Informei-o de que o nosso amigo Marlow deixara, havia já alguns anos, a vida do mar, mas tivera pouca vontade em o fazer.
Mr. Powell comentou:
- Talvez imaginasse que já estava farto.
- Imaginasse, é assim mesmo, é essa a palavra que deve empregar - observei, lembrando-me do carácter provisório da larga estadia de Marlow entre nós. - De ano para ano foi vivendo em terra; mas como um pássaro pousado nos ramos de uma árvore, sempre com um pé no ar, pronto a voar bruscamente para o seu verdadeiro elemento, o que nos não deixa compreender os motivos que o levam a ficar parado tantos minutos seguidos. O verdadeiro elemento do marinheiro é o mar, e Marlow, quando se demorava em terra, tornava-se para mim objecto de comiseração, por assim dizer, incrédula, como qualquer ave que, em segredo, tivesse perdido a fé na excelsa virtude de voar.
Joseph Conrad, Acaso. Porto, Civilização Editora, 2013, p. 31.
domingo, 19 de janeiro de 2014
sábado, 18 de janeiro de 2014
Mas em viagem não existiam esses problemas. Alice Munro
Pela parte que me tocava, estava sempre contente por partir. Gostava de sair. Em casa, parecia que estava sempre à procura de um lugar para me esconder - às vezes das crianças, mas mais frequentemente das tarefas a fazer, do toque do telefone e da sociabilidade dos vizinhos. Queria esconder-me para me dedicar ao meu verdadeiro trabalho, o qual consistia numa espécie de apelo para partes remotas de mim mesma. Eu vivia em estado de sítio, sempre a perder o que justamente se pretendia conservar. Mas em viagem não existiam esses problemas. Podia estar a falar com Andrew, a falar com as crianças e a olhar para o que elas me apontavam - um porco num cartaz, um pónei num campo, um volkswagen numa plataforma giratória - ou a servir limonada em copos de plástico, sem que aqueles fragmentos deixassem de esvoaçar dentro de mim. Conseguia um equilíbrio básico, que me animava e dava esperança. Conseguia-o graças às minhas qualidades de observadora. De observadora, não de arquivista.
Alice Munro, O Progresso do Amor. Lisboa, Relógio d'Água, 2011, p. 92.
Alice Munro, O Progresso do Amor. Lisboa, Relógio d'Água, 2011, p. 92.
sexta-feira, 17 de janeiro de 2014
quinta-feira, 16 de janeiro de 2014
Veio-se a saber mais tarde que tinha ido ao Brasil. Raul Brandão
O Senhor Custódio
O Custódio era um negociante da nossa praça (Porto), que foi amigo de meu pai e que só conheci na velhice. Tipo baixo, trigueiro, de barba de passa-piolho, rico um dia, pobre no outro, e que parecia indiferente à vida e ao dinheiro. Com isto, extremamente bondoso. A nota característica da sua vida seria esta: não era a fortuna que ele procurava no negócio – era a agitação.
Não parava nunca, nem quando tinha cem contos, nem quando estava completamente arruinado – porque a sua vida foi uma linha com altos e baixos repentinos que surpreendia e maravilhava toda a gente.
E também não havia trambolhão que o arrancasse a uma placidez que parecia indiferença. Tinha o seu escritório, quando o conheci, na Praça de D. Pedro, mas a bem dizer o seu escritório era o país inteiro, porque nunca se encontrava em casa. Ninguém sabia dele, nem a família nem amigos. Saía sem vintém, com um par de meias no bolso, e estava de volta, quando estava, passado um mês. Percorria a província em negócios. Já os condutores do comboio, que não pagava, lhe não pediam o bilhete. Era o Custódio.
Viajava sempre em terceira classe, falando pouco e absorto não sei em que planos irrealizáveis e absurdos. Todos os estalajadeiros lhe sabiam o nome e fiavam dele. – É o Custódio. – Todos os almocreves, todos os grandes e pequenos negociantes da província e do Porto conheciam aquele homem honrado, que depois mandava pagar todas as suas contas.
Duma vez não houve em casa notícias dele durante três meses inteiros. Foi uma aflição. Veio-se a saber mais tarde que tinha ido ao Brasil, com o mesmo par de meias na algibeira e a mesma soberana indiferença, para realizar uns negócios que só ele conhecia, e que no Rio de Janeiro, como em Portugal, encontrara amigos, consideração, simpatia: - Olhem quem ele é, o Custódio!...
