sábado, 16 de novembro de 2013

Viagem a Myconos (2). Ruben A.

Joseph manda vir outra rodada e de garfo em punho todos metem o bedelho no prato. Começam a chegar os turistas, são seis da tarde, Joseph está na ponta da ilha por onde eles entram. Primeiro olha à distância, depois fixa-se nas calças e de olho caído por uma le­ve distracção nem as persegue. «Calças de terceira classe» - digo eu. - «Nem de quarta», responde-me com ar de ligeira constipação. Passam mais turistas e Joseph continua a olhar para as calças com interesse clínico, repara no corte da rabada, «mal feitas», «pouca altura de anca», «estreitas no rabo». Joseph comanda o andamento da ilha, todos o adoram, todos vêm ter com ele. A casa de Joseph é um museu de dedicatórias de todos os costureiros de Paris, de todas as mulheres célebres do universo. E ele é um homem simples, o único na ilha de Myconos que usa colete. Se alguém passa de calças mais bem feitas, Ju­pien levanta-se da cadeira, olha atento, e devagar vai à sua loja. É ele que tem a chave no bolso e a bicha de pessoas espera o curandeiro, o homem que indiferente à celebridade, corta as melhores calças do mundo. Na loja manda logo vir café para todos, dá cigarros, faz preços para voltar, corta logo, risca e começa a trabalhar, depois entrega o resto às costureiras. Terminada a operação, as enfermeiras que se divirtam com os restos dos clientes - ele nada mais faz. Volta à baía. Senta-se. Manda vir nova rodada de anis, café e um prato de tiras de perna de carneiro e batatas fritas. Outra vez muitos garfos e ele comanda novamente. Faz o corte, risca os bocados e oferece o garfo para cada um provar o original.
É uma ilha em que cada homem tem uma história e cada casa é branca e só branca. Português de paleio, em carne e osso, que quisesse provar o sabor de Myconos, só eu ainda tinha por lá pairado! Novos amigos sentam-se à mesa: gregos que viajaram oceanos e passaram por Lisboa. Contam histórias em várias línguas. São famílias sobre famílias, primos todos uns dos outros - o capitão Luigio Guarouni que me tinha levado a Delos era sogro de um personagem de Ulisses - um homenzarrão que estava no cais quando eu cheguei. Estava a receber malas e carregar fruta. De aspecto brutal. Depois encontrei um tipo parecido, sentado numa mesa da baía, olhei, passei e continuei. A seguir entrei numa bou­tique e apareceu-me esse homem já transformado em capitão de barco, proprietário do melhor caíque que leva a Delos. Cada homem naquela terra é tudo - carregador, capitão de barco, amigo, e nesta palavra vai a melhor gratidão aos Gregos - eles são amigos, acolhedores, benvindos. Perdidos em arquipélagos sentem-se reconfortados pelos bens de outras gentes que os vêm visitar..
Na ilha há três táxis e uma camioneta, há várias praias, há vento e moinhos brancos, há capelinhas por toda a parte. Dá a impressão de que em certo momento da vida deste povo de Myconos logo que nascia alguém pagavam de tributo uma capelinha, erguiam a Deus o seu agradecimento.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Viagem a Myconos (1). Ruben A.

