segunda-feira, 7 de outubro de 2013

domingo, 6 de outubro de 2013

Mais uma vez foi preciso partir. René Char

Porquê este caminho em vez daquele? Onde conduz, para nos solicitar tão fortemente? Que árvores e que amigos estão vivos por detrás do horizonte destas pedras, no longínquo milagre do calor? Viemos até aqui, porque ali onde estávamos já não era possível. Torturavam-nos e iam escravizar-nos. O mundo, hoje em dia, é hostil aos Transparentes. Mais uma vez foi preciso partir... E este caminho, que parecia um esqueleto comprido, conduziu-nos a um país que só tinha o seu fôlego para escalar o futuro. Como mostrar, sem atraiçoá-lo, as coisas simples desenhadas entre o crepúsculo e o céu? Por virtude da vida obstinada, na fivela do Tempo artista, entre a morte e a beleza.

René Char, Este Fanático das Nuvens (Antologia Para uma Leitura). Selecção e organização de Marie-Claude Char e Y. K. Centeno. Lisboa, Cotovia, 1995

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Estava apaixonado. Patrícia Highsmith

Todas as manhãs, Don verificava a sua caixa de correio, mas nunca havia carta dela. [...]
Tinha escrito a Rosalind há treze dias, dizendo que a amava  e que desejava casar com ela. Era talvez ligeiramente precipitado devido à curta duração da corte, mas Don achava que escrevera uma carta sensata, não exercendo pressão, declarando apenas o que sentia. Afinal de contas, tinha conhecido Rosalind durante dois anos, ou melhor, tinha-a encontrado em Nova Iorque, dois anos antes. Vira-a de novo na Europa, no mês anterior, estava apaixonado e desejava desposá-la. [...]
Passaram mais dois dias e continuou a não haver resposta. [...]
Abriu [dois dias mais tarde] a caixa e puxou para fora o envelope longo e frágil, com as mãos trementes, deixando cair as chaves aos pés.
A carta consistia apenas em quinze linhas dactilografadas:
Don:
Lamento muito ter esperado tanto tempo para responder à tua carta, mas as coisas aqui têm surgido umas atrás das outras. Só hoje ficaram suficientemente arrumadas para começar a trabalhar. Antes de mais nada atrasei-me em Roma, e conseguir tratar aqui [em Paris] do apartamento tem sido um inferno por causa das greves dos electricistas e coisas do estilo.
És um amigo, Don, sei-o e não o esquecerei. Também não esquecerei os nossos dias na Côte. Mas, querido, não consigo imaginar-me a mudar a minha vida radical e abruptamente, seja para me casar aqui ou em qualquer outro lugar. Devo poder ir no Natal aos Estados Unidos, as coisas por estes lados estão demasiado activas, e porque havias tu de abandonar Nova Iorque? Talvez por altura do Natal, ou quando receberes esta carta, os teus sentimentos tenham mudado um pouco.
Mas voltarás a escrever-me? E não deixarás que isto te torne infeliz? E podemos ver-nos outra vez um dia? Talvez inesperadamente e de uma maneira tão maravilhosa como em Juan-les-Pins?
Rosalind

Patrícia Highsmith, O Observador de Caracóis e Outros Contos. Lisboa, Teorema, 1987, p. 21-31.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Não sei, nesta viagem, se irei a Portugal. Jorge de Sena

Santa Bárbara, 22 de Dezembro de 1972

Estou a cerca de um mês de partir para a Inglaterra, no meu "tour" de conferências por várias Universidades, para maior glória de uma pátria vil, que em lugar de se honrar com isso, se rói da inveja de quem sempre viveu a sua mesquinharia. Irei também a Paris, a Rennes e a Bruxelas. E só voltarei em fins de Março. Pelo menos respirarei Europa, farto que estou desta América que perdeu o último comboio da decência e dignidade. [...] Mas não fazes ideia da ignorância do mundo em que esta população [americana] é mantida - e os milhares que o têm visto não são suficientes para mudar as coisas. Todavia: Portugal está no bolso disto, e não no dos Mercados Comuns em que aliás entrou pela porta do cavalo. Mas para que me ralo eu com esta conversa? Toda a gente tem os governos que merece, e nós é que às vezes não merecemos o ter nascido aonde nos fizeram nascer (nem, o que é a mais trágica ironia, o pobre povo que nem sabe como usam da pele dele, como já dizia o velho Sá de  Miranda).
Não sei, nesta viagem, se irei a Portugal. É possível que, por pesquisas que tenha de fazer, salte a Madrid. Mas só pensar em ir a Lisboa (apesar dos amigos que tanto gosto de ver) dá-me dor de fígado.

