sábado, 5 de abril de 2014

Memórias de Castelo Branco (3)


3. Provas
Foi precisamente a este expediente que recorri. Informei-me sobre o mercado local desses instrumentos de salvação e apresentei-me ao fornecedor na segunda-feira seguinte, munido do bilhete de identidade e da contrapartida monetária que me tinham indicado. Sobre o motivo da queixa, limitei-me a tossir e a declarar: gripe. À note telefonou-me, do Porto, o Artur. Uma peripécia mais ou menos rocambolesca retivera-o ali desde o final da semana anterior e não conseguiria regressar a Castelo Branco antes de um dia ou dois. Contei-lhe o que se passara e como corria o sério risco de faltas injustificadas. - Meu caro, tens que me ajudar, desencantando aí um atestado médico e entregando-o na secretaria do Liceu - foi a resposta.
A empresa era arriscada, mas não havia alternativa. No dia seguinte, lá subi as escadas do mesmo fornecedor e apresentei-me tossindo e alegando gripe. O seu nome? – foi-me perguntado. Debitei o nome completo do meu colega. Bilhete de Identidade? Esqueci-me, mas sei o número de cor. Pela primeira vez, o meu interlocutor olhou para mim, quase incrédulo. E também sabe a data de emissão? Sim – retorqui, e debitei-a.
Como se pode perceber deste abreviado relato memorialistico, não enfrentei dificuldades significativas de integração, tanto no quotidiano escolar como no meio local. Pouco tempo decorrido sobre o início do ano de 1971, adquirira um crescente à vontade na relação com alunos e colegas, conseguira dominar os problemas do irrequietismo adolescente nas turmas dos mais novos e afirmar um razoável domínio das matérias exigentes da leccionação aos mais velhos. De alguns colegas mais velhos, recebera mesmo manifestações de apreço e simpatia, e, à mediada que o tempo passava, o gelo inicial do próprio reitor por vezes parecia querer derreter.
Terminadas as aulas, os meus serviços podiam ser dispensados. Em princípio, os professores provisórios não faziam exames, limitando-se a colaborar em tarefas de vigilância nas provas escritas. A 7 de Julho, o mais tardar, perdiam o vínculo precário que os ligava ao Estado. Mas, em finais de Junho, Catanas Diogo chamou-me ao seu gabinete para me dizer que contava comigo para ver provas escritas e talvez fazer algumas orais, pelo que podia contar com trabalho (e remuneração) até ao fim do mês de Julho.
Assim sucedeu. Fiz vigilâncias de escritas em Castelo Branco e no colégio de Proença a Nova (onde cheguei no velho carro do velho professor de matemática Lopes Dias que cortava as curvas a direito num exercício de improvável sucesso). Era uma prática corrente os professores de liceu irem fazer exames aos colégios da área (recordo de mais tarde, quando professor no Padre António Veira em Lisboa ir fazer exames aos colégios de São João de Brito e Padre Manuel Bernardes).
Uma tarde, regressado de prova orais em Castelo Branco, tinha na pensão uma mensagem inesperada: o Reitor telefonara a pedir que me fosse encontrar com ele à esplanada do café Avis (o café frequentada pelo elementos conservadores da cidade). Tudo aquilo me pareceu estranho: o pedido, o local de encontro, vindo de alguém que eu nunca encontrara num café, sequer na rua.
Intrigado corri a confirmar a mensagem. E lá estava, na sua figura franzina e de outro tempo, o temido Catanas Diogo. A conversa foi tão inusitada que eu tive dificuldade em perceber exactamente do que se tratava. Mas entendi o que me pedia: que no dia seguinte, em vez das provas orais que me estavam destinadas em Castelo Branco, eu me deslocasse de manhã ao Fundão, para aí substituir um professor no júri das provas de Filosofia. Tratava-se de uma emergência. Embaraçado mas determinado, o reitor ainda disse: confio em si para esta missão. Na sua competência, no seu bom senso e na sua juventude. Eu ficarei atento e à mínima dificuldade, pode estar certo de que não deixarei de agir. Mas tenho a certeza de que vai conseguir dominar a situação.
À noite tomei conhecimento de qual ela era verdadeiramente. Nesse dia, o professor destacado para fazer as orais de filosofia no Fundão só aprovara um aluno. Indignados, os pais tinham invadido as instalações do colégio e durante algum tempo “sequestrado” o júri. Alegavam que as perguntas eram capciosas e destinadas a intimidar os jovens e não a descobrir o que sabiam. Só com a intervenção da GNR os professores tinham podido regressar a Castelo Branco.
Investido da missão apaziguadora que o reitor me confiara entrei no Colégio do Fundão, com os restantes membros do júri, apreensivo e circunspecto. O Director recebeu-nos à porta, mas não fez referencia aos acontecimentos da véspera. Junto dele, a filha, saudou-me com afectividade. Tinha sido minha colega na Faculdade. Este encontro aliviou a tensão.
O dia de exames decorreu sem incidentes. A sala estava cheia quando a sessão se iniciou e foi esvaziando ao longo da manhã, sinal de que a normalidade regressara às salas do Colégio. O Presidente do júri, um experiente professor de Geografia, fez questão, no regresso, de me deixar junto da Pensão Império. Catanas Diogo, nervoso, aguardava, ali mesmo, a nossa chegada para confirmar as boas notícias.

