domingo, 8 de setembro de 2013

Vivemo-nos como uma ilha. Eduardo Lourenço

Mas seria apressado concluir que essa expressão lá fora não tem função alguma. É em relação a ela, no interior da sua referência indeterminada e vazia, que o cá dentro ocupa o espaço inteiro da nossa identidade, simultaneamente efectiva e afectiva, real e imaginária.
Eu podia ter poupado estas considerações pleonásticas, repetindo-me e sintetizando tudo, como já o fiz: somos uma ilha. Quer dizer, independentemente da nossa situação geográfica ou do lugar que nós desenhamos na História ou a História nos desenhou, vivemo-nos como uma ilha. A expressão cá dentro dá forma a esse viver connosco, a esse estar connosco, cercados de mundo, que visto e sentido do interior da ilha que somos, ou da nossa interioridade simbólica, é um lá fora que, em última análise, nada altera o sentimento de intimidade, de conforto, de plenitude que nos confere a ideia do cá dentro.

Eduardo Lourenço, "Lá fora e cá dentro, ou o fim de uma obsessão". In Destroços. o Gibão de Mestre Gil e Outros Ensaios. Lisboa, Gradiva, 2004, p. 162-163.

sábado, 7 de setembro de 2013

Muitos foram os povos cujas cidades observou. Homero

Fala-me, Musa, do homem astuto que tanto vagueou,
depois que de Tróia destruiu a cidadela sagrada.
Muitos foram os povos cujas cidades observou,
cujos espíritos conheceu; e foram muito no mar
os sofrimentos por que passou para salvar a vida,
para conseguir o retorno dos companheiros a suas casas.
Mas a eles, embora o quisesse, não logrou salvar.
Não, pereceram devido à sua loucura,
insensatos, que devoraram o gado sagrado de Hiperíon,
o Sol - e assim lhe negou o deus o dia do retorno.
Destas coisas fala-nos agora, ó deusa, filha de Zeus.

Nesse tempo, já todos quantos fugiram à morte escarpada
se encontravam em casa, salvos da guerra e do mar.
Só àquele, que tanto desejava regressar à mulher,
Calipso, ninfa divina entre as deusas, retinha
em côncavas grutas, ansiosa que se tornasse seu marido.
Mas quando chegou o ano (depois de passados muitos outros)
no qual decretaram os deuses que ele a Ítaca regressasse,
nem aí, mesmo entre o seu povo, afastou as provações.
E todos os deuses se compadeceram dele,
todos menos Posídon: e até que sua terra alcançasse,
o deus não domou a ira contra o divino Ulisses.

Homero, Odisseia. Canto I. Tradução de Frederico Lourenço. Lisboa, Livros Cotovia, 2003, p. 25.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

O fogo funesto produziu um enorme fragor. Viagem de Orfeu

Então, sob as velas, preparei bolos de cevada,
lancei-os na fogueira e ofereci as vítimas aos manes,
pois havia sacrificado três pequenos cães de pêlo negro.
Ao sangue misturei vitríolo, marmelo,
açafrão fendido, tanchagem desagradável ao paladar,
raízes vermelhas e crisântemos. Em seguida,
enchi o ventre dos cães e coloquei-os na fogueira,
reguei com água as entranhas e espalhei-as à volta
da fossa aberta no chão. Vesti uma capa escura
e fiz uma prece, percutindo um bronze odioso.
Elas ouviram de imediato, rompendo
as cavernas do abismo onde não há risos,
Tisífone, Alecto e a divina Megera, projectando
com as suas tochas acesas um clarão de sangue.
A fossa imediatamente ficou iluminada e o fogo funesto
produziu um enorme fragor. Um fumo negro
elevou-se no ar em alto vapor. Imediatamente
do Hades, através do fogo, se ergueram
as tenebrosas Erínias, cruéis, terríveis. A primeira, à qual
os habitantes dos Infernos chamam Pandora,
tinha o corpo de ferro. Com ela vinha
uma criatura de de aspecto variável, com três cabeças,
monstro funesto à vista,
indivisível: Hécate, a filha do Tártaro.
Do seu ombro esquerdo saía
um cavalo de longas crinas; à direita,
estava uma cadela olhando com olhar feroz
e, no meio, apresentava um aspecto selvagem.
Nas duas mãos tinha espadas guarnecidas de guardas.
Aqui e ali, Pandora e Hécate rodavam em círculo
à volta da fossa, e as Vingadoras acompanhavam-nas.

