Andava olhando os edifícios sob a chuva, de novo impessoal e onisciente, cego na cidade cega; mas um bicho conhece a sua floresta; e mesmo que se perca - perder-se também é caminho.
Clarice Lispector, A Cidade Sitiada. Rio de Janeiro, Editora Rocco, 1998 [1ª edição 1949], p. 182.
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014
Não conseguiram a integração do desconhecido no conhecido. João Rocha Pinto
Regra geral, os primeiros viajantes não expressam admiração nos seus escritos. Claro que nos referimos àquela admiração princípio de todo o saber, como ensinava Aristóteles, e que, talvez por isso mesmo, não conseguiram a integração de forma inteligível e não meramente sensível, do desconhecido no conhecido, por manifesta falta de tempo e, em outras vezes, e tantas elas foram, por inadequado nível cultural, situação frequente entre as tripulações do Cabo da Boa Esperança e da matalotagem de outras singraduras.
Os que se deslocaram em viagem escreveram cartas narrativa, relações de viagem, diários ou assim chamados, elaboraram descrições de terras, traçaram esboços topográficos, reuniram elementos para os roteiros que, ao passarem de mão em mão, para serem recopiados, iam sendo simultaneamente acrescentados. Amontoaram um saber mais ou menos caótico, mas tiveram o grande mérito de trazer o nível descritivo para esta nova literatura, impondo-o, contribuição essa digna do maior relevo, sobretudo quando se conhece a sua acrescida dificuldade por comparação com a narração, como já tivemos ocasião de destacar no capitulo precedente.
João Rocha Pinto, A Viagem, Memória e Espaço. A Literatura Portuguesa de Viagens. Os Primeiros Relatos de Viagem ao Índico, 1597-1550. "Cadernos Revista de História Económica e Social", 11-12. Lisboa , Livraria Sá da Costa, 1989, p. 79-80.
Os que se deslocaram em viagem escreveram cartas narrativa, relações de viagem, diários ou assim chamados, elaboraram descrições de terras, traçaram esboços topográficos, reuniram elementos para os roteiros que, ao passarem de mão em mão, para serem recopiados, iam sendo simultaneamente acrescentados. Amontoaram um saber mais ou menos caótico, mas tiveram o grande mérito de trazer o nível descritivo para esta nova literatura, impondo-o, contribuição essa digna do maior relevo, sobretudo quando se conhece a sua acrescida dificuldade por comparação com a narração, como já tivemos ocasião de destacar no capitulo precedente.
João Rocha Pinto, A Viagem, Memória e Espaço. A Literatura Portuguesa de Viagens. Os Primeiros Relatos de Viagem ao Índico, 1597-1550. "Cadernos Revista de História Económica e Social", 11-12. Lisboa , Livraria Sá da Costa, 1989, p. 79-80.
domingo, 2 de fevereiro de 2014
Missal iluminado. Alain Borer
O meu livro preferido é o meu passaporte, o único in octavo que abre as fronteiras, missal ornado de iluminuras da era aviónica. Algumas páginas ainda virgens, promessas tangíveis de novas viagens, potencialmente disponíveis para acolher todas as imagens do mundo.
Alain Borer, na obra colectiva Pour une Littérature Voyageuse, citado por Frank Michel, Du Voyage et des Hommes. Paris, Livre du Monde, 2013, p. 191.
Alain Borer, na obra colectiva Pour une Littérature Voyageuse, citado por Frank Michel, Du Voyage et des Hommes. Paris, Livre du Monde, 2013, p. 191.
sábado, 1 de fevereiro de 2014
sexta-feira, 31 de janeiro de 2014
Portugal, para quem não tem casa, só é habitável em Lisboa e no Avenida Palace. António Feijó
28 de Agosto de 2009 [carta enviada em papel com o timbre do Royal Hotel, do Monte Estoril. Assina a carta o diplomata e poeta António Joaquim de Castro Feijó (1859-1917), sendo seu destinatário o 2º Visconde de Pindela, Vicente Pinheiro Lobo Machado de Melo e Almada (1852-1922), político que desempenhou cargos diplomáticos e na administração colonial]
Querido Amigo
Para te explicar convenientemente, e cabalmente, este profundo silencio em que me tenho mantido para contigo, teria de escrever longas páginas inúteis de psicologia e de lamentações mais amargas do que as de Jeremias.
