- ... Então é mesmo uma viagem na memória, a tua!
O Grão Kan, sempre de ouvido atento, estremecia na cama de rede sempre que pressentia no discurso de Março uma inflexão lamentosa.
- É para fazer passar uma carga de nostalgia que foste tão longe! - exclamava, ou então:
- Regressas das tuas expedições com o porão cheio de saudades! - e acrescentava, com sarcasmo:
- Pará dizer a verdade, magras aquisições para um mercador da Sereníssima!
Era este o ponto para que tendiam todas as perguntas de Kublai sobre o passado e sobre o futuro, há uma hora que brincava com isso como o gato e o rato, e, finalmente, punha Marco entre a espada e a parede, assentando-lhe um joelho no peito, agarrando-o pela barba:
- Era o que queria saber de ti: confessa o que contrabandeias: estados e ânimo, estados de graça, elegias!
Italo Calvino, As Cidades Invisíveis. Lisboa, Edições Teorema, 1990, p. 101.
quinta-feira, 2 de janeiro de 2014
quarta-feira, 1 de janeiro de 2014
É uma extravagância. Citado por Georges Cukor
Para os aventureiros, os que escolhem trilhos conhecidos, a vida é uma extravagancia na qual o riso, a sorte e o amor acontecem de formas estranhas, inesperadamente, mas nem por isso deixam de ser menos doces.
Epígrafe do filme de Georges Cukor, Sylvia Scarlett, 1935.
Epígrafe do filme de Georges Cukor, Sylvia Scarlett, 1935.
terça-feira, 31 de dezembro de 2013
E esquecer-me de mim
Termina hoje uma longa viagem pela cidade de Guimarães que iniciei em Setembro de 2009. A despedida foi inevitavelmente solitária. Não é hora nem de balanços (alguns já foram feitos, outros surgirão mais tarde), nem de lenços. Todas as partidas são recomeços. Lembrei-me da canção de Luis Pedro Fonseca cantada por Lena D'Água, a que fiz uma troca de palavras:
Sempre que a cidade me quiser
Basta fazer-me um sinal
Soprado na brisa do mar
Ou num raio de sol
Sempre que a cidade me quiser
Sei que não vou dizer não
Resta-me ir para onde ela for
E esquecer-me de mim
E esquecer-me de mim
segunda-feira, 30 de dezembro de 2013
Ela ia de baía em baía. Corsino Fortes
Antes da manhana
Ela ia
De baía em baía
peregrina
Amando
no útero das veias
a voz uterina dos navios
Na ilha
A minha mãe é ilha nua
Por Dezembro rasgando
o seu inverno de chita
Corsino Fortes, A Cabeça Calva de Deus. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2001, p. 31
domingo, 29 de dezembro de 2013
É porque acreditava nas coisas. Marcel Proust
Ao sair deste parque, o Vivonne punha-se a correr de novo. Quantas vezes eu vi, e desejei imitar quando fosse livre de viver a meu jeito, um remador que, largado o remo, se deitara de costas, com a cabeça em baixo, no fundo do seu bote, e que, deixando-o flutuar à deriva, apenas podendo ver o céu que desfilava lentamente por cima de si, levava na cara o antegosto da felicidade e da paz.
[...]
E por certo, quando eram longamente contemplados por aquele humilde passeante, por aquele menino que sonhava - como um rei o é por um memorialista perdido na multidão -, este recanto da natureza ou esta ponta do jardim não poderiam pensar que seria graças a ele que seriam chamados a sobreviver nas suas particularidades mais efémeras; e, contudo, aquele perfume de espinheiro que recolhe ao longo da sebe, onde as rosas bravas não tardarão a substituí-lo, um ruído de passos sem eco no saibro de uma alameda, ou uma bolha formada contra uma planta aquática pela água do rio e que logo rebenta, a minha exaltação trouxe-os e conseguiu fazê-los atravessar tantos anos sucessivos, enquanto, em redor, os caminhos se apagaram, e morreram os que os pisaram, e a memória dos que os pisaram. Às vezes, este trecho de paisagem trazido assim até hoje destaca-se tão isolado de tudo, que flutua incerto no meu pensamento como uma Delos florida, sem que eu possa dizer de que país, de que tempo - talvez simplesmente de que sonho - chega. Mas é sobretudo como sendo jazidas profundas do meu solo mental, como terrenos resistentes em que me apoio ainda, que devo pensar no lado de Méséglise e no lado de Guermantes. É porque acreditava nas coisas, nos seres, enquanto os percorria, que as coisas e os seres que eles me fizeram conhecer são os únicos que ainda levo a sério e que ainda me dão alegria. Ou porque a fé que cria se esgotou em mim, ou porque a realidade só se forma na memória, as flores que hoje me mostram pela primeira vez não me parecem verdadeiras flores.