Café Avis (o Café Arcadia, entretanto desaparecido, situava-se à direita)

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Memórias de Castelo Branco (2)

2. Professor no liceu
As férias desse Natal de 1970 dediquei-as pois ao estudo do programa de Filosofia do 7º ano do liceu. Recuperei o compêndio pelo qual estudara, o famoso “Bonifácio” de má memória – ao qual, contra minha vontade, o meu nome andou sempre associado – comprei o do “Saraiva” e revolvi velhos apontamentos anti-pedagógicamente ditados pela Dr.ª Deolinda Ribeiro. Mas a salvação veio de um excelente manual utilizado no Liceu Francês e que descobri numa das livrarias do Campo Grande. Adquiri também as antologias de textos de Filosofia e Psicologia organizadas pelos Professores Joel Serrão e Borges de Macedo. Com esta bibliografia, devidamente lida e passada a esquemas e notas, senti-me enfim em condições de enfrentar a tarefa de preparar jovens de 17 e 18 anos para o exame de filosofia, convicto de que estaria mais habilitado para esse efeito do que os professores que me tinham cabido em sorte 5 anos antes...
Os meus pais quiseram acompanhar-me, no regresso a Castelo Branco A  minha mãe, em particular, fazia questão de verificar as condições que eu deveria ajustar para uma estadia prolongada. Feitas as contas ao montante total das viagens, concluíram pela vantagem de alugar um carro de praça. Fecharam o negócio com um motorista conhecido e lá partimos do Carvalhal Benfeito, Caldas da Rainha, num dos primeiros dias de um Janeiro escuro e chuvoso. A partir de Abrantes, à chuva juntou-se o frio e, mais à frente, os primeiros flocos de neve. Em Vila Velha de Rodão, a altura de neve na estrada era já tão significativa que o nosso condutor se declarou incapaz de prosseguir. “Paremos enquanto é tempo; mais à frente podemos ficar empanados e ter de dormir no carro” – disse.
Em Vila Velha de Ródão, soubemos que os comboios para o nosso destino ainda funcionavam. Foi assim que, já de noite, chegámos a Castelo Branco. Cansados, ansiosos, cheios de frio, carregando malas de livros e de roupa. Dirigimo-nos à Pensão Império, a unidade hoteleira com a qual pré-contratara um aluguer de quarto com refeições e tratamento de roupa por 1500$00.
O meu vencimento ia ser de cerca de 4700$00 por mês. Os professores provisórios eram então contratados de Outubro a Junho, ou seja por 9 meses (no meu caso de meados de Dezembro a Junho). Os subsídios de férias e natal não constavam dos direitos dos funcionários públicos. Em contrapartida, os seus salários não pagavam impostos.
A minha mãe “aprovou” as instalações. Na Império, eu dispunha de um quarto com janela e uma mesa de trabalho e um pequeno lavatório (a casa de banho, com duche e sanitários, encontrava-se no corredor, servindo 5 quartos). A comida era abundante e de boa qualidade. Como o meu contrato era ao mês e eu saía algumas vezes ao fim de semana, era compensado podendo convidar colegas a almoçar ou jantar comigo sem qualquer pagamento.
