O barco balouçou e vazou-o no mar (um copo a vazar o seu conteúdo num tanque). Macário contraiu-se, de medo e de frio, e pensou: «Por agora estou salvo.» Opôs o corpo ao mar e, sobretudo, à escuridão. Bracejou, à procura da carne líquida das ondas, e do sentido da ilha, no seu ondear oculto. Começou a viagem dolorosa em que os braços e as pernas tinham de vestir a resistência da madeira e comportar-se como remos. Era uma viagem sem paisagem, através da ausência. Macário apavorava-se nela, agudamente servo de si próprio. Media, braçada a braçada, a água que o exilava da ilha, até que os joelhos tocaram os rochedos e as casas apareceram levantadas ao alto sobre a neblina. Ultrapassou as rochas e estendeu-se no princípio da praia, desamparado como uma concha.
Maria Gabriela Llansol, A Terra Fora do Sítio, Edição Parque Expo 98, 1997. p. 22-23.
sábado, 30 de novembro de 2013
sexta-feira, 29 de novembro de 2013
As viagens são uma boa cura para doentes de amor. Ortega y Gasset
Sólo salva al enamorado un choque recibido violentamente de fuera, un tratamiento a que alguien le obligue. Se comprende que la ausencia, los viajes sean una buena cura para enamorados. La lejanía del objeto amado lo desnutre atencionalmente; impide que nuevos elementos de él mantengan vivo el atender. Los viajes, obligando materialmente a salir de sí mismo y resolver mil pequeños problemas, arrancándonos del engaste habitual y apretando contra nosotros mil objetos insólitos, consiguen forzar la consigna maniática y abren poros en la conciencia hermética, por donde entra, con el aire libre, la perspectiva normal.
Ortega y Gasset, Estudios Sobre el Amor. Madrid, Revista de Occidente en Alianza Editorial, 1981, p. 19.
Ortega y Gasset, Estudios Sobre el Amor. Madrid, Revista de Occidente en Alianza Editorial, 1981, p. 19.
quinta-feira, 28 de novembro de 2013
Parti então, com muita alegria. Eça se Queirós
Parti então, com muita alegria, para a minha apetecida romagem às Cidades da Europa.
Ia viajar!... Viajei. Trinta e quatro vezes, à pressa, bufando, com todo o sangue na face, desfiz e refiz a mala. Onze vezes passei o dia num wagon, envolto em poeirada e fumo, sufocado, a arquejar, a escorrer de suor, saltando em cada estação para sorver desesperadamente limonadas mornas que me escangalhavam a entranha. Quatorze vezes subi derreadamente, atrás de um criado, a escadaria desconhecida dum Hotel; e espalhei o olhar incerto por um quarto desconhecido; e estranhei uma cama desconhecida, donde me erguia, estremunhado, para pedir em línguas desconhecidas um café com leite que me sabia a fava, um banho de tina que me cheirava a lodo. Oito vezes travei bulhas abomináveis na rua com cocheiros que me espoliavam. Perdi uma chapeleira, quinze lenços, três ceroulas, e duas botas, uma branca, outra envernizada, ambas do pé direito. Em mais de trinta mesas-redondas esperei tristonhamente que me chegasse o boeuf-a-la-mode, já frio, com molho coalhado - e que o copeiro me trouxesse a garrafa de Bordeus que eu provava e repelia com desditosa carantonha. Percorri, na fresca penumbra dos granitos e dos mármores, com pé respeitoso e abafado, vinte e nove Catedrais. Trilhei molemente, com uma dor surda na nuca, em quatorze museus, cento e quarenta salas revestidas até aos tectos de Cristos, heróis, santos, ninfas, princesas, batalhas, arquitecturas, verduras, nudezes, sombrias manchas de betume, tristezas das formas imóveis!... E o dia mais doce foi quando em Veneza, onde chovia desabaladamente, encontrei um velho inglês de penca flamejante que habitara o Porto, conhecera o Ricardo, o José Duarte, o Visconde do Bom Sucesso, e as Limas da Boa Vista... Gastei seis mil francos. Tinha viajado.
Eça de Queirós, A Cidade e as Serras.