O lado de Méséglise, com os seus lilases, os seus espinheiros, as suas cinerárias, as suas papoilas, as suas macieiras, o lado de Guermantes com o seu rio cheio de girinos, os seus nenúfares e os seus ranúnculos constituíram para sempre, para mim, a imagem das terras onde gostaria de viver, onde exijo antes de mais nada poder ir à pesca, passear de canoa, ver ruínas de fortificações góticas e encontrar no meio dos trigos aquilo que era Saint-André-des-Champs, uma igreja monumental, rústica e dourada como uma meda; e as cinerárias, os espinheiros, as macieiras que, quando viajo, me acontece encontrar ainda nos campos, porque estão situados à mesma profundidade, ao nível do meu passado, estão imediatamente em comunicação com o meu coração. E no entanto, porque existe algo de individual nos lugares, quando me assalta o desejo de tornar a ver o lado de Guermantes, ninguém o satisfaria levando-me à beira de um rio onde houvesse nenúfares tão belos ou mais belos do que os do Vivonne, tal como ao fim da tarde, ao regressar - à hora em que em mim despertava aquela angústia que mais tarde emigra para o amor, e que pode tornar-se para sempre inseparável dele -, não teria desejado que me viesse dar as boas-noites uma mãe mais bela e mais inteligente que a minha.
Marcel Proust, Em busca do tempo perdido, I, Do lado de Swann, Trad. de Pedro Tamen, Lisboa, Relógio d'Água, 2003, pp. 194-196.
[...]
E por certo, quando eram longamente contemplados por aquele humilde passeante, por aquele menino que sonhava - como um rei o é por um memorialista perdido na multidão -, este recanto da natureza ou esta ponta do jardim não poderiam pensar que seria graças a ele que seriam chamados a sobreviver nas suas particularidades mais efémeras; e, contudo, aquele perfume de espinheiro que recolhe ao longo da sebe, onde as rosas bravas não tardarão a substituí-lo, um ruído de passos sem eco no saibro de uma alameda, ou uma bolha formada contra uma planta aquática pela água do rio e que logo rebenta, a minha exaltação trouxe-os e conseguiu fazê-los atravessar tantos anos sucessivos, enquanto, em redor, os caminhos se apagaram, e morreram os que os pisaram, e a memória dos que os pisaram. Às vezes, este trecho de paisagem trazido assim até hoje destaca-se tão isolado de tudo, que flutua incerto no meu pensamento como uma Delos florida, sem que eu possa dizer de que país, de que tempo - talvez simplesmente de que sonho - chega. Mas é sobretudo como sendo jazidas profundas do meu solo mental, como terrenos resistentes em que me apoio ainda, que devo pensar no lado de Méséglise e no lado de Guermantes. É porque acreditava nas coisas, nos seres, enquanto os percorria, que as coisas e os seres que eles me fizeram conhecer são os únicos que ainda levo a sério e que ainda me dão alegria. Ou porque a fé que cria se esgotou em mim, ou porque a realidade só se forma na memória, as flores que hoje me mostram pela primeira vez não me parecem verdadeiras flores.
O lado de Méséglise, com os seus lilases, os seus espinheiros, as suas cinerárias, as suas papoilas, as suas macieiras, o lado de Guermantes com o seu rio cheio de girinos, os seus nenúfares e os seus ranúnculos constituíram para sempre, para mim, a imagem das terras onde gostaria de viver, onde exijo antes de mais nada poder ir à pesca, passear de canoa, ver ruínas de fortificações góticas e encontrar no meio dos trigos aquilo que era Saint-André-des-Champs, uma igreja monumental, rústica e dourada como uma meda; e as cinerárias, os espinheiros, as macieiras que, quando viajo, me acontece encontrar ainda nos campos, porque estão situados à mesma profundidade, ao nível do meu passado, estão imediatamente em comunicação com o meu coração. E no entanto, porque existe algo de individual nos lugares, quando me assalta o desejo de tornar a ver o lado de Guermantes, ninguém o satisfaria levando-me à beira de um rio onde houvesse nenúfares tão belos ou mais belos do que os do Vivonne, tal como ao fim da tarde, ao regressar - à hora em que em mim despertava aquela angústia que mais tarde emigra para o amor, e que pode tornar-se para sempre inseparável dele -, não teria desejado que me viesse dar as boas-noites uma mãe mais bela e mais inteligente que a minha.