Depressa estabeleci uma rotina em Castelo Branco. As manhãs de Segunda a Sábado eram ocupadas com aulas. Depois de almoço ficava na pensão a trabalhar. Ao fim da tarde saía para praticar algum desporto. Fiz-me sócio da Assembleia, um clube das elites locais onde se podia jogar ténis de mesa. Na maior das vezes era com alunos que jogava. Em determinada altura fui convidado para me filiar no Benfica e Castelo Branco e por algum tempo integrei a sua equipa de competição. Depois de jantar, voltava a sair para tomar um café com colegas. O Turismo (situado no Hotel com o mesmo nome) e o Arcádia eram os meus cafés preferidos. Os colegas que aí vinham conversar eram poucos: o já aludido Joaquim Artur Marques de Carvalho, um professor de Educação Física, conhecido por "El Bigodón", um professor de Ciências cujo nome não recordo, o maestro Carlos Gama, professor de Canto Coral. Do Joaquim Artur sentia-me mais próximo, tanto em razão da formação em História, como de outros interesses intelectuais. Acontecia que terminado o café, regressando os colegas às suas casas, era  procurado por alunos que me vinham acompanhar à Pensão aproveitando para conversar sobre os mais variados assuntos. De facto eu sentia-me muitas vezes mais próximo daqueles jovens do que dos meus colegas e embora julgasse saber que a camaradagem entre professores e alunos era motivo de apreensão por parte de alguns professores do liceu, nunca fui admoestado ou advertido pessoalmente pelo facto. Também é certo que nunca senti em qualquer das duas turmas de 7 º ano – uma masculina outra feminina – qualquer ameaça ao clima de trabalho e aprendizagem motivado por essa cumplicidade conquistada fora da escola. Nos fins de semana em que fiquei em Castelo Branco, aceitei convites para participar em piqueniques e outras realizações de convívio organizados pelos estudantes. Com as raparigas o relacionamento foi bem menos próximo e intenso. Aparentemente preferiam a Pastelaria Belar, onde os rapazes as procuravam. Mesmo assim, recordo-me que por vezes apareciam no café Turismo ou na Pensão Império para me colocaram dúvidas ou me pedirem opinião sobre leituras.
Apesar do conservadorismo dominante no Liceu, só uma vez senti a pressão institucional dele resultante. Tratou-se de uma ocasião determinada: uma visita do Presidente da República à cidade. Aos professores foi distribuída uma carta circular assinada pelo Reitor convidando-os para uma sessão de cumprimentos que iria ter lugar na ocasião – um Domingo – no Governo Civil. Pedia-se que confirmassem a presença. Dois dias antes da data prevista, o Reitor deve ter verificado que o número de professores disponíveis para cumprimentar o Almirante era decepcionante. Tomou então uma medida que a todos colheu de surpresa: convocou, ao abrigo dos poderes que a Lei lhe conferia, uma reunião do Conselho Escolar para o dia, local e hora em que Américo Tomás estaria no Governo Civil. Como se sabe, a falta de um professor a um Conselho Escolar só podia ser justificada com atestado médico.


Pastelaria Belar (preferida pelas alunas e suas mães)
Edificio do antigo Governo Civil de Castelo Branco

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Memórias de Castelo Branco (1)

Nota prévia
Iniciei a minha vida profissional como docente em Castelo Branco, no Liceu Nun’Álvares, há quarenta e três anos. Permaneci então na cidade cerca de sete meses. Depois disso, passei por Castelo Branco em três ou quatro ocasiões, em serviço, mas não me detive. Chegou agora a oportunidade de visitar a cidade, num fim de semana, e confrontar o olhar de hoje com o que a memória conservou.

