domingo, 2 de março de 2014

No caminho para a cidade celeste (6). Maria Clara de Almeida Lucas

A esta simbologia do centro, altar ou castelo, une-se a da árvore cósmica, símbolo do sustentáculo do mundo. A visão de S. Amaro apresenta-nos uma variante com características orientais. Uma tenda surge como antecâmara celeste, habitação da Virgem. O que caracteriza essa tenda e a torna excepcional em relação às tendas que o homem conhece e pertencem a este seu mundo terreno é que, em vez da árvore que sustenta as tendas profanas, aquela tem um arco de rubis. [...]
A árvore cósmica surge como sustentáculo do mundo com os seus sete braços que correspondem aos sete céus. Sendo assim vital e sagrada, a árvore está no centro do mundo. A ela se chega dificilmente, defendida por monstros ou árduos caminhos, ela dá vida através dos frutos suculentos e engloba em si mesma o mal, como acontece a quem indevidamente toque no fruto da árvore do bem e do mal. A polissemia da árvore, com poder sobre a vida e sobre a morte, confere-lhe o seu carácter simbólico.

Maria Clara Almeida Lucas, "A Cidade Celeste na Hagiografia Medieval Portuguesa", in O Imaginário da Cidade. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian/ACARTE, 1989, p. 87.

sábado, 1 de março de 2014

No caminho para a cidade celeste (5). Maria Clara de Almeida Lucas

Geralmente situado no topo de uma elevação, como é o caso de S. Amaro, ou protegido por floresta cerrada, ou, em outras culturas, por barreira de fogo ou água, o castelo ou palácio próprio da paisagem que caracteriza a cidade celeste é de tão difícil acesso e apresenta uma arquitectura sólida (o uso de matérias preciosas conotam-no não só de beleza mas se solidez) dando assim uma sensação de segurança, tal como a casa ou o regaço materno. É pois um símbolo de protecção.
Não é contudo apenas este o motivo porque ele se torna desejável, ao ponto de levar o homem a correr os maiores riscos para o atingir. Ele é geralmente o guardião se algo de maravilhoso: a donzela, no caso dos romances de cavalaria, o tabernáculo da divindade, na hagiografia.

Maria Clara Almeida Lucas, "A Cidade Celeste na Hagiografia Medieval Portuguesa", in O Imaginário da Cidade. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian/ACARTE, 1989, p. 85.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

No caminho para a cidade celeste (4). Maria Clara de Almeida Lucas

Relacionado com o simbolismo da água do mar, está o da barca que transporta o viajante. Esta tem o seu arquétipo na Arca de Noé (Gen. 7, 1-6) que encerra em si todos os aspectos de que se revestem as outras embarcações.
Tal como Noé, também Amaro "fez fazer hūa nave muy boa e forte o mais que pode e como foy de todo cõprida ha guarneceo muy bem de viandas e de todo o que lhe fazia mester. E desque foy bem aparelhada entrou o bemaventurado Amaro com toda sua companha e alçarom vella..."
Este é um doses símbolos mais ricos da tradição judeo-crustã: salvaguarda da espécie humana, sinal da presença de Deus, santuário onde os hebreus guardam a arca da aliança feita com a divindade. Preservando a raça humana, a arca de Noé transforma-se no refúgio e salvaguarda do conhecimento anterior ao dilúvio.
Em várias culturas a barça aparece ligada à ultima viagem do homem. Neste contexto, Bachelard relaciona a água com a barca e com o culto da árvore funerária.

Maria Clara Almeida Lucas, "A Cidade Celeste na Hagiografia Medieval Portuguesa", in O Imaginário da Cidade. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian/ACARTE, 1989, p. 83.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

No caminho para a cidade celeste (3). Maria Clara de Almeida Lucas

O rio que corre sob a ponte pertence a outro grupo de símbolos fundamentais desta visões e que engloba o rio, o lago, a fonte e a água do mar.
[...]
Lugar por excelência do renascimento e das grandes transformações, o mar é o símbolo da dinâmica da vida. Por isso é escolhido para a viagem que o santo [Santo Amaro] inicia a caminho da morte que o fará renascer. Impróprio movimento das águas, na sua incerteza, é símbolo de insegurança , de dúvida quanto ao lugar de chegada, aqui apenas anunciado "para os lados onde o sol nasce". É o mar, símbolo ambivalente, que tanto representa a morte como dá nova vida através da morte.

