sexta-feira, 7 de março de 2014

Rumo e linha de rumo. Victor Victorino

O rumo é o ângulo entre o meridiano e a trajectória seguida pelo barco, isto é: o rumo é a direcção em que o barco se desloca - e, como qualquer outra direcção, indica-se em graus, de 000 a 359, a partir do Norte, no sentido em que se movem os ponteiros dum relógio.
Um navio que se mantenha a navegar sempre ao mesmo rumo, isto é, cortando sucessivamente os vários meridianos segundo o mesmo ângulo, descreve à superfície da Esfera Terrestre uma curva denominada linha de rumo ou loxodrómia. Se o rumo for Norte (000º) ou Sul (180º), a linha de rumo será um meridiano; e será um paralelo se o rumo for Leste (090º) ou Oeste (270º). Em todos os outros casos, a linha de rumo é uma espécie de espiral que se aproxima cada vez mais de um dos pólos da Terra, sem jamais o atingir.

Loxodrómia descrita por um navio, navegando ao rumo 060º

Victor Victorino, Navegação Costeira Elementar. Lisboa, Edição do Autor, 1970, p. 7-8.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Interrompeu o sermão, e, sem deixar o púlpito, foi a outra cidade. Machado de Assis

Cranz, citado por Tylor, achou entre os groenlandeses a opinião de que há no homem duas pessoas iguais, que se separam às vezes, como acontece durante o sono, em que uma dorme e a outra sai a caçar e passear. Thompson e outros, apontados em Spencer, afirmam ter encontrado a mesma opinião entre vários povos e raças diversas. O testemunho egípcio (antigo), segundo Maspero, é mais complicado; criam os egípcios que há no homem, além de várias almas espirituais, uma totalmente física, reprodução das feições e dos contornos do corpo, um perfeito fac-símile.
Não quero vir aos testemunhos da nossa língua e tradições, notarei apenas dois: o milagre de Santo Antônio, que, estando a pregar, interrompeu o sermão, e, sem deixar o púlpito, foi a outra cidade salvar o pai da forca, e aqueles maviosos versos de Camões:
Entre mim mesmo e mim
Não sei que se alevantou,
Que tão meu imigo sou.
Que tais versos estejam aqui no sentido figurado, é possível; mas não há prova de não estarem no sentido natural, e que mim e mim mesmo não fossem realmente duas pessoas iguais, tangíveis, visíveis, uma encarando a outra.
Pela minha parte, alucinação ou realidade, aconteceu-me em criança um caso desses. Tinha ido ao quintal de um vizinho tirar umas frutas; meu pai ralhou comigo, e, de noite, na cama, dormindo ou acordado — creio antes que acordado, — vi diante de mim a minha própria figura, que me censurava duramente. Durante alguns dias andei aterrado, e só muito tarde chegava a conciliar o sono; tudo eram medos. Medos de criança, é verdade, impressões vivas e passageiras. Dois meses depois, levado pelos mesmos rapazes, consócios na primeira aventura, senti a alma picada das mesmas esporas, e fui outra vez às mesmas frutas vizinhas.
Tudo isso acudia-me à memória, quando saí da casa de Henriqueta, descompondo-me, com um grande desejo de quebrar a minha própria cara. Senti-me dois, um que argüia, outro que se desculpava. Nomes que eu nem admito que andem na cabeça de outras pessoas a meu respeito, foram então ditos e ouvidos, sem maior indignação, na rua e ao jantar. De noite, para distrair-me, fui ao teatro; mas nos intervalos o duelo era o mesmo, um pouco menos furioso. No fim da noite, estava reconciliado comigo, mediante a obrigação que tomei de não deixar Henriqueta ir para Petrópolis, sem declarar-lhe tudo. Casar com ela ou voltar à província.