1.Chegada (Dezembro de 1970)
Em Setembro de 1970, concluído o bacharelato em História na Faculdade de Letras de Lisboa, lancei-me à procura de emprego. Até aí tinha tido algumas ocupações e tarefas remuneradas – explicações a estudantes do secundário, realização de inquéritos, traduções – contributos significativos para fazer face às despesas de alojamento em Lisboa, mas agora era chegado o tempo do exercício de uma profissão. Havia o fascínio do jornalismo, comum a amigos chegados (Cáceres Monteiro, Almeida Martins, Miguel Serras Pereira – que tentei, apresentando candidaturas  ao Século, à Flama, à Vida Mundial e à ”Associated Press”. E havia o ensino, ao qual a habilitação académica conduzia. Para o Século, o José Carlos Ary dos Santos, escreveu uma carta de recomendação, mas sem sucesso. Na Flama, onde me apresentei com o Cáceres e o Almeida Martins, o chefe de redacção, Beça Múrias mandou-me fazer, a título de experiência, uma reportagem sobre o rio Tejo, para a qual me senti miseravelmente impreparado. Na Vida Mundial ofereceram-me o estatuto que já tinha antes, o de tradutor de notícias de agencia. Na Associated Press propuseram-me o mesmo, depois de efectuar um teste bem sucedido, mas acenando-me com a possibilidade de passados os dois primeiros meses de adaptação, passar a ter responsabilidades redactoriais. Ainda aceitei esta oferta, e comecei a trabalhar, mas entretanto chegou uma resposta do Ministério da Educação que me pareceu irresistível. Optei por ela, e nessa opção, sem o adivinhar na altura, foi uma vida profissional que se jogou.
De facto, eu tinha enviado uma carta para o Ministério da Educação, referindo o facto de só ter obtido as habilitações mínimas para o ensino em Setembro e por isso não ter podido concorrer na época normal, e manifestando disponibilidade para leccionar um horário ainda não preenchido no ensino preparatório ou secundário.
Recebi duas respostas positivas, em simultâneo, das duas direcções-gerais do Ministério: do ciclo preparatório, propondo-me um horário nas Caldas da Rainha; do ensino secundário, propondo-me um horário no Liceu Nacional de Castelo Branco. Foi esta que aceitei. A carta da Direcção Geral continha uma guia para levantar um bilhete de comboio Santa Apolónia – Castelo Branco e referia apenas que se tratava de um horário completo, ou seja 22 horas lectivas.
Castelo Branco não fazia parte do reduzido lote de cidades de que tinha conhecimento directo. Lembrava-me apenas que, em miúdo, visitara o Fundão e Alpedrinha, localidades do distrito de Castelo Branco, acompanhando uma viagem memorável do meu avô à terra onde vivera até aos dezoito anos.
Tomei o comboio no dia 12 de Dezembro, tendo em atenção que a carta indicava para apresentação o dia 14, uma Segunda-feira, caso estivesse interessado no lugar. O meu primeiro contacto com a linha da Beira foi elucidativo sobre a distancia a que doravante estaria dos amigos e companheiros de Lisboa. Cheguei ao destino mais de cinco horas depois.
Instalei-me na pensão “Caravela”, cujo letreiro me chamou a atenção numa das esquinas visíveis no jardim principal da cidade. No dia seguinte, procurei o Liceu e apresentei-me ao Reitor.
Catanas Diogo, assim se chamava o reitor do Liceu Nacional de Castelo Branco era uma figura magra, de modos rígidos e secos. Vestia de preto. Olhou para mim, por detrás dos óculos, estendeu-me a mão e logo a seguir uma grossa caderneta verde. Não escondeu a decepção que a minha presença lhe provocara. Comentou: - "Antigamente os professores apresentavam-se de gravata”. A camisola de gola alta, apropriada ao frio da época e da região, que eu envergava tomou-a como sinal de rebeldia. Fiquei calado. "Quando começo?" – perguntei. "Amanhã" – retorquiu, dando a conversa por encerrada.
