quarta-feira, 26 de março de 2014

A caminar por un camino. Manuel Padorno

Camino de mi ventana

Yo me eché a caminar por un camino
Que llevaba a la fábrica de luz.
Un camino, además, que terminaba
Delante de mi casa, justamente
Al abrir la ventana que da al mar.
Yo me fui convirtiendo, sin pensarlo.
En un obrero más, de los que abría
Las más grandes compuertas invisibles,
Celestes transparencias, y engrasaba
Los émbolos más altos, las poleas
Que elaboraban la mañana atlántica.
Después de mucho tiempo, tantos años
De aprender el oficio, convertido
En un obrero ya especializado.
Me fue confiado dar la luz del día.
Como un profesional, yo me dedico
A cumplir la faena encomendada
Apenas conocida por mi barrio.

Yo me eché a caminar por un camino
Que termina delante mi ventana.
Donde pulso la grande maquinaria.

Manuel Padorno (1933-2002)

www.manuelpadorno.es.

terça-feira, 25 de março de 2014

Posso ir e viver ou ficar e morrer. William Shakespeare

Julieta
Você já tem que ir? O dia ainda demora. Não foi a cotovia, foi o rouxinol que perfurou o seu ouvido temeroso. Ele costuma cantar na romãzeira: foi ele que cantou, foi sim, amor. 
Romeu
É a cotovia que anuncia o dia, não é o rouxinol. Estrias invejosas bordejam as nuvens do nascente. Foram-se as tochas da noite; o dia alegre já espanta a neblina do alto da colina. Posso ir e viver – ou ficar e morrer.
Julieta
Aquela luz ainda não é o aviso. Acho que é o sol que manda um meteoro para clarear seus passos para Mântua. Fique um pouquinho mais: partir não é preciso.

William Shakespeare, Romeu e Julieta (Ato 3, Cena 5)

segunda-feira, 24 de março de 2014

O inventor do turismo. Marc Boyer

J.J. Rousseau é habitualmente apresentado como o inventor do turismo. Larousse que foi o primeiro dicionário a consagrar um longo artigo à palavra turista qualificava Rousseau de “primeiro turista”. “No tempo das diligências e das barcaças fluviais, o turista não existia; só havia viajantes... Apesar da ausência e meios de comunicações fáceis, o século XVIII viu J. J. Rousseau dar o primeiro exemplo aos turistas, com os seus longos passeios pedestres na Suíça e na Itália, com o saco às costas e o bastão na mão, comendo pão escuro, leite e cerejas, em verdadeira comunhão com a natureza”. Rousseau, de facto, peregrinava a pé. 

Marc Boyer, Histoire Générale du Tourisme, du XVIe au XXe siècle. Paris, L´Harmattan, 2005. p. 77.

domingo, 23 de março de 2014

Où que me porte mon voyage, la Grèce me blèsse.Georges Séféris/Melina Mercouri

Où que me porte mon voyage, la Grèce me blesse
A Pilion, parmi les oliviers,
la tunique du centaure
Glissant parmi les feuilles
a entouré mon corps
Et la mer me suivait pendant que je marchais
Où que me porte mon voyage, la Grèce me blesse

A Santorin en frôlant
les îles englouties
En écoutant jouer une flû te parmi les pierres ponces
Ma main fut clouée à la crête d'une vague
Par une flêche subittement jaillie
Des confins d'une jeunesse disparue
Où que me porte mon voyage, la Grèce me blesse

A Mycènes,
j'ai soulevé les grandes pierres
et les trésors des Atrides
J'ai dormi à leur côtés à l'hôtel de "La Belle Hélène"
Ils ne disparurent qu'à l'aube lorsque chanta Cassandre
Un coq suspendu à sa gorge noire
Où que me porte mon voyage, la Grèce me blesse

A Spetsai, à Poros et à Myconos
les Barcaroles m'ont soulevé le coeur
Où que me porte mon voyage, la Grèce me blesse

Que veulent donc ceux qui se croient à Athene
ou au Pyrée
l'un vient de Salamine
et demande à l'autre
si il "ne viendrait pas de la place Omonia"
"non, je viens de la place Syndagma"
repond il satisfait
"j'ai rencontré Yannis
et il m'a payé une glace"
Pendant ce temps la Grèce voyage
et nous n'en savons rien
nous ne savons pas que, tous, nous sommes marins sans emploi
et nous ne savons pas combien le port est amer
quand tous les bateaux sont partis
Où que me porte mon voyage, la Grèce me blesse

