quarta-feira, 23 de outubro de 2013

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Caminhei ao longo dos gelos marinhos

Quero visitar uma mulher estrangeira,
quero desvendar os enigmas do homem.
Desato as correias das minhas botas,
procuro no homem
e procuro na mulher.
No rosto das mulheres desfaço as rugas.

Caminhei ao longo dos gelos marinhos,
e as focas sopravam de dentro dos buracos.

Escutei maravilhado o canto do mar
e o gemido claro dos jovens gelos.

E um espirito antigo traz agora o poder
à casa das danças.

Poema dos esquimós. Versão de Herberto Hélder
Rosa do Mundo. 2001 Poemas Para o Futuro. Direcção de Manuel Hermínio Monteiro.
Lisboa, Assírio & Alvim, 2001, p. 114

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

A viagem de Carlos Eduardo. Eça de Queirós


E então Carlos Eduardo partira para a sua longa viagem pela Europa. Um ano passou. Chegara esse Outono de 1875: e o avô, instalado enfim no Ramalhete, esperava por ele ansiosamente. A última carta de Carlos viera de Inglaterra, onde andava, dizia ele, a estudar a admirável organização dos hospitais de crianças. Assim era: mas passeava também por Brighton, apostava nas corridas de Goodwood, fazia um idílio errante pelos lagos da Escócia, com uma senhora holandesa, separada de seu marido, venerável magistrado da Haia, uma Madame Rughel, soberba criatura de cabelos de oiro fulvo, grande e branca como uma ninfa de Rubens.
Depois começaram a chegar, dirigidas ao Ramalhete, caixas sucessivas de livros, outras de instrumentos e aparelhos, toda uma biblioteca e todo um laboratório — que trazia o Vilaça, manhãs inteiras, aturdido pelos armazéns da Alfândega.
— O meu rapaz vem com grandes ideias de trabalho — dizia Afonso aos amigos.
Havia catorze meses que ele o não via, o «seu rapaz», a não ser numa fotografia mandada de Milão, em que todos o acharam magro e triste. E o coração batia-lhe forte, na linda manhã de Outono, quando do terraço do Ramalhete, de binóculo na mão, viu assomar vagarosamente, por trás do alto prédio fronteiro, um grande paquete da Royal Mail que lhe trazia o seu neto.
À noite os amigos da casa, o velho Sequeira, D. Diogo Coutinho, o Vilaça — não se fartavam de admirar «o bem que a viagem fizera a Carlos». Que diferença da fotografia! Que forte, que saudável!
Era decerto um formoso e magnífico moço, alto, bem feito, de ombros largos, com uma testa de mármore sob os anéis dos cabelos pretos, e os olhos dos Maias, aqueles irresistíveis olhos do pai, de um negro líquido, ternos como os dele e mais graves. Trazia a barba toda, muito fina, castanho-escura, rente na face, aguçada no queixo — o que lhe dava, com o bonito bigode arqueado aos cantos
da boca, uma fisionomia de belo cavaleiro da Renascença. E o avô, cujo olhar risonho e húmido trasbordava de emoção, todo se orgulhava de o ver, de o ouvir, numa larga veia, falando da viagem, dos belos dias de Roma, do seu mau humor na Prússia, da originalidade de Moscovo, das paisagens da Holanda...
— E agora? — perguntou-lhe o Sequeira, depois de um momento de silêncio em que Carlos estivera bebendo o seu conhaque e soda. — Agora que tencionas tu fazer?
— Agora, general? — respondeu Carlos, sorrindo e pousando o copo. — Descansar primeiro e depois passar a ser uma glória nacional!

Eça de Queirós, Os Maias. Episódios da Vida Romântica. Porto Editora. Colecção Clássicos da Literatura Portuguesa, p. 79-80

domingo, 20 de outubro de 2013

No regresso de Itália. Turner

Turner Joseph Mallord William, Messieurs les Voyageurs on their return from Italy (par la diligence) in a snow drift upon Mount Tarrar. 22 janvier 1829, 1829, aquarelle gouachée, 0,545 x 0, 747 m, British Museum, Londres, Royaume-Uni (C) Diffusion en Europe sauf Royaume-Uni et Irlande – The British Museum, Londres, Dist. RMN-Grand Palais / The Trustees of the British Museum.

sábado, 19 de outubro de 2013

Por exemplo, a Veneza. François Laplantine

A noção de viagem não constitui uma unidade. Poderíamos enumerar as múltiplas formas de viagem e de modos de viajar: viagem de negócios, viagem de amor (por exemplo, a Veneza...), viagem de lazer (o turismo), viagem de aventura (os exploradores), viagem forçada (o exílio, a deportação), viagem clandestina (a espionagem), viagem científica (a dos etnólogos e dos arqueólogos) ou pedagógica (as estadias em universidades estrangeiras), viagem religiosa (missionários e peregrinos)...