Como era um homem de bem e um homem de coração, acabou naturalmente pobre, o que lhe não deve ter pesado nada, porque, a bem dizer, o fim da sua vida não foi juntar dinheiro, mas correr mundo, planear empresas, discutir letras, assinar contratos, e sonhar; sobretudo, sonhar.
A bem dizer, cuido que o Custódio foi um grande poeta.
Raul Brandão, O Senhor Custódio, desenhos de Mário Botas, Lisboa, Quetzal ed., 1987.
O Custódio era um negociante da nossa praça (Porto), que foi amigo de meu pai e que só conheci na velhice. Tipo baixo, trigueiro, de barba de passa-piolho, rico um dia, pobre no outro, e que parecia indiferente à vida e ao dinheiro. Com isto, extremamente bondoso. A nota característica da sua vida seria esta: não era a fortuna que ele procurava no negócio – era a agitação.
Não parava nunca, nem quando tinha cem contos, nem quando estava completamente arruinado – porque a sua vida foi uma linha com altos e baixos repentinos que surpreendia e maravilhava toda a gente.
E também não havia trambolhão que o arrancasse a uma placidez que parecia indiferença. Tinha o seu escritório, quando o conheci, na Praça de D. Pedro, mas a bem dizer o seu escritório era o país inteiro, porque nunca se encontrava em casa. Ninguém sabia dele, nem a família nem amigos. Saía sem vintém, com um par de meias no bolso, e estava de volta, quando estava, passado um mês. Percorria a província em negócios. Já os condutores do comboio, que não pagava, lhe não pediam o bilhete. Era o Custódio.
Viajava sempre em terceira classe, falando pouco e absorto não sei em que planos irrealizáveis e absurdos. Todos os estalajadeiros lhe sabiam o nome e fiavam dele. – É o Custódio. – Todos os almocreves, todos os grandes e pequenos negociantes da província e do Porto conheciam aquele homem honrado, que depois mandava pagar todas as suas contas.
Duma vez não houve em casa notícias dele durante três meses inteiros. Foi uma aflição. Veio-se a saber mais tarde que tinha ido ao Brasil, com o mesmo par de meias na algibeira e a mesma soberana indiferença, para realizar uns negócios que só ele conhecia, e que no Rio de Janeiro, como em Portugal, encontrara amigos, consideração, simpatia: - Olhem quem ele é, o Custódio!...
Como era um homem de bem e um homem de coração, acabou naturalmente pobre, o que lhe não deve ter pesado nada, porque, a bem dizer, o fim da sua vida não foi juntar dinheiro, mas correr mundo, planear empresas, discutir letras, assinar contratos, e sonhar; sobretudo, sonhar.
A bem dizer, cuido que o Custódio foi um grande poeta.
Raul Brandão, O Senhor Custódio, desenhos de Mário Botas, Lisboa, Quetzal ed., 1987.
quarta-feira, 15 de janeiro de 2014
Diziam-lhe que além era o mar. Abel Salazar
E logo saltava de manhã, fresca como uma maçã, sob a carícia da luz, lavando-se num alguidar, pronta para a tarefa diária, ao sol a à chuva, em companhia do gado. Jamais saíra dali e os seus olhos, habituados às galas desta natureza meiga e suave, não se surpreendiam coma sua beleza. Mas do seu mirante diário, Manuela contemplava os perfis distantes das serras, onde desaparecia o sol numa apoteose de oiro. Diziam-lhe que além era o mar, e Manuela absorvia-se na contemplação distante, não imaginando o que seria essencial de que lhe falavam, tão vasto, sem fim, lendário quase. A sua pequena imaginação voava então para longe, galgava o perfil das serras e perdia-se à distancia, nessas cidades que jamais vira, e de que ouvia falar, tão ruidosas, com ruas gigantes e aparelhos infernais...
Abel Salazar, Recordações do Minho Arcaico. Obras Completas de Abel Salazar, vol. IV. Porto, Campo das Letras/Casa-Museu Abel Salazar, 2002, p. 37.
Abel Salazar, Recordações do Minho Arcaico. Obras Completas de Abel Salazar, vol. IV. Porto, Campo das Letras/Casa-Museu Abel Salazar, 2002, p. 37.
terça-feira, 14 de janeiro de 2014
No mundo é que eles se armam gente. Teixeira de Queirós
Porém, reconhecendo que aquela inteligência naturalmente viva se acanharia na estreiteza de uma aldeia, o bom cura é que promoveu, entre a melhor gente da freguesia, uma colheita de donativos para vestirem o Luis Miguel pagarem-lhe a passagem para o Brasil, terra prodigiosa, onde o oiro rebenta das arvores com a bondade dos frutos que alimentam o homem. [...]