As histórias contam-se no cais - a ilha vive para quem vem. Chegar é ser recebido de braços abertos como tendo há pouco partido - a língua que se fala não impor­ta, uma pessoa senta-se à mesa e aparece logo quem oferece uma roda de resina ou de anis mergulhado em gelo, talvez mesmo estejam sentados os que só bebem água gelada, copos cheios a acompanhar o café turco, me­lado, doce de azedar o paladar. A vida é ali no cais que está e a ilha vem à baía ver quem chega. Quando não há visitantes a ilha descansa, alguns trabalham e outros falam. Na Grécia está sempre tudo a falar, percebe-se que gostam de falar e não dizer nada, falam, falam. Toda a gente fala e bebe qualquer coisa, fuma, oferece, dá.
Quando chegam as carradas, ou melhor as barcadas de turistas, só se vêem os turistas, os de Myconos vão a correr abrir as lojas, pôr o estendaI dos teares colado às janelas, às portas e escadas - as célebres escadas de Myconos que são todas exteriores. Vivem então os de Myconos dentro de casa e continuam a oferecer café, água, anis, cigarros a todo aquele que lá entra, mesmo que não compre nada, que não perceba patavina do artigo. Os de Myconos dão-se de amizade, de imediato, sem rodeios, sem protocolo. O único protocolo da ilha é não haver protocolos! Tudo é simples, corrido falado, acolhedor em grande escala. Há aqui em absoluto uma gran­de felicidade de viver, de contar, em troca de nada, de não ligar importância à vida. Tudo é muito simples, tudo se faz, tudo se arranja. Um par de calças e uma camisola encomendados às sete da tarde no célebre Joseph - o Jupien de Proust - está pronto certo, à medida e perfeito, ali às onze e um quarto da manhã do dia seguinte e entregue no hotel para maior conforto da prova final.
Myconos é uma ilha sem horário, está sempre aberta a tudo, fechada só quando os turistas embarcam para outros rumos. Nessa altura fecham-se as casas e na correnteza de todo o cais - que é avenida, rua, praça, monumento, santuário - a ilha continua a falar, a criar estilo, e das ruas estreitíssimas e em labirintos sai a fauna misturada a três sexos - os dois da ilha e um de importação recente, poliglota, hermafrodita e que de juba por tosquiar se ademana aos grupos em boutiques fantasques.
Misturo-me no branco caiado das ruas - as primeiras ruas caiadas e caiadas todas as semanas de lés a lés, ruas e casas vestidas de branco, tudo com degraus brancos numa apoteose em que o colorido dos habitantes sobressai como faúlha em forno de cal. O que me interessa em Myconos é a realidade visível da fé nas suas trezentas e sessenta igrejas e capelas, número magno para quatro mil habitantes. Num largo branco, pequeno, frente ao mar, com o único plátano da ilha, há cinco capelas com uma igreja no cento, tudo atento para branquear a alma. Passeio mais, ruas de uma Alfama imaculada, mais estreitas no cada vez, a um de frente, em bicha, sem cruzamentos. Chega nova barcada de turistas e salpicam momentaneamente a ilha de encarnados, amarelos, azuis, pretos, calças listradas, sacos multicolores. E o branco resiste, é forte, cromático. Continuo estático, indiferente aos que chegam ou partem.
Joseph aparece. Acabou de cortar mais meia dúzia de calças. Aparece e senta-se na ponta da baía, na primeira taberna com mesas e cadeiras frente ao semicírculo do cais. Senta-se e logo uma roda de amigos faz companhia, manda oferecer, - oferece anis com gelo, café turco, oferece o que se quiser tomar. Manda vir um prato com várias tiras de rostbeef com batatas fritas a fazerem de girassol. Um prato, uma faca e cinco garfos. O grande Joseph - Jupien faz o corte da carne e cada um de garfo em punho vai tirando uma lasca. A qualquer hora do dia, tanto faz, Joseph começa numa ponta do cais, às quatro horas já está a meio, e ao fim da tarde acaba no outro extremo, sempre numa mesa grande recheada de amigos e estranhos - melhor, os estranhos também são os amigos em Myconos. Amigos sempre diferentes, de nova colheita, de outros mundos. Ali, sentado como soba da ilha - Joseph, o único católico de Myconos, afirma que é ele quem tem a chave da igreja - ele é tudo - padre, sacristão, confessor, santo missal e a água benta. E é ali, em minoria de um, que a religião católica tem o seu defensor mais acérrimo, o único ser da ilha que pede ao padre de Tinos para três a qua­tro vezes por ano vir dizer missa à sua capela.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Viajava pela primeira vez. Gabriel Garcia Márquez


Eram os únicos passageiros da modesta carruagem de terceira classe. Como o fumo da locomotiva continuasse a entrar pela janela, a menina levantou-se do banco e colocou nele os únicos objectos que traziam: um saco de plástico com algumas coisas para comer e um ramo de flores envolvido em papel de jornal. Sentou-se no banco fronteiro, afastada da janela, em frente da mãe. Ambas guardavam um luto rigoroso e pobre.
A menina tinha doze anos e viajava pela primeira vez. A mulher parecia velha de mais para ser mãe dela, por causa das veias azuis das pálpebras, e do corpo pequeno, franzino e sem formas, metido num vestido talhado como uma sotaina. Viajava com a coluna vertebral firmemente apoiada nas costas do assento, segurando no regaço, com ambas as mãos, uma bolsa de verniz sem brilho. Tinha a escrupulosa serenidade de pessoa acostumada à pobreza.