Maria Clara Almeida Lucas, "A Cidade Celeste na Hagiografia Medieval Portuguesa", in O Imaginário da Cidade. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian/ACARTE, 1989, p. 82.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

No caminho para a cidade celeste (2). Maria Clara de Almeida Lucas

Vencidas, por virtude das palavras mágicas que os monges lhe haviam ensinado, as provas que os diabos lhe reservavam, impõe-se a Nicolau o regresso no qual o espera nova e última provação: "hūa ponte muy estreita e aguda como cutelo; e por sob ella corria hūu grande rio". O simbolismo da ponte, que permite passar duma para a outra margem do rio, tem a ver directamente com o acesso da terra ao céu, isto é, da contingência para a imortalidade. A ponte revela-se uma passagem difícil: ela é tão estreita que nenhum homem mortal pode, por seus próprios meios, franqueável-la. Recorre então, como neste caso, à ajuda divina: "Jesus Cristo tem mercê de mim". Casos há em que a ponte se alarga ou estreita de acordo com as qualidades ou defeitos de quem a atravessar: larga para os justos, fina lâmina para os ímpios.
Na sua ligação com o céu, a ponte identifica-se com o arco-íris que Zeus lançou para ligar os dois mundos.

Maria Clara Almeida Lucas, "A Cidade Celeste na Hagiografia Medieval Portuguesa", in O Imaginário da Cidade. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian/ACARTE, 1989, p. 81.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

No caminho para a cidade celeste (1). Maria Clara de Almeida Lucas

A visão da cidade celeste [na hagiografia medieval portuguesa] é geralmente antecedida pela descrição do caminho seguido para a atingir e pela celeste [na hagiografia medieval portuguesa das provas vencidas.
Quando ao primeiro ponto, as hagiografias estudadas denunciam a existência de dois caminhos opostos: o santo ora empreende a subida de uma montanha ou serra! como no exemplo de Santo Amaro, ora, tomando o sentido inverso, mergulha nas profundezas da terra e é o caso da descida do poço, na vida de S. Patrício.
Este segundo caso é menos vulgar. Quando se trata de uma catábase o caminho seguido é geralmente por dentro de uma montanha: tal acontece na Epopeia de Gilgamesh. Esta escolha do poço altera o simbolismo da descida pelo acréscimo de semana diferentes. Como cavidade mergulhada no seio da terra, ao mesmo tempo que participa, pela entrada, da superfície e ainda pelo facto de conter  geralmente água ou, quando seco, ar, o poço realiza a síntese dos três elementos: a água, a terra e o ar e simultaneamente das três ordens cósmicas: o céu, a terra e o inferno. É pois um ele entre os vivos e os mortos a cuja morada ele conduz, caminho para o paraíso por via do purgatório, com uma passagem pelo inferno, visão por demais aterradora para não persuadir o viandante a preferir a estrada espinhosa do bem.

Maria Clara Almeida Lucas, "A Cidade Celeste na Hagiografia Medieval Portuguesa", in O Imaginário da Cidade. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian/ACARTE, 1989, p. 79-80.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Caminho, meu belo caminho... que dizes afinal sobre mim? (4) Pierre Sansot

O caminho acaba por ser esquecido. Não é senão o servidor obrigatório de todas as nossas descobertas. Alguns amantes do caminho compreenderam-no, preferindo territórios desolados cuja nudez os não distraía da dureza, da paixão do caminho. A felicidade encontram-na ao contrair calos, ao enfrentar desgraças e experimentar as mudanças de humor.
De facto, a maior parte de nós não sacrifica nem um aspecto nem o outro. Se nos deitamos à estrada, é porque o mundo tinha qualquer coisa para nos oferecer e a oferta não seria mais sumptuosa do que imaginamos. Mas o caminho não é um vulgar instrumento que, depois de usado, pode ser deitado fora. Merece consideração. Torna-se o fio condutor, o caminho interior que permitirá à nossa memória restituir à vida o que foi percorrido dia após dia. Pela minha parte, quando me lembro, começo por ter a imagem de um caminho em vias de se propagar, em seguida ordeno em volta dele paisagens, encontros, como se ele tivesse essencialmente, um papel mobilizador.

