e
Borges de Macedo. Com esta bibliografia, devidamente lida e passada a esquemas
e notas, senti-me enfim em condições de enfrentar a tarefa de preparar jovens
de 17 e 18 anos para o exame de filosofia, convicto de que estaria mais
habilitado para esse efeito do que os professores que me tinham cabido em sorte
5 anos antes...
Os meus pais quiseram acompanhar-me, no regresso
a Castelo Branco A minha mãe, em
particular, fazia questão de verificar as condições que eu deveria ajustar para
uma estadia prolongada. Feitas as contas ao montante total das viagens,
concluíram pela vantagem de alugar um carro de praça. Fecharam o negócio com um
motorista conhecido e lá partimos do Carvalhal Benfeito, Caldas da Rainha, num
dos primeiros dias de um Janeiro escuro e chuvoso. A partir de Abrantes, à chuva juntou-se o frio e, mais à frente, os primeiros flocos de neve. Em
Vila Velha de Rodão, a altura de neve na estrada era já tão significativa que o
nosso condutor se declarou incapaz de prosseguir. “Paremos enquanto é tempo;
mais à frente
podemos ficar empanados e ter de dormir no carro” – disse.
Em Vila Velha de Ródão, soubemos que os comboios
para o nosso destino ainda funcionavam. Foi assim que, já de noite, chegámos a
Castelo Branco. Cansados, ansiosos, cheios de frio, carregando malas de livros
e de roupa. Dirigimo-nos à
Pensão Império, a unidade hoteleira com a qual pré-contratara
um aluguer de quarto com refeições e tratamento de roupa por 1500$00.
O meu vencimento ia ser de cerca de 4700$00 por
mês.
Os professores provisórios eram então contratados de Outubro a Junho, ou seja
por 9 meses (no meu caso de meados de Dezembro a Junho). Os subsídios de férias
e natal não constavam dos direitos dos funcionários públicos. Em
contrapartida, os seus salários não pagavam impostos.
A minha mãe “aprovou” as instalações. Na Império,
eu dispunha de um quarto com janela e uma mesa de trabalho e um pequeno
lavatório (a casa de banho, com duche e sanitários, encontrava-se no corredor,
servindo 5 quartos). A comida era abundante e de boa qualidade. Como o meu
contrato era ao mês
e eu saía algumas vezes ao fim de semana, era compensado podendo convidar
colegas a almoçar ou jantar comigo sem qualquer pagamento.
Depressa estabeleci uma rotina em Castelo
Branco. As manhãs de Segunda a Sábado eram ocupadas com aulas. Depois de almoço
ficava na pensão a trabalhar. Ao fim da tarde saía para praticar algum
desporto. Fiz-me sócio da Assembleia, um clube das elites locais onde se podia
jogar ténis de mesa. Na maior das vezes era com alunos que jogava. Em
determinada altura fui convidado para me filiar no Benfica e Castelo Branco e
por algum tempo integrei a sua equipa de competição. Depois de jantar, voltava
a sair para tomar um café com colegas. O Turismo (situado no Hotel com o mesmo
nome) e o Arcádia eram os meus cafés preferidos. Os colegas que aí vinham
conversar eram poucos: o já aludido Joaquim Artur Marques de Carvalho, um
professor de Educação Física, conhecido por "El Bigodón", um
professor de Ciências
cujo nome não recordo, o maestro Carlos Gama, professor de Canto Coral. Do
Joaquim Artur sentia-me mais próximo, tanto em razão da formação em História, como
de outros interesses intelectuais. Acontecia que terminado o café, regressando
os colegas às
suas casas, era procurado por
alunos que me vinham acompanhar à
Pensão aproveitando para conversar sobre os mais variados
assuntos. De facto eu sentia-me muitas vezes mais próximo daqueles jovens do
que dos meus colegas e embora julgasse saber que a camaradagem entre
professores e alunos era motivo de apreensão por parte de alguns professores do
liceu, nunca fui admoestado ou advertido pessoalmente pelo facto. Também é
certo que nunca senti em qualquer das duas turmas de 7 º ano – uma masculina outra feminina – qualquer
ameaça ao clima de trabalho e aprendizagem motivado por essa cumplicidade
conquistada fora da escola. Nos fins de semana em que fiquei em Castelo Branco,
aceitei convites para participar em piqueniques e outras realizações de convívio
organizados pelos estudantes. Com as raparigas o relacionamento foi bem menos
próximo e intenso. Aparentemente preferiam a Pastelaria Belar, onde os rapazes
as procuravam. Mesmo assim, recordo-me que por vezes apareciam no café Turismo
ou na Pensão Império para me colocaram dúvidas ou me pedirem opinião sobre leituras.