A Viagem de Orfeu. Evocação dos monstros.
Antologia da Poesia Grega Clássica. Tradução e notas complementares de Albano Martins. Lisboa, Portugália Editora, 2009, p. 471-472.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Paragem demasiado breve para beber um copo. Georges Simenon

O comboio saíra de Groninga há um quarto de hora. Como eram quatro horas e meia e já anoitecia, não se dispunha do recurso do olhar pela portinhola. Kess Popinga estava instalado num compartimento de segunda classe com duas outras pessoas: um homenzinho magro que devia ser oficial de diligencias ou ajudante de tabelião e, no canto oposto, uma mulher de certa idade, de luto pesado.
A mão de Kess, metida numa algibeira, encontrou por acaso uma pequena agenda encadernada em marroquim vermelho, dourada nos topos das folhas, que ele comprara por um florim a fim de aí anotar  as suas partidas de xadrês mais difíceis.
O gesto nada tinha de extraordinário. Kess estava absolutamente inactivo. Na agenda, ainda só havia duas partidas anotadas, ou seja, duas páginas cobertas de sinais convencionais.
Então, aconteceu que ele pegou no lápis metido na encadernação e escreveu:
- Saí de Groninga no comboio das 16h07.
Em seguida, tornou a enfiar a agenda no bolso, só a retomando após a estacão de Sneek para acrescentar:
- Paragem demasiado breve para beber um copo.
Ora, muito mais tarde, esta agenda, estas notas iriam servir aos alienistas para estabelecer que, desde a sua partida de Groninga, ele estava louco!

Georges Simenon, O Homem Que Via Passar os Comboios. Lisboa, Dom Quixote, 2002, p. 35.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

No es más que hablar. Fialho de Almeida

- Se eu tinha viajado em Espanha?
Todo o espanhol é sedentário e bairrista, porém o português quase que o excede... De resto, para um português viajar em Espanha, é percorrer um pouco a sua terra. "Espanhóis, resumiu ela, somos todos nós os peninsulares".
E de repente, voltando-se para mim - se eu era ibérico?
Cuido ter feito um gesto que, imperceptível embora, contudo a minha interpelante colheu, al primer vuelo, medindo nele a patriotice chocada em leituras de Filipa de Vilhena e outros canastrões teatrais arqui-sandeus.
- No se moleste usted. No es más que hablar, contraveio logo com o mais gracioso gesto de acalmia. E foi dizendo:
- Tinha sido o erro de Filipe II, tão grande político, não transferir logo para Lisboa a capital o reino unido. Se assim tem feito, Portugal e Espanha estariam hoje abraçados numa nacionalidade única e pujante, o que evitaria e ambos a decadência funesta que durando vem até ao presente.

Fialho de Almeida, "Coronado", In Aves Migradoras. Lisboa, Clássica Editora, 1921, p. 243-244.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Pedi um subsidio de viagem. Luís Sttau Monteiro

Pedi um subsídio de viagem à Fundação Mosca e vai comprei um bilhete de eléctrico e mais outro e mais outro porque é bestialmente difícil ir da Graça à Feiras das Indústrias que é uma que há e não há sim porque há em nome mas não há como devia haver porque não tem homens a vender churros tachos de barro sardinhas assadas e frangos queimados e quem é que já ouviu falar de uma feira assim? é o que diz o meu Pai estas coisas que metem autoridades perdem logo a graça toda porque as autoridades andam engravatadas e não gostam de sardinha assada mas enfim o melhor é eu continuar fui lá a essa feira das tais indústrias e pediram-me logo dinheiro à porta para eu entrar mas não me disseram para que colónia balnear é que ia o dinheiro ora isso é uma grandessíssima indecência porque quem paga um bilhete para entrar num feira tem todo o direito de saber para que colónia balnear é que vai o seu plim

Luis Sttau Monteiro, "Tive uma bolsa para ir à exposição do design" (A Mosca, 10 de Março de 1973. In A Guidinha Antes e Depois. Lisboa, O Independente, 2004, p. 91.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Em todo o caso era impressionante ver a Cidade Monstro adormecida... José Rodrigues Miguéis

