A noção de viagem não constitui uma unidade. Poderíamos enumerar as múltiplas formas de viagem e de modos de viajar: viagem de negócios, viagem de amor (por exemplo, a Veneza...), viagem de lazer (o turismo), viagem de aventura (os exploradores), viagem forçada (o exílio, a deportação), viagem clandestina (a espionagem), viagem científica (a dos etnólogos e dos arqueólogos) ou pedagógica (as estadias em universidades estrangeiras), viagem religiosa (missionários e peregrinos)...
François Laplantine, "Voyage et Hospitalité", Actes de La Rencontre Villes, Voyages, Voyageurs. Paris, L'Harmattan, 2005, p. 55.
sábado, 19 de outubro de 2013
sexta-feira, 18 de outubro de 2013
quinta-feira, 17 de outubro de 2013
Muitas vias chegam a um único fim. John Mandeville
Em nome de Deus Todo-Poderoso. Aquele que quer atravessar o mar para ir a Jerusalém, pode ir por muitos caminhos, tanto pelo mar como pela terra, dependendo dos países de onde vier: muitas vias chegam a um único fim. Mas não pensem que vos falarei de todas as vilas e cidades e castelos, porque senão teria de escrever uma longa história a esse respeito. Só tenciono tocar brevemente nos países grandes e nos lugares importantes que um homem tem de atravessar para seguir a estrada certa.
John Mandeville, Viagens de Mandeville. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2012, p. 35.
John Mandeville, Viagens de Mandeville. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2012, p. 35.
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
Preferia comer sob uma cruz, disse o padre Quixote. Graham Greene
A distancia de El Toboso a Madrid não é muito grande, mas, com o andamento vacilante do "rocinante" e como a fila de camiões se estendia à sua frente, a noite veio encontrar o padre Quixote e o alcaide ainda na estrada.
- Tenho fome e sede - queixou-se o alcaide.
- E o "rocinante" está muito cansado - respondeu o padre Quixote.
- Se ao menos pudéssemos encontrar uma estalagem; mas o vinho, ao longo desta estrada principal, não é de confiança.
- Temos muito bom vinho manchego.
- Mas a comida... Tenho de comer.
- Teresa insistiu em colocar um embrulho no banco traseiro. Disse que era para uma emergência. Não confiava no "rocinante" mais do que o garagista.
- Mas isto é uma emergência - disse o alcaide.
O padre Quixote abriu o embrulho.
- Deus seja louvado! - disse ele. - Um grande queijo manchego, alguns chouriços fumados e até dois copos e duas facas.
- Não sei dar graças a Deus, mas sei certamente dá-las à Teresa.
- Oh, bem, provavelmente é a mesma coisa, Sancho. Todas as nossas boas acções são actos de Deus, assim como as más acções são actos do Diabo.
- Nesse caso, deve perdoar ao nosso pobre Estaline - disse o alcaide -, porque talvez só o Diabo seja responsável.
Continuaram muito devagar, à procura de uma árvore que lhe desse sombra, porque o sol-poente inclinava-se baixo, sobre os campos, fazendo sombras muito estreitas, para os dois homens se poderem sentar à vontade. Finalmente, sob o muro arruinado de uma casa que pertencia a uma quinta abandonada, encontraram o que precisavam. Alguém pintara uma foice e um martelo a vermelho por cima da pedra em desagregação.
- Preferia comer sob uma cruz - disse o padre Quixote.
- Que importância tem? O sabor do queijo não será afectado pelo cruz ou pelo martelo. Além disso, haverá diferença entre os dois? Ambos são protestos contra a injustiça.
- Mas os resultados foram levemente diferentes. Um criou a tirania, outro a caridade.
- Tirania? Caridade? E a Inquisição e o grande patriota Torquemada?
- Foram menos os que sofreram com Torquemada do que com Estaline.
- Tem a certeza disso em relação à população da Rússia no tempo de Estaline e à da Espanha no tempo de Torquemada?
- Não sou um estatístico, Sancho. Abra uma garrafa, se tiver um saca-rolhas.
Graham Greene, Monsenhor Quixote. Mem Martins, Europa-América, s/d, p. 41-42
- Tenho fome e sede - queixou-se o alcaide.
- E o "rocinante" está muito cansado - respondeu o padre Quixote.
- Se ao menos pudéssemos encontrar uma estalagem; mas o vinho, ao longo desta estrada principal, não é de confiança.
- Temos muito bom vinho manchego.
- Mas a comida... Tenho de comer.
- Teresa insistiu em colocar um embrulho no banco traseiro. Disse que era para uma emergência. Não confiava no "rocinante" mais do que o garagista.