De regresso ao quarto da pensão, avaliei pela primeira vez a extensão do desafio. O horário que me destinavam incluía duas turmas de 7º ano (ano terminal do secundário) de Filosofia, quatro turmas de 3º ano de História e duas turmas de Organização Política e Administrativa da Nação, de 6º ano. Fiquei literalmente atordoado. As turmas de história eram de miúdos de 12 e 13 anos e eu não tinha qualquer experiência de lidar com adolescentes. Mas o problema maior era sem dúvida o do ensino da Filosofia. A minha preparação nessa área era constituída exclusivamente pela minha própria passagem enquanto aluno pelo ensino liceal e a frequência de uma cadeira de Introdução à Filosofia no primeiro ano do Curso de História.
Enquanto as Faculdades de Letras tinham procedido no final da década de 50 à separação das licenciaturas de História e de Filosofia, no ensino secundário continuava a funcionar o grupo de histórico-filosóficas, independentemente da formação original dos professores.
O horário que me coubera tinha sido atribuído inicialmente à Professora Adelaide Salvado - entretanto chamada para frequentar o estágio em Lisboa -, a qual deixara no liceu uma aura de competência profissional e científica. Só assim se explicava, aliás, que lhe tivesse sido atribuída tarefa docente tão difícil: os anos iniciais do ensino da História e os anos terminais e de exame do ensino da Filosofia. Motivo suplementar, pois, de apreensão da minha parte.
No dia seguinte apresentei-me no Liceu para cumprir o horário. A minha predecessora já tinha indicado os manuais e dado alguma matéria. Limitei-me a reiterar as decisões anteriores e averiguar a que ponto da matéria os alunos haviam chegado. As aulas do primeiro período escolar estavam prestes a terminar. Os conselhos de turmas que se realizariam de seguida para dar as notas estavam autorizados a não atribuir qualquer classificação aos alunos que tinham transitado da Professora Adelaide Salvado para mim. Sosseguei os estudantes quanto a esse facto, mas preveni-os de que estávamos obrigados a cumprir todo o programa e de que a nota final seria calculada pela média dos dois períodos seguintes.
Percebi e sensação que a minha chegada causara. Nos meus 21 anos, eu era o professor mais jovem de todo o Liceu, cujo corpo docente era maioritariamente constituído por professores possuidores da larga experiência de muitos anos de carreira. Descobri entre os meus colegas dois com os quais, embora mais velhos, podia partilhar interesses intelectuais e a condição de forasteiro: um professor de História, Joaquim Artur Marques de Carvalho, e outro de Filosofia, António Melo, ambos do Porto.
As férias de Natal iniciar-se-iam dali a poucos dias. Tomei parte nos conselhos de turma, averiguei condições logísticas com vista a uma instalação futura menos precária e participei num jantar para que fui convidado a fim de conhecer um poeta neo-realista que na altura se encontrava em Castelo Branco, José Ferreira Monte (pseudónimo de José Ferreira Moreira da Câmara, nascido em 1922 e falecido em 1985).
A 18 de Dezembro parti de Castelo Branco para Lisboa, disposto a adquirir bibliografia e preparar aulas para enfrentar a tarefa cuja dimensão me pareceu excessivamente exigente.
Na bagagem trazia agora uma prenda de natal para o meu Avô e para o meu Pai. Não tinha dúvidas de que seria bem apreciada: um queijo curado de Castelo Branco. Pequeno é certo – até onde o meu magro orçamento podia chegar – mas o mais apreciado e lembrado produto de quem ali nascera, entre as Serras da Gardunha e da Estrela.