Marcel Proust, Em busca do tempo perdido, I, Do lado de Swann, Trad. de Pedro Tamen, Lisboa, Relógio d'Água, 2003, pp. 194-196.
sábado, 28 de dezembro de 2013
Do outro lado a margem era baixa. Marcel Proust
O maior encanto do lado de Guermantes era que tínhamos quase sempre a nosso lado o curso do Vivonne. Era forçoso atravessá-lo pela primeira vez dez minutos depois de sair de casa, por um passadiço a que se chamava a Ponte Velha. Logo no dia seguinte à nossa chegada, no dia de Páscoa, depois do sermão, se o tempo estava bom, eu corria para lá, para ver, naquela desordem de uma manhã de grande festa em que alguns preparativos sumptuosos fazem parecer mais sórdidos os utensílios domésticos que ainda por lá andam, o rio que passeava já, azul-celeste, entre as terras ainda negras e nuas, acompanhado apenas de um bando de cucos que tinham chegado cedo de mais e de prímulas adiantadas, enquanto aqui e além uma violeta de bico azul vergava a sua haste sob o peso da gota de aroma que guardava no seu cálice. A ponte velha desembocava num caminho de sirga que naquele local, no Verão, se atapetava das folhas azuis de uma avelaneira, debaixo da qual tomara raízes um pescador de chapéu de palha. Em Combray, onde eu sabia que espécie de ferrador ou de marçano se disfarçava sob a farda do suiço das cerimónias da igreja ou da sobrepeliz do menino de coro, aquele pescador é a única pessoa cuja identidade nunca descobri. Ele devia conhecer os meus pais, porque soerguia o chapéu quando passávamos; queria então perguntar-lhe o nome, mas faziam-me sinal para me calar para não assustar o peixe.
Íamos pelo caminho de sirga que seguia acima da corrente com um talude de vários pés; do outro lado a margem era baixa, estendida em vastos prados até à aldeia e até à estação, que era longe dali. Estavam semeados dos restos, meio mergulhados entre as ervas, do castelo dos antigos condes de Combray, que na Idade Média tinha deste lado o curso do Vivonne como defesa contra os ataques dos senhores de Guermantes e dos abades de Martinville. Eram já só alguns fragmentos, que mal se viam, de torres corcovando a pradaria, algumas ameias donde outrora o besteiro lançava pedras, donde o vigia espiava Novepont, Clairefontaine, Martinville-le-Sec, Bailleau-l'Exempt, tudo terras tributárias de Guermantes, no meio das quais estava encravada Combray, e hoje rentes à erva, dominadas pelos meninos da escola dos frades que vinham ali estudar as lições ou brincar no recreio - um passado quase descido à terra, estendido à beira da água como um passeante a apanhar o fresco, mas que me dava muito que sonhar, fazendo juntar no nome de Combray, à cidadezinha de hoje, uma cidade muito diferente, retendo os meus pensamentos pelo seu rosto incompreensível e de outras épocas que tinha meio escondido debaixo dos ranúnculos. Eram muito numerosos naquele local, que tinham escolhido para as suas brincadeiras de ar livre, isolados, dois a dois, em bandos, amarelos como gemas, brilhando mais, julgava eu, porque, como não podia derivar para alguma veleidade de apreciação, o prazer que a sua visão me causava, acumulava-o eu na sua superfície dourada, até se tornar suficientemente poderoso para produzir inútil beleza; e isto desde a minha mais tenra infância, quando do caminho de sirga estendia os braços para eles sem poder soletrar completamente o seu lindo nome de príncipes de contos de fadas franceses, porventura chegados há muitos séculos da Ásia, mas enraizados para sempre na aldeia, satisfeitos com aquele modesto horizonte, amantes do sol e da beira de água, fiéis à pequena paisagem da estação ferroviária, porém conservando ainda, como algumas das nossas velhas telas pintadas, um poético brilho do Oriente.
