quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Parti então, com muita alegria. Eça se Queirós

Parti então, com muita alegria, para a minha apetecida romagem às Cidades da Europa.
Ia viajar!... Viajei. Trinta e quatro vezes, à pressa, bufando, com todo o sangue na face, desfiz e refiz a mala. Onze vezes passei o dia num wagon, envolto em poeirada e fumo, sufocado, a arquejar, a escorrer de suor, saltando em cada estação para sorver desesperadamente limonadas mornas que me escangalhavam a entranha. Quatorze vezes subi derreadamente, atrás de um criado, a escadaria desconhecida dum Hotel; e espalhei o olhar incerto por um quarto desconhecido; e estranhei uma cama desconhecida, donde me erguia, estremunhado, para pedir em línguas desconhecidas um café com leite que me sabia a fava, um banho de tina que me cheirava a lodo. Oito vezes travei bulhas abomináveis na rua com cocheiros que me espoliavam. Perdi uma chapeleira, quinze lenços, três ceroulas, e duas botas, uma branca, outra envernizada, ambas do pé direito. Em mais de trinta mesas-redondas esperei tristonhamente que me chegasse o boeuf-a-la-mode, já frio, com molho coalhado - e que o copeiro me trouxesse a garrafa de Bordeus que eu provava e repelia com desditosa carantonha. Percorri, na fresca penumbra dos granitos e dos mármores, com pé respeitoso e abafado, vinte e nove Catedrais. Trilhei molemente, com uma dor surda na nuca, em quatorze museus, cento e quarenta salas revestidas até aos tectos de Cristos, heróis, santos, ninfas, princesas, batalhas, arquitecturas, verduras, nudezes, sombrias manchas de betume, tristezas das formas imóveis!... E o dia mais doce foi quando em Veneza, onde chovia desabaladamente, encontrei um velho inglês de penca flamejante que habitara o Porto, conhecera o Ricardo, o José Duarte, o Visconde do Bom Sucesso, e as Limas da Boa Vista... Gastei seis mil francos. Tinha viajado.

Eça de Queirós, A Cidade e as Serras.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

É esse o perigo de nos tornarmos ilhéus. D. H. Lawrence

Desta pequena ilha no espaço passava-se, estranhamente, aos grandes domínios obscuros do tempo, onde as almas que nunca morrem passam e repassam, em missões vastas e estranhas. A pequena ilha terrestre diminui, como um trampolim, e reduz-se a nada, porque dela se saltou, sem saber como, para o amplo mistério escuro do tempo onde o passado é vivo e vasto e o futuro não está isolado.
É esse o perigo de nos tornarmos ilhéus. Na cidade, quando se vai de polainas brancas e se evita o trânsito, com o medo da morte metido na espinha, está-se protegido dos terrores do tempo infinito. O momento é a ilhota no tempo de cada um, é o universo espacial que passa vertiginosamente à nossa volta.
Mas, quando nos isolamos numa ilha pequena no mar do espaço e o momento começa a inchar e a expandir-se em grandes círculos, vai-se a terra sólida e a nossa alma escura, nua, escorregadia, acha-se no mundo intemporal, onde os carros da chamada morte se precipitam pelas velhas ruas dos séculos e as almas se apinham nos caminhos a que nós, no momento, chamamos anos passados. As almas dos mortos estão vivas, de novo, e pulsam activamente em redor de nós. Estamos perdidos no outro infinito.

D. H. Lawrence, Amor no Feno e Outros Contos. Lisboa, Assírio & Alvim, 2010. Edição Biblioteca Editores Independentes, p. 127-128.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Nitzsche. Claudio Magris

É cada vez mais difícil, na actual irrealidade do mundo, responder à questão de Nietzsche: "onde é que me posso sentir em casa?"

