quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Circe está outra vez ali no sorriso das ondas. Albano Martins

Em Poros, com Seféris

Talvez Seféris
esteja de regresso
a casa. É a hora
em que todas as cigarras
emudecem, em que ao sol
abre o coração
duma rosa
de cem pétalas. Circe
está outra vez ali no sorriso
das ondas, e talvez
Ulisses, no cansaço
dos dias, venha agora
receber numa taça
de espuma as últimas vogais
do alfabeto das estrelas.

Albano Martins, Oficio e Morada. Antologia Poética. Blumenau, Letras Contemporâneas, 2011, p. 68.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

As palavras são as primeiras a chegar. Rosa Alice Branco

Passos sem memória

Olho a janela e não vejo o mar. As gaivotas
andam por aí e a relva vai secando no varal. Manhã cedo,
o mar ainda não veio. Veio o pão, veio o lume
e o jornal. A saliva com que te hei-de dizer bom-dia.
As palavras são as primeiras a chegar. O que fica delas
amacia o papel. Pão quente com o sono de ontem
e os sonhos de hoje. Prepara-se o dia, os passos
de ir e vir. Estou cada vez mais perto. Olhas-me
como se soubesses o que hei-de saber mais logo.
Nesta cidade nunca é meio-dia. Há sempre uma doçura
de outras horas. E recordações avulsas. Deixa-as sair
de dentro do vestido, deixa soltar as ondas do mar.
A janela está vazia. O meu filho caminha na praia
e tu soletras as gaivotas. Caminha à minha frente
sem deixar pegadas. Perco-me como todas as mães,
todos os amantes. Invento passos e palavras
para adormecer. A esta hora a minha avó enrolava o rosário
nas mãos. Eu estava dentro das contas, dentro do sono
que rondava a prece. Durante muito tempo estive fora.
Agora caminhamos juntos. Sem memória.

Risa Alice Branco, Soletrar o Dia (Obra Poética). Vila Nova de Famalicão, Edições Quasi, 2002, p. 17.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Mas, por lei, eu carecia de nudezes de mulher. João Guimarães Rosa

Digo mesmo de meu expor, falante de mulheres. Quando se viaja varado avante, sentado no quente, acaba o coxim da sela fala de amores. E eu surgia em sossego assim, passo compasso, o chapadão tão alargante. Lá o ar é repousos. Os Hermógenes andavam por bem longe. E nunca que pelotão de soldados havia de ali vir, por cima de nossas batidas. Sossego traz desejos. Eu não lerdeava; mas queria festa simples, achar um arraial bom, em feira-de-gado. Queria ouvir uma bela viola de Queluz, e o sapateado de pés dançando. Mas, por lei, eu carecia de nudezes de mulher. Nesses dias, moderei minha inclinação. Baixei ordens severianas: que todos pudessem se divertir saudavelmente, com as mulheres bem dispostas, não deixando no vai-vigário; mas não obrassem brutalidades com os pais e irmãos e maridos delas, consoante que eles ficassem cordatos. Estatuto meu era esse. Por que destruir vida, à-toa, à-toa, de homem são trabalhador? Zé Bebelo não teria outro reger... E vejo, pergunto: donde era que estava então o demo, perseguição? Devo redizer, eu queria delícias de mulher, isto para embelezar horas de vida. Mas eu escolhia – luxo de corpo e cara festiva. O que via com um desprezo era moça toda donzela, leiga do são-gonçalodo-amarante, e mulher feiosa, muito mãe-de-família. Essas, as bisonhas, eu repelia. Mas, daí então, me deram notícia do Verde-Alecrim. Joguei de galope. Torei o cavalo para lá.
Guia era um exato rapaz, vaqueiro goiano do Uruú. Esse me discriminou – o Verde-Alecrim formava somente um povoado: sete casas, por entre os pés de piteiras, beirando um claro riozinho. Meia-dúzia de cafuas coitadas, sapé e taipa-de- sebe. Mas tinha uma casa grande, com alpendre, as vidraças de janelas de malacacheta, casa caiada e de telhas, de verdade, essa era a das mulheres-damas. Que eram duas raparigas bonitas, que mandavam no lugar, aindas que os moradores restantes fossem santas famílias legais, com suas honestidades. Cheguei e logo achei que lugar tal devia era de ter nome de Paraíso.