Estou, como aqueles indivíduos que viveram demais (qui se sont survécu), à semelhança desses barcos sem leme, vogando à mercê do acaso e sem bem saber o que hei-de fazer. Prolonguei demais o meu congé. Devia ter partido ao chegar o Verão. Portugal, para quem não tem casa, só é habitável em Lisboa e no Avenida Palace. Tudo o mais, para quem um dia se refocilou no contacto da civilização, é detestável e até ordinário. Em chegado o Verão, como em Lisboa se respira mal, nem mesmo nos resta esse oásis do Avenida Palace. Daí todos os meus males e contrariedades. Fomos a Sintra passar quatro dias, antes de partirmos para Moreira da Maia - estivemos lá quatro semanas, todos doentes, e tanto, que ainda estamos combalidos. Sintra, com todas as suas belezas de mansão e alegria, é o lugar mais sujo e mais infecto do mundo. Pior que Marrocos. Até a água, a famosa água de Sintra, está inquinada! Apenas pudemos partir, fugimos para aqui, posta de parte a hipótese risonha de Moreira da Maia por causa de uma epidemia de bexigas que lá apareceu. Resta-nos apenas a casa do Vilar, para onde partimos dentro de dois ou três dias, passar o mês de Setembro, a ver se os pinheiros minhotos nos tonificam para a viagem da Suécia.
João Afonso Machado, Minhotos, Diplomatas e Amigos. A Correspondência (1886-1916) Entre o 2º Visconde de Pindela e António Feijó. Linda-a-Velha, DG Edições, 2007, p. 246.
Querido Amigo
Para te explicar convenientemente, e cabalmente, este profundo silencio em que me tenho mantido para contigo, teria de escrever longas páginas inúteis de psicologia e de lamentações mais amargas do que as de Jeremias.
Estou, como aqueles indivíduos que viveram demais (qui se sont survécu), à semelhança desses barcos sem leme, vogando à mercê do acaso e sem bem saber o que hei-de fazer. Prolonguei demais o meu congé. Devia ter partido ao chegar o Verão. Portugal, para quem não tem casa, só é habitável em Lisboa e no Avenida Palace. Tudo o mais, para quem um dia se refocilou no contacto da civilização, é detestável e até ordinário. Em chegado o Verão, como em Lisboa se respira mal, nem mesmo nos resta esse oásis do Avenida Palace. Daí todos os meus males e contrariedades. Fomos a Sintra passar quatro dias, antes de partirmos para Moreira da Maia - estivemos lá quatro semanas, todos doentes, e tanto, que ainda estamos combalidos. Sintra, com todas as suas belezas de mansão e alegria, é o lugar mais sujo e mais infecto do mundo. Pior que Marrocos. Até a água, a famosa água de Sintra, está inquinada! Apenas pudemos partir, fugimos para aqui, posta de parte a hipótese risonha de Moreira da Maia por causa de uma epidemia de bexigas que lá apareceu. Resta-nos apenas a casa do Vilar, para onde partimos dentro de dois ou três dias, passar o mês de Setembro, a ver se os pinheiros minhotos nos tonificam para a viagem da Suécia.
João Afonso Machado, Minhotos, Diplomatas e Amigos. A Correspondência (1886-1916) Entre o 2º Visconde de Pindela e António Feijó. Linda-a-Velha, DG Edições, 2007, p. 246.
quinta-feira, 30 de janeiro de 2014
Tenho de voltar a vê-la. Katherine Mansfield
- Desço aqui - disse.
Aquilo pareceu completamente impossível a Henry. O comboio começou a travar lentamente e lá fora as luzes tornaram-se mais brilhantes. A rapariga avançou para o lado do compartimento em que ele estava.
- Escute - balbuciou ele - Não a volto a ver?
Levantou-se também apoiando-se com a mão à barra da rede.
- Tenho de voltar a vê-la.
O comboio parava.
Ela murmurou:
- Venho de Londres todas as tardes.
- Posso ter a certeza? É verdade que vem todos os dias?
A sua ansiedade assustou a rapariga. Apercebendo-se disso procurou escondê-la. Rápida, uma dúvida assaltou-o: "Devo apertar-lhe a mão?" Mas com uma das mãos a rapariga segurava o puxador e com a outra o saco. O comboio imobilizou-se. Sem mais uma palavra, sem mais um olhar, ela tinha desaparecido.
Katherine Mansfield, A Viagem Indiscreta. Lisboa, Relógio d'Água, 1984, p. 57.
Aquilo pareceu completamente impossível a Henry. O comboio começou a travar lentamente e lá fora as luzes tornaram-se mais brilhantes. A rapariga avançou para o lado do compartimento em que ele estava.
- Escute - balbuciou ele - Não a volto a ver?
Levantou-se também apoiando-se com a mão à barra da rede.
- Tenho de voltar a vê-la.
O comboio parava.
Ela murmurou:
- Venho de Londres todas as tardes.
- Posso ter a certeza? É verdade que vem todos os dias?