Marcel Proust, Em busca do tempo perdido, I, Do lado de Swann. Tradução de Pedro Tamen, Lisboa, Relógio d'Água, 2003, pp. 177-178.
Íamos pelo caminho de sirga que seguia acima da corrente com um talude de vários pés; do outro lado a margem era baixa, estendida em vastos prados até à aldeia e até à estação, que era longe dali. Estavam semeados dos restos, meio mergulhados entre as ervas, do castelo dos antigos condes de Combray, que na Idade Média tinha deste lado o curso do Vivonne como defesa contra os ataques dos senhores de Guermantes e dos abades de Martinville. Eram já só alguns fragmentos, que mal se viam, de torres corcovando a pradaria, algumas ameias donde outrora o besteiro lançava pedras, donde o vigia espiava Novepont, Clairefontaine, Martinville-le-Sec, Bailleau-l'Exempt, tudo terras tributárias de Guermantes, no meio das quais estava encravada Combray, e hoje rentes à erva, dominadas pelos meninos da escola dos frades que vinham ali estudar as lições ou brincar no recreio - um passado quase descido à terra, estendido à beira da água como um passeante a apanhar o fresco, mas que me dava muito que sonhar, fazendo juntar no nome de Combray, à cidadezinha de hoje, uma cidade muito diferente, retendo os meus pensamentos pelo seu rosto incompreensível e de outras épocas que tinha meio escondido debaixo dos ranúnculos. Eram muito numerosos naquele local, que tinham escolhido para as suas brincadeiras de ar livre, isolados, dois a dois, em bandos, amarelos como gemas, brilhando mais, julgava eu, porque, como não podia derivar para alguma veleidade de apreciação, o prazer que a sua visão me causava, acumulava-o eu na sua superfície dourada, até se tornar suficientemente poderoso para produzir inútil beleza; e isto desde a minha mais tenra infância, quando do caminho de sirga estendia os braços para eles sem poder soletrar completamente o seu lindo nome de príncipes de contos de fadas franceses, porventura chegados há muitos séculos da Ásia, mas enraizados para sempre na aldeia, satisfeitos com aquele modesto horizonte, amantes do sol e da beira de água, fiéis à pequena paisagem da estação ferroviária, porém conservando ainda, como algumas das nossas velhas telas pintadas, um poético brilho do Oriente.
Marcel Proust, Em busca do tempo perdido, I, Do lado de Swann. Tradução de Pedro Tamen, Lisboa, Relógio d'Água, 2003, pp. 177-178.
sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
Como aquela igreja era francesa. Marcel Proust
Como o passeio do lado de Méséglise era o menos comprido dos dois que fazíamos à volta de Combray, e por causa disso o reservávamos para quando o tempo estava inseguro, o clima do lado de Méséglise era bastante pluvioso e nunca perdíamos de vista a orla das matas de Roussainville, em cuja espessura nos poderíamos abrigar.
Muitas vezes o sol ocultava-se por detrás de uma nuvem, que deformava a sua forma oval e cujos bordos amarelava. O brilho, mas não a claridade, era roubado ao campo, onde toda a vida parecia suspensa, enquanto a aldeiazinha de Roussainville esculpia no céu o relevo das suas arestas brancas com uma precisão e um acabamento esmagadores. Um pouco de vento fazia um corvo levantar voo para voltar a poisar ao longe e, contra o céu esbranquiçado, a distância das matas parecia mais azul, como que pintada naqueles camafeus que ornamentam os vãos das antigas mansões.
Mas de outras vezes começava a cair a chuva com que nos tinha ameaçado o frade capuchinho que o oculista tinha na montra; as gotas de água, como aves migratórias que levantam voo ao mesmo tempo, desciam do céu em filas apertadas. Não se separam, não vão à aventura durante a rápida travessia, antes, mantendo cada uma o seu lugar, chama a si a que a segue, e o céu fica mais escuro que à partida das andorinhas. Refugiávamo-nos na mata. Quando a viagem das gotas parecia ter terminado, chegavam ainda algumas, mais fracas, mais lentas. Mas nós tornávamos a sair do nosso abrigo, porque as gotas comprazem-se na folhagem, e já a terra estava quase seca quando várias delas se demoravam a brincar nas nervuras de uma folha e, suspensas na ponta, descansadas, brilhando aos sol, deixavam-se de repente deslizar de toda a altura do ramo e caíam-nos em cima do nariz.
