quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Pela Via Láctea

Lá no alto tu e eu iremos;
pela Via Láctea tu e eu iremos;
pela estrada florida tu e eu iremos;
colhendo flores sem pararmos tu e eu iremos.

Poema dos índios Wintos
Versão de Herberto Hélder

Rosa do Mundo. 2001 Poemas Para o Futuro. Direcção de Manuel Hermínio Monteiro.
Lisboa, Assírio & Alvim, 2001, p. 154.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Caminhei ao longo dos gelos marinhos

Quero visitar uma mulher estrangeira,
quero desvendar os enigmas do homem.
Desato as correias das minhas botas,
procuro no homem
e procuro na mulher.
No rosto das mulheres desfaço as rugas.

Caminhei ao longo dos gelos marinhos,
e as focas sopravam de dentro dos buracos.

Escutei maravilhado o canto do mar
e o gemido claro dos jovens gelos.

E um espirito antigo traz agora o poder
à casa das danças.

Poema dos esquimós. Versão de Herberto Hélder
Rosa do Mundo. 2001 Poemas Para o Futuro. Direcção de Manuel Hermínio Monteiro.
Lisboa, Assírio & Alvim, 2001, p. 114

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

A viagem de Carlos Eduardo. Eça de Queirós


E então Carlos Eduardo partira para a sua longa viagem pela Europa. Um ano passou. Chegara esse Outono de 1875: e o avô, instalado enfim no Ramalhete, esperava por ele ansiosamente. A última carta de Carlos viera de Inglaterra, onde andava, dizia ele, a estudar a admirável organização dos hospitais de crianças. Assim era: mas passeava também por Brighton, apostava nas corridas de Goodwood, fazia um idílio errante pelos lagos da Escócia, com uma senhora holandesa, separada de seu marido, venerável magistrado da Haia, uma Madame Rughel, soberba criatura de cabelos de oiro fulvo, grande e branca como uma ninfa de Rubens.
Depois começaram a chegar, dirigidas ao Ramalhete, caixas sucessivas de livros, outras de instrumentos e aparelhos, toda uma biblioteca e todo um laboratório — que trazia o Vilaça, manhãs inteiras, aturdido pelos armazéns da Alfândega.
— O meu rapaz vem com grandes ideias de trabalho — dizia Afonso aos amigos.
Havia catorze meses que ele o não via, o «seu rapaz», a não ser numa fotografia mandada de Milão, em que todos o acharam magro e triste. E o coração batia-lhe forte, na linda manhã de Outono, quando do terraço do Ramalhete, de binóculo na mão, viu assomar vagarosamente, por trás do alto prédio fronteiro, um grande paquete da Royal Mail que lhe trazia o seu neto.
À noite os amigos da casa, o velho Sequeira, D. Diogo Coutinho, o Vilaça — não se fartavam de admirar «o bem que a viagem fizera a Carlos». Que diferença da fotografia! Que forte, que saudável!
Era decerto um formoso e magnífico moço, alto, bem feito, de ombros largos, com uma testa de mármore sob os anéis dos cabelos pretos, e os olhos dos Maias, aqueles irresistíveis olhos do pai, de um negro líquido, ternos como os dele e mais graves. Trazia a barba toda, muito fina, castanho-escura, rente na face, aguçada no queixo — o que lhe dava, com o bonito bigode arqueado aos cantos
da boca, uma fisionomia de belo cavaleiro da Renascença. E o avô, cujo olhar risonho e húmido trasbordava de emoção, todo se orgulhava de o ver, de o ouvir, numa larga veia, falando da viagem, dos belos dias de Roma, do seu mau humor na Prússia, da originalidade de Moscovo, das paisagens da Holanda...
— E agora? — perguntou-lhe o Sequeira, depois de um momento de silêncio em que Carlos estivera bebendo o seu conhaque e soda. — Agora que tencionas tu fazer?
— Agora, general? — respondeu Carlos, sorrindo e pousando o copo. — Descansar primeiro e depois passar a ser uma glória nacional!