Gabriel Garcia Márquez, "Uma Sesta de Terça-Feira", in Contos Completos, 1947-1992. 6a edição. Lisboa, Publicações D. Quixote, 2013, p. 17-18.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Do cansaço e do tédio da viagem. Antero de Quental

Que nome te darei, austera imagem,
Que avisto já num angulo da estrada,
Quando me desmaiava a alma prostrada
Do cansaço e do tédio da viagem?

Em teus olhos vê a turba uma voragem,
Cobre o rosto e recua apavorada…
Mas eu confio em ti, sombra velada,
E cuido perceber tua linguagem…

Mais claros vejo, a cada passo, escritos,
Filha da noite, os lemas do Ideal,
Nos teus olhos profundos sempre fitos…

Dormirei no teu seio inalterável,
Na comunhão da paz universal,
Morte libertadora e inviolável.

Antero de Quental. Os sonetos completos de Antero de Quental. Porto, Livraria Portuense, 1886.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

A nossa última viagem foi aos Açores. Angelina Brandão

A nossa última viagem foi aos Açores numa época (1926) em que quase não se falava ainda nesse lindo arquipélago, e Raul Brandão partiu com o carinho que sempre dispensava a qualquer obra que empreendesse, e alguns milhares de escudos para estas nossas viagens de recreio.
As ilhas são maravilhosas na sua vegetação, encantadoras nos seus costumes, e as famílias açoreanas, quase todas fidalgas, são o mais obsequiadoras possível e de uma gentileza tão cativante que jamais esquece.
Que lindos e deliciosos dias passámos na Gorreana, solar de D. Angelina Gago e de seu marido Jaime Hintze - então governador civil em Ponta Delgada - modelos se educação e gentileza, nobres nos seus pergaminhos e nas suas virtudes.
À ilustre poetisa D. Alice Moderno, ao Dr. S. Bento e a muitas outras famílias, Morrison e Bulcão, no Faial, etc. que nos cumularam de atenções, devemos horas de conforto e amizade. Ms também junto delas, em todas as Ilhas, ficou um pouco do nosso coração.
Foi talvez esta a última viagem, que tanto nos encantou, a causa do avanço mais rápido da doença de Raul Brandão porque a sua saúde já era precária e o trabalho foi exaustivo, a aproximação constante do mar devia ter influído na depressão tão grande do seu coração.

Maria Angelina Brandão, Um Coração e uma Vontade. Memórias. Coimbra, Oficinas, Atlântida, 1959, p. 234-235.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Visitantes. António Osório

Visitantes

A pupila corrupta
fixo nos astros
- forasteiros
como nós
dentro do cosmos
sonâmbulo.

António Osório, Planetário e Zoo dos Homens. Lisboa, Presença, 1990, p. 38

domingo, 10 de novembro de 2013

Essa nossa espécie de inocência. Eduardo Lourenço

Tal como a própria Grécia considerava aqueles que não falavam grego, os outros foram vistos primeiro como bárbaros, selvagens, como se dizia. Ora, quando lemos a Carta de Pero Vaz de Caminha ficamos muito admirados porque os portugueses não se espantaram com coisa nenhuma. Contrariamente àquilo que aconteceu com os conquistadores espanhóis, os portugueses nunca duvidaram que aqueles sujeitos  - sobretudo as sujeitas - que eles encontraram fosse seres humanos: não só seres humanos, como seres humanos maravilhosos.
Começou aí uma espécie de leitura que vai criar muitas desilusões a uns e a outros, mas na verdade podemos considerar uma benção o facto de essa nossa espécie de inocência - nossa, dos portugueses, menos hipercultivados e sofisticados em relação ao que já era a grande cultura europeia -, o facto de essa nossa ignorância divina não ter excluído da humanidade aqueles primeiros sujeitos com que nos encontrámos.
E não só os encontrámos humanos - e as expressões disso duraram anos através da outra Europa -, não só os considerámos divinos, mas achámos, como diz a carta de Pero Vaz de Caminha, que essas jovens brasileiras, que ainda não tinham nome, eram mais belas que as mulheres (peço desculpa) de Entre Douro e Minho.