Íamos também muitas vezes abrigar-nos, misturados com os santos e os patriarcas de pedra, sob o pórtico de Saint-André-des-Champs. Como aquela igreja era francesa! Por cima da porta, estavam representados os santos, os reis-cavaleiros com uma flor-de-lis na mão, cenas de bodas e de funerais, exactamente como o estariam na alma de Françoise. O escultor narrara também certas historietas relativas a Aristóteles e a Virgílio, do mesmo modo que a Françoise na cozinha falava facilmente de São Luís como se o tivesse conhecido pessoalmente, e em geral para envergonhar os meus avós, menos "justos", pela comparação. Sentia-se que as noções que o artista medieval e a camponesa medieval (sobrevivente no século XIX) tinham da história antiga ou cristã, e que se distinguiam por tanta inexactidão como bonomia, as recebiam, não dos livros, mas de uma tradição ao mesmo tempo antiga e directa, ininterrupta, oral, deformada, desfigurada e viva.
[...]
Já não pegada à pedra como aqueles anjinhos, mas destacada do pórtico, de estatura mais que humana, de pé num pedestal como que num banquinho que lhe evitasse poisar os pés no chão húmido, havia uma santa que tinha as faces cheias, o seio firme inchando o seu panejamento como um cacho de uvas maduras num saco de crina, a testa estreita, o nariz curto e resoluto, olhos fundos, o ar saudável, insensível e corajoso das camponesas da região. Esta semelhança, que insinuava na estátua uma doçura que eu não esperava ali, era com frequência certificada por uma qualquer rapariga do campo, vinda como nós abrigar-se, e cuja presença, semelhante à daquelas folhagens parietais que cresceram ao lado das folhagens esculpidas, parecia destinada a permitir, por uma confrontação com a natureza, ajuizar da verdade da obra de arte. Diante de nós, na distância, terra prometida ou maldita, Roussainville, em cujos muros nunca penetrei, Roussainville ora continuava, depois de a chuva ter cessado já para nós, a ser castigada como uma aldeia da Bíblia por todas as lanças do temporal que flagelavam obliquamente as moradas dos seus habitantes, ora estava já perdoada por Deus Pai, que para ela fazia descer, desigualmente longas, como os raios de um ostensório de altar, as hastes de ouro desfiadas do seu sol reaparecido.
Marcel Proust, Em busca do tempo perdido, I, Do lado de Swann, trad. de Pedro Tamen, Lisboa, Relógio d'Água, 2003, pp. 160 a 162.
Muitas vezes o sol ocultava-se por detrás de uma nuvem, que deformava a sua forma oval e cujos bordos amarelava. O brilho, mas não a claridade, era roubado ao campo, onde toda a vida parecia suspensa, enquanto a aldeiazinha de Roussainville esculpia no céu o relevo das suas arestas brancas com uma precisão e um acabamento esmagadores. Um pouco de vento fazia um corvo levantar voo para voltar a poisar ao longe e, contra o céu esbranquiçado, a distância das matas parecia mais azul, como que pintada naqueles camafeus que ornamentam os vãos das antigas mansões.
Mas de outras vezes começava a cair a chuva com que nos tinha ameaçado o frade capuchinho que o oculista tinha na montra; as gotas de água, como aves migratórias que levantam voo ao mesmo tempo, desciam do céu em filas apertadas. Não se separam, não vão à aventura durante a rápida travessia, antes, mantendo cada uma o seu lugar, chama a si a que a segue, e o céu fica mais escuro que à partida das andorinhas. Refugiávamo-nos na mata. Quando a viagem das gotas parecia ter terminado, chegavam ainda algumas, mais fracas, mais lentas. Mas nós tornávamos a sair do nosso abrigo, porque as gotas comprazem-se na folhagem, e já a terra estava quase seca quando várias delas se demoravam a brincar nas nervuras de uma folha e, suspensas na ponta, descansadas, brilhando aos sol, deixavam-se de repente deslizar de toda a altura do ramo e caíam-nos em cima do nariz.
