sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Estas coisas aprendem-se com o tempo e, sobretudo, viajando. António Tabucchi

Um lugar não é apenas "aquele lugar": aquele lugar somos um pouco também nós. Seja como for, sem o sabermos, trazíamo-lo dentro de nós e um dia, por acaso, chegamos lá. Chegamos no dia certo ou no dia errado, conforme, mas isso não,é responsabilidade do lugar, depende de nós. Depende de como lermos esse lugar, da nossa disponibilidade para o acolhemos dentro dos nossos olhos e dentro da nossa alma, de estarmos alegres ou melancólicos, eufóricos ou disfóricos, de sermos jovens ou velhos, de nos sentirmos bem ou de nos doer a barriga. Depende de quem somos no momento em que chegamos a esse lugar. Estas coisas aprendem-se com o tempo e, sobretudo, viajando. Mas, há muitos anos, quando fiz a minha primeira viagem aos Açores, ainda o não sabia.
"Reconheces-me tu, ar, cheio dos lugares que uma vez foram meus?" É um verso de Rainer Maria Rilke que neste livro é recorrente. Alguém está a regressar a um lugar que conheceu noutros tempos e pede ao ar (o espírito do lugar?) que o reconheça, porque ele próprio não reconhece já esses lugares. Não reconhece o que contemplou noutros tempos nem o que nesse tempo sentia ao contemplar: as suas emoções, o seu eu de então. Cada lugar a que chegamos de viagem é uma espécie de radiografia de nós próprios. Muitas vezes, ingenuamente, tiramos fotografias com a ilusão de levarmos alguma coisa connosco. Mas as imagens são apenas a pele, pura aparência: o que esse lugar provoca em nós ao contemplá-lo e vivê-lo não é fotografável. Acontece o mesmo com os sonhos. Impelidos pelo desejo de comunicar a emoção sentida a alguém e quase com espanto damo-nos conta de que a história daquele sonho era banal, era um sonho como outro qualquer: assim, ao contá-lo, não comunica nenhuma emoção, nem em quem nos escuta nem a nós próprios que o contamos. O que é que tinha então de tão especial para ter provocado tanta emoção? Nada. O importante daquele sonho não era o que acontecia, mas a maneira como o estávamos a viver: o sonho era a nossa própria emoção. Com um lugar é a mesma coisa. Contá-lo não significa descrevê-lo, mas conseguir transmitir, mesmo numa ínfima parte, as emoções que suscitou.

António Tabucchi, Viagens e Outras Viagens. P. 178-179.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Queria voltar à Grécia. Sophia de Mello Breyner Andersen

Apoderou-se de mim uma fúria de viajar. Mas acima de tudo queria voltar à Grécia, que foi para mim o deslumbramento inteiro e puro e onde me senti livre e com asas. A felicidade grega, a felicidade do mundo objectivo, sem a menor mancha de caso pessoal, é qualquer coisa de inimaginável e da qual só o Homero dá uma ideia.

Carta de Sophia para Jorge de Sena em 1964, citada por António Tabucchi, Viagens e Outras Viagens, 2013, p. 199

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Partir, chegar. António Tabucchi

"Muitas vezes imaginava partir. Via-me a subir para um daqueles comboios durante a noite, sorrateiramente... Levava comigo uma bagagem minúscula, o meu relógio de ponteiros fosforescentes e o meu livro de geografia" diz a personagem de um conto seu, "As tardes de sábado" [O Jogo do Reverso, 1988]. O infinitivo partir que imagens evoca em si? Quando começou a pensar que poderia olhar de novo para a sua vida?

É compreensível que um jovem, depois de ter passado a infância com o horizonte monótono do campo (ainda que seja a bonita campagna toscana) e um interminável ano da adolescência preso à cama por causa de uma doença num joelho e a sonhar com os livros de Stevenson e de Conrad que o meu tio me fornecia, é compreensível que esse jovem desejasse partir. Mas o que me decidiu a fazê-lo não foram os romances de viagens longínquas, foi um filme: La Dolce Vita de Frederico Fellini. O retrato da Itália que Fillini dava naquele filme impiedoso não correspondia ao que a Itália queria que um estudante liceal acreditasse. Depois do liceu não me senti com vontade de me inscrever logo na Universidade e preferi, com a cumplicidade do meu pai, ir para Paris. Naquele tempo não havia Erasmus e nós estudantes mantínhamo-nos a lavar pratos, além de que ser auditeur libre na Sorbonne não prometia uma carreira brilhante. Mas Paris trouxe consigo a descoberta do mundo ou pelo menos a descoberta de que o mundo é grande. Não é verdade que o mundo é pequeno. Também não é verdade que seja uma "aldeia global", como pretendem os meios de comunicação. O mundo é grande e diverso. Por isso é tão belo: porque é grande e diverso, e é impossível conhecê-lo todo.