Pierre Sansot, Chemins aux Vents. Paris, Éditions Payot et Rivages, 2002, p. 208-209,

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Caminho, meu belo caminho... que dizes afinal sobre mim? (3) Pierre Sansot

O caminho, a marcha ininterrupta num caminho, faz-me, às vezes, melancolia. Ao seguir sempre em frente, não presto atenção àquele pequeno ribeiro, àquela criança na pradaria, da forma que o mereciam. De uma certa maneira, conduzia-me como um daqueles homens apressados que me indispõem. Dava mostras de ingratidão e de insensibilidade, em vez da disponibilidade que julgava evidenciar. Neste sentimento, havia algo ainda de mais patético. A condição humana surgia-me em toda a sua luz e em toda a sua crueza: um viajante que se não possa nunca fixar, e ao qual, um dia, o deslumbramento da sensibilidade será recusado.
Que relações tece o caminho com as paisagens, quando se inscreve num longo passeio? Temos de fazer questão de não as ignorar. Em primeiro lugar, porque, libertos da pressão do tempo e de qualquer tarefa, dispomos do tempo livre para as inspeccionar, as contemplar. Por outro lado, elas remetem constantemente para a nossa memória. São as quintas, as colinas, os edifícios, por vezes o oceano, que assumem a função de guiar dos nosso passos. O nosso corpo transmite de imediato essa informação, sustendo a respiração ou respirando à vontade, encolhendo-se ou curvando-se. É assim que nasce e nos acompanha uma segunda forma de paisagem, a que é repercussão quase inconsciente e mais próxima do nosso organismo. E, aliás, que satisfação tiraríamos do facto de andarmos, sem a diversidade de informações confusas que nos assaltam segundo a segundo?

Pierre Sansot, Chemins aux Vents. Paris, Éditions Payot et Rivages, 2002, p. 207-208.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Caminho, meu belo caminho... que dizes afinal sobre mim? (2) Pierre Sansot

No campo, o caminho dispõe-me à solidão e procura-a para mim. Raramente me associo a outros caminhantes. Aceito, ao longo do passeio, companheiros ocasionais que me deixarão quando lhes aprouver.  Enquanto tagarelamos, afastamo-nos deste caminho que se me apresenta como uma obra agradável, mas grave. Desejaríamos ser interrompidos no decurso de uma leitura ou de um concerto?
Que destino reservar aos desconhecidos, às pessoas que entrevimos numa peregrinação, que é o contrário duma viagem pré-organizada no decurso da qual foram preparadas as cerimonias de acolhimento, os cenários. O vagabundo, já o escrevi, inquieta, não por ser um ladrão de galinhas ou de pneus, mas por ser ladrão de terra, de intimidade, sempre que ousa dirigir o seu olhar para um conjunto que não lhe pertence, que não adquiriu nem construiu. As alegrias do pateta alegre, do homem desocupado, indiferente ao dia de amanhã, irritam os que labutam e sofrem.
Naturalmente outros encontros acontecem com vagabundos despreocupados. Há um sério risco de formar, paradoxalmente, um círculo tão fechado quanto o dos frequentadores habituais de um café, ou dos co-proprietários de um loteamento, ou seja, de nos perdemos na narrativa de proezas reais ou imaginárias e de diferir o momento de retomar a estrada. Tanta gente se mete à estrada (não é o caso dos vagabundos), pára num lugar e por lá fica.

Pierre Sansot, Chemins aux Vents. Paris, Éditions Payot et Rivages, 2002, p. 206-207.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Caminho, meu belo caminho... que dizes afinal sobre mim? (1) Pierre Sansot

Desejamos estar seguros acerca dos nossos caminhos e uma tal certeza traz-nos a paz. A amizade não se alimenta da confiança? No entanto, essa fidelidade, se fosse absoluta, inquietar-me-ia e nela veria uma marca de servidão, talvez de servilismo. O caminho é certo que aumenta o nosso domínio do espaço e consequentemente do mundo, e nós congratulamo-nos com isso. Uma coisa, uma relação pertence-me ou poderá pertencer-me, se existir um caminho que me conduza até ela. Em virtude do mesmo movimento, um ser ameaçado que gostasse de dispor de terrenos pantanosos em volta da sua casa, um espaço inóspito, sonha com uma casa que não figure nas cartas – numa insularidade completa.
É todavia necessário ser bem ingénuo para ignorar a vida secreta dos caminhos, e bem arrogante para acreditar no seu total controlo. Quem quereria um caminho incapaz de se dissimular, de nos desafiar, de nos ignorar? Grande numero de narrativas relatam essa incerteza: onde me levará este caminho? Será mesmo um caminho? Não será dissimulado ao ponto de multiplicar os sinais ilusórios? E que glória será a minha se conseguir triunfar sobre os seus embustes? O termo “dissimulado” já não me agrada. Prefiro chamar-lhe traquinas, orgulhoso da sua independência, apostado em não se abandonar, como uma rapariga fácil.

