domingo, 15 de setembro de 2013
sábado, 14 de setembro de 2013
Recém-chegado de uma longa viagem marítima. James Cowan
Consideremos um viajante intrépido com quem me encontrei recentemente. Ele veio ter comigo, recém-chegado de uma longa viagem marítima, ansioso por compartilharmos seus conhecimentos. Ainda tinha sal na barba. O homem mostrava sinais de estar dominado pelas lembranças de um acontecimento que mudara a sua vida. Falou-me sobre a sua viagem à Índia e como tinha chegado à planície através dos desfiladeiros de Pamir e de Kush. Era um mercador e tinha ido lá à procura de especiarias e pedras preciosas, mas deparara-se-lhe algo completamente diferente.
[...]
Imaginem como me senti quando ouvi o relato do meu visitante a respeito do encontro com as abelhas de Nizmuddin. Ali estava um homem que tinha presenciado o que acreditava ser um milagre. Sob um dos arcos tinha visto bandos de papagaios de cores brilhantes banqueteando-se com o mel filtrado pela própria pedra tumular. O zelador do túmulo tinha insistido na necessidade de se ter cuidado para não pisar alguma abelha extraviada, receando que as condições ideais que cercavam o túmulo do imperador fossem alteradas. Era como se o túmulo tivesse uma aura de santidade que o diferenciasse de outras edificações.
[...]
Foi só então que comecei a entender por que visitantes como ele andavam constantemente de um lugar para o outro, procurando sempre, esperando descobrir o que outros antes deles não tinham conseguido.
James Cowan, O Sonho do Cartógrafo. Meditações de Fra Mauro na Corte de Veneza do Século XVI. Lisboa, Temas e Debates, 2000, p. 39-40.
[...]
Imaginem como me senti quando ouvi o relato do meu visitante a respeito do encontro com as abelhas de Nizmuddin. Ali estava um homem que tinha presenciado o que acreditava ser um milagre. Sob um dos arcos tinha visto bandos de papagaios de cores brilhantes banqueteando-se com o mel filtrado pela própria pedra tumular. O zelador do túmulo tinha insistido na necessidade de se ter cuidado para não pisar alguma abelha extraviada, receando que as condições ideais que cercavam o túmulo do imperador fossem alteradas. Era como se o túmulo tivesse uma aura de santidade que o diferenciasse de outras edificações.
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Foi só então que comecei a entender por que visitantes como ele andavam constantemente de um lugar para o outro, procurando sempre, esperando descobrir o que outros antes deles não tinham conseguido.
James Cowan, O Sonho do Cartógrafo. Meditações de Fra Mauro na Corte de Veneza do Século XVI. Lisboa, Temas e Debates, 2000, p. 39-40.
sexta-feira, 13 de setembro de 2013
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
quarta-feira, 11 de setembro de 2013
O comboio vem com um pequeno atraso de quatro horas. Santos Fernando
De repente, o infortúnio apanhou-me de surpresa num apeadeiro insólito, com duas malas repletas de saudades e outras peças íntimas. Uma velha locomotiva dormia talvez para sempre num troço e linha ferrugenta, sem beleza, sem poesia.
Lembrei-me então da tal noite: (barcos varados na areia, bojos vermelhos adornados, como grandes barrigas atestadas. O chape-chape da água a cocegar o paredão, um paquete iluminado no meio do rio, a ponte de luzes, aquela suspensão de estrelas, e o nosso caminhar e o nosso sonho ao longo do cais...)
Um factor, com uma bela corneta de ouro a imitar lata, e uma lanterna preciosa, olhou para mim, e assim a modos de quem olha uma mercadoria que é imprescindível despachar em grande velocidade para casa do diabo.
- O comboio vem com um pequeno atraso de quatro horas.
Não se agradecem notícias destas. Abri uma das malas, tirei o colchão pneumático de praia, soprei-o e deitei-me tranquilamente. Depois acendi um desses cigarros que são exclusivamente filtro e fiquei de papo para o ar, pensando que entre a terra e o céu se passam coisas maravilhosas (a recordar que no topo do outro cais se mantinha uma luz acesa. Uma luz amarela numa casa que não se via. Recortada, a silhueta de um homem curvado, a comer. A seguir, o homem levantou-se e foi pôr o prato não sei aonde. Nesse instante destacou-se uma figura de mulher. Um quadro amarelo de Gaughin. Tudo tão simples e tão grandioso no meio de uma escuridão feita de noite e de rio).
Santos Fernando, "Fantasia em colchão pneumático", in Os Grilos Não Cantam ao Domingo. Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 1969, p. 177-178.
Lembrei-me então da tal noite: (barcos varados na areia, bojos vermelhos adornados, como grandes barrigas atestadas. O chape-chape da água a cocegar o paredão, um paquete iluminado no meio do rio, a ponte de luzes, aquela suspensão de estrelas, e o nosso caminhar e o nosso sonho ao longo do cais...)
Um factor, com uma bela corneta de ouro a imitar lata, e uma lanterna preciosa, olhou para mim, e assim a modos de quem olha uma mercadoria que é imprescindível despachar em grande velocidade para casa do diabo.
- O comboio vem com um pequeno atraso de quatro horas.