Ia viajar!... Viajei. Trinta e quatro vezes, à pressa, bufando, com todo o sangue na face, desfiz e refiz a mala. Onze vezes passei o dia num wagon, envolto em poeirada e fumo, sufocado, a arquejar, a escorrer de suor, saltando em cada estação para sorver desesperadamente limonadas mornas que me escangalhavam a entranha. Quatorze vezes subi derreadamente, atrás de um criado, a escadaria desconhecida dum Hotel; e espalhei o olhar incerto por um quarto desconhecido; e estranhei uma cama desconhecida, donde me erguia, estremunhado, para pedir em línguas desconhecidas um café com leite que me sabia a fava, um banho de tina que me cheirava a lodo. Oito vezes travei bulhas abomináveis na rua com cocheiros que me espoliavam. Perdi uma chapeleira, quinze lenços, três ceroulas, e duas botas, uma branca, outra envernizada, ambas do pé direito. Em mais de trinta mesas-redondas esperei tristonhamente que me chegasse o boeuf-a-la-mode, já frio, com molho coalhado - e que o copeiro me trouxesse a garrafa de Bordeus que eu provava e repelia com desditosa carantonha. Percorri, na fresca penumbra dos granitos e dos mármores, com pé respeitoso e abafado, vinte e nove Catedrais. Trilhei molemente, com uma dor surda na nuca, em quatorze museus, cento e quarenta salas revestidas até aos tectos de Cristos, heróis, santos, ninfas, princesas, batalhas, arquitecturas, verduras, nudezes, sombrias manchas de betume, tristezas das formas imóveis!... E o dia mais doce foi quando em Veneza, onde chovia desabaladamente, encontrei um velho inglês de penca flamejante que habitara o Porto, conhecera o Ricardo, o José Duarte, o Visconde do Bom Sucesso, e as Limas da Boa Vista... Gastei seis mil francos. Tinha viajado.
Eça de Queirós, A Cidade e as Serras.
quarta-feira, 27 de novembro de 2013
É esse o perigo de nos tornarmos ilhéus. D. H. Lawrence
Desta pequena ilha no espaço passava-se, estranhamente, aos grandes domínios obscuros do tempo, onde as almas que nunca morrem passam e repassam, em missões vastas e estranhas. A pequena ilha terrestre diminui, como um trampolim, e reduz-se a nada, porque dela se saltou, sem saber como, para o amplo mistério escuro do tempo onde o passado é vivo e vasto e o futuro não está isolado.
É esse o perigo de nos tornarmos ilhéus. Na cidade, quando se vai de polainas brancas e se evita o trânsito, com o medo da morte metido na espinha, está-se protegido dos terrores do tempo infinito. O momento é a ilhota no tempo de cada um, é o universo espacial que passa vertiginosamente à nossa volta.
Mas, quando nos isolamos numa ilha pequena no mar do espaço e o momento começa a inchar e a expandir-se em grandes círculos, vai-se a terra sólida e a nossa alma escura, nua, escorregadia, acha-se no mundo intemporal, onde os carros da chamada morte se precipitam pelas velhas ruas dos séculos e as almas se apinham nos caminhos a que nós, no momento, chamamos anos passados. As almas dos mortos estão vivas, de novo, e pulsam activamente em redor de nós. Estamos perdidos no outro infinito.
D. H. Lawrence, Amor no Feno e Outros Contos. Lisboa, Assírio & Alvim, 2010. Edição Biblioteca Editores Independentes, p. 127-128.
É esse o perigo de nos tornarmos ilhéus. Na cidade, quando se vai de polainas brancas e se evita o trânsito, com o medo da morte metido na espinha, está-se protegido dos terrores do tempo infinito. O momento é a ilhota no tempo de cada um, é o universo espacial que passa vertiginosamente à nossa volta.
Mas, quando nos isolamos numa ilha pequena no mar do espaço e o momento começa a inchar e a expandir-se em grandes círculos, vai-se a terra sólida e a nossa alma escura, nua, escorregadia, acha-se no mundo intemporal, onde os carros da chamada morte se precipitam pelas velhas ruas dos séculos e as almas se apinham nos caminhos a que nós, no momento, chamamos anos passados. As almas dos mortos estão vivas, de novo, e pulsam activamente em redor de nós. Estamos perdidos no outro infinito.
D. H. Lawrence, Amor no Feno e Outros Contos. Lisboa, Assírio & Alvim, 2010. Edição Biblioteca Editores Independentes, p. 127-128.
terça-feira, 26 de novembro de 2013
Nitzsche. Claudio Magris
É cada vez mais difícil, na actual irrealidade do mundo, responder à questão de Nietzsche: "onde é que me posso sentir em casa?"
Claudio Magris, Trois Orients. Récits de Voyage. Paris, Rivages, 2006
Claudio Magris, Trois Orients. Récits de Voyage. Paris, Rivages, 2006
segunda-feira, 25 de novembro de 2013
Nunca teve vontade de partir? Milan Kundera
O jovem olha-a nos olhos, ouve-a e depois diz-lhe que aquilo a que ela chama recordação é, na realidade, oura coisa muito diferente: enfeitiçada, vê-se a esquecer.