Apesar do conservadorismo dominante no Liceu, só
uma vez senti a pressão institucional dele resultante. Tratou-se de uma ocasião
determinada: uma visita do Presidente da República à cidade. Aos professores foi distribuída
uma carta circular assinada pelo Reitor convidando-os para uma sessão de
cumprimentos que iria ter lugar na ocasião – um Domingo – no Governo Civil.
Pedia-se que confirmassem a presença. Dois dias antes da data prevista, o
Reitor deve ter verificado que o número de professores disponíveis para
cumprimentar o Almirante era decepcionante. Tomou então uma medida que a todos
colheu de surpresa: convocou, ao abrigo dos poderes que a Lei lhe conferia, uma
reunião do Conselho Escolar para o dia, local e hora em que Américo Tomás estaria no Governo Civil. Como se
sabe, a falta de um professor a um Conselho Escolar só podia ser justificada
com atestado médico.
Pastelaria Belar (preferida pelas alunas e suas mães)
Edificio do antigo Governo Civil de Castelo Branco
quinta-feira, 3 de abril de 2014
Memórias de Castelo Branco (1)
Nota prévia
Iniciei a minha vida profissional como docente em Castelo Branco, no Liceu Nun’Álvares, há quarenta e três anos. Permaneci então na cidade cerca de sete meses. Depois disso, passei por Castelo Branco em três ou quatro ocasiões, em serviço, mas não me detive. Chegou agora a oportunidade de visitar a cidade, num fim de semana, e confrontar o olhar de hoje com o que a memória conservou.
Iniciei a minha vida profissional como docente em Castelo Branco, no Liceu Nun’Álvares, há quarenta e três anos. Permaneci então na cidade cerca de sete meses. Depois disso, passei por Castelo Branco em três ou quatro ocasiões, em serviço, mas não me detive. Chegou agora a oportunidade de visitar a cidade, num fim de semana, e confrontar o olhar de hoje com o que a memória conservou.
1.Chegada (Dezembro de 1970)
Em Setembro de 1970, concluído o bacharelato em
História na Faculdade de Letras de Lisboa, lancei-me à procura de emprego. Até aí tinha tido
algumas ocupações e tarefas remuneradas – explicações a estudantes do
secundário, realização de inquéritos,
traduções – contributos significativos para fazer face às despesas de alojamento em Lisboa, mas
agora era chegado o tempo do exercício de uma profissão. Havia o fascínio do
jornalismo, comum a amigos chegados (Cáceres Monteiro, Almeida Martins, Miguel
Serras Pereira – que tentei, apresentando candidaturas ao Século,
à Flama, à Vida
Mundial e à
”Associated Press”.
E havia o ensino, ao qual a habilitação académica conduzia. Para o Século, o
José Carlos Ary dos Santos, escreveu uma carta de recomendação, mas sem
sucesso. Na Flama, onde
me apresentei com o Cáceres e o Almeida Martins, o chefe de redacção, Beça Múrias
mandou-me fazer, a título de experiência,
uma reportagem sobre o rio Tejo, para a qual me senti miseravelmente
impreparado. Na Vida Mundial ofereceram-me o estatuto que já tinha antes, o de
tradutor de notícias de
agencia. Na Associated Press propuseram-me o mesmo,
depois de efectuar um teste bem sucedido, mas acenando-me com a possibilidade
de passados os dois primeiros meses de adaptação, passar a ter
responsabilidades redactoriais. Ainda aceitei esta oferta, e comecei a
trabalhar, mas entretanto chegou uma resposta do Ministério da Educação que me
pareceu irresistível. Optei por ela, e nessa opção, sem o adivinhar na altura,
foi uma vida profissional que se jogou.