- Mas isto é uma emergência - disse o alcaide.
O padre Quixote abriu o embrulho.
- Deus seja louvado! - disse ele. - Um grande queijo manchego, alguns chouriços fumados e até dois copos e duas facas.
- Não sei dar graças a Deus, mas sei certamente dá-las à Teresa.
- Oh, bem, provavelmente é a mesma coisa, Sancho. Todas as nossas boas acções são actos de Deus, assim como as más acções são actos do Diabo.
- Nesse caso, deve perdoar ao nosso pobre Estaline - disse o alcaide -, porque talvez só o Diabo seja responsável.
Continuaram muito devagar, à procura de uma árvore que lhe desse sombra, porque o sol-poente inclinava-se baixo, sobre os campos, fazendo sombras muito estreitas, para os dois homens se poderem sentar à vontade. Finalmente, sob o muro arruinado de uma casa que pertencia a uma quinta abandonada, encontraram o que precisavam. Alguém pintara uma foice e um martelo a vermelho por cima da pedra em desagregação.
- Preferia comer sob uma cruz - disse o padre Quixote.
- Que importância tem? O sabor do queijo não será afectado pelo cruz ou pelo martelo. Além disso, haverá diferença entre os dois? Ambos são protestos contra a injustiça.
- Mas os resultados foram levemente diferentes. Um criou a tirania, outro a caridade.
- Tirania? Caridade? E a Inquisição e o grande patriota Torquemada?
- Foram menos os que sofreram com Torquemada do que com Estaline.
- Tem a certeza disso em relação à população da Rússia no tempo de Estaline e à da Espanha no tempo de Torquemada?
- Não sou um estatístico, Sancho. Abra uma garrafa, se tiver um saca-rolhas.
Graham Greene, Monsenhor Quixote. Mem Martins, Europa-América, s/d, p. 41-42
terça-feira, 15 de outubro de 2013
Voyage. Exposição em meio prisional
Documentação aqui:
http://www.grandpalais.fr/sites/default/files/field_press_file/dp_le_voyage.pdf
aqui:
http://www.grandpalais.fr/fr/article/ne-dit-pas-prison-episode-1
aqui:
http://www.dailymotion.com/video/x14w4nu_hors-les-murs-voyages-au-sein-du-centre-penitentiaire-sud-francilien-en-seine-et-marne_creation
Reportagem no Libération:
http://www.liberation.fr/societe/2013/09/25/taule-de-maitres_934700
Banda desenhada aqui:
http://www.flickr.com/photos/36293063@N08/10166168395/in/photostream/
http://www.grandpalais.fr/sites/default/files/field_press_file/dp_le_voyage.pdf
aqui:
http://www.grandpalais.fr/fr/article/ne-dit-pas-prison-episode-1
aqui:
http://www.dailymotion.com/video/x14w4nu_hors-les-murs-voyages-au-sein-du-centre-penitentiaire-sud-francilien-en-seine-et-marne_creation
Reportagem no Libération:
http://www.liberation.fr/societe/2013/09/25/taule-de-maitres_934700
Banda desenhada aqui:
http://www.flickr.com/photos/36293063@N08/10166168395/in/photostream/
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
Hadleyburg teve o azar de ofender um forasteiro. Mark Twain
Hadleyburg era, na região, a cidade mais honesta e íntegra. Mantivera essa reputação durante três gerações e tinha mais orgulho nela que em qualquer outra das suas riquezas. Tinha tanto orgulho e tanto empenho em assegurar a sua perpetuação, que começou a ensinar os princípios da conduta honesta às crianças no berço, e colocava tais ensinamentos no cento da sua cultura, durante todos os anos dedicados à educação.
[...] As cidades vizinhas tinham inveja desta supremacia honrosa e fingiam escarnecer do orgulho de Hadleyburg, chamando-lhe vaidade; mas mesmo assim eram obrigadas a reconhecer que Hadleyburg era uma cidade incorruptível.
[...] Mas, por fim, no correr do tempo, Hadleyburg teve o azar de ofender um forasteiro que por lá passou - possivelmente sem dar por isso, certamente sem se preocupar, pois Hadleyburg era auto-suficiente e náo dava um centavo por forasteiros ou pelas suas opiniões. Durante um ano, em todas as suas deambulações, nunca se esqueceu desse insulto, dedicando todos os momentos de ócio a magicar como conseguir obter uma reparação. [...] Por último, teve uma ideia feliz e, quando lhe nasceu no cérebro, iluminou-se toda a cabeça com uma alegria maligna. De imediato desenhou um plano, dizendo a si próprio "É o que há a fazer - vou corromper a cidade".