Drôles de gens
ils se croient en Attique
et ne sont nulle part
ils achètent des dragées pour ce marier
et il se font photograhpier
l'homme que j'ai vu aujourd'hui
assis devant un fond de pigeons et de fleurs
laissait la main du vieux photographe,
lui lisser les rides creusées
de son visage
par les oiseaux du ciel
Où que me porte mon voyage, la Grèce me blesse

Pendant ce temps, la Grèce voyage,
voyage toujours
Et si la mer Egée se fleurit de cadavres
ce sont les corps de ceux qui voulurent rattrapper à la nage
le grand navire
Où que me porte mon voyage, la Grèce me blesse

Les Pirée s'obscurcit
les bateaux sifflent, ils sifflent sans arrêt
mais sur le quai nul cabestan ne bouge
Nulle chaine mouillée n'a scintillé dans l'ultime éclat
du soleil qui décline
Où que me porte mon voyage, la Grèce me blesse

Rideaux de montagnes, archipels,
granites dénudés
le bateau qui s'avance s'apelle
Agonie ....

Georges Séféris



sábado, 22 de março de 2014

Há algum local melhor para trabalhar que a cidade? Marcel Proust

Porque é que viaja tanto [Olivian]? Os bancos da viatura conduzem-nos com muito mais lentidão onde o seu sonho o levaria bem depressa. Para chegar perto do mar só precisa de fechar os olhos. Deixe aqueles que não possuem senão os olhos do corpo deslocarem-se com o seu séquito e instalarem-se em Pouzzoles ou Nápoles. Pretende, diz-nos,  terminar lá um livro? Há algum local melhor para trabalhar que a cidade? Homem de imaginação, não pode obter prazer senão pelo que espera ou pelo que lamenta, ou seja, no futuro ou no passado.
É por isso, Olivian, que está descontente. [...] É bem infeliz. Ainda não é um homem e já é um homem de letras.
Marcel Proust

Voyager avec Marcel Proust. Mille et un voyages. Textes choisis et présentés par Anne Borrel. Paris. Editions Quinzaine Littéraire, 1994. p. 309.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Ó peregrinos que 'pensoso' andais. Dante Alighieri

... que uns quantos peregrinos passavam por uma via que está quase no meio da cidade onde nasceu e viveu e morreu a gentilíssima dama. Os quais peregrinos andavam, segundo me pareceu, muito pensativos; pelo que eu, pensando neles, disse para mim mesmo: “Estes peregrinos parecem-me de longínqua parte, e também não creio que tivessem ouvido falar ainda desta dama, e disso não sabiam nada; antes os seus pensamentos são sobre outras coisas que não estas aqui, que pensam talvez nos seus amigos distantes, os quais nós não conhecemos”. Depois dizia para mim mesmo: “Eu sei que, se eles fosse de terras próximas, pareceriam perturbados nalgum aspecto passando pelo meio da dolorosa cidade.” Depois dizia para mim mesmo que eles saíssem da cidade, pois que eu diria palavras que fariam chorar quem quer que as escutasse.” Pelo que, passados estes alem da minha vista, propus-me fazer um soneto no qual eu manifestasse aquilo que eu tinha dito para mim mesmo; e para que mais parecesse piedoso, propus-me dizê-lo como se eu lhes tivesse falado; e disse esse soneto, o qual começa: Ó peregrinos que pensoso’ andais. E disse “peregrinos” segundo a larga significação do vocábulo; porque peregrinos se podem entender de dois modos, num lato e num restrito: no lato, enquanto é peregrino todo aquele que está fora da sua pátria, em modo restrito não se entende peregrino senão quem vai para a casa de São Tiago ou regressa. E por isso é de saber que de três modos se chamam propriamente as gentes que vão a serviço do Altíssimo: chamam-se palmeirins enquanto vão ultramar, lá onde muitas vezes trazem a palma; chamam-se peregrinos enquanto vão à casa da Galiza, pois que a sepultura de São Tiago estava mais distante da sua pátria que a de qualquer outro apóstolo; chamam-se romeiros enquanto vão a Roma, lá onde estes a quem chamo peregrinos iam.
Este soneto não divido, pois que assaz o manifesta o seu relato.