Eça de Queirós, Os Maias. Episódios da Vida Romântica. Porto Editora. Colecção Clássicos da Literatura Portuguesa, p. 79-80

domingo, 20 de outubro de 2013

No regresso de Itália. Turner

Turner Joseph Mallord William, Messieurs les Voyageurs on their return from Italy (par la diligence) in a snow drift upon Mount Tarrar. 22 janvier 1829, 1829, aquarelle gouachée, 0,545 x 0, 747 m, British Museum, Londres, Royaume-Uni (C) Diffusion en Europe sauf Royaume-Uni et Irlande – The British Museum, Londres, Dist. RMN-Grand Palais / The Trustees of the British Museum.

sábado, 19 de outubro de 2013

Por exemplo, a Veneza. François Laplantine

A noção de viagem não constitui uma unidade. Poderíamos enumerar as múltiplas formas de viagem e de modos de viajar: viagem de negócios, viagem de amor (por exemplo, a Veneza...), viagem de lazer (o turismo), viagem de aventura (os exploradores), viagem forçada (o exílio, a deportação), viagem clandestina (a espionagem), viagem científica (a dos etnólogos e dos arqueólogos) ou pedagógica (as estadias em universidades estrangeiras), viagem religiosa (missionários e peregrinos)...

François Laplantine, "Voyage et Hospitalité", Actes de La Rencontre Villes, Voyages, Voyageurs. Paris, L'Harmattan, 2005, p. 55.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Muitas vias chegam a um único fim. John Mandeville

Em nome de Deus Todo-Poderoso. Aquele que quer atravessar o mar para ir a Jerusalém, pode ir por muitos caminhos, tanto pelo mar como pela terra, dependendo dos países de onde vier: muitas vias chegam a um único fim. Mas não pensem que vos falarei de todas as vilas e cidades e castelos, porque senão teria de escrever uma longa história a esse respeito. Só tenciono tocar brevemente nos países grandes e nos lugares importantes que um homem tem de atravessar para seguir a estrada certa.

John Mandeville, Viagens de Mandeville. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2012, p. 35.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Preferia comer sob uma cruz, disse o padre Quixote. Graham Greene

A distancia de El Toboso a Madrid não é muito grande, mas, com o andamento vacilante do "rocinante" e como a fila de camiões se estendia à sua frente, a noite veio encontrar o padre Quixote e o alcaide ainda na estrada.
- Tenho fome e sede - queixou-se o alcaide.
- E o "rocinante" está muito cansado - respondeu o padre Quixote.
- Se ao menos pudéssemos encontrar uma estalagem; mas o vinho, ao longo desta estrada principal, não é de confiança.
- Temos muito bom vinho manchego.
- Mas a comida... Tenho de comer.
- Teresa insistiu em colocar um embrulho no banco traseiro. Disse que era para uma emergência. Não confiava no "rocinante" mais do que o garagista.
- Mas  isto é uma emergência - disse o alcaide.
O padre Quixote abriu o embrulho.
- Deus seja louvado! - disse ele. - Um grande queijo manchego, alguns chouriços fumados e até dois copos e duas facas.
- Não sei dar graças a Deus, mas sei certamente dá-las à Teresa.
- Oh, bem, provavelmente é a mesma coisa, Sancho. Todas as nossas boas acções são actos de Deus, assim como as más acções são actos do Diabo.
- Nesse caso, deve perdoar ao nosso pobre Estaline - disse o alcaide -, porque talvez só o Diabo seja responsável.
Continuaram muito devagar, à procura de uma árvore que lhe desse sombra, porque o sol-poente inclinava-se baixo, sobre os campos, fazendo sombras muito estreitas, para os dois homens se poderem sentar à vontade. Finalmente, sob o muro arruinado de uma casa que pertencia a uma quinta abandonada, encontraram o que precisavam. Alguém pintara uma foice e um martelo a vermelho por cima da pedra em desagregação.
- Preferia comer sob uma cruz - disse o padre Quixote.
- Que importância tem? O sabor do queijo não será afectado pelo cruz ou pelo martelo. Além disso, haverá diferença entre os dois? Ambos são protestos contra a injustiça.
- Mas os resultados foram levemente diferentes. Um criou a tirania, outro a caridade.
- Tirania? Caridade? E a Inquisição e o grande patriota Torquemada?
- Foram menos os que sofreram com Torquemada do que com Estaline.
- Tem a certeza disso em relação à população da Rússia no tempo de Estaline e à da Espanha no tempo de Torquemada?
- Não sou um estatístico, Sancho. Abra uma garrafa, se tiver um saca-rolhas.

Graham Greene, Monsenhor Quixote. Mem Martins, Europa-América, s/d, p. 41-42