Íamos também muitas vezes abrigar-nos, misturados com os santos e os patriarcas de pedra, sob o pórtico de Saint-André-des-Champs. Como aquela igreja era francesa! Por cima da porta, estavam representados os santos, os reis-cavaleiros com uma flor-de-lis na mão, cenas de bodas e de funerais, exactamente como o estariam na alma de Françoise. O escultor narrara também certas historietas relativas a Aristóteles e a Virgílio, do mesmo modo que a Françoise na cozinha falava facilmente de São Luís como se o tivesse conhecido pessoalmente, e em geral para envergonhar os meus avós, menos "justos", pela comparação. Sentia-se que as noções que o artista medieval e a camponesa medieval (sobrevivente no século XIX) tinham da história antiga ou cristã, e que se distinguiam por tanta inexactidão como bonomia, as recebiam, não dos livros, mas de uma tradição ao mesmo tempo antiga e directa, ininterrupta, oral, deformada, desfigurada e viva.
[...]
Já não pegada à pedra como aqueles anjinhos, mas destacada do pórtico, de estatura mais que humana, de pé num pedestal como que num banquinho que lhe evitasse poisar os pés no chão húmido, havia uma santa que tinha as faces cheias, o seio firme inchando o seu panejamento como um cacho de uvas maduras num saco de crina, a testa estreita, o nariz curto e resoluto, olhos fundos, o ar saudável, insensível e corajoso das camponesas da região. Esta semelhança, que insinuava na estátua uma doçura que eu não esperava ali, era com frequência certificada por uma qualquer rapariga do campo, vinda como nós abrigar-se, e cuja presença, semelhante à daquelas folhagens parietais que cresceram ao lado das folhagens esculpidas, parecia destinada a permitir, por uma confrontação com a natureza, ajuizar da verdade da obra de arte. Diante de nós, na distância, terra prometida ou maldita, Roussainville, em cujos muros nunca penetrei, Roussainville ora continuava, depois de a chuva ter cessado já para nós, a ser castigada como uma aldeia da Bíblia por todas as lanças do temporal que flagelavam obliquamente as moradas dos seus habitantes, ora estava já perdoada por Deus Pai, que para ela fazia descer, desigualmente longas, como os raios de um ostensório de altar, as hastes de ouro desfiadas do seu sol reaparecido.
Marcel Proust, Em busca do tempo perdido, I, Do lado de Swann, trad. de Pedro Tamen, Lisboa, Relógio d'Água, 2003, pp. 160 a 162.
quinta-feira, 26 de dezembro de 2013
quarta-feira, 25 de dezembro de 2013
Para compreender o mundo é preciso mudarmos de posição. Albert Camus
Já não existem desertos, já não existem ilhas. Mas sentimos a sua falta. Para compreender o mundo, é preciso mudarmos de posição, para melhor servir os homens colocá-los por momentos à distancia. Mas onde encontrar a solidão necessária à força, a longa respiração na qual se revê o espírito e se mede a coragem? Restam as grandes cidades. Há, porém, condições a garantir.
As cidades que a Europa nos oferece estão demasiado preenchidas com rumores do passado. Um ouvido aplicado poderá perceber o bater de asas, uma palpitação de almas. Sentimos nisso a vertigem dos séculos, das revoluções, da glória. Lembramo-nos de que o Ocidente se forjou entre clamores. Não dispomos de silêncio bastante.
Paris é muitas vezes um deserto para o coração, mas a certas horas, do alto do [cemitério] do Père-Lachaise, sopra um vento de revolução que enche repentinamente esse deserto de bandeiras e grandezas vencidas. O mesmo acontece com algumas cidades espanholas, Florença ou Praga. Salzburgo seria agradável sem Mozart. Mas, de longe em longe, corre pelo Salzach o grande grito de Don Juan mergulhando nos infernos. Viena parece mais silenciosa, é uma jovem entre as cidades. As suas pedras não têm mais de três séculos e essa juventude ignora a melancolia. Mas Viena situa-se numa encruzilhada da história. Em seu redor ressoam choques de impérios. Em certas tardes, em que o céu se cobre de sangue, os cavalos de pedra dos monumentos do Ring parecem voar. Neste instante fugitivo, em que tudo fala de poder e de história, podemos ouvir distintamente, sob a marcha dos esquadrões polacos, a queda retumbante do reino otomano. O que já não produz suficiente silencio.