Ó peregrinos que pensoso’ andais,
talvez de coisa que não é presente,
vós vindes de um tão remota gente,
tal como à vista vós nos demonstrais,
que não plangeis enquanto vós passais
p’lo meio da cidade assim dolente,
como aquelas pessoas cuja mente
não entendesse gravidades tais?
Se vós ficásseis por querê-lo ouvir,
por certo o cor do suspirar me diz
que já não saireis, lagrimando.
Ela perdeu sua Beatriz;
dela as palavras que um pode exprimir
Têm virtude de outrem pôr chorando.

Dante Alighieri, Vida Nova. Tradução de Jorge Vaz de Carvalho. Lisboa, Relógio de Água, 2010. P. 121-123.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Como é que o cônsul aprendeu tão excelente inglês? Mollie Bidwell

Pittsburg
29 Maio, 1873

Meu querido amigo
Recebi a sua bem-vinda carta esta manhã e quando reconheci a letra tremi e empalideci pois nunca esperei voltar a saber de si.
Estive à espera tão ansiosamente por notícias suas e cheguei à conclusão que voltara para a Europa e de que nunca mais o veria. Querido, a sua carta é um raio de felicidade na minha vida; que feliz estou esta noite por saber que está nos Estados Unidos e não nessa desagradável Havana. Imaginei-o com febres, com tudo de pior. Na verdade estive sempre doente desde que deixei Havana e não pode agora dizer que tenho bom ar porque estou magra e com péssimo aspecto.
Sobre a sua vinda a Pittsburgh: claro que virá e depressa também, querido, porque até lá sentir-me-ei quase louca. Quando vier terá que tomar um coche porque os transportes públicos estão interrompidos pelo arranjo das vias mas terá de mencionar ao condutor os Bidwells, em Oakland, ou irá certamente parar aos meus tios.
Que feliz me sentirei por vê-lo uma destas tardes pelas 2 horas, meu querido, não posso esperar e seria melhor não vir demasiado cedo pois isso não agradaria à Mamã e ao Papá, mas tenho que lhe contar o que eles disseram da sua carta. Depois de a ter lido, levei-a ao quarto do Papá e disse-lhe que tinha uma carta muito simpática de um amigo e que gostaria que ele a lesse à Mamã. Leu-a e disseram ambos que era uma carta estupenda. Mollie, como é que o cônsul aprendeu tão excelente inglês? E como é que foi querido? Deve ter feito progressos desde que chegou a Nova Iorque porque não fazia ideia que pudesse escrever um inglês tão bom: esteve este Inverno numa boa escola.
Quando chegar não diga a ninguém que eu escrevi esta carta, porque embora o Papá não o tivesse proibido, sei que ele preferia que eu não a tivesse escrito.
Agrada-me saber que está contente com o nosso país, custa-me a crer que gosta dele como diz, mas pode dizer-me tudo o que pensa dos bárbaros quando nos encontrarmos.
Espero que desculpe esta escrita já que escrevi à pressa, por ser tarde.
Meu querido, devo dizer-lhe adeus até o ver, o que espero não demore muito.
Penso que agora me sentirei melhor, porque me afligi continuamente consigo. Graças a Deus está completamente a salvo desse mar medonho e estará dentro em pouco comigo. Que felicidade!
Sempre sua
M.

Cartas de Amor de Anna Conover e Mollie Bidwell para José Maria Eça de Queiroz, cônsul de Portugal em Havana (1873-1874). Lisboa, Assírio & Alvim, 1998. p. 80-81.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Para navegar no mar do passado remoto. José Saramago

Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória. Memória que é a de um espaço e de um tempo, memória no interior da qual vivemos, como uma ilha entre dois mares: um que dizemos passado, outro que dizemos futuro. Podemos navegar no mar do passado próximo graças à memória pessoal que conservou a lembrança das suas rotas, mas para navegar no mar do passado remoto teremos de usar as memórias que o tempo acumulou, as memórias de um espaço continuamente transformado, tão fugidio como o próprio tempo. Esse filme de Lisboa, comprimindo o tempo e expandindo o espaço, seria a memória perfeita da cidade.O que sabemos dos lugares é coincidirmos com eles durante um certo tempo no espaço que são. O lugar estava ali, a pessoa apareceu, depois a pessoa partiu, o lugar continuou, o lugar tinha feito a pessoa, a pessoa havia transformado o lugar.