- Mas, senhor, - entendia a mãe - olhe que ele para conservar dinheiro não lhe serve. Quando ganhar, quanto dá!
- Cala-te mulher - contestou Miguel - deixa ir o rapaz que no mundo é que eles se armam gente. Tenho-lhe amor, pois é meu filho, mas o senhor cura é que diz bem.
Teixeira de Queirós, Comédia do Campo (Cenas do Minho). A Nossa Gente. Lisboa, Parceria António Maria Pereira, 1899, p. 130-131.
- Mas, senhor, - entendia a mãe - olhe que ele para conservar dinheiro não lhe serve. Quando ganhar, quanto dá!
- Cala-te mulher - contestou Miguel - deixa ir o rapaz que no mundo é que eles se armam gente. Tenho-lhe amor, pois é meu filho, mas o senhor cura é que diz bem.
Teixeira de Queirós, Comédia do Campo (Cenas do Minho). A Nossa Gente. Lisboa, Parceria António Maria Pereira, 1899, p. 130-131.
segunda-feira, 13 de janeiro de 2014
Sabina jamais conhecera uma pausa. Anaïs Nin
Debruçando-se à janela, de madrugada, comprimindo os seios contra o parapeito da janela, ela ainda olhava para fora, à espera de ver o que não conseguira possuir. Olhava para a noite que findava com a aguda vigilância do viajante que não consegue nunca chegar ao seu destino, como as pessoas vulgares chegam em paz aos seus destinos no fim de cada dia, aceitando as pausas, os desertos, os filamentos, como ela não podia aceitá-los.
Sabrina sentia-se perdida.
A bússola selvagem a cujas flutuações ela sempre obedecera, procurando o tumulto e a agitação em vez da orientação, quebrou-se subitamente, fazendo com que ela já não conhecesse sequer o alívio das marés, das correntes e dispersões.
Sentia-se perdida. A dispersão tornara-se demasiado vasta, demasiado extensa. Uma flecha de dor trespassou o modelo nebuloso, Sabina deslocara-se sempre tão depressa que toda a dor passava rapidamente como através de um crivo, deixando um sofrimento semelhante ao sofrimento das crianças, em breve esquecido, em breve substituído por outro interesse. Ela jamais conhecera uma pausa.
A sua capa, que era mais do que uma capa, que era uma vela, que eram os sentimentos que ela atirava ais quatro ventos para serem enfunados e arrastados pelo vento, jazia serena.
O seu vestido estava sereno.
Era como se agora ela não fosse nada que o vento pudesse apanhar, enfunar e impelir.
Para Sabina, a serenidade era a morte.
Anaïs Nin, Uma Espia na Casa do Amor. Lisboa, Vega, 1979, p. 106-107.
Sabrina sentia-se perdida.
A bússola selvagem a cujas flutuações ela sempre obedecera, procurando o tumulto e a agitação em vez da orientação, quebrou-se subitamente, fazendo com que ela já não conhecesse sequer o alívio das marés, das correntes e dispersões.
Sentia-se perdida. A dispersão tornara-se demasiado vasta, demasiado extensa. Uma flecha de dor trespassou o modelo nebuloso, Sabina deslocara-se sempre tão depressa que toda a dor passava rapidamente como através de um crivo, deixando um sofrimento semelhante ao sofrimento das crianças, em breve esquecido, em breve substituído por outro interesse. Ela jamais conhecera uma pausa.
A sua capa, que era mais do que uma capa, que era uma vela, que eram os sentimentos que ela atirava ais quatro ventos para serem enfunados e arrastados pelo vento, jazia serena.
O seu vestido estava sereno.
Era como se agora ela não fosse nada que o vento pudesse apanhar, enfunar e impelir.
Para Sabina, a serenidade era a morte.
Anaïs Nin, Uma Espia na Casa do Amor. Lisboa, Vega, 1979, p. 106-107.
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
Os horizontes estavam fechados. Valentim Alexandre
Quando nos perguntam por que partimos, um tema emerge em todas as respostas: em Portugal abafava-se. Os horizontes estavam fechados, num país estreitamente controlado por um regime político que se dera por objectivo levar os portugueses a viver "habitualmente" - ou seja, sem inquietações nem sobressaltos, segundo os valores tradicionais.