Pierre Sansot, Chemins aux Vents. Paris, Éditions Payot et Rivages, 2002, p. 205-206.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Um relato deslavado e incorrrecto das minhas viagens. Jonathan Swift

Carta do Comandante Gulliver a seu primo Sympson

Espero que estarás disposto a reconhecer publicamente, ainda que to peça, que me pressionaste, constante e frequentemente, para que publicasse um relato deslavado e incorrecto de minhas viagens, com a indicação de recorrer aos serviços de algum jovem universitário de Oxford ou Cambridge para lhe dar ordem e corrigir o estilo, como o fez o meu primo Dampier, seguindo os meus conselhos, com o seu livro intitulado Viagem à Volta do Mundo. Mas não me lembro se te dei autorização para omitir tudo isto; e muito menos que se efectuassem inserções. Por conseguinte, no que respeita a estas últimas, nego ser o autor delas, especialmente, no que se refere a um parágrafo acerca de Sua Majestade a rainha Ana, de piedosíssima e gloriosa memória, a quem dediquei uma reverência e estima superiores às de qualquer outro mortal. Mas tu ou o revisor deveriam ter tido em conta que, como esta não era a minha natural inclinação, não era honesto elogiar qualquer animal da nossa natureza perante o meu amo houyhnhnm. E, além disso, este facto é completamente falso; pelo que sei, tendo permanecido em Inglaterra durante parte do reinado de Sua Majestade, a rainha, ela governou com a ajuda de um primeiro-ministro; para ser mais preciso, com a de dois consecutivamente. O primeiro foi lorde Godolphin e o segundo lorde Oxford, de modo que me fizeste dizer o que não era. De igual modo, na relação da Academia de Inventores e em diversos passos do meu discurso a meu amo houyhnhnm, omitiste, separaste ou alteraste alguns aspectos circunstanciais, de tal forma que pouco me reconheço nele como autor. Quando, faz já muito tempo, sugeri em carta algo sobre isto, tiveste a amabilidade de responder-me que tinhas medo de ofender alguém. Os que detêm o poder submetiam a imprensa a apertada vigilância e estavam inclinados, não só a interpretar, mas também a castigar qualquer coisa que tivesse um aparente significado sedicioso ou fustigante.
Mas, por favor, como pode ser que o declarado noutro reino se aplique a qualquer dos yahoos que ora se diz que governam a manada? Especialmente numa época que eu não considerava uma desgraça nem temia viver sob a sua obediência. Acaso não tenho todos os motivos para queixar-me ao ver esses mesmos yahoos transportados numa carruagem puxada por houyhnhnms, como se os primeiros fossem as criaturas racionais e os segundos os brutos? E, na verdade, foi esse o motivo por que dali me afastei, para evitar a contemplação de espectáculo tão monstruoso e horrendo.
Isto é o que considerei adequado comentar quanto a ti e à confiança que em ti depositava.
Queixo-me agora da minha própria e enorme falta de prudência por ter aceite os avisos e sofismas provenientes de ti e de outros, diametralmente opostos à minha opinião, de permitir a publicação de As Viagens. Recorda-te, por favor, com que frequência te pedi para considerares, quando aduziste constantemente razões de bem público, que os yahoos eram uma raça de animais absolutamente incapazes de emenda mediante ordens ou exemplos. E verificou-se que assim era; porque em lugar de contemplar uma total paralisação de todos os excessos e corrupções, pelo menos nesta pequena ilha, tal como seria legítimo esperar, eis que, após seis meses, não pude comprovar que o meu livro tenha produzido um só dos efeitos que previra. Ansiei por que me desses a conhecer por escrito quando se tinham abolido os partidos ou facções, quando os juízes tinham actuado com justiça e discernimento, os demandantes com humildade, honestidade e com alguns indícios de bom senso, quando na praça de Smithfield se tinham queimado avantajadas pirâmides de livros de direito. Quando a educação da juventude nobre mudara por completo, os médicos desterrados, as yahoos femininas abundantes de virtude, honra, verdade e bom senso; as reuniões de escárnio e maldizer, parlamentares ou privadas, banidas e extintas; o engenho, méritos e saber recompensados; todos os que aviltam a máquina de impressão com a sua má prosa ou verso condenados a nada mais comer que as bolas de algodão (com que os impressores dão tinta às pranchas) e a matar a sede com a sua própria tinta.