Mark Twain, O Homem que Corrompeu Hadleyburg. Lisboa, Assírio & Alvim, 2003, p. 7-8.
[...] As cidades vizinhas tinham inveja desta supremacia honrosa e fingiam escarnecer do orgulho de Hadleyburg, chamando-lhe vaidade; mas mesmo assim eram obrigadas a reconhecer que Hadleyburg era uma cidade incorruptível.
[...] Mas, por fim, no correr do tempo, Hadleyburg teve o azar de ofender um forasteiro que por lá passou - possivelmente sem dar por isso, certamente sem se preocupar, pois Hadleyburg era auto-suficiente e náo dava um centavo por forasteiros ou pelas suas opiniões. Durante um ano, em todas as suas deambulações, nunca se esqueceu desse insulto, dedicando todos os momentos de ócio a magicar como conseguir obter uma reparação. [...] Por último, teve uma ideia feliz e, quando lhe nasceu no cérebro, iluminou-se toda a cabeça com uma alegria maligna. De imediato desenhou um plano, dizendo a si próprio "É o que há a fazer - vou corromper a cidade".
Mark Twain, O Homem que Corrompeu Hadleyburg. Lisboa, Assírio & Alvim, 2003, p. 7-8.
domingo, 13 de outubro de 2013
Viajar com Sophia (3). Miguel Sousa Tavares
E veio. Na primeira noite, instalámo-nos no Forte Aguada, em
frente de Pangim, a capital do Estado de Goa. Com o mar aos pés e uma noite
tropical, com a companhia de outros portugueses, como o António Alçada
Baptista, foi um jantar maravilhoso, que se arrastou até altas horas da noite.
Acordei na manhã seguinte a pensar que, ou ficava ali a tomar conta dela e a
ver as palmeiras que "como um trigo de Império, ondulam sem se poder
ver", ou ia fazer a minha reportagem. Assim, com o coração dividido e a
consciência trespassada, fui-me despedir dela, explicando-lhe que tinha de ir
para Pangim, do outro lado do canal e onde estavam as minhas
"fontes", os meus "contactos", o material da minha
reportagem. Respondeu-me que fosse sem problemas, que ficava muito bem, ali,
onde os Albuquerques e os Mascarenhas tinham construído aquele forte virado
para o mar que um dia os levaria de volta a casa. Dois dias depois, não tendo
conseguido falar com ela por telefone, fiquei apreensivo e resolvi ir até ao
outro lado do canal, para ver se ela estava bem. De Pangim para lá e vice-versa,
atravessava-se numa espécie de cacilheiro, carregado de famílias, porcos,
galinhas, sacas e trouxas de toda a espécie: não mais de quarenta minutos. A
meio da travessia, quando nos cruzámos com outro barco igual que vinha de lá,
peguei na máquina para fotografar aquela cena cheia de cor de dezenas de
indianos encavalitados em tudo o que era sítio, no outro barco. Havia uma
ligeira neblina no canal, que tornava ainda mais exuberante o espectáculo de
cores do barco com que nos cruzávamos. E, de repente, correndo a mão ao longo
do barco, à procura da melhor fotografia, vejo-a a ela - sozinha, a meia nave,
entre os outros passageiros. Estava a uns vinte metros dela e gritei
"Mãe!". Ela virou-se, reconheceu-me e sorriu, radiante. Nesse exacto
instante, eu disparei e guardei-a para sempre, assim - feliz, deslumbrada,
perdida na Índia. Não como se viajasse: como se flutuasse.
sábado, 12 de outubro de 2013
Viajar com Sophia (2). Miguel Sousa Tavares
Muitos anos mais tarde ainda, já ela tinha morrido, eu
estava numa sessão de autógrafos de um livro meu, no Rio de Janeiro. Da fila,
emergiram uma senhora nova e bonita e uma senhora muito velha, outrora bonita -
neta e avó. Esta última apresentou-se-me e o nome era-me familiar, sem
conseguir situar aonde. Ela esclareceu-me: "Eu e meu falecido marido
éramos grandes amigos de sua mãe. Viajámos de carro até Brasília, em 1966,
tinha a cidade sido acabada de fundar; viajámos por Espanha, com o João Cabral
de Melo Neto, quando ele era cônsul do Brasil em Sevilha; e viajámos com ela e
o seu pai até à Grécia." Aí, eu lembrei-me enfim de quem ela era: lá, do
infinito, veio-me a memória da descrição dessas viagens feitas pela minha mãe,
e fiquei sem saber bem o que dizer. Mas a senhora sacou de um pequeno maço de
quatro ou cinco fotografias e disse-me: "Guardei isto durante muitos anos,
mas agora acho que é altura de as dar ao filho da Sofia." Eram fotografias
deles todos em Espanha, no Brasil e na Grécia. E havia uma que era quase
insuportável de ver: a minha mãe e o meu pai na Grécia, ela sentada no que
parecem ser umas ruínas dum templo, ele abraçando-a por trás e ela olhando em
frente o mar, com os olhos quase fechados e uma expressão de felicidade tão
grande que até dói de pensar que o tempo não parou naquele instante,
eternamente.