Eduardo Lourenço, Conferência proferida em Guimarães, na Sociedade Martins Sarmento, a 23 de Janeiro de 2010, publicada com o título Pequena Meditação Europeia. Lisboa, Guimarães, 2011. p 29-30.

Hospitalidade. François Laplantine

As reflexões a seguir apresentadas não dizem respeito às múltiplas figuras de viajante, mas aos modos - eles também extremamente diversificados - pelos quais nós reagimos ao que chega de fora (o imigrado, o estrangeiro, o viajante...) e ao qual oferecemos ou não hospitalidade.
É este último termo que vamos interrogar. Vem do latim hospes e designa simultaneamente o hóspede e o estrangeiro. Pertence à mesma família das palavras hotel, hospedeiro, hoteleiro, hospício, hospital. Quanto à etimologia grega, é muito mais perturbadora. Xénos significa ao mesmo tempo o hóspede/hospedeiro e o estrangeiro, ou seja aquele que é recebido e o que recebe. Mas há mais. Os Gregos designavam pelo verbo xenitzo não só o facto de ser estrangeiro mas também o facto de parecer estranho. Criaram o termo xénosuné para nomear a hospitalidade e a palavra xénoktonia que significa literalmente o acto de matar os hóspedes ou os estrangeiros.
Estamos aqui na presença de uma significação eminentemente contraditória pela qual a hospitalidade pode converter-se em hostilidade e a boa vontade e confiança em má vontade e desconfiança. Jacques Derrida tratou a sobreposição provocada pelo duplo sentido criando um termo estranho: a hostipialidade [Anne Dufourmantelle, Jacques Derrida, De l'Hospitalité, Paris, Calman-Lévy, 1977].
Na hospitalidade, não existe necessariamente alguém que viaja, ou pelo menos chega de qualquer parte, e alguém que acolhe, alguém que convida e alguém que é convidado. Quem convida pode ser um hospedeiro, o dono da casa, mas também o Estado, a nação. O convidado pode ser um visitante, um turista, um nómada, um vagabundo, um imigrado, um exilado, um desenraizado, um apátrida. Pode ser um vivo ou um morto (como na mediunidade espírita que estudei tanto em Lyon como no Brasil), um ser humano ou um ser divino (e neste último caso, falamos na maioria das vezes de possessões).
Seja qual for a figura a reter, xénos, o estrangeiro, não é nunca o Outro absoluto, o heterogéneo, o excluído, mas também já não é o próximo, o familiar, o incluído. Se a distância é demasiado grande entre quem recebe e quem é recebido, não há nenhuma hospitalidade possível, mas ela também já não existe numa relação de excessiva proximidade. "O homem só ao homem oferece hospitalidade", escreve Derrida, e não a um monstro, sequer a uma planta ou a um animal. Dir-se-ia que somos como os animais que só oferecem hospitalidade à sua própria espécie. Ninguém viu um gato acolher um pássaro.
Recorremos ao termo hospitalidade nas seguintes expressões: "pedir hospitalidade", "oferecer hospitalidade", "conceder hospitalidade", "receber hospitalidade". Falamos ainda de "dever de hospitalidade", mas sobretudo de "direito de hospitalidade" (ou de "direito de asilo"). Onde é que convém - se é que convém - parar a expansão desta significação? Podemos deslizar imperceptivelmente para o convite e a recepção (falando então de convívio), o respeito, a tolerância, o socorro, a amizade ou até mesmo o amor? Mas neste último caso, sentimos que já não é a hospitalidade que está em causa [No filme Western, de Manuel Poirier, Nico e Paco são recolhidos, mais do que acolhidos, por diversas mulheres. A hospitalidade supõe de facto uma relação assimétrica criada pelo habitat. Marinette, Sabine e Nathalie abrem as suas portas a Nino e Paco que não têm tecto, nem trabalho, nem dinheiro, nem carro, nem mulher. Mas quando procuram preencher a sua solidão, manifestando disponibilidade para o encontro, já não é propriamente hospitalidade que estão a oferecer].
De facto, esta última situação procede à suspensão das oposições radicais do eu e o outro, do aqui e outro lugar. Ofereço hospitalidade a partir do momento em que percebo que existe uma comum e reciproca condição de estrangeiro entre nós, uma condição de estrangeiro partilhada e através da qual me recuso a designar outros como sendo e sobretudo como devendo continuar a ser "estrangeiros" [peço licença para remeter este ponto para o meu livro Je, Nous et Les Autres, edições Le Pomier, 1999].
A questão da hospitalidade coloca então uma tripla relação: com a língua, com a lei, com o lugar.