François Laplantine, "Voyage et Hospitalité", Actes de La Rencontre Villes, Voyages, Voyageurs. Paris, L'Harmattan, 2005, p. 55.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Muitas vias chegam a um único fim. John Mandeville

Em nome de Deus Todo-Poderoso. Aquele que quer atravessar o mar para ir a Jerusalém, pode ir por muitos caminhos, tanto pelo mar como pela terra, dependendo dos países de onde vier: muitas vias chegam a um único fim. Mas não pensem que vos falarei de todas as vilas e cidades e castelos, porque senão teria de escrever uma longa história a esse respeito. Só tenciono tocar brevemente nos países grandes e nos lugares importantes que um homem tem de atravessar para seguir a estrada certa.

John Mandeville, Viagens de Mandeville. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2012, p. 35.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Preferia comer sob uma cruz, disse o padre Quixote. Graham Greene

A distancia de El Toboso a Madrid não é muito grande, mas, com o andamento vacilante do "rocinante" e como a fila de camiões se estendia à sua frente, a noite veio encontrar o padre Quixote e o alcaide ainda na estrada.
- Tenho fome e sede - queixou-se o alcaide.
- E o "rocinante" está muito cansado - respondeu o padre Quixote.
- Se ao menos pudéssemos encontrar uma estalagem; mas o vinho, ao longo desta estrada principal, não é de confiança.
- Temos muito bom vinho manchego.
- Mas a comida... Tenho de comer.
- Teresa insistiu em colocar um embrulho no banco traseiro. Disse que era para uma emergência. Não confiava no "rocinante" mais do que o garagista.
- Mas  isto é uma emergência - disse o alcaide.
O padre Quixote abriu o embrulho.
- Deus seja louvado! - disse ele. - Um grande queijo manchego, alguns chouriços fumados e até dois copos e duas facas.
- Não sei dar graças a Deus, mas sei certamente dá-las à Teresa.
- Oh, bem, provavelmente é a mesma coisa, Sancho. Todas as nossas boas acções são actos de Deus, assim como as más acções são actos do Diabo.
- Nesse caso, deve perdoar ao nosso pobre Estaline - disse o alcaide -, porque talvez só o Diabo seja responsável.
Continuaram muito devagar, à procura de uma árvore que lhe desse sombra, porque o sol-poente inclinava-se baixo, sobre os campos, fazendo sombras muito estreitas, para os dois homens se poderem sentar à vontade. Finalmente, sob o muro arruinado de uma casa que pertencia a uma quinta abandonada, encontraram o que precisavam. Alguém pintara uma foice e um martelo a vermelho por cima da pedra em desagregação.
- Preferia comer sob uma cruz - disse o padre Quixote.
- Que importância tem? O sabor do queijo não será afectado pelo cruz ou pelo martelo. Além disso, haverá diferença entre os dois? Ambos são protestos contra a injustiça.
- Mas os resultados foram levemente diferentes. Um criou a tirania, outro a caridade.
- Tirania? Caridade? E a Inquisição e o grande patriota Torquemada?
- Foram menos os que sofreram com Torquemada do que com Estaline.
- Tem a certeza disso em relação à população da Rússia no tempo de Estaline e à da Espanha no tempo de Torquemada?
- Não sou um estatístico, Sancho. Abra uma garrafa, se tiver um saca-rolhas.

Graham Greene, Monsenhor Quixote. Mem Martins, Europa-América, s/d, p. 41-42

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Hadleyburg teve o azar de ofender um forasteiro. Mark Twain

Hadleyburg era, na região, a cidade mais honesta e íntegra. Mantivera essa reputação durante três gerações e tinha mais orgulho nela que em qualquer outra das suas riquezas. Tinha tanto orgulho e tanto empenho em assegurar a sua perpetuação, que começou a ensinar os princípios da conduta honesta às crianças no berço, e colocava tais ensinamentos no cento da sua cultura, durante todos os anos dedicados à educação.
[...] As cidades vizinhas tinham inveja desta supremacia honrosa e fingiam escarnecer do orgulho de Hadleyburg, chamando-lhe vaidade; mas mesmo assim eram obrigadas a reconhecer que Hadleyburg era uma cidade incorruptível.
[...] Mas, por fim, no correr do tempo, Hadleyburg teve o azar de ofender um forasteiro que por lá passou - possivelmente sem dar por isso, certamente sem se preocupar, pois Hadleyburg era auto-suficiente e náo dava um centavo por forasteiros ou pelas suas opiniões. Durante um ano, em todas as suas deambulações, nunca se esqueceu desse insulto, dedicando todos os momentos de ócio a magicar como conseguir obter uma reparação. [...] Por último, teve uma ideia feliz e, quando lhe nasceu no cérebro, iluminou-se toda a cabeça com uma alegria maligna. De imediato desenhou um plano, dizendo a si próprio "É o que há a fazer - vou corromper a cidade".