João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas. In Ficção Completa. Editora Nova Aguilar, 1994, p. 752-753.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Parados, de mão dada. David Mourão-Ferreira

Secreta viagem

No barco sem ninguém, anónimo e vazio, 
ficámos nós os dois, parados, de mão dada...
Como podemos só dois governar um navio?
Melhor é desistir e não fazermos nada!

Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos,
tornamo-nos reais, e de madeira, à proa...
Que figura de lenda! Olhos vagos, perdidos...
Por entre as nossas mãos, o verde mar se escoa...

Aparentes senhores de um barco abandonado,
nós  olhamos, sem ver, a longínqua miragem...
Aonde iremos ter? - Com frutos e pecado,
se justifica, enflora, a secreta viagem!

Agora sei que és tu quem me fora indicada.
O resto passa, passa... alheio aos meus sentidos.
- Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada,
a eternidade é nossa, em madeira esculpidos.

David Mourão-Ferreira, Obra Completa. Lisboa, Presença, 2006, p. 44.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Véspera da partida. Raul de Carvalho

Todas as horas, todos os minutos,
São para mim a véspera da partida.

Preparo-me para a morte, como quem
Se prepara para a vida.

Em qualquer parte eu disse que a Beleza
Não nasce só mas sim acompanhada.

Não são palavras as que eu digo.
A minha boca pertence aos que me amam.

Mudos e sós.
À nossa volta todos os amantes
Sentir-se-ão tranquilos.
Um coração puro
É como o sol:
Brilha todos os dias.

Raul de Carvalho, Realidade Branca. Lisboa, Ed. do Autor, 1968, p. 31.


quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Vou partir de avião. Ana Luisa Amaral

Testamento

Vou partir de avião
e o medo das alturas misturado comigo
faz-me tomar calmantes
e ter sonhos confusos

Se eu morrer
quero que a minha filha se esqueça de mim
que alguém lhe cante mesmo com voz desafinada
e que lhe ofereçam fantasia
mais que um horário certo
ou uma cama bem feita

Dêem-lhe amor e ver
dentro das coisas
sonhar com sóis e céus brilhantes
em vez de lhe ensinarem contas e somar
e a descascar batatas

Preparem a minha filha
para a vida
se eu morrer de avião
e ficar despegada do meu corpo
e for átomo livre lá no céu

Que se lembre de mim
a minha filha
e mais tarde que diga à sua filha
que eu voei lá no céu
e fui contentamento deslumbrado
ao ver na sua casa as contas de somar erradas
e as batatas no saco esquecidas
e íntegras

Ana Luisa Amaral, Inversos. Poesia 1990-2010. Lisboa, Dom Quixote, 2010, p. 51.



quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Onde um braço teu me procura. Mário Cesariny de Vasconcelos

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

Mário Cesariny de Vasconcelos, Pena Capital. Lisboa, Assírio & Alvim, 2004, p. 30

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Procurar o amor neste deserto. Carlos de Oliveira

Soneto do regresso

Volto contigo à terra da ilusão,
mas o lar de meus pais levou-o vento
e se levou a pedra dos umbrais
o resto é esquecimento:
Procurar o amor neste deserto
onde tudo me ensina a viver só
e a água do teu nome se desfaz
em silabas de pó
é procurar a morte apenas,
o perfume daquelas
longínquas açucenas
abertas sobre o mundo como estrelas:
Despenhar no meu sono de criança
inutilmente a chuva da lembrança.