Albert Camus, L'Été. Paris, Gallimard, 1954 [Le Minotaure ou la Halte d'Oran, 1939]
terça-feira, 24 de dezembro de 2013
Espero o regresso dos navios. Albert Camus
Cresci no mar e a pobreza foi-me favorável, depois perdi o mar, todas os luxos a partir daí me pareceram cinzentos, a miséria intolerável. Desde então espero. Espero o regresso dos navios, a casa das águas, o dia límpido. Sou paciente, estou preparado com todas as minhas forças. Vêem-me passar em belas ruas sábias, admiro as passagens, aplaudo como toda a gente, dou a mão, não sou eu que falo. Sou alugado, sonho um pouco, ofendem-me, mal me espanto. A seguir esqueço e sorrio a quem me ultraja, ou saúdo com excessiva cortesia aquele que amo. Que fazer, se não disponho de memória para mais do que uma imagem? Resta-me enfim dizer que existo. "Nada mais, nada mais..."
Albert Camus, L'Été. Paris, Gallimard, 1954 [La Mer au Plus Prés, 1953]
segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
A procurar de novo esse ardor. Albert Camus
Ao longo de todos estes anos, obscuramente, alguma coisa no entanto me faltava. Quando se tem a oportunidade de amar fortemente, passa-se a vida a procurar de novo esse ardor e essa luz. A renuncia à beleza e à felicidade sensual que lhe está associada, o serviço exclusivo da infelicidade, pede uma grandeza de que não sou capaz. Mas, no fim de contas, não é verdadeiro senão o que obriga a excluir. A beleza isolada acaba por se tornar caricatura, a justiça solitária acaba a oprimir. Quem quer servir uma com exclusão de outra não serve ninguém, nem a si próprio, e por fim serve em duplicado a injustiça. Virá um dia em que, à força de rigidez, já nada nos encanta, tudo etário conhecido, passa-se-vida a recomeçar. É o tempo do exílio, da vida seca, das almas mortas. Para voltar a viver, será necessária uma graça, o esquecimento de si próprio, ou uma pátria. Certas manhãs, no voltar duma rua, um delicioso orvalho cai sobre coração, para em seguida se evaporar. A frescura no entanto permanece, sempre, porque o coração assim o exige. Precisei de partir de novo.
Albert Camus, L'Été. Paris, Gallimard, 1954 [Retour à Tipassa, 1953]
domingo, 22 de dezembro de 2013
Pediram a Deus que os guardasse do desejo herético de quererem saber mais do que os seus pais. Mark Twain
Suponho que na América pouco se sabe dos Açores. De todos os passageiros do nosso paquete, não havia um único que soubesse o que fosse sobre estas ilhas. Alguns de nós, extremamente versados na maioria das outras terras, nada sabiam sobre os Açores, a não ser que se tratava de um arquipélago com nove ou dez pequenas ilhas perdidas no Oceano Atlântico, mais ou menos a meio caminho entre Nova Iorque e Gibraltar. Só isso. Estas observações levam-me a incluir aqui um parágrafo sobre os factos puros e duros.