Mark Twain, O Homem que Corrompeu Hadleyburg. Lisboa, Assírio & Alvim, 2003, p. 7-8.  

domingo, 13 de outubro de 2013

Viajar com Sophia (3). Miguel Sousa Tavares


E veio. Na primeira noite, instalámo-nos no Forte Aguada, em frente de Pangim, a capital do Estado de Goa. Com o mar aos pés e uma noite tropical, com a companhia de outros portugueses, como o António Alçada Baptista, foi um jantar maravilhoso, que se arrastou até altas horas da noite. Acordei na manhã seguinte a pensar que, ou ficava ali a tomar conta dela e a ver as palmeiras que "como um trigo de Império, ondulam sem se poder ver", ou ia fazer a minha reportagem. Assim, com o coração dividido e a consciência trespassada, fui-me despedir dela, explicando-lhe que tinha de ir para Pangim, do outro lado do canal e onde estavam as minhas "fontes", os meus "contactos", o material da minha reportagem. Respondeu-me que fosse sem problemas, que ficava muito bem, ali, onde os Albuquerques e os Mascarenhas tinham construído aquele forte virado para o mar que um dia os levaria de volta a casa. Dois dias depois, não tendo conseguido falar com ela por telefone, fiquei apreensivo e resolvi ir até ao outro lado do canal, para ver se ela estava bem. De Pangim para lá e vice-versa, atravessava-se numa espécie de cacilheiro, carregado de famílias, porcos, galinhas, sacas e trouxas de toda a espécie: não mais de quarenta minutos. A meio da travessia, quando nos cruzámos com outro barco igual que vinha de lá, peguei na máquina para fotografar aquela cena cheia de cor de dezenas de indianos encavalitados em tudo o que era sítio, no outro barco. Havia uma ligeira neblina no canal, que tornava ainda mais exuberante o espectáculo de cores do barco com que nos cruzávamos. E, de repente, correndo a mão ao longo do barco, à procura da melhor fotografia, vejo-a a ela - sozinha, a meia nave, entre os outros passageiros. Estava a uns vinte metros dela e gritei "Mãe!". Ela virou-se, reconheceu-me e sorriu, radiante. Nesse exacto instante, eu disparei e guardei-a para sempre, assim - feliz, deslumbrada, perdida na Índia. Não como se viajasse: como se flutuasse.

Miguel Sousa Tavares, "Roma, Piazza Navona" in Colóquio Letras, número 176, Janeiro/Abril 2011, pp. 127-8.

sábado, 12 de outubro de 2013

Viajar com Sophia (2). Miguel Sousa Tavares


Muitos anos mais tarde ainda, já ela tinha morrido, eu estava numa sessão de autógrafos de um livro meu, no Rio de Janeiro. Da fila, emergiram uma senhora nova e bonita e uma senhora muito velha, outrora bonita - neta e avó. Esta última apresentou-se-me e o nome era-me familiar, sem conseguir situar aonde. Ela esclareceu-me: "Eu e meu falecido marido éramos grandes amigos de sua mãe. Viajámos de carro até Brasília, em 1966, tinha a cidade sido acabada de fundar; viajámos por Espanha, com o João Cabral de Melo Neto, quando ele era cônsul do Brasil em Sevilha; e viajámos com ela e o seu pai até à Grécia." Aí, eu lembrei-me enfim de quem ela era: lá, do infinito, veio-me a memória da descrição dessas viagens feitas pela minha mãe, e fiquei sem saber bem o que dizer. Mas a senhora sacou de um pequeno maço de quatro ou cinco fotografias e disse-me: "Guardei isto durante muitos anos, mas agora acho que é altura de as dar ao filho da Sofia." Eram fotografias deles todos em Espanha, no Brasil e na Grécia. E havia uma que era quase insuportável de ver: a minha mãe e o meu pai na Grécia, ela sentada no que parecem ser umas ruínas dum templo, ele abraçando-a por trás e ela olhando em frente o mar, com os olhos quase fechados e uma expressão de felicidade tão grande que até dói de pensar que o tempo não parou naquele instante, eternamente.
 Fomos até Madrid, parando em Trujillo, a terra de Pizarro, e em Toledo, para ela me mostrar o Enterro do Conde de Orgaz, do Greco. Mostrou-me o Prado, o Velázquez, o Goya, o Botticelli, o Rembrandt. Tudo feito no seu ritmo de viagem: olhar, parar, continuar a olhar e ficar. Vinte e cinco anos passados, cruzámo-nos na Índia. Não viajámos propriamente juntos: partilhámos o mesmo avião. Ela ia como convidada do Presidente Mário Soares, em visita de Estado, e eu aproveitava a boleia no avião para frazer uma reportagem em Goa. Mas quando, em Delhi, lhe disse que seguia para Goa, ela, tentada pela poeira da História, resolveu vir também, trocando o protocolo de Estado pelas memórias do Império.