"Estou aqui e ninguém me conhece, sou um rosto anónimo nesta multidão de rostos anónimos, estou aqui como podia estar noutro sítio, é a mesma coisa, e isto dá-me uma grande angústia e uma sensação de liberdade bela e supérflua, como um amor rejeitado" lê-se no conto "Any where out of the world" [Pequenos Equívocos sem Importância, 1985]. Chegar a um lugar: nascer também significa isso. Mas, depois, alguma coisa começa a ficar-nos apertada; então partimos. Embora não seja fácil encontrar um lugar que nos baste. A questão é essa: "conseguir que os lugares nos bastem". Por onde começar?

A literatura - disse um poeta - é a prova de que a vida não basta. Porque a literatura é uma forma mais de conhecimento. É como a viagem: é ima forma mais de conhecimento, várias formas de conhecimento. Muitas coisas podem bastar-nos, e devem bastar-nos, na vida: o amor, o trabalho, o dinheiro. Mas o desejo de conhecer nunca é suficiente, julgo eu. Pelo menos se temos vontade de conhecer.

António Tabucchi, Viagens e Outras Viagens. Lisboa, Dom Quixote, 2013, p. 13-14.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

O melhor remédio contra o tédio. Teixeira de Pascoaes

10 de Abril 1926
Lisboa

Queridíssimo amigo [Raul Brandão]:

Não tenho querido interromper os seus trabalhos com palavras minhas.
Jesus Cristo em Lisboa já está concluído? Assim seja!
Eu tenho andado preocupado com o exame para chauffeur. Fi-lo ontem e fiquei aprovado. Tenho, enfim, um modo de vida. Já sou mais do que um simples poeta melancólico. O que lhe digo é que é um exercício admirável guiar um carro! Faz um grande bem à saúde e é o melhor remédio contra o tédio. Os autos deviam vender-se nas farmácias e serem receitados pelos médicos, como as águas do Gerês ou do Vidago.
Agora preparo as minhas coisas para partir. Estou desejoso de me encontrar na minha aldeia, ao longo daquelas estradas ermas, numa corrida ideal, mas temperada pela prudência, para não haver quebra de ritmo nem de pernas.
Depois da sua partida, York House ficou bastante deserta. Só o Justino e a sua eterna mocidade espalha alguma luz no escuro interior deste convento. O Eça de Queirós continua a ser a mesma vela de cera de pavio mortiço e não sei que mais! Falta-me a língua. As meninas italianas já divagam, a estas horas, na Via Ápia e sob o Arco de Trajano, a recitar versos em grego aos fantasmas de Horácio e de Virgílio. A porta do seu quarto continua fechada. Nunca mais a sua figura me apareceu para imos tomar um café à Brasileira! O que me vale é estar próxima a minha partida. Tenciono sair daqui, na quinta-feira, de manhã, dia 15. Depois, aparecerei aí, para tratarmos, no Porto, da Renascença. Recebi uma carta muito interessante do Vicente Risco sobre a questão galaico-portuguesa, que vem ao encontro do nosso pensamento.
Todos os meus lhe recomendam muitíssimo e à Ex.ma Senhora D. Angelina. O Henrique envia-lhe muitas saudades e tem continuado a trabalhar no Poema, sempre admirável. Espero que ele vá comigo. Assim seja.
Abraço-o com a maior amizade,
Joaquim [Teixeira de Pascoaes]

Raul Brandão - Teixeira de Pascoaes: Correspondência. Recolha, transcrição, actualização de texto, introdução e notas de António Mateus Vilhena e Maria Emília Marques Mano. Lisboa, Quetzal Editores, 1994, p. 139-140.

sábado, 24 de agosto de 2013

Volto atrás nesta viagem. António Zambujo


Em quatro luas
À janela corre o tempo
Na memória o esquecimento
E a vontade de ficar
Em teus braços distraídos
Entreabertos nos sentidos
Do teu corpo a meditar

O desejo que esqueci
Dorme agora ao pé de ti
No teu sonho a murmurar
Guardo a luz da tua pele
Duas rosas, vinho e mel
Quatro luas sobre o mar