Machado de Assis, Obra Completa. Vol. II. Rio de Janeiro, Editora Nova Aguilar, 1994.
[Publicado originalmente na Gazeta de Notícias, de 04/10/1885]

quarta-feira, 5 de março de 2014

Tudo é partir. Luis Filipe Castro Mendes

Cidades

Nunca será esta a cidade que amaste
no segredo da tua infância,
com livros e mapas junto do peito e os sonhos
de mares distantes e mulheres  debruçadas
na amurada dos navios piratas.

Qualquer cidade é pouco para o que traz um sonho.
No entanto, ah, no entanto,
alguns lugares na terra pensaste
que podiam tornar-se uma morada. Mas logo partias
e o encanto de mudar de abrigo se te fazia destino,
destino de adivinhar a linha da costa
a desenhar-se pouco a pouco no horizonte.

Entretanto olhavas as mulheres debruçadas
nas amuradas dos navios.
A nada podemos em verdade chamar nosso.
Tudo é partir e o próprio amor
não passa de um incerto percurso na terra.
Qualquer cidade é aquela mesma cidade
que amaste no segredo da infância,
enquanto os olhos das mulheres
desenham o teu perfil no horizonte de uma perdida costa.

Luis Filipe Castro Mendes, A Misericórdia dos Mercados. Lisboa, Assírio & Alvim, 2014, p. 54.

terça-feira, 4 de março de 2014

No caminho para a cidade celeste (8). Maria Clara de Almeida Lucas

As árvores e as aves situam-se geralmente em todas estas visões da cidade celeste num jardim, imagem e símbolo do paraíso terrestre, quentes como arquétipo o jardim do Éden, predomínio do reino vegetal em oposição a Jerusalém.
O jardim do início dos tempos representa um microcosmos que ficou expresso nas miniaturas dos jardins japoneses.
Na tradição clássica o jardim aparece ligado à felicidade: foi no jardim das Hespérides que se realizou o casamento de Zeus com Hera, pelo que esse local ficou a simbolizar a felicidade eterna.

Maria Clara Almeida Lucas, "A Cidade Celeste na Hagiografia Medieval Portuguesa", in O Imaginário da Cidade. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian/ACARTE, 1989, p. 90.

segunda-feira, 3 de março de 2014

No caminho para a cidade celeste (7). Maria Clara de Almeida Lucas

A árvore aparece, as mais das vezes, habitada por pássaros. Tal acontece no paraíso terrestre de S. Amaro. [...]
Extensão da árvore que as alberga, as aves, dado o seu tipo de locomoção, são o mensageiro ideal para ligar a terra ao céu e trazer aos homens as mensagens dos deuses. Na antiguidade clássica, Eurípedes chama-lhes os "mensageiros dos deuses".
A hagiografia cristã serve-se delas como meio de transporte para o céu de alguns dos seus santos. É da pomba e do corvo que Noé se serve para procurar terra firme: mensageiros, aqui, da boa nova.
Esta relação com a divindade transformou-as em transmissoras da sabedoria divina, sendo comum na Antiguidade a adivinhação por meio do ovo das aves.
Podendo voar, a ave precede o homem na criação do mundo, visto que no Génesis o espírito de Deus, em forma de pomba, plana sobre as águas primordiais.

Maria Clara Almeida Lucas, "A Cidade Celeste na Hagiografia Medieval Portuguesa", in O Imaginário da Cidade. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian/ACARTE, 1989, p. 89.

domingo, 2 de março de 2014

No caminho para a cidade celeste (6). Maria Clara de Almeida Lucas

A esta simbologia do centro, altar ou castelo, une-se a da árvore cósmica, símbolo do sustentáculo do mundo. A visão de S. Amaro apresenta-nos uma variante com características orientais. Uma tenda surge como antecâmara celeste, habitação da Virgem. O que caracteriza essa tenda e a torna excepcional em relação às tendas que o homem conhece e pertencem a este seu mundo terreno é que, em vez da árvore que sustenta as tendas profanas, aquela tem um arco de rubis. [...]
A árvore cósmica surge como sustentáculo do mundo com os seus sete braços que correspondem aos sete céus. Sendo assim vital e sagrada, a árvore está no centro do mundo. A ela se chega dificilmente, defendida por monstros ou árduos caminhos, ela dá vida através dos frutos suculentos e engloba em si mesma o mal, como acontece a quem indevidamente toque no fruto da árvore do bem e do mal. A polissemia da árvore, com poder sobre a vida e sobre a morte, confere-lhe o seu carácter simbólico.