Graças aos teus esforços, contava fundamentalmente com estas e outras mil reformas; e, com efeito, estas deduziam-se com clareza dos conselhos contidos no meu livro. E deve reconhecer-se que sete meses era tempo suficiente para emendar todos os vícios e loucuras a que os yahoos estão sujeitos se tivessem possuído a natural disposição, ainda que em mínima quantidade, para a virtude ou para a sabedoria. Até à data não encontrei nas tuas cartas nenhuma das respostas que esperava; pelo contrário, estás a avolumar este assunto com libelos, notas, reflexões, memorandos e adendas em que me vejo acusado de criticar as gentes dos grandes estados, de degradar a natureza humana (ainda que tenham a desfaçatez de assim considerá-la) e de injuriar o sexo feminino. Verifico, também, que os autores desses panfletos não se põem de acordo entre si; alguns não me atribuem a autoria das minhas próprias viagens, enquanto outros me consideram autor de livros com os quais nada tenho a ver.
Verifico, igualmente, que o teu impressor foi muito pouco cuidadoso: confundiu as horas, datou mal as minhas diversas viagens e regressos a casa; não indicou tão-pouco o verdadeiro mês, nem o dia do mês. E informam-me que, uma vez publicado o livro, ó manuscrito original foi destruído. Não tenho cópia alguma em meu poder. No entanto, escrevi algumas correcções que podes interpolar, no caso de se publicar uma segunda edição. E, apesar de tudo, não posso opor-me a elas: deixarei o assunto nas mãos dos meus judiciosos e ingénuos leitores para que o solucionem a seu gosto.
Chegaram aos meus ouvidos rumores de que alguns dos nossos yahoos marinheiros encontram erros nas minhas expressões de marinharia. Dizem que não é adequada nalguns passos, nem está actualmente em voga. Quanto a isso, nada posso fazer. Nas minhas primeiras viagens juvenis recebi ensinamentos de velhos lobos do mar e aprendi a falar como eles.
Mas desde então descobri que os yahoos marinheiros são propensos, como os de terra, a confundir-se com as palavras; os segundos mudam-nas todos os anos. Pelo que recordo, em cada um dos meus regressos ao meu país, a forma de falar alterava-se, ao ponto de dificilmente os entender. E verifiquei quando um yahoo chegou de Londres para, por curiosidade, fazer uma visita a minha casa que não somos capazes de exprimir os nossos pensamentos de forma inteligível.
Se a crítica dos yahoos pudesse, de algum modo, afectar-me, muito fundamento teria para queixar-me de que alguns se atrevem a opinar que os meus livros são mero produto da minha própria imaginação; e chegaram 'mesmo a sugerir que os houyhnhnms e os yahoos são tão irreais como os habitantes da Utopia.
Devo, em verdade, confessar, no que respeita aos habitantes de Lilliput, Brobdingnag (assim deveria escrever-se esta palavra, e não Brobdingag, como erroneamente se faz) e Laputa; nunca chegou ao meu conhecimento que um yahoo seja tão presunçoso ao ponto de pôr em dúvida a sua existência ou os respectivos factos que relatei: a convicção da sua veracidade invade imediatamente o leitor. E existem menos aparências de probabilidades no meu relato dos houyhnhnms ou dos yahoos quando, no que respeita aos segundos, há muitos milhares nesta cidade que só se diferenciam dos seus néscios irmãos do país dos houyhnhnms por balbuciarem umas palavras ou não andarem nus?
Não escrevi procurando a sua aprovação mas para que se corrigissem. O aplauso universal de toda a raça terá para mim menos importância que o relincho dos dois degenerados houyhnhnms do meu estábulo. Com estes, apesar da sua evidente degeneração, ainda aprendo algumas virtudes, sem mácula de vício.
Atrevem-se estes miseráveis animais os yahoos a pensar que a minha degeneração chega ao ponto de defender a minha veracidade?
Apesar de ser yahoo, é bem sabido em todo o país dos houyhnhnms que, graças aos ensinamentos e exemplos de meu ilustre amo, fui capaz em dois anos (ainda que confesse que com muitíssima dificuldade) de despojar-me dos hábitos infernais de mentir, jogar às cartas, enganar e falar com ambiguidade, tão profundamente enraizados em todas as almas da minha espécie, em especial nos europeus.
Tenho outras queixas a apresentar nestas vexatórias circunstâncias, mas não quero aborrecer-me nem aborrecer-te mais. Devo confessar sinceramente que, desde o meu último regresso, diversas corrupções da minha natureza yahoo reviveram em mim ao conversar com alguns da tua espécie e, em particular, com os da minha própria família, por necessidades inelutáveis. De outro modo nunca teria intentado um projecto tão absurdo como o de reformar a raça yahoo neste reino; embora actualmente já tenha abandonado por completo todos estes projectos por quiméricos.
2 de Abril de 1627
Lemuel Gulliver