A comunidade é principalmente portuguesa – ou seja, pobre, apática, modorrenta e preguiçosa. Têm um governador civil, designado pelo rei de Portugal, além de um governador militar, que pode assumir plenos poderes e e dissolver o governo cicil, a seu bel-prazer. A população das ilhas perfaz cerca de duzentas mil almas, quase todas portuguesas. Tudo está perfeitamente estabelecido, visto que a região já tinha cem anos quando Colombo descobriu a América. A colheita principal é o milho, que eles cultivam e moem tal e qual faziam os seus tetravós. Usam um arado de uma tábua com uns grampos de ferro; os seus regos insignificantes são escavados pelos homens e pelas mulheres; pequenos moinhos moem o milho, a dez alqueires por dia, e há um moleiro-assistente que alimenta o moinho e outro moleiro-chefe que fica de sentinela não vá o outro adormecer. Quando o vento muda, atrelam umas mulas e dão-se ao trabalho de rodar toda a parte superior do moinho até terem as velas na posição certa, em vez de arranjarem uma maneira de serem as velas a mudar em vez do moinho. Os bois pisam os espigas de trigo, segundo o costume do tempo de Matusalém. Não há um único carrinho de mão em toda a terra: levam tudo à cabeça, ou em cima das mulas, ou numa carroça com caixa de vime e rodas de madeira maciça cujos eixos giram em simultâneo com as rodas. Não há qualquer arado moderno naquelas ilhas, e nem uma só debulhadora. Todas as tentativas de introduzir essas ferramentas agrícolas falharam. Os bons católicos dos portugueses benzeram-se e pediram a Deus que os guardasse do desejo herético de quererem saber mais do que os seus pais antes deles. O clima é ameno; nunca têm neve ou gelo, e não há uma única chaminé em toda a povoação. Os burros e os homens, as mulheres, e as crianças da família comem e dormem todos na mesma casa, e apresentam-se sujos, cheios de bichos e extremamente felizes. As pessoas mentem e enganam os estrangeiros, e são terrivelmente ignorantes e não têm quase nenhum respeito pelos mortos. Por esta última característica bem se vê que são pouco melhores do que os burros com que dormem e comem. Os únicos portugueses bem vestidos que por lá andam fazem parte de meia dúzia de famílias abastadas, ou então são padres jesuítas ou soldados do pequeno regimento. O ordenado de um trabalhador rural é de vinte a vinte e quatro cêntimos por dia, e o de um bom artífice é cerca do dobro. Contam o dinheiro em réis, a mil por dólar, o que os faz sentirem-se ricos e satisfeitos.
Mark Twain, A Viagem dos Inocentes ou a Nova Rota dos Peregrinos. Lisboa, Tinta da China, 2010, p. 64-65 [1ª edição: 1869].
A comunidade é principalmente portuguesa – ou seja, pobre, apática, modorrenta e preguiçosa. Têm um governador civil, designado pelo rei de Portugal, além de um governador militar, que pode assumir plenos poderes e e dissolver o governo cicil, a seu bel-prazer. A população das ilhas perfaz cerca de duzentas mil almas, quase todas portuguesas. Tudo está perfeitamente estabelecido, visto que a região já tinha cem anos quando Colombo descobriu a América. A colheita principal é o milho, que eles cultivam e moem tal e qual faziam os seus tetravós. Usam um arado de uma tábua com uns grampos de ferro; os seus regos insignificantes são escavados pelos homens e pelas mulheres; pequenos moinhos moem o milho, a dez alqueires por dia, e há um moleiro-assistente que alimenta o moinho e outro moleiro-chefe que fica de sentinela não vá o outro adormecer. Quando o vento muda, atrelam umas mulas e dão-se ao trabalho de rodar toda a parte superior do moinho até terem as velas na posição certa, em vez de arranjarem uma maneira de serem as velas a mudar em vez do moinho. Os bois pisam os espigas de trigo, segundo o costume do tempo de Matusalém. Não há um único carrinho de mão em toda a terra: levam tudo à cabeça, ou em cima das mulas, ou numa carroça com caixa de vime e rodas de madeira maciça cujos eixos giram em simultâneo com as rodas. Não há qualquer arado moderno naquelas ilhas, e nem uma só debulhadora. Todas as tentativas de introduzir essas ferramentas agrícolas falharam. Os bons católicos dos portugueses benzeram-se e pediram a Deus que os guardasse do desejo herético de quererem saber mais do que os seus pais antes deles. O clima é ameno; nunca têm neve ou gelo, e não há uma única chaminé em toda a povoação. Os burros e os homens, as mulheres, e as crianças da família comem e dormem todos na mesma casa, e apresentam-se sujos, cheios de bichos e extremamente felizes. As pessoas mentem e enganam os estrangeiros, e são terrivelmente ignorantes e não têm quase nenhum respeito pelos mortos. Por esta última característica bem se vê que são pouco melhores do que os burros com que dormem e comem. Os únicos portugueses bem vestidos que por lá andam fazem parte de meia dúzia de famílias abastadas, ou então são padres jesuítas ou soldados do pequeno regimento. O ordenado de um trabalhador rural é de vinte a vinte e quatro cêntimos por dia, e o de um bom artífice é cerca do dobro. Contam o dinheiro em réis, a mil por dólar, o que os faz sentirem-se ricos e satisfeitos.
Mark Twain, A Viagem dos Inocentes ou a Nova Rota dos Peregrinos. Lisboa, Tinta da China, 2010, p. 64-65 [1ª edição: 1869].
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