Claudio Magris, Trois Orients. Récits de Voyage. Paris, Rivages, 2006

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Nunca teve vontade de partir? Milan Kundera

O jovem olha-a nos olhos, ouve-a e depois diz-lhe que aquilo a que ela chama recordação é, na realidade, oura coisa muito diferente: enfeitiçada, vê-se a esquecer.
Tamina aprova.
E o jovem continua: o olhar triste  que ela lança para trás já não é a expressão da fidelidade a um morto. O morto desapareceu do seu campo visual e ela olha apenas para o vazio.
Para o vazio? Mas então o que é que lhe torna o olhar tão pesado?
Não está pesado de recordações, explica o jovem, mas de remorsos. E Tamina nunca se perdoará o ter esquecido.
- E o que é que tenho de fazer? - pergunta Tamina.
- Esquecer o seu esquecimento - diz o jovem.
Tamina sorri com amargura:
- Explique-me como é que consigo.
- Nunca teve vontade de partir?
- Sim - confessa Tamina. - Tenho uma terrível vontade de partir. Mas para onde?  
- Para qualquer sítio onde as coisas são leves como uma brisa. Onde as coisas perderam o peso. Onde não há remorsos.

Milan Kundera, O Livro do Riso e do Esquecimento. 9ª edição. Lisboa, Dom Quixote, 2001, p. 156-157.

domingo, 24 de novembro de 2013

sábado, 23 de novembro de 2013

Cada um segue caminho. René Barjavel

Cada um segue o seu caminho, que não é semelhante a nenhum outro, e ninguém chega ao mesmo lugar, nem na vida nem na morte.

René Barjavel, Chemins de Karmandou, 1969.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Raros mortais que tinham a curiosidade dos caminhos. Vitorino Nemésio

Quando hoje falamos de turismo, de pousadas, de auto-estradas e de pérgolas, mal cuidamos nos tratos que passavam, há cem ou duzentos anos, os raros mortais que tinham a curiosidade dos caminhos. É verdade que essa espécie de sexto sentido, o dos horizontes laços, a poucos era dado. Andava-se de macho ou de liteira por dura necessidade. Os ricos afundavam-se em churriões ou cadeirinhas, confiando-se aos solavancos das parelhas de muda e à guarda dos criados de libré, de bacamarte aperrado. Os mais comodistas ou decrépitos nem precisavam de apear-se, em certos extremos: tinham no no assento da carruagem o beliche de wagon-lits e a cabine-lavabo. Assim, geralmente, não conservavam da jornada mais do que os ossos moídos.
Nós portugueses, grandes navegadores e escuteiros de continentes, fomos sempre fracos conhecedores dos cantos da própria casa, dando-se o caso espantoso de termos batido a Abissínia, o Tibé, o inferno, deixando intactos os recessos fragosos da Serra da Estrela e do Barroso. A não ser  o bom do D. Frei Bartolomeu dos Mártires, o santo Arcebispo de Braga, que a crermos Frei Luis de Sousa, jornadeou precisamente pelas Alturas do Barroso e desvios interamnenses, as primeiras notícias que temos de peregrinos de terrinhas escondidas são de viajantes estrangeiros dos séculos 
XVIII e XIX.
13-10-1948

Vitorino Nemésio, Viagens ao Pé da Porta. Lisboa, Editorial Pórtico, S/d, p. 29/30.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Uma viagem sentimental sobre uma mula tordilha. Ortega y Gasset