François Laplantine, "Voyage et Hospitalité". In Villes, Voyages, Voyageurs. Actes de la Rencontre de Villeurbanne. Paris, L'Harmattan, 2005, p. 55-59.

sábado, 9 de novembro de 2013

Em viagem ataca-me. Vitorino Nemésio

Faltava o élan de antigos encontros exemplares: Unamuno, V. Larbaud, Supervielle: – uns pela funda influência (Unamuno), outros pelas veleidades literárias, do tempo das ambições de morgado de Fafe em Paris. Como a nossa alma muda! E como me deixo arrastar! Por baixo das personagens corria-me o filme da infância. Quem sou é muito outro. Cada qual seja fiel ao que em verdade o informou. A alta civilização suíça a tantos níveis provoca-me a imagem da minha humildade traída. [...] Será mesmo para isto que cedemos à tentação do «diário»? Onde está a coragem e a entranha da verdade vivida? [...] Se tivesse juízo fazia o romance do Tempo Achado... O cinzeiro ali está para símbolo. E o quarto de hotel do viajante desconsolado...
[Diário, 27 Nov. 1969]

Eu tenho o virus da escrita, mas já pouco a virose. Em viagem, ataca-me.
[Diário, 29 Nov. 1969]


[Diário : fragmento : Suíça, 1969 / Vitorino Nemésio]. – 1969 Nov. 27. – [2] p. em [2] f. ; 30 cm.
Autógrafo com emendas. – Fragmento respeitante ao conjunto por nós intitulado [Diário : 1935-1977] [89]. Descrição da ida a Neuchâtel. – Papel timbrado do hotel TOURING AU LAC [...].
BN Esp. E11/cx. 62

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Preparo a minha viagem real a Portugal. Maria Gabriela Llansol

1 de Julho de 1979
[...]
Preparo a minha viagem real a Portugal, mentalmente, num clima de distanciamento progressivo das tartines. Aceito a crise económica que se prepara, a crise cultural permanente numa espécie de onda que me persegue e me põe, por um dia que começou agora, ao abrigo do circunstancial. Olho para mim mesma, sentada, sobrecarregada com estas preocupações que pouco a pouco se distanciam porque, como sempre, quero escrever.

Maria Gabriela Llansol, Numerosas Linhas. Livro de Horas III. Lisboa, Assírio & Alvim, 2013, p. 91.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

É sempre necessário que regresse e se reintegre na comunidade de que tinha partido. Hélder Macedo

Dizer que Os Lusíadas representam uma viagem é óbvio ao ponto de irrelevante. Mas talvez já não seja tão óbvio, nem terá sido suficientemente acentuado, qual a natureza simbólica da viagem que a obra representa. Um poema épico tende a significar, como discurso de segundas intenções, um percurso espiritual, uma viagem iniciática personalizada num herói. E há um esquema básico subjacente a toda a viagem iniciática, o qual por sua vez corresponde a uma magnificação da fórmula cristalizada nos ritos de passagem. Este esquema define três momentos fundamentais: a chamada, a viagem propriamente dita, e o regresso. Depois de ter reconhecido a chamada à aventura (e recusá-la seria iniciar um processo inverso de autodestruição), o herói separa-se do mundo familiar da comunidade a que pertence e parte para o mundo desconhecido. Encontra aí forças fabulosas, umas que o ajudam e outras que se lhe opõem, e que ele pode ou não reconhecer pelo que são, mas cujos efeitos inevitavelmente sente. Para a sua aventura se tornar uma verdadeira iniciação, terá de conseguir expandir a sua identidade pessoal, ao ultrapassar sucessivos obstáculos, até que, no encontro com a Magna Mater - momento indispensável e objecto implícito da sua demanda -, tenha assumido o poder paterno de que depende a renovada continuidade da própria comunidade nele personalizada. Terá então merecido a apoteose que consagra o seu triunfo e a última benesse que simboliza em si a imortalidade colectiva que conquistou. Por esse razão é sempre necessário que regresse e se reintegre na comunidade de que tinha partido, de modo a assegurar, dentro dela, a circulação da regeneradora energia espiritual que a sua aventura libertou. Com efeito, do ponto de vista da comunidade, o regresso do herói constitui o propósito e é a única justificação da sua longa ausência. A viagem de todos os grandes heróis da aventura religiosa - Buda, Cristo, Maomé - corresponde, no essencial, a este esquema, sendo o propósito regenerador da sua demanda evidente nas religiões que trouxeram para as suas respectivas comunidades e na promessa literal de imortalidade que essas religiões contêm.