Maria Clara Almeida Lucas, "A Cidade Celeste na Hagiografia Medieval Portuguesa", in O Imaginário da Cidade. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian/ACARTE, 1989, p. 87.

sábado, 1 de março de 2014

No caminho para a cidade celeste (5). Maria Clara de Almeida Lucas

Geralmente situado no topo de uma elevação, como é o caso de S. Amaro, ou protegido por floresta cerrada, ou, em outras culturas, por barreira de fogo ou água, o castelo ou palácio próprio da paisagem que caracteriza a cidade celeste é de tão difícil acesso e apresenta uma arquitectura sólida (o uso de matérias preciosas conotam-no não só de beleza mas se solidez) dando assim uma sensação de segurança, tal como a casa ou o regaço materno. É pois um símbolo de protecção.
Não é contudo apenas este o motivo porque ele se torna desejável, ao ponto de levar o homem a correr os maiores riscos para o atingir. Ele é geralmente o guardião se algo de maravilhoso: a donzela, no caso dos romances de cavalaria, o tabernáculo da divindade, na hagiografia.

Maria Clara Almeida Lucas, "A Cidade Celeste na Hagiografia Medieval Portuguesa", in O Imaginário da Cidade. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian/ACARTE, 1989, p. 85.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

No caminho para a cidade celeste (4). Maria Clara de Almeida Lucas

Relacionado com o simbolismo da água do mar, está o da barca que transporta o viajante. Esta tem o seu arquétipo na Arca de Noé (Gen. 7, 1-6) que encerra em si todos os aspectos de que se revestem as outras embarcações.
Tal como Noé, também Amaro "fez fazer hūa nave muy boa e forte o mais que pode e como foy de todo cõprida ha guarneceo muy bem de viandas e de todo o que lhe fazia mester. E desque foy bem aparelhada entrou o bemaventurado Amaro com toda sua companha e alçarom vella..."
Este é um doses símbolos mais ricos da tradição judeo-crustã: salvaguarda da espécie humana, sinal da presença de Deus, santuário onde os hebreus guardam a arca da aliança feita com a divindade. Preservando a raça humana, a arca de Noé transforma-se no refúgio e salvaguarda do conhecimento anterior ao dilúvio.
Em várias culturas a barça aparece ligada à ultima viagem do homem. Neste contexto, Bachelard relaciona a água com a barca e com o culto da árvore funerária.

Maria Clara Almeida Lucas, "A Cidade Celeste na Hagiografia Medieval Portuguesa", in O Imaginário da Cidade. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian/ACARTE, 1989, p. 83.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

No caminho para a cidade celeste (3). Maria Clara de Almeida Lucas

O rio que corre sob a ponte pertence a outro grupo de símbolos fundamentais desta visões e que engloba o rio, o lago, a fonte e a água do mar.
[...]
Lugar por excelência do renascimento e das grandes transformações, o mar é o símbolo da dinâmica da vida. Por isso é escolhido para a viagem que o santo [Santo Amaro] inicia a caminho da morte que o fará renascer. Impróprio movimento das águas, na sua incerteza, é símbolo de insegurança , de dúvida quanto ao lugar de chegada, aqui apenas anunciado "para os lados onde o sol nasce". É o mar, símbolo ambivalente, que tanto representa a morte como dá nova vida através da morte.