Por terras de Sigüenza e Berlanga do Douro, nos dias de Agosto lancinados pelo sol, fiz eu - Rubin de Cendaya, [pseudónimo de Ortega y Gasset] místico espanhol - uma viagem sentimental sobre uma mula tordilha de altas orelhas inquietas. São as terras que o Cid cavalgou. São, além disso, as terras onde surgiu o primeiro poeta castelhano, o autor do poema chamado Myo Cid.
Não se julgue por isto que sou de temperamento conservador e tradicionalista. Sou um homem que ama verdadeiramente o passado. Os tradicionalistas, pelo contrário, não o amam: querem que não seja passado, mas sim presente. Amar o passado é alegrar-se de que efectivamente tenha passado e de umas coisas, perdendo essa rudeza com a qual ao estarem presentes arranham os nossos olhos, os nossos ouvidos e as nossas mãos, ascendam à vida mais pura e essencial que têm na reminiscência.
O valor que damos a muitas das realidades presentes não é merecido por estas em si mesmas; se nos ocupamos delas é porque existem, porque estão aí, diante de nós, ofendendo-nos ou servindo-nos. A sua existência, não elas, tem valor. Pelo contrário, daquilo que foi interessa-nos a sua qualidade íntima e própria. De modo que as coisas, ao penetrar no âmbito do pretérito, ficam despojadas de toda a aderência utilitária, de toda a hierarquia fundada nos serviços que enquanto existentes nos prestaram, e assim, absolutamente despidas, é quando começam a viver do seu vigor essencial.
Por isso, é conveniente lançar, de vez em quando, um longo olhar em direcção à profunda alameda do passado: nela aprendemos os verdadeiros valores - não no mercado do dia.

Ortega y Gasset, Notas de Andar e Ver (Viagens, Gentes e Países). Lisboa, Fim de Século, 2007, p. 29-30.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Mujer de mi gran viaje. Vicente Huidobro

Te amo mujer de mi gran viaje
Como el mar ama al agua
Que lo hace existir
Y le da derecho a llamarse mar
Y a reflejar el cielo y la luna y las estrelas

Vicente Huidobro, El Pasajero de Su Destino. Sevilha, Sibilina, 2008, p. 263.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Sou mau viajante. Somerset Maugham

Embora seja muito viajado, sou mau viajante. O bom viajante tem o dom de surpreender-se. Tem um interesse perpétuo pelas diferenças que encontra entre o que conhece no seu país e o que vê no estrangeiro. Se possuir um sentido apurado do absurdo, encontra constantemente motivo para se rir do facto de as pessoas que o rodeiam não se vestirem como ele e não consegue deixar de se espantar por aquelas pessoas comerem com pauzinhos e não com garfos ou escreverem com um pincel e não com uma caneta. Como tudo lhe é estranho, repara em tudo o que, consoante o seu estado de espírito, pode ser divertido ou edificante. Já eu tomo tudo por certo tão rapidamente, que deixo de ver o que seja de invulgar no meu novo ambiente. Parece-me tão evidente que o birmanês use um paso colorido, que só com um esforço deliberado da minha parte consigo fazer a observação de que ele não usa calças como eu. A mim, parece-me igualmente natural andar de riquexó ou de carro e sentar-me no chão ou numa cadeira, e assim me esqueço quando estou alguma coisa estranha ou insólita. Eu viajo porque gosto de andar de um lado para o outro, aprecio a sensação de liberdade que isso me dá, agrada-me estar livre de laços, responsabilidades, deveres, e gosto do desconhecido. Conheço pessoas invulgares que me divertem por um momento e que, por vezes, me sugerem um tema para um texto. Sinto-me muitas vezes cansado de mim mesmo e tenho a impressão de que, viajando, posso enriquecer a minha personalidade e assim mudar um pouco. Nunca regresso de uma viagem exactamente com o mesmo eu que levei comigo.

Somerset Maugham, Um Gentleman na Ásia. Lisboa, Edições Tinta da China, 2013, p. 26-27.