Volto atrás nesta viagem
À procura da coragem
Que renasce de te ver
No regresso da saudade
Eu encontro a felicidade
Que por ti vou aprender

Aldina Duarte/António Zambujo

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Talvez este livro nos sobreviva a ambos. James Joyce

22 de Dezembro de 1909
44 Fontenoy Street, Dublin

Minha querida Nora,
Envio-te por correio registado, expresso e seguro um presente de Natal. É o melhor que te posso oferecer (embora seja bem humilde, no fim de contas) em troca do teu amor sincero, genuíno e fiel. Pensei em todos os seus pormenores, deitado na cama à noite, ou durante viagens de carro por Dublin, e acho que ficou bem, mas mesmo que não te proporcione mais do que um leve rubor de satisfação, ou um breve sobressalto de alegria no teu coração afectuoso e fiel, eu já sentirei que todo o meu esforço foi altamente recompensado.
Talvez este livro que te envio agora nos sobreviva a ambos. Talvez os dedos de um jovem ou de uma jovem (filhos dos nossos filhos) venham um dia a folhear reverentemente estas folhas de pergaminho, quando os dois amantes cujas iniciais se entrelaçam na capa tenham desaparecido há muito da face da terra. Então, querida, nada restará dos nossos pobres corpos conduzidos pela paixão, e quem sabe onde estarão também as almas que pelos olhos desses corpos mutuamente se contemplavam. Eu pediria que a minha alma fosse espalhada ao vento, se Deus me permitisse pairar para sempre sobre uma estranha e solitária flor azul-escura humedecida pela chuva, erguida ao pé duma sebe silvestre de Aughrim ou Oranmore.

James Joyce, Cartas a Nora. Lisboa. Relógio d'Água, 2012, p. 108-109.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Devo perder a tua carta de hoje. James Joyce

27 de Novembro de de 1909
Dublin

Querida Nora,
Parto hoje à noite, dentro de momentos, para Belfast, e devo perder a tua carta de hoje. Escrevo-te amanhã, quando regressar. Sonha comigo. Teu amante
Jim

James Joyce, Cartas a Nora. Lisboa. Relógio d'Água, 2012, p. 84

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Dublin é uma cidade detestável. James Joyce

2 de Setembro de 1909
44 Fontenoy Street, Dublin

Querida Nora,
Não tive carta tua hoje e espero que não me tenhas escrito para Galway. Esqueci-me de te dizer para não o fazeres.
Estou num estado de confusão e fraqueza deploráveis, por ter feito o que te disse. Quando acordei, hoje de manhã, e me lembrei da carta que te escrevi ontem à noite, senti repugnância por mim mesmo. Contudo, se leres todas as minhas cartas desde o início poderás formar uma ideia do que sinto por ti.
Não houve um único dia destas minhas ferias que me tivesse dado prazer. A tua mãe reparou no meu hábito de suspirar e disse-me que isso me iria dar cabo do coração. Suponho que não me faça bem.
espero que andes a tomar cacau todos os dias e que assim engordes um pouco. Espero que saibas porque desejo isso.
Estou muitíssimo preocupado contigo, comigo, com a viagem de regresso e com a Eva. Espero que o Stannie me mande o suficiente para ambos.
Dublin é uma cidade detestável e as pessoas aqui repugnam-me profundamente. Estou tão agitado que quase não consigo comer nada.
Quando é que acaba esta maldita coisa? Quando é que poderei partir? Tenho o cérebro vazio. Estou incapaz de te escrever o que quer que seja esta noite.
Nora, meu "verdadeiro amor", tu tens mesmo de tomar conta de mim. Como é que me deixaste chegar a este estado? És capaz de me aceitar como sou, com os meus pecados e as minhas loucuras, e proteger-me da infelicidade? Se não o fizeres, sinto que a minha vida se vai desfazer em bocados. Hoje tive uma ideia mais louca do que o habitual. Pensei que gostava de ser chicoteado por ti. Gostava de ver os teus olhos a brilharem de cólera.
[...]
Jim

James Joyce, Cartas a Nora. Lisboa. Relógio dÁgua, 2012, p. 59-60

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Provavelmente até no Porto. Manuel António Pina