A sua ansiedade assustou a rapariga. Apercebendo-se disso procurou escondê-la. Rápida, uma dúvida assaltou-o: "Devo apertar-lhe a mão?" Mas com uma das mãos a rapariga segurava o puxador e com a outra o saco. O comboio imobilizou-se. Sem mais uma palavra, sem mais um olhar, ela tinha desaparecido.
Katherine Mansfield, A Viagem Indiscreta. Lisboa, Relógio d'Água, 1984, p. 57.
quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
terça-feira, 28 de janeiro de 2014
O mito hippie. Franck Michel
O mito hippie e suas sequências, com as suas revoluções sociais, musicais e políticas, os seus heróis que são outros tantos convites à viagem (o Che, sem dúvida o melhor exemplo, mas também os festivais, como o Woodstock, ou os filmes, como Easy Rider ou More). A estrada e a liberdade estão omnipresentes, mas talvez ainda mais a libertação, tanto dos povos como das consciências. A procura existencial é aqui sobretudo de ordem colectiva, permitindo a viagem ir não apenas a Goa ou Katmandou como a Ardèche ou Summerhill. As questões da autonomia e do ambiente são despertadas e finalmente o "regresso ao território" é uma premissa do "turismo de proximidade" dos nossos dias; o desenvolvimento pessoal, tal como o sector prolífico do bem estar, mergulham as suas raízes nesta época no entanto pelas acções colectiva. O regresso: recentemente, desde o principio do terceiro milénio, este mito hippie conhece um renascimento em favor da conjuntura internacional, das ameaças ambientais, dos movimentos altermundistas. A crise convida á recessão e a ecologia politica renasce mais bela que nunca; é certo que ecolo e bio rimam com bobo, mas a moda do "regresso à terra" funciona como o palco de Larzac ao qual corresponde o negócio das residências secundárias e do turismo patrimonial e de proximidade.
Franck Michel, Voyages Pluriels. Écahnges et Mélanges. Paris, Livres du Monde, 2011, p. 35.
Franck Michel, Voyages Pluriels. Écahnges et Mélanges. Paris, Livres du Monde, 2011, p. 35.
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
O mito beatnik. Franck Michel
O mito beatnik e seus avatares, com os seus ícones literários de Nicolas Bouvier a Jack Kerouac, do fim dos anos 1940 até meados dos anos 1960. O símbolo deste mito é a estrada, tanto as das Índias das especiarias como as que conduzem a mais liberdade, numa procura mais individual que colectiva, introduzida pela linha da viagem e das revoluções mentais e culturais em curso. O regresso: mais tarde, nos anos 1980 e 1990, este mito beatnik opera um retorno em força, introduzido pelos medias e nomeadamente pelo cinema, sempre com a estrada como alvo, e eventualmente com a forma mais ou menos comercial do turismo de aventura e a mediatização dos novos aventureiros. É o individualismo que prevalece, mas também o rito da iniciação, a procura de sentido e de reconhecimento.
Franck Michel, Voyages Pluriels. Écahnges et Mélanges. Paris, Livres du Monde, 2011, p. 34-35.
Franck Michel, Voyages Pluriels. Écahnges et Mélanges. Paris, Livres du Monde, 2011, p. 34-35.
domingo, 26 de janeiro de 2014
Cidade imaginária (1)
Mobilidade e cartografia
Percorríamos a rua da estrada da aldeia quando finalmente avistámos alguém a quem fazer a pergunta de automobilista. A mulher, cuja indumentária denunciava uma origem rural, encarou-nos nos com naturalidade quando parámos o carro à sua ilharga para inquirir sobre se aquela estrada nos levaria à barragem. - Os senhores desculpem, mas não sei dizer, respondeu em voz firme a nossa interlocutora. Pelos meus cálculos, podíamos estar a 3 ou 4 quilómetros da albufeira de Castelo do Bode, mas aquela habitante da aldeia próxima desconhecia onde levaria a estrada.
Prosseguimos a nossa rota tentativa, agora comentando o sucedido. E eu recordei uma situação similar, e igualmente surpreendente, com que me deparara em Manhatten, quando ali fui pela primeira vez em, em 1988. Algures nas imediações de Central Park, pedi auxilio a uma mulher que passeava um cão, indicador de residente, sobre a localização de uma determinada praça. A mulher olhou para o meu mapa de turista e confessou delicadamente que apesar de ali viver há sessenta anos, nunca passara para o outro lado do Parque.
O acesso alargado à mobilidade geográfica é um fenómeno relativamente recente na história de humanidade. Embora todas as civilizações tenham recebido e gerado movimentos migratórios, e as guerras propiciado deslocações massivas a longas distancias, a maior parte dos homens vivia e morria no mesmo local onde tinha nascido.