Hélder Macedo, Camões e a Viagem Iniciática.  Lisboa, Morais, 1980, p. 33-34.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

A Viagem (3). Sophia de Mello Breyner Andersen

A mulher porém entornou a cabeça para trás e respirou profundamente o cheiro das árvores e da terra. Estendeu a mão no ar e na ponta dos seus dedos poisou uma borboleta.
- Ah! - disse ela -, mesmo perdida, vejo como tudo é perfumado e maravilhoso. Mesmo sem saber se jamais chegarei, apetece-me rir e cantar em honra da beleza das coisas. Mesmo neste caminho que eu não sei onde leva, as árvores são verdes e frescas como se as alimentasse uma certeza profunda. Mesmo aqui a luz poisa leve nos nossos rostos como se nos reconhecesse. Estou cheia de medo e estou alegre.
- O ar e a luz - disse o homem - são bons e belos. Se não estivéssemos perdidos, esta caminhada seria uma viagem maravilhosa. Mas o ar e a luz não nos sabem ensinar a estrada.
Ouviram um pequeno murmúrio cristalino e, dando mais alguns passos, encontraram um rio.
Era um pequeno rio estreito e claro em cujas margens cresciam flores selvagens cor-de-rosa e brancas.
O homem e a mulher deitaram-se de bruços no chão, aproximaram a cara da água e começaram a beber.
- Que água tão limpa! - exclamou a mulher. ­- Vamos tomar um banho.
Despiram-se e entraram no rio.
Ora rindo, ora em silêncio, nadaram muito tempo. Mergulhavam de olhos abertos, tocando as pequenas pedras polidas do fundo, atravessando um mundo suspenso, transparente e verde. Trutas azuis deslizavam rente aos seus gestos.
Depois estenderam-se à sombra doirada da floresta sobre as relvas das margens. O perfil da mulher recortava­-se entre as flores.
- Aqui é quase como na terra para onde vamos ­ disse ela.
É - respondeu o homem -, mas aqui é um lugar de passagem.
E ambos se levantaram e se vestiram.
- Vamos? - perguntou ele.
- Espera um momento - respondeu a mulher. ­
Quero primeiro colher flores para levar.
Ajoelhou-se no chão e começou a fazer um ramo. E o homem reparou que ela colhia as flores arrancando-as com a raiz e perguntou:
- Por que é que colhes as flores com a raiz?
- Porque as quero plantar na terra para onde vamos. Não sei se lá há flores iguais a estas - respondeu a mulher.
E seguiram.
Agora o dia começava a cair.
- Tenho fome - disse a mulher.
- Temos as amoras - disse o homem.
Pousou o lenço no chão e desatou os nós.
Mas o lenço estava vazio.
Ficaram uns momentos calados. Depois o homem disse:
- As pontas do lenço estavam com certeza mal atadas e as amoras foram-se perdendo uma por uma à medida que íamos andando. Uma por uma. Nem as senti cair.
- Tenho fome - disse a mulher.
- Vamos para a frente - disse o homem.
Viram ao longe entre as árvores um clarão vermelho.
- É o pôr do Sol! - exclamou a mulher. - Já é o pôr do Sol!
- Vamos depressa - disse o homem. - Vem aí noite e ainda não encontrámos o caminho.
E foram quase correndo.
Entre as sombras do crepúsculo ouviram de repente vozes.
- Gente! - exclamou o homem. - Estamos salvos!
- Salvos? - perguntou a mulher.
E de novo se ouviram vozes:
- Estão para aquele lado - disse a mulher, apontando para a esquerda.
- Não, estão para além - disse o homem, apontando para a direita.                                              
O homem agarrou a mão da mulher e correram os dois para a direita.
Mas à medida que iam correndo, as vozes iam-se tornando-se mais distantes.
- Vão mais depressa do que nós! - queixou-se a mulher.
- Mas - respondeu o homem - se conseguirmos ao menos seguir a direcção que levam estaremos salvos.
Assim foram, escutando e correndo, enquanto as sombras do crepúsculo cresciam. Até que as vozes deixaram de se ouvir e a noite caiu espessa e cerrada.