Carlos de Oliveira, Poesias: 1945-1960. Lisboa, Portugália, 1962, p. 163.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

No mar e no navegar está o sonho de chegar. José Cardoso Pires

Iam de rota traçada com destino às Bermu­das, esse arquipélago de esmeraldas depostas sobre um banco de corais que Álvaro Vaz co­nhecia de leituras e que durante a viagem an­tecipava aos companheiros numa geografia de surpresas. No mar e no navegar está o sonho de chegar, e o skipper do Ponta de Sagres sempre que demandava portos desconhecidos figurava-os para lá da proa do veleiro em re­presentações que conhecera deles através de álbuns, vídeos e enciclopédias ou das repor­tagens do National Geographic. Navegava  assim a duas cartas, a duma Imago Mundi umas vezes científica, outras vezes aventurei­ra, e a da Orbis Rigorosa da arte de marear, e nada disto serviria de estorvo à sua navega­ção, uma vez que um comandante de mão pensada é capaz de levar o navio até ao cume duma montanha. Adiante, portanto, e que São Cristóvão Viajante lhes abrisse caminho com o bastão da sua augusta providência.
Adiante, isto é, rumo a SW, logo ao largo da costa apanharam dois dias de nortada com ondas de quatro metros e vento de força cin­co que os obrigou a amuras curtas. Dois dias em cavalgada de vaga alta é coisa medonha de vencer, mas felizmente que, de garras ao leme e velas firmes, se guardaram de estragos e desesperos e entraram de consciência cum­prida em mar de feição, mar brando, mar es­tanhado e sempre mais brando à medida que se aproximavam do paralelo 30 entre a Madeira e as Canárias e guinavam para oeste co­mo mandava a carta de bordo. Deus abrira a sua mão de luz sobre o oceano, apaziguando­-o, e conduzia o veleiro num chão de mila­gres donde de levantavam bandos de peixes voadores, escreveu o monge de Singeverga, sentado na cabine frente à imagem duma Vir­gem de Neptuno que ele jamais conhecera do Livro dos Benditos.

José Cardoso Pires, Breve noticia do achamento da ilha de Santanás e dos verdadeiros sucessos que nela ocorreram agora postos a escrito segundo os testemunhos dos navegantes e dos registos que os certificam. Lisboa, Parque Expo 98, 1997, p. 15-17.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Outros sentidos. Mário da Sá-Carneiro

[...]
É partir sem temor contra a montanha
Cingidos de quimera e d'irreal;
Brandir a espada fulva e medieval,
A cada hora acastelando em Espanha.
É suscitar côres endoidecidas,
Ser garra imperial enclavinhada,
E numa extrema-unção d'alma ampliada,
Viajar outros sentidos, outras vidas.
[...]
Mário de Sá-Carneiro, Dispersão.

sábado, 30 de novembro de 2013

Viagem sem paisagem. Maria Gabriela Llansol

O barco balouçou e vazou-o no mar (um copo a vazar o seu con­teúdo num tanque). Macário contraiu-se, de medo e de frio, e pensou: «Por agora estou salvo.» Opôs o corpo ao mar e, sobretudo, à escuridão. Bracejou, à procura da carne líqui­da das ondas, e do sentido da ilha, no seu on­dear oculto. Começou a viagem dolorosa em que os braços e as pernas tinham de vestir a resistência da madeira e comportar-se como remos. Era uma viagem sem paisagem, através da ausência. Macário apavorava-se nela, agu­damente servo de si próprio. Media, braçada a braçada, a água que o exilava da ilha, até que os joelhos tocaram os rochedos e as casas apareceram levantadas ao alto sobre a nebli­na. Ultrapassou as rochas e estendeu-se no princípio da praia, desamparado como uma concha.

Maria Gabriela Llansol, A Terra Fora do Sítio, Edição Parque Expo 98, 1997. p. 22-23.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

As viagens são uma boa cura para doentes de amor. Ortega y Gasset

Sólo salva al enamorado un choque recibido violentamente de fuera, un tratamiento a que alguien le obligue. Se comprende que la ausencia, los viajes sean una buena cura para enamorados. La lejanía del objeto amado lo desnutre atencionalmente; impide que nuevos elementos de él mantengan vivo el atender. Los viajes, obligando materialmente a salir de sí mismo y resolver mil pequeños problemas, arrancándonos del engaste habitual y apretando contra nosotros mil objetos insólitos, consiguen forzar la consigna maniática y abren poros en la conciencia hermética, por donde entra, con el aire libre, la perspectiva normal.

Ortega y Gasset, Estudios Sobre el Amor. Madrid, Revista de Occidente en Alianza Editorial, 1981, p. 19.