Fomos até Madrid, parando em Trujillo, a terra de Pizarro, e
em Toledo, para ela me mostrar o Enterro do Conde de Orgaz, do Greco.
Mostrou-me o Prado, o Velázquez, o Goya, o Botticelli, o Rembrandt. Tudo feito
no seu ritmo de viagem: olhar, parar, continuar a olhar e ficar. Vinte e cinco
anos passados, cruzámo-nos na Índia. Não viajámos propriamente juntos:
partilhámos o mesmo avião. Ela ia como convidada do Presidente Mário Soares, em
visita de Estado, e eu aproveitava a boleia no avião para frazer uma reportagem
em Goa. Mas quando, em Delhi, lhe disse que seguia para Goa, ela, tentada pela
poeira da História, resolveu vir também, trocando o protocolo de Estado pelas
memórias do Império.
sexta-feira, 11 de outubro de 2013
Viajar com Sophia (1). Miguel Sousa Tavares
ROMA, PIAZZA NAVONA
Já escrevi algures que aprendi a viajar com a minha mãe,
graças a uma simples frase dela, dita no momento exacto e no local exacto: na
Piazza Navona, em Roma, cerca das seis da tarde e depois de uma hora de chás,
cigarros e contemplação silenciosa da geometria perfeita da praça. Sentindo a
minha impaciência - a impaciência de quem estava em Roma pela primeira vez e
tudo queria ver, sem detença -, ela disse. "Miguel, viajar é olhar."
Nunca me esqueci. Da frase. Do seu significado. Da
obrigatoriedade de olhar. E da Piazza Navona, que, hoje ainda, é o meu lugar
favorito de Roma. Suponho que é assim que uma mãe deve educar um filho e
ensiná-lo a viajar.
Eu viajei muito pouco com ela, muito menos do que qualquer
um dos outros filhos. Imagino que, pelo facto de ser jornalista e na altura
viajar constantemente, ela tenha achado que eu podia voar sozinho. Mas, em cada
viagem minha, exigia sempre que eu lhe contasse tudo à chegada e nunca
dispensava - quando, antes de partir, me ia despedir dela - um sinal da cruz,
que me fazia na testa. Depois, quando eu voltava, ia jantar à casa da Graça e
ela não queria ver fotografias, queria apenas que lhe contasse o que tinha
visto. Nunca soube que fotografasse em viagem, limitava-se a olhar, para depois
guardar e poder contar: guardar para ela, contar para os outros. O mesmo exigia
de mim e eu aprendi assim que um viajante é o que guarda nos olhos o que viu e
transmite por palavras o que os outros não viram. Em 1966, segundo lembro, ela
foi ao Brasil - numa viagem que então era meio-aventurosa, quase a de Gago
Coutinho, com paragens aéreas onde se podia. E uma delas foi no Recife, de onde
me mandou um postal que, inevitavelmente, me chegou depois dela própria. O seu
deslumbramento com a viagem era tamanho que, nada mais tendo visto que o
aeroporto do Recife, escreveu: "na luz da madrugada e da manhã nascente, o
Recife parece-me um fruto roxo". Anos mais tarde, muitos anos mais tarde,
ao desembarcar no Recife pela primeira vez, procurei em vão a luz e o cheiro do
fruto roxo que ela tinha visto. Aprendi também que vemos o que vemos, o que
queremos ver e o que ninguém mais enxerga. Vemos tanto mais quanto a nossa
disponibilidade de ver: viajamos para dentro de nós, primeiro que tudo.
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
Equipamento de viajante (4)
Notas:
1. Equipamento básico, sujeito a revisão e actualização.
2. Separadores cromáticos: equipamentos assinalados a vermelho (cadeira. mapa, sapatos femininos): tudo o resto a preto e branco (escala de cinzentos).
3. Necessidade de actualização do perfil visual do autor.
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
terça-feira, 8 de outubro de 2013
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