A Lua ainda não tinha nascido. Por todos os lados os rodeavam sombras, ruídos, murmúrios que eles confundiam com vultos, pessoas, vozes. Mas eram apenas trevas, troncos de árvores, galhos secos que estalavam, sussurrar de folhagens.
- Estamos perdidos? - perguntou a mulher.
- Não sabemos - disse o homem.
Seguiram devagar, de mão dada, em silêncio, encostados um ao outro.
Até que de repente viram que tinham chegado ao fim da floresta.
Cheios de esperança, avançaram para o espaço descoberto, mas, saindo do arvoredo, encontraram à sua frente um abismo.
Debruçados espreitaram. Porém, à luz das estrelas nada viam diante de si senão um poço de escuridão, enquanto um frio de mármore lhes tocava a cara.
- É um precipício - disse o homem. - A terra está separada em nossa frente. Não podemos dar nem sequer mais um passo.
- Olha! - respondeu a mulher.
E apontou um estreito carreiro que seguia rente ao abismo. Tinha à esquerda uma alta arriba de pedra e à direita o vazio.                                                .
- Vamos - disse o homem.
- Tenho medo - disse a mulher.
- Estamos juntos - respondeu o homem -, não tenhas medo.
E seguiram pelo carreiro.
O homem ia à frente e a mulher atrás segurava-se com a mão esquerda aos penedos e com a mão direita ao ombro do homem.
Iam em silêncio sob o brilho escuro das estrelas, medindo cada gesto e cada passo.
Mas de repente o corpo do homem oscilou, rolaram pequenas pedras. Ele gritou à mulher:
- Segura-me!
Mas já o ombro dele escorregava das mãos dela. E a mulher gritou:
- Agarra-te à terra!
Mas nenhuma voz lhe respondeu, pois no grande silêncio nítido e sonoro só se ouvia o rolar das pedras.
Ela estava sozinha, vestida de terror, agarrada ao chão em frente do vazio.
- Responde! - gritou debruçada sobre o abismo. Longe, o eco da sua voz repetiu:
- Responde.
Estava estendida na terra, com as mãos enterradas na terra, e começou a gritar como quem está perdido no meio dum sonho. Depois parou de gritar e murmurou:
- Tenho de o ir procurar.
Seguiu de rastos pelo carreiro, tacteando o chão com as mãos à busca duma passagem por onde pudesse descer para procurar o homem. Mas não havia passagem.
Então tentou descer pela própria vertente do abismo. Agarrando-se a ervas e raízes deixou-se escorregar ao longo do precipício. Mas os seus pés não encontravam nenhum apoio onde pudessem firmar-se. Pois a vertente descia a pique, era uma parede lisa de pedra nua.
- Tenho de voltar para o carreiro - pensou a mulher - e tenho de procurar mais adiante uma passagem.
E, agarrada a ervas e raízes, içou-se para o carreiro.
Mas o carreiro tinha desaparecido. Agora havia apenas um estreito rebordo onde ela não cabia, onde nem os seus pés cabiam. Um rebordo sem saída. Aí ficou, de lado, com os pés um em frente do outro comovas figuras dos desenhos do Egipto, com o lado direito do seu corpo colado à pedra da arriba e o lado esquerdo já banhado pela respiração fria e rouca do abismo. Sentia que as erva se as raízes a que se segurava cediam lentamente com o peso do seu corpo. Compreendia que agora era ela que ia cair no abismo. Viu que, quando as raízes se rompessem, não se poderia agarrar a nada, nem mesmo a si própria. Pois era ela própria o que ela agora ia perder.
Compreendeu que lhe restavam somente alguns momentos.
Então virou a cara para o outro lado do abismo. Tentou ver através da escuridão. Mas só se via escuridão. Ela, porém, pensou:
- Do outro lado do abismo está com certeza alguém.
E começou a chamar.

Sophia de Mello Breyner Andersen, "A Viagem". In Contos Exemplares. 9ª edição. Lisboa, Portugália Editora, 1970, p. 135-165.