De facto, eu tinha enviado uma carta para o
Ministério da Educação, referindo o facto de só ter obtido as habilitações
mínimas para o ensino em Setembro e por isso não ter podido concorrer na época
normal, e manifestando disponibilidade para leccionar um horário ainda não preenchido no ensino
preparatório ou secundário.
Recebi duas respostas positivas, em simultâneo,
das duas direcções-gerais do Ministério: do ciclo preparatório, propondo-me um
horário nas Caldas da Rainha; do ensino secundário, propondo-me um horário no
Liceu Nacional de Castelo Branco. Foi esta que aceitei. A carta da Direcção
Geral continha uma guia para levantar um bilhete de comboio Santa Apolónia –
Castelo Branco e referia apenas que se tratava de um horário completo, ou seja
22 horas lectivas.
Castelo Branco não fazia parte do reduzido lote
de cidades de que tinha conhecimento directo. Lembrava-me apenas que, em miúdo,
visitara o Fundão e Alpedrinha, localidades do distrito de Castelo Branco,
acompanhando uma viagem memorável do meu avô à terra onde vivera até aos dezoito anos.
Tomei o comboio no dia 12 de Dezembro, tendo em
atenção que a carta indicava para apresentação o dia 14, uma Segunda-feira,
caso estivesse interessado no lugar. O meu primeiro contacto com a linha da
Beira foi elucidativo sobre a distancia a que doravante estaria dos amigos e companheiros
de Lisboa. Cheguei ao destino mais de cinco horas depois.
Instalei-me na pensão “Caravela”, cujo letreiro
me chamou a atenção numa das esquinas visíveis no jardim principal da cidade.
No dia seguinte, procurei o Liceu e apresentei-me ao Reitor.
Catanas Diogo, assim se chamava o reitor do
Liceu Nacional de Castelo Branco era uma figura magra, de modos rígidos e
secos. Vestia de preto. Olhou para mim, por detrás dos óculos, estendeu-me a
mão e logo a seguir uma grossa caderneta verde. Não escondeu a decepção que a
minha presença lhe provocara. Comentou: - "Antigamente os professores
apresentavam-se de gravata”. A camisola de gola alta, apropriada ao frio da
época e da região, que eu envergava tomou-a como sinal de rebeldia. Fiquei
calado. "Quando começo?" – perguntei. "Amanhã" – retorquiu, dando a conversa
por encerrada.
De regresso ao quarto da pensão, avaliei pela
primeira vez a extensão do desafio. O horário que me destinavam incluía duas
turmas de 7º ano
(ano terminal do secundário) de Filosofia, quatro turmas de 3º ano de História
e duas turmas de Organização Política e Administrativa da Nação, de 6º ano.
Fiquei literalmente atordoado. As turmas de história eram de miúdos de 12 e 13
anos e eu não tinha qualquer experiência
de lidar com adolescentes. Mas o problema maior era sem dúvida o do ensino da
Filosofia. A minha preparação
nessa área era constituída exclusivamente pela minha
própria passagem enquanto aluno pelo ensino liceal e a frequência de uma cadeira de Introdução à Filosofia no primeiro ano do Curso de
História.
Enquanto as Faculdades de Letras tinham
procedido no final da década de 50 à
separação das licenciaturas de História e de Filosofia, no
ensino secundário continuava a funcionar o grupo de histórico-filosóficas,
independentemente da formação original dos professores.
O horário que me coubera tinha sido atribuído
inicialmente à Professora
Adelaide Salvado - entretanto chamada para frequentar o estágio em Lisboa -, a qual deixara no liceu uma
aura de competência
profissional e científica. Só assim se explicava, aliás, que lhe tivesse sido
atribuída tarefa docente tão
difícil: os anos iniciais do ensino da História e os anos
terminais e de exame do ensino da Filosofia. Motivo suplementar, pois, de
apreensão da minha parte.
No dia seguinte apresentei-me no Liceu para
cumprir o horário. A minha predecessora já tinha indicado os manuais e dado
alguma matéria. Limitei-me a reiterar as decisões anteriores e averiguar a que
ponto da matéria os alunos haviam chegado. As aulas do primeiro período escolar
estavam prestes a terminar. Os conselhos de turmas que se realizariam de
seguida para dar as notas estavam autorizados a não atribuir qualquer
classificação aos alunos que tinham transitado da Professora Adelaide Salvado
para mim. Sosseguei os estudantes quanto a esse facto, mas preveni-os de que
estávamos obrigados a cumprir todo o programa e de que a nota final seria
calculada pela média dos dois períodos seguintes.
