Vagabundo
Caminho jamais achado!
Desde que dia aziago
me oprime este desejo?
Adolfo Casais Monteiro, "Confusão" (1929). Poesias Completas. Lisboa, Portugália Editora, 1969, p. 7.
quinta-feira, 31 de outubro de 2013
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
Barcos pobres dum sonho pequeno. Adolfo Casais Monteiro
Viagem
Da sombra dum céu nocturno
caía em chuva cinzenta
um hálito de outro mundo.
Vagos vislumbres de luz
quebravam raros a treva
e um medo indefinido
inclinava os arvoredos
- um vento frio corria.
Longos navios partiam
direitos ao mar do sonho
onde a tristeza se afoga
entre rochedos sem nome.
Tomam o rumo incerto
desse mar da pobre esperança
os navios desiguais
do sonho de cada um...
Para um ponto indefinido
nos horizontes do vago
partem naus cheias de luz,
de fé, de muita esperança;
partem os grandes navios
daqueles que muito sonham
ao lado daqueles barcos
pobres dum sonho pequeno
que parecem de papel
das almas que nada pedem.
Nas noites de cada dia
as velas cheias de vento
embaladas nas cantiga
de muita e doida esperança
vão partindo as caravelas
do sonho que vive um dia...
Adolfo Casais Monteiro, "Confusão" (1929). Poesias Completas. Lisboa, Portugália Editora, 1969, p. 15-16.
terça-feira, 29 de outubro de 2013
"Não lhe apetecia sair do seu canto senão para uma grande cidade". Vitorino Nemésio
Carta a José Régio
Muitas vezes, nesta Montpellier de Rabelais, de Valéry, de Stendhal e de Gide, me tenho lembrado de um dito de V.: que lhe não apetecia sair do seu canto senão pª uma grande cidade. Eu temia também um meio ronceiro como os nossos (Coimbra, «sua mulher», posta de parte), e não digo que isto seja uma Atenas, nem creio que Atenas nos convenha. Mas há nesta borda de França, que foi aragonesa e ainda é mediterrânica, não sei que mistura de campo e de metrópole que nos toca as cordas por mais tempo guardadas no estôjo...; estou em dizer que cordas novinhas em fôlha. A Alexandria dos compêndios de história universal talvez fôsse um pouco como isto. [...] Na pensão do «Bernardo» acotovelava-me com arménios, roménos, siameses, egipcianos [...]; na Cité Universitaire tinha chins, e até neste admirável Scots College já tive uma lição de chinês e tenho romenos da Bessarábia, bilingües de russo; ditos da Transilvânia, húngaros de garganta; um russo branco que estuda sânscrito e sacha todo o dia; uma girafa do Canadá; suíços alemãis e franceses; um hindú, um escossês, um catalão e um espanhol de Alicante.
Muitas vezes, nesta Montpellier de Rabelais, de Valéry, de Stendhal e de Gide, me tenho lembrado de um dito de V.: que lhe não apetecia sair do seu canto senão pª uma grande cidade. Eu temia também um meio ronceiro como os nossos (Coimbra, «sua mulher», posta de parte), e não digo que isto seja uma Atenas, nem creio que Atenas nos convenha. Mas há nesta borda de França, que foi aragonesa e ainda é mediterrânica, não sei que mistura de campo e de metrópole que nos toca as cordas por mais tempo guardadas no estôjo...; estou em dizer que cordas novinhas em fôlha. A Alexandria dos compêndios de história universal talvez fôsse um pouco como isto. [...] Na pensão do «Bernardo» acotovelava-me com arménios, roménos, siameses, egipcianos [...]; na Cité Universitaire tinha chins, e até neste admirável Scots College já tive uma lição de chinês e tenho romenos da Bessarábia, bilingües de russo; ditos da Transilvânia, húngaros de garganta; um russo branco que estuda sânscrito e sacha todo o dia; uma girafa do Canadá; suíços alemãis e franceses; um hindú, um escossês, um catalão e um espanhol de Alicante.
[Carta], 1934 Maio 21, Montpellier - Collège des Écossais, [a] José Régio, [s.l.] / Vitorino Nemésio. – [4] p. em [2] f. ; 30 cm
Autógrafo assinado (fotocópia), original em Vila do Conde no Centro de Estudos Regianos.
Esp. JR (C. M.Vila do Conde)
segunda-feira, 28 de outubro de 2013
Tão preguiçoso ando que nem leio os jornais. Eça de Queirós.
Hotel Continental
Biarritz, 20 de Fevereiro, 1900
Minha querida Emília
Continua o tempestuosíssimo tempo. Hoje de manhã, antes do almoço, ainda houve um repouso, e eu pude dar um longo passeio pela beira deste formoso mar. Mas logo depois do meio-dia recomeçou a desesperada borrasca. Felizmente a temperatura está doce, quase de Primavera. No meu quarto, sem lume, há sempre 18 a 19 graus. Eu, graças a Deus, ontem e hoje tenho estado melhor, sem acréscimos. Mas realmente pouco benefício posso tirar destes dias passados num fumoir a ler dormentemente medíocres romances ingleses, e a ir de vez em quando à janela, para verificar através dos vidros embaciados que a tormenta é cada vez mais áspera.