Sabia já, por carta amiga, que eles estavam a chegar por via marítima, em grupo, para erguer e montar o pavilhão português da Feira mundial, a ser inaugurada em breve. Ausente havia cinco anos, e num estado de nervos que lhe exacerbava todos os afectos, a notícia trazia-o alvoroçado e impaciente: Se eles queriam vê-lo? E como o acolheriam se...? Por isso, naquela tarde, o telefonema, sem o surpreender, foi uma surpresa: pela coragem do alto funcionário que ousava infringir a regra do ostracismo. "Já cá estão! – disse ele. – Venha vê-los esta noite ao Martinique!" (hotel algo suspeito, mas tal fora a decisão oficial...). Correu a procurá-los logo depois de jantar. O encontro foi eufórico. Receberam-no rindo, de braços abertos, como amigos velhos. O Bernardo [Marques] e a Ofélia, o Fred [Kradolfer] e a Astrid, o Zé Rocha e a Selam enfim unidos, o Carlos [Botelho] (sem a Dona Brites, que pena!), e além deles Anahory, celibatário. Estavam os mesmos, pareciam felizes, e o Ontem fez-se Hoje de repente. Só faltava o Arquitecto, que seguia à risca as instruções do Chefe. Este, ainda a bordo, reunira-os e falara assim: "Eu sei que vocês são todos amigos do Expatriado, e hão-de querer encontrar-se com ele. Mas, pelo amor de Deus, façam-no discretamente, onde isso não dê nas vistas! Eu admiro-o muito, mas o sorriso dele, o nariz bicudo, bastam para o tornar subversivo!" E a primeira coisa que eles faziam, queridos!, era chamá-lo. Ainda mais enternecido ficou ao sabê-lo.
Tomaram uns drinks, ele bebeu com sofreguidão as impressões da Pátria, depois subiram aos quartos, no décimo quinto andar. O Benardo, ao ver da varanda corrida as ruas desertas àquela hora, empalideceu: "Que silêncio!" Fosse ele em pleno dia... Ou em Paris! Em todo o caso era impressionante ver a Cidade Monstro adormecida... Conversaram até tarde. A ele, solitário num mundo de acção e luta onde era um zero, traziam-lhe uma rajada de passado, afinal recente, em que ele julgara ser alguém; um calor de amizade, de camaradagem, e a ilusão dum convívio que afinal fora sempre, apenas, ocasional. Ele, acanhado ou estranho, pouco frequentava aquela roda turbulenta em que amarguras e frustrações se exprimiam por meio da agitação clónica, da loucura mansa: gritos, pulos, cantoria descompassada e desafinada, poses parisienses de "quadros-vivos"... ( O Poeta estava sempre ausente, e a esposa pouco aparecia.) Mas o tempo e a distancia, agora subitamente telescopados, aproximavam-nos, transfiguravam tudo, tornavam caloroso o que fora apenas tempo íntimo.
[ ...]
Eles andavam muito ocupados com os trabalhos do pavilhão*, mas encontravam-se sempre que podiam. Conversavam e riam muito, interminavelmente. Correram a Cidade, as alfurjas e os bairros de luxo, os parques e os museus, as pontes e os arranha-céus; deram a volta a Manhattan e foram até ao extremo de Long Island Sound no vapor das excursões, tiraram fotos no Jardim Zoológico. New York tinha e tem de tudo para todos os gostos e emoções: atrai e repele, horroriza e atemoriza. Lessem eles o que o Lorca surrealista escreveu em Poeta en Nueva York!

José Rodrigues Miguéis, "Reencontro em Babilónia" (Diário Popular, 25 de Outubro de 1973. In A Amargura dos Contrastes, Lisboa, O Independente, 2004, p. 11-13.