Valentim Alexandre, in Pátria Utópica. O Grupo de Genebra Revisitado. Lisboa, Bizancio, 2011, p. 81
Valentim Alexandre, in Pátria Utópica. O Grupo de Genebra Revisitado. Lisboa, Bizancio, 2011, p. 81
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
Então o que me fez sair de Portugal? Medeiros Ferreira
Vou começar pela decisão de regressar tomada logo depois do 25 de Abril, que formulei da seguinte forma: "o que me fez sair de Portugal obriga-me a voltar".
Então o que me fez sair de Portugal?
Em primeiro lugar, uma situação pessoal cada vez mais insustentável: dirigente estudantil entre 1961 e 1865, fora preso pela PIDE mal tinha sido eleito secretário-geral da RIA em Outubro de 1962, sucedendo a Jorge Sampaio, e dias depois de o Eurico me ter convidado para membro do PCP em Outubro daquele ano.
José Medeiros Ferreira, in Pátria Utópica. O Grupo de Genebra Revisitado. Lisboa, Bizancio, 2011, p. 73
Então o que me fez sair de Portugal?
Em primeiro lugar, uma situação pessoal cada vez mais insustentável: dirigente estudantil entre 1961 e 1865, fora preso pela PIDE mal tinha sido eleito secretário-geral da RIA em Outubro de 1962, sucedendo a Jorge Sampaio, e dias depois de o Eurico me ter convidado para membro do PCP em Outubro daquele ano.
José Medeiros Ferreira, in Pátria Utópica. O Grupo de Genebra Revisitado. Lisboa, Bizancio, 2011, p. 73
domingo, 5 de janeiro de 2014
Marcado nos astros. Eurico de Figueiredo
O ter de partir de Portugal, no contexto do salazarismo, estava, pelo menos para mim, marcado mos astros.
Estava marcado nos "mitos" da família, nas suas estórias antes de ter nascido, na minha memória pessoal, experiência de vida, intervenção política.
Eurico de Figueiredo, in Pátria Utópica. O Grupo de Genebra Revisitado. Lisboa, Bizancio, 2011, p. 59.
Estava marcado nos "mitos" da família, nas suas estórias antes de ter nascido, na minha memória pessoal, experiência de vida, intervenção política.
Eurico de Figueiredo, in Pátria Utópica. O Grupo de Genebra Revisitado. Lisboa, Bizancio, 2011, p. 59.
sábado, 4 de janeiro de 2014
Eu saí de Portugal, em 1965, porque me tinha casado. Ana Benavente
Eu saí de Portugal, em 1965 [...] porque me tinha casado, em 1964, ainda com 18 anos, com o Ruben Ayash. Ele eram activista associativo na Faculdade de Direito e eu de Letras, em Lisboa, e não queríamos que ele fosse mobilizado para a guerra colonial.
Ana Benavente, in Pátria Utópica. O Grupo de Genebra Revisitado. Lisboa, Bizancio, 2011, p. 41.
Ana Benavente, in Pátria Utópica. O Grupo de Genebra Revisitado. Lisboa, Bizancio, 2011, p. 41.
sexta-feira, 3 de janeiro de 2014
Fiquei onze anos. António Barreto
Saí de Portugal a 29 de Julho de 1963. Tinha vinte anos. Viajei no Sud Express até Hendaia. Foi essa, já fora de Espanha, e longe de vários temores, a primeira cidade da liberdade. Passeei pela vila e pela praia todo o dia. Por acaso, um fotógrafo ambulante "bateu uma chapa" que guardei até hoje. Após um dia de espera, mudei de comboio. Cheguei a Genebra a 31 de Julho de manhã cedo. Véspera do 1 de Agisto, dia da "Fête Nationale", feriado em todo o país. A primeira imoressão foi de jubilo e euforia. Deixei as malas num cacifo da estacão de Cornavin. Fui a pé para a cidade, que não conhecia. A travessia do lago, pela ponte do Mont Blanc, deixou-me quase extasiado. Dez minutos depois, passei diante de um cinema que exibia o ultimo filme de Godard: Vivre sa vie. Achei que era comigo... E que era premonitório. Às duas horas comprei o meu primeiro bilhete de cinema. Só ao fim desse dia fui ter com um português, para quem tinha um recado, ou antes, uma apresentação do F!ancisco Delgado, em cuja casa dormi nessa noite. Esta tinha-lhe sido emprestada durante as férias. Decidi ficar uns dias. Fiquei onze anos.
António Barreto, in Pátria Utópica. O Grupo de Genebra Revisitado. Lisboa, Bizancio, 2011, p. 23-24
António Barreto, in Pátria Utópica. O Grupo de Genebra Revisitado. Lisboa, Bizancio, 2011, p. 23-24
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