Travels into Several Remote Nations of the World, in four parts. By Lemuel Gulliver, first a surgeon, and then a captain of several ships. London, printed for Benj. Motte, 1726.

Usou-se aqui a tradução de autoria não identificada incluída na edição digital desta obra [http://www.livros-digitais.com].
Há várias edições em português desta obra.
Possuo a da Relógio d'Água, Lisboa, 2010, tradução de Luzia Maria Martins.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Gulliver, como outros viajantes, é demasiado minucioso. Jonathan Swift

Nota do editor

O autor destas viagens, senhor Lemuel Gulliver, é meu amigo íntimo desde há muitos anos; estamos também ligados por alguns laços familiares pelo lado materno. Há aproximadamente três anos, o senhor Gulliver, que estava já a fartar-se da multidão de curiosos que invadia a sua casa de Redcriff, comprou um pequeno terreno com uma agradável vivenda perto de Newark, no condado de Nottingham, seu condado natal. É ali onde actualmente vive, reformado e rodeado pela estima dos seus vizinhos.
Ainda que o senhor Gulliver tenha nascido em Nottingham, onde residia o pai, ouvi-lhe dizer que a família provinha de Oxford. Comprovei isso de certa forma quando observei no cemitério de Banbury (Oxford) diversos túmulos e jazigos com o nome de Gulliver.
Antes de abandonar Redcriff entregou-me o manuscrito da obra que aqui publicamos, dando-me a liberdade de dispor dele a meu bel-prazer, Por três vezes o examinei com atenção. O estilo é simples e sem artifícios. E o único defeito que lhe acho é que o autor, como outros viajantes, pormenoriza em excesso. O conjunto manifesta grande dose de veracidade. Com efeito, esta é uma qualidade tão notável neste autor que, ao afirmar-se algo, converteu-se numa máxima, entre os vizinhos de Redcriff, dizer: «É tão verdadeiro como se o senhor Gulliver o tivesse dito.»
Sigo a recomendação de diversas personalidades a quem mostrei o manuscrito com autorização do autor e atrevo-me a apresentá-lo agora ao público. Espero que seja, pelo menos durante algum tempo, um entretenimento mais proveitoso para os jovens nobres que os assuntos dos escritorzecos políticos e partidários.
Este volume teria pelo menos o dobro do tamanho se não tivesse decidido eliminar inúmeros passos relativos a ventos e a marés, explicações sobre variações, ângulos e cartas marítimas, as pormenorizadas descrições de como manobrar um barco numa tempestade.
O mesmo fiz para a relação das longitudes e latitudes. Tenho motivos para temer que o senhor Gulliver possa estar um pouco aborrecido com tudo isso. Mas era meu propósito adequar esta obra à capacidade média dos leitores. No entanto, se a minha ignorância em assuntos de marinharia me levou a cometer alguns erros, toda a responsabilidade deve recair sobre mim. E se qualquer viajante deseja consultar a obra integral, tal como saiu da pena do autor, sentir-me-ei muito feliz em comprazê-lo,
No que respeita a outros pormenores sobre o autor, encontrá-los-á o leitor nas primeiras páginas deste livro.

Richard Sympson


Travels into Several Remote Nations of the World, in four parts. By Lemuel Gulliver, first a surgeon, and then a captain of several ships. London, printed for Benj. Motte, 1726.

Usou-se aqui a tradução de autoria não identificada incluída na edição digital desta obra [http://www.livros-digitais.com].
Há várias edições em português desta obra.
Possuo a da Relógio d'Água, Lisboa, 2010, tradução de Luzia Maria Martins.