Mas já que trago hoje aqui relatos sobre este tema, não posso deixar de evocar dois episódios passadas com um dos meus amigos com uma das mais sólidas experiências cosmopolitas. Um dia viemos juntos ao Porto participar numa cerimonia oficial. Com espanto, descobri que este frequentador das livrarias de Paris, Londres ou Nova Iorque não era capaz de reconhecer a avenida dos Aliados ou a rotunda da Boavista.
Durante muitos anos, este meu amigo acompanhou politicamente o destino de Timor. Finalmente lograda a autonomia em liberdade do novo Estado, foi convidado para a cerimonia da independência. Da janela do avião militar que nos transportou de Darwin para Dili, ele ia identificando um a um os acidentes de relevo e da linha de costa de Timor Leste. - Mas tu nunca cá estiveste! - exclamei eu, admirado. - Pois não - respondeu. - É para isso que serve a cartografia!
[Publicado no semanário Região de Leiria, edição de 9 de Janeiro de 2014]
Percorríamos a rua da estrada da aldeia quando finalmente avistámos alguém a quem fazer a pergunta de automobilista. A mulher, cuja indumentária denunciava uma origem rural, encarou-nos nos com naturalidade quando parámos o carro à sua ilharga para inquirir sobre se aquela estrada nos levaria à barragem. - Os senhores desculpem, mas não sei dizer, respondeu em voz firme a nossa interlocutora. Pelos meus cálculos, podíamos estar a 3 ou 4 quilómetros da albufeira de Castelo do Bode, mas aquela habitante da aldeia próxima desconhecia onde levaria a estrada.
Prosseguimos a nossa rota tentativa, agora comentando o sucedido. E eu recordei uma situação similar, e igualmente surpreendente, com que me deparara em Manhatten, quando ali fui pela primeira vez em, em 1988. Algures nas imediações de Central Park, pedi auxilio a uma mulher que passeava um cão, indicador de residente, sobre a localização de uma determinada praça. A mulher olhou para o meu mapa de turista e confessou delicadamente que apesar de ali viver há sessenta anos, nunca passara para o outro lado do Parque.
O acesso alargado à mobilidade geográfica é um fenómeno relativamente recente na história de humanidade. Embora todas as civilizações tenham recebido e gerado movimentos migratórios, e as guerras propiciado deslocações massivas a longas distancias, a maior parte dos homens vivia e morria no mesmo local onde tinha nascido.
Mas já que trago hoje aqui relatos sobre este tema, não posso deixar de evocar dois episódios passadas com um dos meus amigos com uma das mais sólidas experiências cosmopolitas. Um dia viemos juntos ao Porto participar numa cerimonia oficial. Com espanto, descobri que este frequentador das livrarias de Paris, Londres ou Nova Iorque não era capaz de reconhecer a avenida dos Aliados ou a rotunda da Boavista.
Durante muitos anos, este meu amigo acompanhou politicamente o destino de Timor. Finalmente lograda a autonomia em liberdade do novo Estado, foi convidado para a cerimonia da independência. Da janela do avião militar que nos transportou de Darwin para Dili, ele ia identificando um a um os acidentes de relevo e da linha de costa de Timor Leste. - Mas tu nunca cá estiveste! - exclamei eu, admirado. - Pois não - respondeu. - É para isso que serve a cartografia!
[Publicado no semanário Região de Leiria, edição de 9 de Janeiro de 2014]
sábado, 25 de janeiro de 2014
Cultivar a ética da hospitalidade. Jacques Derrida
O termo "cidade-refúgio" escolhemo-lo, sem duvida, porque ele tem títulos históricos a nosso respeito e a respeito de todo aquele que cultiva a ética da hospitalidade. Cultivar a ética da hospitalidade - não será esta linguagem, além do mais, tautológica? Apesar de todas as tensões ou contradições que a possam marcar, apesar de todas as perversões que a espreitem, nem sequer temos de cultivar uma ética da hospitalidade. A hospitalidade é a própria cultura e não é uma ética entre outras. Na medida em que ela diz respeito ao estudos, a saber, à morada, à casa própria, ao lugar de residência familiar, assim como ao modo de nela estar, ao modo de se relacionar consigo e com os outros, com os outros como com os seus ou como com estrangeiros, a ética é a hospitalidade, ela é de parte a parte co-extensiva com a experiência da hospitalidade, seja qual for o modo ela seja aberta ou limitada.
Jacques Derrida, Cosmopolitas de Todos os Países, Mais um Esforço! Coimbra, Minerva, 2001, p. 43-44
Jacques Derrida, Cosmopolitas de Todos os Países, Mais um Esforço! Coimbra, Minerva, 2001, p. 43-44
sexta-feira, 24 de janeiro de 2014
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