Encontrei aqui no Hotel, o Nabuco, que veio para o Sul, para a convalescença da pequena. É excelente companhia - e com ele converso e passo estas tardes encerradas. Eu estou aqui pensando em ir uns dias para Cannes, ou outro sítio da Riviera. Mas a jornada é longa, fastidiosa, além de cara. Depois talvez esta tormenta que anda agora tão teimosamente no Oceano, se prepare também a ir para o Mediterrâneo.
Hoje não tive carta. Estou impaciente por saber se a querida Maria está melhor. Não a deixes ir à pândega do convento, sem a veres inteiramente boa. E o Zézé? Está restabelecido? Já circula? Eu tenho muitas saudades se casa - e este tempo triste e sombrio mais acentua a sensação de solidão. Seria um tempo bom para trabalhar - mas o mar, o vento, a seca, e como sempre a mudança de meio, têm-me tornado estúpido. A isso acresce a preguiça. De modo que têm sido dias muito moles e vazios e bêtes.
Tão preguiçoso ando que nem leio os jornais - e o Nabuco é quem me dá o resumo da campanha do Transvaal, d'après os seus jornais ingleses.
Escreve, - tu que tens notícias que me interessam, as de casa: porque só te sei dizer do tempo.
Mil beijos à Maria, Zézé, Tonton, Bébert. Porque não me escrevem? Sem rascunho - ou que mandem o próprio rascunho. Abraços e beijos, ambos de toda a ternura do teu
José
Eça de Queiroz: Correspondência. Organização e notas de A. Campos Matos. Vol II. Lisboa, Caminho, 2008, p. 504-505.
Biarritz, 20 de Fevereiro, 1900
Minha querida Emília
Continua o tempestuosíssimo tempo. Hoje de manhã, antes do almoço, ainda houve um repouso, e eu pude dar um longo passeio pela beira deste formoso mar. Mas logo depois do meio-dia recomeçou a desesperada borrasca. Felizmente a temperatura está doce, quase de Primavera. No meu quarto, sem lume, há sempre 18 a 19 graus. Eu, graças a Deus, ontem e hoje tenho estado melhor, sem acréscimos. Mas realmente pouco benefício posso tirar destes dias passados num fumoir a ler dormentemente medíocres romances ingleses, e a ir de vez em quando à janela, para verificar através dos vidros embaciados que a tormenta é cada vez mais áspera.
Encontrei aqui no Hotel, o Nabuco, que veio para o Sul, para a convalescença da pequena. É excelente companhia - e com ele converso e passo estas tardes encerradas. Eu estou aqui pensando em ir uns dias para Cannes, ou outro sítio da Riviera. Mas a jornada é longa, fastidiosa, além de cara. Depois talvez esta tormenta que anda agora tão teimosamente no Oceano, se prepare também a ir para o Mediterrâneo.
Hoje não tive carta. Estou impaciente por saber se a querida Maria está melhor. Não a deixes ir à pândega do convento, sem a veres inteiramente boa. E o Zézé? Está restabelecido? Já circula? Eu tenho muitas saudades se casa - e este tempo triste e sombrio mais acentua a sensação de solidão. Seria um tempo bom para trabalhar - mas o mar, o vento, a seca, e como sempre a mudança de meio, têm-me tornado estúpido. A isso acresce a preguiça. De modo que têm sido dias muito moles e vazios e bêtes.
Tão preguiçoso ando que nem leio os jornais - e o Nabuco é quem me dá o resumo da campanha do Transvaal, d'après os seus jornais ingleses.
Escreve, - tu que tens notícias que me interessam, as de casa: porque só te sei dizer do tempo.
Mil beijos à Maria, Zézé, Tonton, Bébert. Porque não me escrevem? Sem rascunho - ou que mandem o próprio rascunho. Abraços e beijos, ambos de toda a ternura do teu
José
Eça de Queiroz: Correspondência. Organização e notas de A. Campos Matos. Vol II. Lisboa, Caminho, 2008, p. 504-505.
domingo, 27 de outubro de 2013
sábado, 26 de outubro de 2013
sexta-feira, 25 de outubro de 2013
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
Pela Via Láctea
Lá no alto tu e eu iremos;
pela Via Láctea tu e eu iremos;
pela estrada florida tu e eu iremos;
colhendo flores sem pararmos tu e eu iremos.
Poema dos índios Wintos
Versão de Herberto Hélder
Rosa do Mundo. 2001 Poemas Para o Futuro. Direcção de Manuel Hermínio Monteiro.
Lisboa, Assírio & Alvim, 2001, p. 154.
pela Via Láctea tu e eu iremos;
pela estrada florida tu e eu iremos;
colhendo flores sem pararmos tu e eu iremos.
Poema dos índios Wintos
Versão de Herberto Hélder
Rosa do Mundo. 2001 Poemas Para o Futuro. Direcção de Manuel Hermínio Monteiro.