Uma cidade como esta

Para que conste, este cronista não nasceu em sítio nenhum

Clamam alguns ter nascido em determinado sítio, e daí reivindicam incertos orgulhos e pergaminhos. No Porto, por exemplo. Ou em Uagadugu. Ou em Tegucigalpa. Eu não vejo por que alguém possa pretender aproveitar do simples facto de ter nascido, tanto mais tratando-se, o nascimento, de um acontecimento para o qual o nascido apenas terá concorrido com uns vagos movimentos peristálticos, visto que o trabalho duro foi todo presumivelmente da mãe... E tanto mais que, também presumivelmente, ninguém lhe terá perguntado antes de nascer acerca do lugar onde o sucesso haveria, segundo a sua vontade, de dar-se. Se foi algo que não desejou nem quis e para o qual nada fez, porque haverá alguém de reivindicar o que quer que seja por ter sido desembolsado num determinado lugar? Mais se justificará então que o faça quem, em vez de simplesmente nascer num lugar, nele se tenha a si mesmo nascido, por decisão da vontade ou por indecisão do coração.
É público e notório que nascer é uma ocorrência que acontece a muita gente e nas mais dispersas latitudes.Provavelmente até no Porto. A misteriosa circunstância de tal facto, na generalidade dos casos, ocorrer no tempo e no lugar, leva a que qualquer nascido, até o mais desprovido, tenha por atributos ao menos um certo sítio e uma certa data, justamente por isso ditos "de nascimento". E se há quem possa reivindicar privilégios por ter nascido num determinado sítio (uma cidade, um país, um continente) também certamente haverá quem o possa fazer por, e a título de exemplo, ter nascido em 17 de Agosto de 1921 e mais nas particularidades horárias que tiverem sido as do caso.
Para que conste, este cronista não nasceu em sítio nenhum. Alguém, no caso a sua distante mãe, o nasceu onde ela calhou de estar, ou onde conseguiu chegar quando se lhe romperam vivamente as águas. Depois disso, ele próprio a si mesmo se foi nascendo em diversos sítios, uns exteriores outros interiores. Um deles, simultaneamente exterior e interior, foi o Porto. Aqui se nasceu ele, adolescente primeiro, adulto depois, ao longo de muitos e desencontrados anos, felizes uns, impenitentes outros, entre memórias, medos, exaltações, rostos, desejos, e tudo aquilo de que é cegamente feita e desfeita essa respirada coisa que é a vida. Tudo o que de si sabe, e também algumas coisas que não sabe, está preso a estas pedras, a estas ruas, a estas fachadas. E um dia, depois de morto, ele próprio há-de ser pedra, volúvel pedra, desta pedra, e há-de continuar a andar por aí nascendo-se - oxigénio, hidrogénio, carbono, azoto - por esta gente, por estes rumores de folhas, por estes frutos. Então será, não do Porto, mas o próprio Porto, ou ao menos uma parte, material e extrema, dele; ou uma cidade como esta.
Outros escreverão cânticos de amor, outros louvações ou imprecações. A ele basta-lhe escrever-se a si mesmo, inscrever-se. Basta-lhe lembrar. Basta-lhe acordar cada manhã sabendo que está em casa, conhecendo as paredes, os móveis, os livros. Ouvir os seus mortos, tocar os seus vivos.Quem o culpará, pois, se ficar em casa ou se, tendo partido, quiser regressar? E quem estranhará se, chamando-o pelo seu nome, ele se voltar e o seu rosto for como um rio passando?

Manuel António Pina
[Crónica publicada na revista Visão em 22 março de 2001]

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Morre lentamente quem não viaja. Pablo Neruda

Muere lentamente quien no viaja,
quien no lee, quien no escucha música,
quien no halla encanto en si mismo.

Muere lentamente quien destruye su amor propio,
quien no se deja ayudar.

Muere lentamente quien se transforma en esclavo del habito, repitiendo todos los días los mismos senderos,
quien no cambia de rutina,
no se arriesga a vestir un nuevo color
o no conversa con desconocidos.

Muere lentamente quien evita una pasión
Y su remolino de emociones,
Aquellas que rescatan el brillo en los ojos
y los corazones decaidos.

Muere lentamente quien no cambia de vida cuando está insatisfecho con su trabajo o su amor,
Quien no arriesga lo seguro por lo incierto
para ir detrás de un sueño,
quien no se permite al menos una vez en la vida huir de los consejos sensatos…
¡Vive hoy! - ¡Haz hoy!
¡Ariesga hoy!
¡No te dejes morir lentamente!
¡No te olvides de ser feliz!

Pablo Neruda