Tamina aprova.
E o jovem continua: o olhar triste que ela lança para trás já não é a expressão da fidelidade a um morto. O morto desapareceu do seu campo visual e ela olha apenas para o vazio.
Para o vazio? Mas então o que é que lhe torna o olhar tão pesado?
Não está pesado de recordações, explica o jovem, mas de remorsos. E Tamina nunca se perdoará o ter esquecido.
- E o que é que tenho de fazer? - pergunta Tamina.
- Esquecer o seu esquecimento - diz o jovem.
Tamina sorri com amargura:
- Explique-me como é que consigo.
- Nunca teve vontade de partir?
- Sim - confessa Tamina. - Tenho uma terrível vontade de partir. Mas para onde?
- Para qualquer sítio onde as coisas são leves como uma brisa. Onde as coisas perderam o peso. Onde não há remorsos.
Milan Kundera, O Livro do Riso e do Esquecimento. 9ª edição. Lisboa, Dom Quixote, 2001, p. 156-157.
Tamina aprova.
E o jovem continua: o olhar triste que ela lança para trás já não é a expressão da fidelidade a um morto. O morto desapareceu do seu campo visual e ela olha apenas para o vazio.
Para o vazio? Mas então o que é que lhe torna o olhar tão pesado?
Não está pesado de recordações, explica o jovem, mas de remorsos. E Tamina nunca se perdoará o ter esquecido.
- E o que é que tenho de fazer? - pergunta Tamina.
- Esquecer o seu esquecimento - diz o jovem.
Tamina sorri com amargura:
- Explique-me como é que consigo.
- Nunca teve vontade de partir?
- Sim - confessa Tamina. - Tenho uma terrível vontade de partir. Mas para onde?
- Para qualquer sítio onde as coisas são leves como uma brisa. Onde as coisas perderam o peso. Onde não há remorsos.
Milan Kundera, O Livro do Riso e do Esquecimento. 9ª edição. Lisboa, Dom Quixote, 2001, p. 156-157.
domingo, 24 de novembro de 2013
sábado, 23 de novembro de 2013
Cada um segue caminho. René Barjavel
Cada um segue o seu caminho, que não é semelhante a nenhum outro, e ninguém chega ao mesmo lugar, nem na vida nem na morte.
René Barjavel, Chemins de Karmandou, 1969.
René Barjavel, Chemins de Karmandou, 1969.
sexta-feira, 22 de novembro de 2013
Raros mortais que tinham a curiosidade dos caminhos. Vitorino Nemésio
Quando hoje falamos de turismo, de pousadas, de auto-estradas e de pérgolas, mal cuidamos nos tratos que passavam, há cem ou duzentos anos, os raros mortais que tinham a curiosidade dos caminhos. É verdade que essa espécie de sexto sentido, o dos horizontes laços, a poucos era dado. Andava-se de macho ou de liteira por dura necessidade. Os ricos afundavam-se em churriões ou cadeirinhas, confiando-se aos solavancos das parelhas de muda e à guarda dos criados de libré, de bacamarte aperrado. Os mais comodistas ou decrépitos nem precisavam de apear-se, em certos extremos: tinham no no assento da carruagem o beliche de wagon-lits e a cabine-lavabo. Assim, geralmente, não conservavam da jornada mais do que os ossos moídos.
Nós portugueses, grandes navegadores e escuteiros de continentes, fomos sempre fracos conhecedores dos cantos da própria casa, dando-se o caso espantoso de termos batido a Abissínia, o Tibé, o inferno, deixando intactos os recessos fragosos da Serra da Estrela e do Barroso. A não ser o bom do D. Frei Bartolomeu dos Mártires, o santo Arcebispo de Braga, que a crermos Frei Luis de Sousa, jornadeou precisamente pelas Alturas do Barroso e desvios interamnenses, as primeiras notícias que temos de peregrinos de terrinhas escondidas são de viajantes estrangeiros dos séculos
XVIII e XIX.
13-10-1948
Vitorino Nemésio, Viagens ao Pé da Porta. Lisboa, Editorial Pórtico, S/d, p. 29/30.