Escola Nun'Álvares (antigo Liceu Nacional de Castelo Branco). Entrada.
Traseiras do edifício

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Um mundo diferente do seu país. Vicente Blasco Ibañez

A sua viagem à Itália, na peregrinação papal, foi o único facto que alterou a monotonia da sua existência. Guiado pelo cónego, visitou mais igrejas do que museus. Teatros, só viu dois, aproveitando-se da negligência que as peripécias da viagem causavam no carácter austero do seu guia. Passavam indiferentes pelas célebres obras artísticas dos templos e detinham-se a venerar qualquer relíquia acreditada por absurdos milagres. Mas, ainda assim, Rafael pôde ver, confusamente e como que de passagem, um mundo diferente do seu país, onde fatalmente havia de arrastar-se a sua existência. Sentiu o roçar da mesma vida de prazer e de paixão que absorvia nos livros como se fosse um vinho embriagador, e ainda que de longe, admirou em Milão a dourada e aventureira boémia dos cantores; em  Roma, o esplendor de uma aristocracia senhorial e artista, em perpétua rivalidade com a de Paris e a de Londres, e em Florença, a elegância inglesa, emigrada em procura do sol, passeando os seus canotiers de palha, as cabeleiras de ouro das misses e o seu chilrear de pássaro pelos jardins onde meditava o sombrio poeta, e onde Boccacio narrava os seus contos alegres para afugentar o medo à peste.
Aquela viagem, rápida como uma visão cinematográfica, deixando em Rafael uma confusão de nomes, de edifícios, de quadros e de cidades, serviu para dar aos seus pensamentos mais amplitude e leveza, para fazer maior ainda o fosso que o isolava dentro da sua vida banal.

Vicente Blasco Ibañez, Por entre Laranjeiras. 3a ed. Rio de Janeiro, Livraria Francisco Alves; Lisboa, Livraria Bertrand, s/d.[1ª edição: 1900], p. 41

terça-feira, 1 de abril de 2014

Fazer compras para a viagem. Virgínia Castro e Almeida

No dia seguinte era um sábado e a Maria tinha destinado ir com os pequenos fazer compras para a viagem.
Quando se meteram no eléctrico, ali na rua de S. Domingos (porque eles moravam na rua de Sacramento), encontraram lá a Luzia da Silva, a mãe da Sophia, que ia também para a Baixa com a filha e os seus dois grandes amigos, a Beatriz e o Paulo da Cunha.
Os pequenos ficaram contentíssimos. Felizmente ia muito pouca gente e puderam instalar-se todos uns ao pé dos outros.
A Beatriz e o Paulo tinham doze e treze anos. Ambos falavam já muito bem inglês e alemão e o Paulo era um excelente estudante e estava no segundo ano do liceu, o que não o impedia de ser muito alegre e divertido.
[...] As duas mães sentaram-se ao pé uma da outra.
Sophia
Onde é que vocês vão?
Rita
Vamos fazer compras para a viagem. Fatos, malas, chapéus, e não sei que mais coisas precisas.
[...]
Então separaram-se e a Luisa seguiu com a Sophia e os seus dois amigos pela Rua do Ouro, enquanto a Maria subia com a Rita, o João e o Rodrigo pela rua de S. Nicolau.
Foram primeiro aos Armazéns do Chiado para se escolherem os fatos.
[...]
Foram então escolher as malas. A Maria comprou uma mala de mão para ela, outra para o Dinis e um saco de viagem em forma de rolo.
Entretanto os pequenos passavam revista a todas as coisas da loja.
João, apontando para uma mala enorme que estava a um canto
Ali está uma mala que talvez me sirva.
Rodrigo
Acho-a pequena para mim. Tenho tanta coisa que levar que não sei como hei-de encontrar uma mala bastante grande.
E continuaram ambos a procurar, hesitando entre as maiores que viam. A Rita já tinha fixado a sua escolha e estava encantada ao olhar para ela. Era um baú destes que as criadas costumam comprar todo brilhante de reflexos de cores, com as suas varetas pregadas com pregos amarelos. Não tinha menos de um metro de comprimento.
A Rita abriu-o; tinha dois tabuleiros, todo forrado de azul claro e de cor de rosa e parecia tão grande que ela agora já pensava a sério em levar a cama e a cómoda da sua boneca maior.
Podia mesmo levar o berço da mais pequenina.
E o carrinho para elas passearem.
E a mobília da casa de jantar.
E o fogão.
E a mercearia pequena onde elas faziam as suas compras...
Maria
Rita! O que estás a fazer aí?
Rita, muito satisfeita
Estou a ver a minha mala. Já escolhi, mãesinha
Maria
Mas eu não vejo aí mala nenhuma que possa servir-te.