Sophia de Mello Breyner - Jorge de Sena: Correspondência. 3a ed. Lisboa, Guerra e Paz, 2010, p. 143-144.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Visita a um pôr-do-sol. Setembro de 2013

Agosto e Setembro devem ter fornecido aos fotógrafos amadores em que todos nos convertemos a maior oferta de sempre de paisagens em pôr-do-sol. As redes sociais brindaram-nos com uma profusão infindável de horizontes lacustres ou terrestres iluminados por discos vermelhos e salpicados de azul, verde ou castanho.
Na semana passada, com a noção de que perdera as melhores oportunidades de competir com os meus amigos do facebook, procurei a Foz para registar imagens de um pôr-do-sol.
Aqui fica o resultado.

1º andamento




2ºandamento




3º Andamento



segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Eu não tinha feito a mala à espera de viajar sozinha. Erica Jong

Arrastei a minha mala de novo para o café na Place St. Michel. Subitamente, sem um homem, vi como ela era pesada. Eu não tinha feito a mala à espera de viajar sozinha. A minha mala estava cheia de guias turísticos, um pequeno gravador para o artigo que não chegara a escrever, blocos de notas, os meus rolos de cabelo eléctricos, dez exemplares do meu primeiro livro de poemas. Alguns deles eram para ser dados a um agente literário em Londres. Outros, eu levava simplesmente por causa da insegurança; "crachats" de identificação para mostrar a quem quer que eu conhecesse. Destinavam-se a provar que eu não era uma mulher vulgar. Destinavam-se a provar que me devia ser dado um salvo conduto. Eu agarrava-me desesperadamente ao meu estatuto como uma excepção porque, sem ele, eu não passava de mais uma mulher sozinha, no engate.
- Tenho a tua morada? - perguntou Adrian antes de partir no Triumph.
- Está no livro que te dei, na última página.
Mas ele tinha perdido o livro.

Eriça Jong, Medo de Voar. Mem Martis, Europa-América, 1973, p. 244.

domingo, 29 de setembro de 2013

Pronto a partir. Adolphe Appian

Adolphe Appian, La Plage. Ca 1880

sábado, 28 de setembro de 2013

Viajando em pensamento. Goethe

Agora amigo, ao regressar do mundo vasto, quantas esperanças frustradas, quantos planos destruídos! Olhei as montanhas em frente, que mil vezes haviam sido o objecto dos meus desejos. Era capaz de me sentar horas a fio, viajando em pensamento até lá, de me perder, com fervor, por florestas e vales que, envoltos em névoa, pareciam sorrir-me: e, quando, a uma hora certa, tinha de regressar, com que relutância não deixava aquele lugar amado!

Johann Wolfgang von Goethe, A Paixão do Jovem Werther. Vila do Conde, Quidnovi, 2012, p. 92.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