Não se agradecem notícias destas. Abri uma das malas, tirei o colchão pneumático de praia, soprei-o e deitei-me tranquilamente. Depois acendi um desses cigarros que são exclusivamente filtro e fiquei de papo para o ar, pensando que entre a terra e o céu se passam coisas maravilhosas (a recordar que no topo do outro cais se mantinha uma luz acesa. Uma luz amarela numa casa que não se via. Recortada, a silhueta de um homem curvado, a comer. A seguir, o homem levantou-se e foi pôr o prato não sei aonde. Nesse instante destacou-se uma figura de mulher. Um quadro amarelo de Gaughin. Tudo tão simples e tão grandioso no meio de uma escuridão feita de noite e de rio).
Santos Fernando, "Fantasia em colchão pneumático", in Os Grilos Não Cantam ao Domingo. Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 1969, p. 177-178.
terça-feira, 10 de setembro de 2013
segunda-feira, 9 de setembro de 2013
domingo, 8 de setembro de 2013
Vivemo-nos como uma ilha. Eduardo Lourenço
Mas seria apressado concluir que essa expressão lá fora não tem função alguma. É em relação a ela, no interior da sua referência indeterminada e vazia, que o cá dentro ocupa o espaço inteiro da nossa identidade, simultaneamente efectiva e afectiva, real e imaginária.
Eu podia ter poupado estas considerações pleonásticas, repetindo-me e sintetizando tudo, como já o fiz: somos uma ilha. Quer dizer, independentemente da nossa situação geográfica ou do lugar que nós desenhamos na História ou a História nos desenhou, vivemo-nos como uma ilha. A expressão cá dentro dá forma a esse viver connosco, a esse estar connosco, cercados de mundo, que visto e sentido do interior da ilha que somos, ou da nossa interioridade simbólica, é um lá fora que, em última análise, nada altera o sentimento de intimidade, de conforto, de plenitude que nos confere a ideia do cá dentro.
Eduardo Lourenço, "Lá fora e cá dentro, ou o fim de uma obsessão". In Destroços. o Gibão de Mestre Gil e Outros Ensaios. Lisboa, Gradiva, 2004, p. 162-163.
Eu podia ter poupado estas considerações pleonásticas, repetindo-me e sintetizando tudo, como já o fiz: somos uma ilha. Quer dizer, independentemente da nossa situação geográfica ou do lugar que nós desenhamos na História ou a História nos desenhou, vivemo-nos como uma ilha. A expressão cá dentro dá forma a esse viver connosco, a esse estar connosco, cercados de mundo, que visto e sentido do interior da ilha que somos, ou da nossa interioridade simbólica, é um lá fora que, em última análise, nada altera o sentimento de intimidade, de conforto, de plenitude que nos confere a ideia do cá dentro.
Eduardo Lourenço, "Lá fora e cá dentro, ou o fim de uma obsessão". In Destroços. o Gibão de Mestre Gil e Outros Ensaios. Lisboa, Gradiva, 2004, p. 162-163.
sábado, 7 de setembro de 2013
Muitos foram os povos cujas cidades observou. Homero
Fala-me, Musa, do homem astuto que tanto vagueou,
depois que de Tróia destruiu a cidadela sagrada.
Muitos foram os povos cujas cidades observou,
cujos espíritos conheceu; e foram muito no mar
os sofrimentos por que passou para salvar a vida,
para conseguir o retorno dos companheiros a suas casas.
Mas a eles, embora o quisesse, não logrou salvar.
Não, pereceram devido à sua loucura,
insensatos, que devoraram o gado sagrado de Hiperíon,
o Sol - e assim lhe negou o deus o dia do retorno.
Destas coisas fala-nos agora, ó deusa, filha de Zeus.
Nesse tempo, já todos quantos fugiram à morte escarpada
se encontravam em casa, salvos da guerra e do mar.
Só àquele, que tanto desejava regressar à mulher,
Calipso, ninfa divina entre as deusas, retinha
em côncavas grutas, ansiosa que se tornasse seu marido.
Mas quando chegou o ano (depois de passados muitos outros)
no qual decretaram os deuses que ele a Ítaca regressasse,
nem aí, mesmo entre o seu povo, afastou as provações.
E todos os deuses se compadeceram dele,
todos menos Posídon: e até que sua terra alcançasse,
o deus não domou a ira contra o divino Ulisses.
Homero, Odisseia. Canto I. Tradução de Frederico Lourenço. Lisboa, Livros Cotovia, 2003, p. 25.
depois que de Tróia destruiu a cidadela sagrada.
Muitos foram os povos cujas cidades observou,
cujos espíritos conheceu; e foram muito no mar
os sofrimentos por que passou para salvar a vida,
para conseguir o retorno dos companheiros a suas casas.
Mas a eles, embora o quisesse, não logrou salvar.
Não, pereceram devido à sua loucura,
insensatos, que devoraram o gado sagrado de Hiperíon,
o Sol - e assim lhe negou o deus o dia do retorno.
Destas coisas fala-nos agora, ó deusa, filha de Zeus.
Nesse tempo, já todos quantos fugiram à morte escarpada
se encontravam em casa, salvos da guerra e do mar.
Só àquele, que tanto desejava regressar à mulher,
Calipso, ninfa divina entre as deusas, retinha
em côncavas grutas, ansiosa que se tornasse seu marido.
Mas quando chegou o ano (depois de passados muitos outros)
no qual decretaram os deuses que ele a Ítaca regressasse,
nem aí, mesmo entre o seu povo, afastou as provações.
E todos os deuses se compadeceram dele,
todos menos Posídon: e até que sua terra alcançasse,
o deus não domou a ira contra o divino Ulisses.
Homero, Odisseia. Canto I. Tradução de Frederico Lourenço. Lisboa, Livros Cotovia, 2003, p. 25.
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