Lisboa, Assírio & Alvim, 2001, p. 154.
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
terça-feira, 22 de outubro de 2013
Caminhei ao longo dos gelos marinhos
Quero visitar uma mulher estrangeira,
quero desvendar os enigmas do homem.
Desato as correias das minhas botas,
procuro no homem
e procuro na mulher.
No rosto das mulheres desfaço as rugas.
Caminhei ao longo dos gelos marinhos,
e as focas sopravam de dentro dos buracos.
Escutei maravilhado o canto do mar
e o gemido claro dos jovens gelos.
E um espirito antigo traz agora o poder
à casa das danças.
Poema dos esquimós. Versão de Herberto Hélder
Rosa do Mundo. 2001 Poemas Para o Futuro. Direcção de Manuel Hermínio Monteiro.
Lisboa, Assírio & Alvim, 2001, p. 114
quero desvendar os enigmas do homem.
Desato as correias das minhas botas,
procuro no homem
e procuro na mulher.
No rosto das mulheres desfaço as rugas.
Caminhei ao longo dos gelos marinhos,
e as focas sopravam de dentro dos buracos.
Escutei maravilhado o canto do mar
e o gemido claro dos jovens gelos.
E um espirito antigo traz agora o poder
à casa das danças.
Poema dos esquimós. Versão de Herberto Hélder
Rosa do Mundo. 2001 Poemas Para o Futuro. Direcção de Manuel Hermínio Monteiro.
Lisboa, Assírio & Alvim, 2001, p. 114
segunda-feira, 21 de outubro de 2013
A viagem de Carlos Eduardo. Eça de Queirós
E então Carlos Eduardo partira para a sua longa viagem pela Europa.
Um ano passou. Chegara esse Outono de 1875: e o avô, instalado enfim no
Ramalhete, esperava por ele ansiosamente. A última carta de Carlos viera de
Inglaterra, onde andava, dizia ele, a estudar a admirável organização dos
hospitais de crianças. Assim era: mas passeava também por Brighton, apostava
nas corridas de Goodwood, fazia um idílio errante pelos lagos da Escócia, com
uma senhora holandesa, separada de seu marido, venerável magistrado da Haia,
uma Madame Rughel, soberba criatura de cabelos de oiro fulvo, grande e branca
como uma ninfa de Rubens.
Depois começaram a chegar, dirigidas ao Ramalhete, caixas sucessivas
de livros, outras de instrumentos e aparelhos, toda uma biblioteca e todo um
laboratório — que trazia o Vilaça, manhãs inteiras, aturdido pelos armazéns da
Alfândega.
— O meu rapaz vem com grandes ideias de trabalho — dizia Afonso
aos amigos.
Havia catorze meses que ele o não via, o «seu rapaz», a não
ser numa fotografia mandada de Milão, em que todos o acharam magro e triste. E
o coração batia-lhe forte, na linda manhã de Outono, quando do terraço do
Ramalhete, de binóculo na mão, viu assomar vagarosamente, por trás do alto
prédio fronteiro, um grande paquete da Royal
Mail que lhe trazia o seu neto.
À noite os amigos da casa, o velho Sequeira, D. Diogo
Coutinho, o Vilaça — não se fartavam de admirar «o bem que a viagem fizera a
Carlos». Que diferença da fotografia! Que forte, que saudável!
Era decerto um formoso e magnífico moço, alto, bem feito, de
ombros largos, com uma testa de mármore sob os anéis dos cabelos pretos, e os
olhos dos Maias, aqueles irresistíveis olhos do pai, de um negro líquido,
ternos como os dele e mais graves. Trazia a barba toda, muito fina,
castanho-escura, rente na face, aguçada no queixo — o que lhe dava, com o
bonito bigode arqueado aos cantos
da boca, uma fisionomia de belo cavaleiro da Renascença. E o
avô, cujo olhar risonho e húmido trasbordava de emoção, todo se orgulhava de o
ver, de o ouvir, numa larga veia, falando da viagem, dos belos dias de Roma, do
seu mau humor na Prússia, da originalidade de Moscovo, das paisagens da
Holanda...
— E agora? — perguntou-lhe o Sequeira, depois de um momento
de silêncio em que Carlos estivera bebendo o seu conhaque e soda. — Agora que tencionas tu fazer?
— Agora, general? — respondeu Carlos, sorrindo e pousando o copo.
— Descansar primeiro e depois passar a ser uma glória nacional!
Eça de Queirós, Os Maias. Episódios da Vida Romântica. Porto
Editora. Colecção Clássicos da Literatura Portuguesa, p. 79-80
domingo, 20 de outubro de 2013
No regresso de Itália. Turner
Turner Joseph Mallord William, Messieurs les Voyageurs on their return from Italy (par la diligence) in a snow drift upon Mount Tarrar. 22 janvier 1829, 1829, aquarelle gouachée, 0,545 x 0, 747 m, British Museum, Londres, Royaume-Uni (C) Diffusion en Europe sauf Royaume-Uni et Irlande – The British Museum, Londres, Dist. RMN-Grand Palais / The Trustees of the British Museum.
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