*O texto refere-se com toda a probabilidade à presença portuguesa na Feira Mundial de Nova Iorque, inaugurada a 8 de Maio de 1939, tendo o pavilhão português sido desenhado pelo Arq. Jorge Segurado.

domingo, 1 de setembro de 2013

Samarcanda. Fernando Pessoa

Tenho diante de mim as duas páginas grandes do livro pesado; ergo da sua inclinação na carteira velha, com os olhos cansados, uma alma mais cansada do que os olhos. Para além do nada que isto representa, o armazém, até à Rua dos Douradores, enfileira as prateleiras regulares, os empregados regulares, a ordem humana e o sossego do vulgar. Na vidraça há o ruído do diverso, e o ruído diverso é vulgar, como o sossego que está ao pé das prateleiras.
Baixo olhos novos sobre as duas páginas brancas, em que os meus números cuidadosos puseram resultados da sociedade. E, com um sorriso que guardo para meu, lembro que a vida, que tem estas páginas com nomes de fazendas e dinheiro, com os seus brancos, e os seus traços à régua e de letra, inclui também os grandes navegadores, os grandes santos, os poetas de todas as eras, todos eles sem escrita, a vasta prole expulsa dos que fazem a valia do mundo.
No próprio registo de um tecido que não sei o que seja se me abrem as portas do Indo e de Samarcanda, e a poesia da Pérsia, que não é de um lugar nem de outro, faz das suas quadras, desrimadas no terceiro verso, um apoio longínquo para o meu desassossego. Mas não me engano, escrevo, somo, e a escrita segue, feita normalmente por um empregado deste escritório.

Livro do Desassossego por Bernardo Soares.Vol.I. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982. P. 150.

sábado, 31 de agosto de 2013

Cidades mais desejadas. António Tabucchi

Mas também há as cidades do desejo. Reais, mas remotas, muitas vezes inalcançáveis ou marcadas pela nostalgia de um retorno impossível, estão encerradas numa espécie de feitiço que as transfigura até as tornar fantásticas. A pequena cidade de Combray de Proust, na realidade não muito longe de Paris, vive suspensa num tempo perdido. O Maradagal de O Conhecimento da Dor de Carlo Emílio Gadda é sem dúvida alguma uma zona da sua Lombardia Natal, tecida de remorsos, rancores, amores e nostalgia. A Dublin de Joyce, amada e odiada, revivida a partir de Zurique, é, de certo modo fantástica. Como o são a Lisboa de Pessoa, metáfora de um Molhe Absoluto a que o homem aporta para depois partir para o desconhecido, e mais ainda a inalcançável Samarcanda sonhada pelo seu heterónimo Bernardo Soares no Livro do Desassossego.
Talvez as cidades mais desejadas vivam nesta dimensão: de cidades verdadeiras tornaram-se na "ideia" de cidade.

António Tabucchi, Viagens e Outras Viagens. P. 196.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Estas coisas aprendem-se com o tempo e, sobretudo, viajando. António Tabucchi

Um lugar não é apenas "aquele lugar": aquele lugar somos um pouco também nós. Seja como for, sem o sabermos, trazíamo-lo dentro de nós e um dia, por acaso, chegamos lá. Chegamos no dia certo ou no dia errado, conforme, mas isso não,é responsabilidade do lugar, depende de nós. Depende de como lermos esse lugar, da nossa disponibilidade para o acolhemos dentro dos nossos olhos e dentro da nossa alma, de estarmos alegres ou melancólicos, eufóricos ou disfóricos, de sermos jovens ou velhos, de nos sentirmos bem ou de nos doer a barriga. Depende de quem somos no momento em que chegamos a esse lugar. Estas coisas aprendem-se com o tempo e, sobretudo, viajando. Mas, há muitos anos, quando fiz a minha primeira viagem aos Açores, ainda o não sabia.
"Reconheces-me tu, ar, cheio dos lugares que uma vez foram meus?" É um verso de Rainer Maria Rilke que neste livro é recorrente. Alguém está a regressar a um lugar que conheceu noutros tempos e pede ao ar (o espírito do lugar?) que o reconheça, porque ele próprio não reconhece já esses lugares. Não reconhece o que contemplou noutros tempos nem o que nesse tempo sentia ao contemplar: as suas emoções, o seu eu de então. Cada lugar a que chegamos de viagem é uma espécie de radiografia de nós próprios. Muitas vezes, ingenuamente, tiramos fotografias com a ilusão de levarmos alguma coisa connosco. Mas as imagens são apenas a pele, pura aparência: o que esse lugar provoca em nós ao contemplá-lo e vivê-lo não é fotografável. Acontece o mesmo com os sonhos. Impelidos pelo desejo de comunicar a emoção sentida a alguém e quase com espanto damo-nos conta de que a história daquele sonho era banal, era um sonho como outro qualquer: assim, ao contá-lo, não comunica nenhuma emoção, nem em quem nos escuta nem a nós próprios que o contamos. O que é que tinha então de tão especial para ter provocado tanta emoção? Nada. O importante daquele sonho não era o que acontecia, mas a maneira como o estávamos a viver: o sonho era a nossa própria emoção. Com um lugar é a mesma coisa. Contá-lo não significa descrevê-lo, mas conseguir transmitir, mesmo numa ínfima parte, as emoções que suscitou.