Percebi e sensação
que a minha chegada causara. Nos meus 21 anos, eu era o professor mais jovem de
todo o Liceu, cujo corpo docente era maioritariamente constituído por
professores possuidores da larga experiência de muitos anos de carreira. Descobri entre os meus
colegas dois com os quais, embora mais velhos, podia partilhar interesses
intelectuais e a condição de forasteiro: um professor de História, Joaquim
Artur Marques de Carvalho, e outro de Filosofia, António Melo, ambos do Porto.
As férias de Natal iniciar-se-iam dali a poucos
dias. Tomei parte nos conselhos de turma, averiguei condições logísticas
com vista a uma instalação futura menos precária e participei num jantar para
que fui convidado a fim de conhecer um poeta neo-realista que na altura se
encontrava em Castelo Branco, José Ferreira Monte (pseudónimo de José
Ferreira Moreira da Câmara, nascido em 1922 e falecido em 1985).
A 18 de Dezembro parti de Castelo Branco para
Lisboa, disposto a adquirir bibliografia e preparar aulas para enfrentar a
tarefa cuja dimensão me pareceu excessivamente exigente.
Na bagagem trazia agora uma prenda de natal para
o meu Avô e para o meu Pai. Não tinha dúvidas de que seria bem apreciada: um
queijo curado de Castelo Branco. Pequeno é certo – até onde o meu magro orçamento podia
chegar – mas o mais apreciado e lembrado produto de quem ali nascera, entre as
Serras da Gardunha e da Estrela.
Escola Nun'Álvares (antigo Liceu Nacional de Castelo Branco). Entrada.
Traseiras do edifício
quarta-feira, 2 de abril de 2014
Um mundo diferente do seu país. Vicente Blasco Ibañez
A sua viagem à Itália, na peregrinação papal, foi o único facto que alterou a monotonia da sua existência. Guiado pelo cónego, visitou mais igrejas do que museus. Teatros, só viu dois, aproveitando-se da negligência que as peripécias da viagem causavam no carácter austero do seu guia. Passavam indiferentes pelas célebres obras artísticas dos templos e detinham-se a venerar qualquer relíquia acreditada por absurdos milagres. Mas, ainda assim, Rafael pôde ver, confusamente e como que de passagem, um mundo diferente do seu país, onde fatalmente havia de arrastar-se a sua existência. Sentiu o roçar da mesma vida de prazer e de paixão que absorvia nos livros como se fosse um vinho embriagador, e ainda que de longe, admirou em Milão a dourada e aventureira boémia dos cantores; em Roma, o esplendor de uma aristocracia senhorial e artista, em perpétua rivalidade com a de Paris e a de Londres, e em Florença, a elegância inglesa, emigrada em procura do sol, passeando os seus canotiers de palha, as cabeleiras de ouro das misses e o seu chilrear de pássaro pelos jardins onde meditava o sombrio poeta, e onde Boccacio narrava os seus contos alegres para afugentar o medo à peste.
Aquela viagem, rápida como uma visão cinematográfica, deixando em Rafael uma confusão de nomes, de edifícios, de quadros e de cidades, serviu para dar aos seus pensamentos mais amplitude e leveza, para fazer maior ainda o fosso que o isolava dentro da sua vida banal.
Vicente Blasco Ibañez, Por entre Laranjeiras. 3a ed. Rio de Janeiro, Livraria Francisco Alves; Lisboa, Livraria Bertrand, s/d.[1ª edição: 1900], p. 41
Aquela viagem, rápida como uma visão cinematográfica, deixando em Rafael uma confusão de nomes, de edifícios, de quadros e de cidades, serviu para dar aos seus pensamentos mais amplitude e leveza, para fazer maior ainda o fosso que o isolava dentro da sua vida banal.
Vicente Blasco Ibañez, Por entre Laranjeiras. 3a ed. Rio de Janeiro, Livraria Francisco Alves; Lisboa, Livraria Bertrand, s/d.[1ª edição: 1900], p. 41
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