Virginia de Castro e Almeida, Céu Aberto. Ilustrações de João Alves de Sá. Lisboa, Livraria Clássica Editora, S.d, p. 37-39, p. 63-74.  [1ª edição 1907]

segunda-feira, 31 de março de 2014

Quem não aceitará como dádiva celestial o transitório esforço de uma ascensão de montanha? (4) Ramalho Ortigão

O pó das estradas e o suor da marcha constituem o mais módico preço por que se pode pagar a delícia do banho, o jubiloso prazer da pele tonificada pela espuma do sabão e pelos jorros da água fria.
Quem não aceitará como dádiva celestial o transitório esforço de uma ascensão de montanha, tendo, uma vez na vida, gozado a satisfação inefável de ir dormir, ao cabo de um dia de Verão, a 1500 metros de altitude, a uma temperatura de 2 graus centígrados, debaixo da tenda de campanha, numa fofa cama de fetos, envolto na serenidade do infinito silêncio, com uma clavina debaixo do travesseiro e um perdigueiro aos pés, ao clarão perfumado e extático da grande fogueira de urze e de azinho, como nos últimos planaltos do Gerês?
A perspectiva do desconforto nas hospedarias basta para fazer desmaiar de pavor o habitante da nossa Baixa, a quem fizeram crer que todos os percevejos da província estão por essas camas à espera dele, para se emborracharem uma vez na vida com sangue da capital, o qual, pelo que é de escanfrado e de aquoso, deve ser precisamente, para os percevejos que bebem disso, a mais fraudulenta e desacreditada zurrapa de todo o reino.

Ramalho Ortigão, "Carta à Academia de Estudos Livres", datada de 6 de Agosto de 1899. publicada em Costumes e Perfis. Lisboa, Livraria Clássica Editora, 1944, p. 278-279.

domingo, 30 de março de 2014

Hão-de dizer-lhes que Portugal não é terra para viagens. (3) Ramalho Ortigão

Hão-de dizer-lhes, para os desalentar do seu nobre e patriótico empreendimento, que Portugal não é terra para viagens; que são escabrosos os caminhos, escalvados os montes, poeirentas as estradas, inóspitas as estalagens. Não façam caso. Deixem em sossego, no seu veraneio de sorvetes mornos e de cerveja choca, esse opiniáticos sportmen do automobilismo, insípidos sedentários lisboetas, de articulações perras, de estômago sujo e de língua grossa, aparafusados pelas pesadas cadeiras eles mesmos às cadeiras da Avenida, às de S. Pedro de Alcântara e às dos botequins do Rossio.
Calcem os meus amigos os seus sapatos ferrados, vistam a blusa de linho, afivelem a mochila, e partam alegre e confiadamente em terceira classe, para ir à caça, para subir uma serra, para coligir cantigas ou coleópteros, para fazer um herbário ou um álbum de instantâneos, ou simplesmente para armar aos pássaros, para ouvir correr a água, ramalhar os castanheiros, cantar as toutinegras. Seja com que pretexto for, de arte, de arqueologia, de geologia, de botânica, de poesia, de simples recreio, o contacto da natureza é sempre purificador e salutar. E a convivência dos homens simples, especializados no mister, é incomparavelmente mais interessante e mais instrutiva que a dos enciclopedistas, ainda os mais conspícuos, das nossas classes dirigentes.

Ramalho Ortigão, "Carta à Academia de Estudos Livres", datada de 6 de Agosto de 1899. publicada em Costumes e Perfis. Lisboa, Livraria Clássica Editora, 1944, p. 277-278.

sábado, 29 de março de 2014

Essas viagens são indispensáveis. (2) Ramalho Ortigão

Essas viagens são indispensáveis, no meio da lamentável desmoralização em que nos dissolvemos, para nos ensinaram a conhecer e a amar a Pátria pelo que nela é imortal, incorruptível e sagrado: pelo doce aspecto dos seus montes, dos seus vales, dos seus rios; pelo sorriso, melancólico mas contente, dos vinhedos, dos olivais, dos soutos, das hortas e dos pomares; pela tradição vívida nos monumentos arquitectónicos, nas romarias, nos contos e nas cantigas populares, nas indústrias caseiras, mas alfaias agrícolas, nas ferramentas dos ofícios rurais, na configuração dos lares; pela dicção, enfim, e pelas formas da nossa própria língua, que, por toda essa província, nos preciosos recantos em que não há livros nem periódicos, e onde o povo ainda não aprendeu a ler, se conserva áspera, nitente e tilintante como um belo dobrão de ouro, a que o manuseamento da erudição e a sujidade do giro literário não comeram a serrilha nem desgastaram a coroa e a efígie, convertendo-a na chapa safada e sórdida da nossa fala de parlamentares e de jornalistas.