domingo, 17 de novembro de 2013

Viagem a Myconos (3). Ruben A

Vou tomar banho a uma praia defendida do vento e a água é cristalina e pura, quase fria, sem ondas. Estendo-me na praia e oiço Debussy, a mais completa imagem-som que senti na vida - oiço o piano de muitos prelúdios a ritmarem-se em escalas diferentes. Vêm quase silenciosos, falam em frases muito curtas, aparecem e desaparecem, vêem-se no desdobrar de sons minúsculos trazidos por uma onda que se recolhe cada vez que se abre. É uma praia deserta onde um barco lembra a existência de qualquer coisa pareci­ da com a raça do Homem. É um barco que me liga de som à existência, é a única imagem que tem nome. Oiço mais atentamente, oiço horizontal, para sentir o som vindo da melodia que se esvai e renasce naquele portinho tão cheio de tonalidades perceptíveis. Uma grandeza enche-me, completa-se na alvura da ilha - estou horas a ouvir qualquer coisa de extraordinário que fica gravado na minha imaginação como o recordar harmonioso um piano afinado pelo próprio teclado da natureza. É um Debussy monstro que se agiganta no microcosmos, trânsito de uma nota cromática que penetra suave nos poros audíveis da minha sensibilidade.
Volto a pé a Myconos. Volto à baía, ver os amigos que nas mesas me esperam. Ainda não chegaram os turistas, os ilhéus andam todos cá por fora e o palhabote nem entra na baía, as lanchas vão fora da barra apinhadas de gente. Basta o barco uivar para ser uma correria. Não consigo cabine. Nada tem importância, não há dificuldades, tudo se arranja. É tudo fácil e simples. A minha partida da ilha tem de ser clandestina, pela calada da noite, com senha e contra-senha. Escala um barco grande de turistas - entra às seis e sai à meia-noite. Da ilha só vêem o cais, e alguns o branco, mas, como turistas, lêem de cor a natureza. Pela lei dos códigos marítimos não pode receber passageiros em portos intermediários. Mas tudo se arranja. Metem-me num grupo de excursionistas, e um dos gregos amigos escreve logo uma carta para o comissário de bordo e fornece-me um bilhete de visita ao navio. A bagagem lá irá parar - eu que não me preocupe, nada de agitação. Calma, conversa e mais um anis com gelo. Nada de pressas, mais um cigarro. O grego confia, posso pagar quando quiser, a bordo ou à chegada a Atenas, ou mandar o dinheiro de Portugal. Não há pressas, tudo é à base de confiança.
A minha saída de Myconos reveste-se de aspectos rocambolescos, sou metido a bordo em manada de excursionistas com guia à frente - cá vou eu de cabeça baixa, clandestino na igualdade de direitos humanos dada pelos Gregos a todos os homens.
Antes da última aventura fui despedir-me de Joseph à sua mesa, já batida pela lua oscilando entre restos de batatas fritas e um molho prateado de combustível oleoso. Abraçou­ -se, deu-me um beijo, e comunicou a todos os estranhos e aos já conhecidos a minha partida. Mirou-me de alto a baixo e em francês disse-me apenas - au revoir et bonne santé - toujours bonne santé - Fiquei com a lín­gua enjaulada. Mas no súbito lembrei-me a estupenda palavra grega para o saudar: IASÚI.
Ao subir a escada daquele portaló de luxo olhei para a correnteza de casario e mirei emocionado toda a simplicidade que o branco deixara pendurado na noite prateada da baía. Olhei mais. Vi que todos eram amigos e agarrado à manada, sentindo as varas dos picado­res, de saco debaixo do braço, ouvia a voz do intérprete que divagava ao som da orquestra de bordo, mal sonhando que levava mais um no rebanho, parido de geração espontânea ali em Myconos ao pé da ilha sagrada. Misturado como choca em praça de touros flutuante, dei entrada nos salões como agente clandestino dos deuses. Arrepiavam-me os ossos, sentia tonturas ao ouvir palmas de fim de dança. No entanto tudo se passava normal, os gregos amigos, e amigos dos deuses lá puseram a minha bagagem, a carta entregue e logo a cabine pronta para me acolher até ao Pireu. Simples, sem complicações, sem nada, tudo branco. Posso dizer que abandonei a ilha como mais poderia desejar, mas como nunca havia pensado.
O breu imergia-me no azul, caldeado na imagem branca do balouçar via calças e mais calças a serem cortadas para os deuses e a afogarem os últimos sons que Debussy lançava num S.O.S. à minha procura.

Ruben A., "Viagem para Delos e Myconos", do livro Um Adeus aos Deuses. Edição Parque Expo, 1997.