Maria Clara Almeida Lucas, "A Cidade Celeste na Hagiografia Medieval Portuguesa", in O Imaginário da Cidade. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian/ACARTE, 1989, p. 82.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

No caminho para a cidade celeste (2). Maria Clara de Almeida Lucas

Vencidas, por virtude das palavras mágicas que os monges lhe haviam ensinado, as provas que os diabos lhe reservavam, impõe-se a Nicolau o regresso no qual o espera nova e última provação: "hūa ponte muy estreita e aguda como cutelo; e por sob ella corria hūu grande rio". O simbolismo da ponte, que permite passar duma para a outra margem do rio, tem a ver directamente com o acesso da terra ao céu, isto é, da contingência para a imortalidade. A ponte revela-se uma passagem difícil: ela é tão estreita que nenhum homem mortal pode, por seus próprios meios, franqueável-la. Recorre então, como neste caso, à ajuda divina: "Jesus Cristo tem mercê de mim". Casos há em que a ponte se alarga ou estreita de acordo com as qualidades ou defeitos de quem a atravessar: larga para os justos, fina lâmina para os ímpios.
Na sua ligação com o céu, a ponte identifica-se com o arco-íris que Zeus lançou para ligar os dois mundos.

Maria Clara Almeida Lucas, "A Cidade Celeste na Hagiografia Medieval Portuguesa", in O Imaginário da Cidade. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian/ACARTE, 1989, p. 81.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

No caminho para a cidade celeste (1). Maria Clara de Almeida Lucas

A visão da cidade celeste [na hagiografia medieval portuguesa] é geralmente antecedida pela descrição do caminho seguido para a atingir e pela celeste [na hagiografia medieval portuguesa das provas vencidas.
Quando ao primeiro ponto, as hagiografias estudadas denunciam a existência de dois caminhos opostos: o santo ora empreende a subida de uma montanha ou serra! como no exemplo de Santo Amaro, ora, tomando o sentido inverso, mergulha nas profundezas da terra e é o caso da descida do poço, na vida de S. Patrício.
Este segundo caso é menos vulgar. Quando se trata de uma catábase o caminho seguido é geralmente por dentro de uma montanha: tal acontece na Epopeia de Gilgamesh. Esta escolha do poço altera o simbolismo da descida pelo acréscimo de semana diferentes. Como cavidade mergulhada no seio da terra, ao mesmo tempo que participa, pela entrada, da superfície e ainda pelo facto de conter  geralmente água ou, quando seco, ar, o poço realiza a síntese dos três elementos: a água, a terra e o ar e simultaneamente das três ordens cósmicas: o céu, a terra e o inferno. É pois um ele entre os vivos e os mortos a cuja morada ele conduz, caminho para o paraíso por via do purgatório, com uma passagem pelo inferno, visão por demais aterradora para não persuadir o viandante a preferir a estrada espinhosa do bem.

Maria Clara Almeida Lucas, "A Cidade Celeste na Hagiografia Medieval Portuguesa", in O Imaginário da Cidade. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian/ACARTE, 1989, p. 79-80.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Caminho, meu belo caminho... que dizes afinal sobre mim? (4) Pierre Sansot

O caminho acaba por ser esquecido. Não é senão o servidor obrigatório de todas as nossas descobertas. Alguns amantes do caminho compreenderam-no, preferindo territórios desolados cuja nudez os não distraía da dureza, da paixão do caminho. A felicidade encontram-na ao contrair calos, ao enfrentar desgraças e experimentar as mudanças de humor.
De facto, a maior parte de nós não sacrifica nem um aspecto nem o outro. Se nos deitamos à estrada, é porque o mundo tinha qualquer coisa para nos oferecer e a oferta não seria mais sumptuosa do que imaginamos. Mas o caminho não é um vulgar instrumento que, depois de usado, pode ser deitado fora. Merece consideração. Torna-se o fio condutor, o caminho interior que permitirá à nossa memória restituir à vida o que foi percorrido dia após dia. Pela minha parte, quando me lembro, começo por ter a imagem de um caminho em vias de se propagar, em seguida ordeno em volta dele paisagens, encontros, como se ele tivesse essencialmente, um papel mobilizador.

Pierre Sansot, Chemins aux Vents. Paris, Éditions Payot et Rivages, 2002, p. 208-209,