Nós portugueses, grandes navegadores e escuteiros de continentes, fomos sempre fracos conhecedores dos cantos da própria casa, dando-se o caso espantoso de termos batido a Abissínia, o Tibé, o inferno, deixando intactos os recessos fragosos da Serra da Estrela e do Barroso. A não ser o bom do D. Frei Bartolomeu dos Mártires, o santo Arcebispo de Braga, que a crermos Frei Luis de Sousa, jornadeou precisamente pelas Alturas do Barroso e desvios interamnenses, as primeiras notícias que temos de peregrinos de terrinhas escondidas são de viajantes estrangeiros dos séculos
XVIII e XIX.
13-10-1948
Vitorino Nemésio, Viagens ao Pé da Porta. Lisboa, Editorial Pórtico, S/d, p. 29/30.
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
Uma viagem sentimental sobre uma mula tordilha. Ortega y Gasset
Por terras de Sigüenza e Berlanga do Douro, nos dias de Agosto lancinados pelo sol, fiz eu - Rubin de Cendaya, [pseudónimo de Ortega y Gasset] místico espanhol - uma viagem sentimental sobre uma mula tordilha de altas orelhas inquietas. São as terras que o Cid cavalgou. São, além disso, as terras onde surgiu o primeiro poeta castelhano, o autor do poema chamado Myo Cid.
Não se julgue por isto que sou de temperamento conservador e tradicionalista. Sou um homem que ama verdadeiramente o passado. Os tradicionalistas, pelo contrário, não o amam: querem que não seja passado, mas sim presente. Amar o passado é alegrar-se de que efectivamente tenha passado e de umas coisas, perdendo essa rudeza com a qual ao estarem presentes arranham os nossos olhos, os nossos ouvidos e as nossas mãos, ascendam à vida mais pura e essencial que têm na reminiscência.
O valor que damos a muitas das realidades presentes não é merecido por estas em si mesmas; se nos ocupamos delas é porque existem, porque estão aí, diante de nós, ofendendo-nos ou servindo-nos. A sua existência, não elas, tem valor. Pelo contrário, daquilo que foi interessa-nos a sua qualidade íntima e própria. De modo que as coisas, ao penetrar no âmbito do pretérito, ficam despojadas de toda a aderência utilitária, de toda a hierarquia fundada nos serviços que enquanto existentes nos prestaram, e assim, absolutamente despidas, é quando começam a viver do seu vigor essencial.
Por isso, é conveniente lançar, de vez em quando, um longo olhar em direcção à profunda alameda do passado: nela aprendemos os verdadeiros valores - não no mercado do dia.
Ortega y Gasset, Notas de Andar e Ver (Viagens, Gentes e Países). Lisboa, Fim de Século, 2007, p. 29-30.
Não se julgue por isto que sou de temperamento conservador e tradicionalista. Sou um homem que ama verdadeiramente o passado. Os tradicionalistas, pelo contrário, não o amam: querem que não seja passado, mas sim presente. Amar o passado é alegrar-se de que efectivamente tenha passado e de umas coisas, perdendo essa rudeza com a qual ao estarem presentes arranham os nossos olhos, os nossos ouvidos e as nossas mãos, ascendam à vida mais pura e essencial que têm na reminiscência.
O valor que damos a muitas das realidades presentes não é merecido por estas em si mesmas; se nos ocupamos delas é porque existem, porque estão aí, diante de nós, ofendendo-nos ou servindo-nos. A sua existência, não elas, tem valor. Pelo contrário, daquilo que foi interessa-nos a sua qualidade íntima e própria. De modo que as coisas, ao penetrar no âmbito do pretérito, ficam despojadas de toda a aderência utilitária, de toda a hierarquia fundada nos serviços que enquanto existentes nos prestaram, e assim, absolutamente despidas, é quando começam a viver do seu vigor essencial.
Por isso, é conveniente lançar, de vez em quando, um longo olhar em direcção à profunda alameda do passado: nela aprendemos os verdadeiros valores - não no mercado do dia.
Ortega y Gasset, Notas de Andar e Ver (Viagens, Gentes e Países). Lisboa, Fim de Século, 2007, p. 29-30.
quarta-feira, 20 de novembro de 2013
terça-feira, 19 de novembro de 2013
Mujer de mi gran viaje. Vicente Huidobro
Te amo mujer de mi gran viaje
Como el mar ama al agua
Que lo hace existir
Y le da derecho a llamarse mar
Y a reflejar el cielo y la luna y las estrelas
Vicente Huidobro, El Pasajero de Su Destino. Sevilha, Sibilina, 2008, p. 263.
Como el mar ama al agua
Que lo hace existir
Y le da derecho a llamarse mar
Y a reflejar el cielo y la luna y las estrelas
Vicente Huidobro, El Pasajero de Su Destino. Sevilha, Sibilina, 2008, p. 263.
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