José Saramago, Outros Cadernos de Saramago (http://caderno.josesaramago.org). post de 17 de Setembro de 2008.

terça-feira, 18 de março de 2014

Sei lá! José Gomes Ferreira

De vez em quando esbarrava nas árvores e candeeiros públicos.
Por este simples motivo: o de me esquecer de olhar para o caminho, afundado em meditações desta espécie:
Personalidade? Que significa essa história de ter, ou de não ter, personalidade? Existe alguma fórmula de elixir secreto ou qualquer aparelho de delicadeza pesquisadora especial que nos permita determinar imediatamente, sem receio de nos enganarmos, se alguém possui esse dom misterioso? Um certo azul nos olhos? O queixo levantado? A maneira majestosa de subir para o autocarro? Ou de entrar nos apertões do Metro, afastando com os dedos, em piparote, a muralha de pedras vivas que impede a passagem para os corredores vazios? Certos raios magnéticos com que as mulheres nos fulminam, obrigando a agachar os homens até ao destino de capachos? As jubas de leões invisíveis de certos calvos hieráticos? O silêncio sistemático do Pacheco de Eça? As palavras ocamente acrobatas de certos frequentadores de salas e bares?
Sei lá!

José Gomes Ferreira, Calçada do Sol. Diário Desgrenhado de um Homem Qualquer Nascido no Princípio do Século XX. Lisboa, Livraria Morais, 1983. p. 71

segunda-feira, 17 de março de 2014

Saberei, talvez, no fim desta viagem. Ruy Duarte de Carvalho

Saberei ainda assim que a Ipiranga cruza a avenida São João onde sangue de um crime, segundo Vansolini, domador de serpentes no Butantã, pode sempre estar escorrendo de algum bar onde haja malandro jogando bilhar, mas que sei eu de resistências brasileiras a ditaduras para mim alheias? Saberei talvez alguma coisa de governos que em África podem perpetuar-se porque aproveitam situações que não dão alternativa e sabem adaptar-se aos discursos e à prática que mais convêm aos tempos políticos que se vão sucedendo sem que isso os leve a alterar o regime que apurarem para o exercício do domínio interno e a prosperidade de quem tomou, já faz muito tempo, conta do poder. Mas que sei eu do São Paulo e do Brasil de agora e daquele que entretanto decorreu enquanto as nossas guerras nos mantinham entretidos? Saberei, talvez, no fim desta viagem. E de qualquer maneira a viagem que tenho pela frente, vou fazê-la de facto porque ao longo da vida sempre fui mantendo o Brasil como paixão, ancorado numa condição periférica de angolano excêntrico em que apesar de tudo consegui manter-me coexistindo sempre com meia dúzia de referências, nomes de autores, personagens brasileiras, e painéis inteiros de paisagens que confundi com as minhas. Penso isto tudo, já, olhando para fora, apontando o olhar à direcção nordeste. Não ligo para o céu baixo de chumbo derramado e frio, mentor de neblinas, garroas macias, cálidas quase e lentas que enquanto aqui estiver não vão nunca deixar de me fazer lembrar que habito um lugar que é como o café quer, nem para as torres de betão que assim de tais alturas se me impõem, erectas e limpas, sobre a ondulação assente dos telhados baixos de Pinheiros e da Vila Madalena, e eis um recorte que me rende a São Paulo.

Ruy Duarte de Carvalho, Desmedida. Crónicas do Brasil. Lisboa, Edições Cotovia, 2006. p. 56-57

domingo, 16 de março de 2014

sábado, 15 de março de 2014

Epitáfio de Vicente Huidobro


Huidobro, poeta chileno que nasceu em 1893 e morreu, com uma sequela de um ferimento de guerra, em 1948, está sepultado no cemitério de Cartagena, onde se pode ler o seguinte epitáfio: 
Aquí yace el poeta Vicente Huidobro. 
Abrid la tumba. 
Al fondo de esta tumba se ve el mar.