As viagens das palavras (II). Carolina Michaëlis de Vasconcelos


Os caminhos percorridos por certos vocábulos são muitas vezes rodeios. Antes de serem portugueses, bastantes passaram por países diversos, alterando-se pouco a pouco, distanciando-se cada vez mais da sua origem.
Pela boca de Franceses, Italianos, Espanhóis entraram às vezes latinismos em travesti que os torna quase irreconhecíveis.
Ideias e formações greco-arábicas espalharam-se no Oriente, na Pérsia, na Índia, antes que de lá fossem transmitidos às nações europeias.
Com os livros e mais do que eles, os vocábulos têm fadário curiosos: Habent sua fata vocabula.
Vejamos alguns exemplos.
Mais uma vez lembro os numerosos rebentos do latim planus no nosso português: o adjectivo e substantivo popular chão; o erudito plano; o castelhano lhano usado só com acepção abstracta de despretencioso, sincero, franco; o piano da Itália;  o advérbio pram ou de pram, tirado de plane, muito usado na época galego-portuguesa; esse mesmo elevado a substantivo em linguagem náutica vulgar na forma porão; e também os nomes de lugar Alporão, Alplan, arabizado pelo artigo al.
Frei, abreviatura de freire, veio da Provença, onde se desenvolvera de fradre, fratre – morto na Península por motivo difícil de explicar.
Monge veio igualmente da Provença, sendo grego de origem (monachos), conforme expliquei na lição prática.
Avaria foi transmitido a todo do Ocidente pelos marinheiros de Génova, mas as suas raízes estão na Arábia.
Yacht, navio de recreio e de aparato, foi introduzido por Ingleses, que o receberam da Holanda, mas no fundo é alemão: Jagd (de jagen).
Chefe, vindo de França, é representante directo do substantivo latino caput, que já cá tínhamos na forma de cabo.
Jaula (de leão) é caveola, diminutivo de cava, que já nos dera a gaiola (de pássaros).
Sorvete, com sorveteira, de introdução recente, é evidentemente o francês sorbet, sorbetière, muito embora em Paris se dê esse nome ao que nós chamamos carapinhada e não ao gelado pastoso que os bons portugueses chamam neve. Para França viera de Itália, que recebera dos Turcos sorbetto, ou pelo menos a raiz sorb, transposição de xurb derivado do verbo árabe xarab, beber. Verbo que com as suas três consoantes radicais (três em todas as vozes arábicas), x, r, b, talvez seja parente do latim sorb, se efectivamente houver parentesco ou mesmo unidade primitiva entre línguas indo-germãnicas e semíticas. Como pensam alguns glotólogos muito avançados.
Em todo o caso xarab já nos dera xarope, antigamente axarave. Esse, latinizado, dera aos Franceses, sirop (alemão Syrup).
Tremoço, em castelhano atramuz, representa o árabe attarmôs, attermôs, mas este não é nada mais do que o grego thermos (nome da lupina, aparentado ou não com thermós, calor).
Triaga, em castelhano atriaga, tem as mesmas origens: da Grécia passara à Arábia.
Barca, vocábulo hoje internacional, empregado cedo em Portugal (numa inscrição latina de Tavira, do Algarve, do século I ou II), passou longos tempos por ser fenício ou cartaginês, simplesmente porque os Fenícios foram grandes navegadores e colonizaram sobretudo a costa sul da península. Talvez também porque o pai de Hannibal (Hamilcar) tivera o sobrenome de Barkas. Mas em cartaginês ou púnico Barkas significa relâmpago. Barca, embarcação, entrou em sermo vulgaris da Itália por intermédio dos Gregos na forma baris, de que eles fizeram barica e depois barca.
Baris, por sua vez, é um dos empréstimos que a Grécia levantara no Egipto.
Entre os Egípcios modernos (os Coptos) bárias ainda hoje se emprega.
De resto essa proveniência não era desconhecida. Só esquecida. O próprio Heródoto a indicara.
É costume geral, justificado, englobar vocábulos desses sempre om os da última língua que foi a intermediária directa.
Assim, diz-se simplesmente que barca vem do latim vulgar; chefe, jaula, sorvete são franceses; yacht é inglês, avaria italiano; frei e monge são provençais; tremoço e triaga são árabes; com o que não quero dizer que não seja bom retroceder, à procura das verdadeiras origens, até onde possamos.

Carolina Michaëlis de Vasconcelos, Lições de Filologia Portuguesa. Segundo as Prelecções feitas aos Cursos de 1911/12 e !912/13. Lisboa, Revista de Portugal, 1956, p. 285-287.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

As viagens das palavras (I). Carolina Michaëlis de Vasconcelos


Quanto à utilidade dos elementos estranhos, ou ao prejuízo que causam, é certo que nenhuma nação civilizada passa sem eles. A faculdade genial que criou as línguas humanas, em milhares de séculos, extinguiu-se, mas não se extinguiu a que constantemente produz objectos novos e descobre factos e fenómenos desconhecidos. E, por mais fértil que seja a faculdade de formar derivados e compostos, ela tem os seus limites.
Por isso os povos trocam entre si não só os seus produtos mas também os seus nomes.
Do mesmo modo literatura alguma pode passar sem termos livrescos, poéticos, sublimados, que em estilo elevado substituem os já gastos pelo uso diário.
Eles embelezam a expressão das ideias e facilitam o estudo de línguas estrangeiras e das ciências. Combater os Lehne Fremdwörter é quixotesco.
Imaginem que dificuldade seria se cada língua, em lugar de se servir da terminologia científica internacional (greco-latina), inventasse para denominar a electricidade, o telefone, o telegrama, a radiografia, palavras exclusivamente suas, diferençadas.

Carolina Michaëlis de Vasconcelos, Lições de Filologia Portuguesa. Segundo as Prelecções feitas aos Cursos de 1911/12 e !912/13. Lisboa, Revista de Portugal, 1956, p. 284.