Ramalho Ortigão, "Carta à Academia de Estudos Livres", datada de 6 de Agosto de 1899. publicada em Costumes e Perfis. Lisboa, Livraria Clássica Editora, 1944, p. 276-277.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Ninguém terá calcado mais terra portuguesa. (1) Ramalho Ortigão

Tenho, sem me querer gabar, a sincera convicção de que, a não serem alguns velhos viajantes de comércio, ou algum almocreve palentológico, anterior ao dilúvio dos caminhos de ferro, ninguém terá calcado mais terra portuguesa do que este seu criado. Ninguém, sobretudo, terá nela viajado com mais empenho, com mais curiosidade, com mais desinteresse, com mais amor. Bem sei que há quem me tenha por estrangeiro e não me admira, porque nunca, nem nas lareiras a que me tenho sentado pelas quebradas do Marvão, da Serra da Estrela, do Gerês ou de Monchique, nem nas feiras francas a que tenho ido, a Viseu, a Vila Real, a Loulé, a Évora, a Viana, a Penafiel, e a tantas outras, não encontrei nunca nenhum dos sujeitos que fazem ou desfazem a reputação dos outros no Rossio, no Chiado ou no Arco do Bandeira.
Daí podem ajuizar os excursionistas da Academia dos Estudos Livres se me interessará ou não o programa das viagens que eles projectam organizar e de que me acabam de dar notícia!

Ramalho Ortigão, "Carta à Academia de Estudos Livres", datada de 6 de Agosto de 1899. publicada em Costumes e Perfis. Lisboa, Livraria Clássica Editora, 1944, p. 275-276.

quinta-feira, 27 de março de 2014

Faz ou desfaz. Nicolas Bouvier

Uma viagem dispensa justificações. Depressa provará que se basta a si própria. Tencionamos fazer uma viagem, mas será a viagem que nos faz, ou desfaz.

Nicolas Bouvier, L' Usage du Monde. Paris, Éditions Payot et Rivages, 2001 [1963], p. 12.

quarta-feira, 26 de março de 2014

A caminar por un camino. Manuel Padorno

Camino de mi ventana

Yo me eché a caminar por un camino
Que llevaba a la fábrica de luz.
Un camino, además, que terminaba
Delante de mi casa, justamente
Al abrir la ventana que da al mar.
Yo me fui convirtiendo, sin pensarlo.
En un obrero más, de los que abría
Las más grandes compuertas invisibles,
Celestes transparencias, y engrasaba
Los émbolos más altos, las poleas
Que elaboraban la mañana atlántica.
Después de mucho tiempo, tantos años
De aprender el oficio, convertido
En un obrero ya especializado.
Me fue confiado dar la luz del día.
Como un profesional, yo me dedico
A cumplir la faena encomendada
Apenas conocida por mi barrio.

Yo me eché a caminar por un camino
Que termina delante mi ventana.
Donde pulso la grande maquinaria.

Manuel Padorno (1933-2002)

www.manuelpadorno.es.

terça-feira, 25 de março de 2014

Posso ir e viver ou ficar e morrer. William Shakespeare

Julieta
Você já tem que ir? O dia ainda demora. Não foi a cotovia, foi o rouxinol que perfurou o seu ouvido temeroso. Ele costuma cantar na romãzeira: foi ele que cantou, foi sim, amor. 
Romeu
É a cotovia que anuncia o dia, não é o rouxinol. Estrias invejosas bordejam as nuvens do nascente. Foram-se as tochas da noite; o dia alegre já espanta a neblina do alto da colina. Posso ir e viver – ou ficar e morrer.
Julieta
Aquela luz ainda não é o aviso. Acho que é o sol que manda um meteoro para clarear seus passos para Mântua. Fique um pouquinho mais: partir não é preciso.

William Shakespeare, Romeu e Julieta (Ato 3, Cena 5)