António Tabucchi, Viagens e Outras Viagens. P. 178-179.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Queria voltar à Grécia. Sophia de Mello Breyner Andersen

Apoderou-se de mim uma fúria de viajar. Mas acima de tudo queria voltar à Grécia, que foi para mim o deslumbramento inteiro e puro e onde me senti livre e com asas. A felicidade grega, a felicidade do mundo objectivo, sem a menor mancha de caso pessoal, é qualquer coisa de inimaginável e da qual só o Homero dá uma ideia.

Carta de Sophia para Jorge de Sena em 1964, citada por António Tabucchi, Viagens e Outras Viagens, 2013, p. 199

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Partir, chegar. António Tabucchi

"Muitas vezes imaginava partir. Via-me a subir para um daqueles comboios durante a noite, sorrateiramente... Levava comigo uma bagagem minúscula, o meu relógio de ponteiros fosforescentes e o meu livro de geografia" diz a personagem de um conto seu, "As tardes de sábado" [O Jogo do Reverso, 1988]. O infinitivo partir que imagens evoca em si? Quando começou a pensar que poderia olhar de novo para a sua vida?

É compreensível que um jovem, depois de ter passado a infância com o horizonte monótono do campo (ainda que seja a bonita campagna toscana) e um interminável ano da adolescência preso à cama por causa de uma doença num joelho e a sonhar com os livros de Stevenson e de Conrad que o meu tio me fornecia, é compreensível que esse jovem desejasse partir. Mas o que me decidiu a fazê-lo não foram os romances de viagens longínquas, foi um filme: La Dolce Vita de Frederico Fellini. O retrato da Itália que Fillini dava naquele filme impiedoso não correspondia ao que a Itália queria que um estudante liceal acreditasse. Depois do liceu não me senti com vontade de me inscrever logo na Universidade e preferi, com a cumplicidade do meu pai, ir para Paris. Naquele tempo não havia Erasmus e nós estudantes mantínhamo-nos a lavar pratos, além de que ser auditeur libre na Sorbonne não prometia uma carreira brilhante. Mas Paris trouxe consigo a descoberta do mundo ou pelo menos a descoberta de que o mundo é grande. Não é verdade que o mundo é pequeno. Também não é verdade que seja uma "aldeia global", como pretendem os meios de comunicação. O mundo é grande e diverso. Por isso é tão belo: porque é grande e diverso, e é impossível conhecê-lo todo.

"Estou aqui e ninguém me conhece, sou um rosto anónimo nesta multidão de rostos anónimos, estou aqui como podia estar noutro sítio, é a mesma coisa, e isto dá-me uma grande angústia e uma sensação de liberdade bela e supérflua, como um amor rejeitado" lê-se no conto "Any where out of the world" [Pequenos Equívocos sem Importância, 1985]. Chegar a um lugar: nascer também significa isso. Mas, depois, alguma coisa começa a ficar-nos apertada; então partimos. Embora não seja fácil encontrar um lugar que nos baste. A questão é essa: "conseguir que os lugares nos bastem". Por onde começar?

A literatura - disse um poeta - é a prova de que a vida não basta. Porque a literatura é uma forma mais de conhecimento. É como a viagem: é ima forma mais de conhecimento, várias formas de conhecimento. Muitas coisas podem bastar-nos, e devem bastar-nos, na vida: o amor, o trabalho, o dinheiro. Mas o desejo de conhecer nunca é suficiente, julgo eu. Pelo menos se temos vontade de conhecer.

António Tabucchi, Viagens e Outras Viagens. Lisboa, Dom Quixote, 2013, p. 13-14.