segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Morre lentamente quem não viaja. Pablo Neruda

Muere lentamente quien no viaja,
quien no lee, quien no escucha música,
quien no halla encanto en si mismo.

Muere lentamente quien destruye su amor propio,
quien no se deja ayudar.

Muere lentamente quien se transforma en esclavo del habito, repitiendo todos los días los mismos senderos,
quien no cambia de rutina,
no se arriesga a vestir un nuevo color
o no conversa con desconocidos.

Muere lentamente quien evita una pasión
Y su remolino de emociones,
Aquellas que rescatan el brillo en los ojos
y los corazones decaidos.

Muere lentamente quien no cambia de vida cuando está insatisfecho con su trabajo o su amor,
Quien no arriesga lo seguro por lo incierto
para ir detrás de un sueño,
quien no se permite al menos una vez en la vida huir de los consejos sensatos…
¡Vive hoy! - ¡Haz hoy!
¡Ariesga hoy!
¡No te dejes morir lentamente!
¡No te olvides de ser feliz!

Pablo Neruda

domingo, 18 de agosto de 2013

Marinheiro sem mar. Sophia de Mello Breyner Andersen


Marinheiro Sem Mar

Longe o marinheiro tem
Uma serena praia de mãos puras
Mas perdido caminha nas obscuras
Ruas da cidade sem piedade

Todas as cidades são navios
Carregados de cães uivando à lua
Carregados de anões e mortos frios

E ele vai balouçando como um mastro
Aos seus ombros apoiam-se as esquinas
Vai sem aves nem ondas repentinas
Somente sombras nadam no seu rastro.

Nas confusas redes do seu pensamento
Prendem-se obscuras medusas
Morta cai a noite com o vento

E sobe por escadas escondidas
E vira por ruas sem nome
Pela própria escuridão conduzido
Com pupilas transparentes e de vidro

Vai nos contínuos corredores
Onde os polvos da sombra o estrangulam
E as luzes como peixes voadores
O alucinam.

Porque ele tem um navio mas sem mastros
Porque o mar secou
Porque o destino apagou
O seu nome dos astros
Porque o seu caminho foi perdido
O seu triunfo vendido
E ele tem as mãos pesadas de desastres

E é em vão que ele se ergue entre os sinais
Buscando a luz da madrugada pura
Chamando pelo vento que há nos cais

Nenhum mar lavará o nojo do seu rosto
As imagens são eternas e precisas
Em vão chamará pelo vento
Que a direito corre pelas praias lisas

Ele morrerá sem mar e sem navios
Sem rumo distante e sem mastros esguios
Morrerá entre paredes cinzentas
Pedaços de braços e restos de cabeças
Boiarão na penumbra das madrugadas lentas


E ao Norte e ao Sul
E ao Leste e ao Poente
Os quatro cavalos do vento
Sacodem as suas crinas

E o espírito do mar pergunta:

“Que é feito daquele
Para quem eu guardava um reino puro
De espaço e de vazio
De ondas brancas e fundas
E de verde frio?”

Ele não dormirá na areia lisa
Entre medusas, conchas e corais

Ele dormirá na podridão
E ao Norte e ao Sul
E ao Leste e ao Poente
Os quatro cavalos do vento
Exactos e transparentes
O esquecerão

Porque ele se perdeu do que era eterno
E separou o seu corpo da unidade
E se entregou ao tempo dividido
Das ruas sem piedade.

Sophia de Mello Breyner Andersen

sábado, 17 de agosto de 2013

O frio especial das manhãs de viagem. Álvaro de Campos

O frio especial das manhãs de viagem,
A angústia da partida, carnal no arrepanhar
Que vai do coração à pele,
Que chora virtualmente embora alegre.

Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). P. 87.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Repouso na fuga para o Egipto. João Bénard da Costa

O tema costuma ser pintado à luz do dia ou à luz do entardecer. No óleo de Elsheimer (se há, não me lembro de outra representação semelhante) a Sagrada Família descansa à noite. Aliás, não é ela, quase toda no escuro, quem se impõe a atenção, embora esteja no centro da placa. Em noite tão cerrada, em meio a tão brumoso e manso bosque, duas fontes de luz convocaram-me primeiro. À esquerda, a fogueira acesa por uns quantos pastores, que ainda não repararam na aproximação dos foragidos, concentrados numa labuta mais tardia. À direita, a lua muito cheia, reflectida nas águas de um lago, tão redonda no céu, onde acabou de nascer, como nas águas onde se começou a reflectir. Só depois reparei numa terceira fonte que noctiluz. É uma tocha na mão de S. José, que provavelmente lhe serviu para guiar os passos do burrito, depois do escurecer e antes do nascimento da lua. Só então observei que, sem essa tocha, pouco visível e virada para o solo, nem veríamos a Virgem, que ele se prepara para ajudar a descer, nem o Menino que traz ao colo. O luar ainda não chegou até eles e grandes árvores, muito frondosas, interpõem-se entre eles e a fogueira dos camponeses. As copas das árvores formam uma diagonal que desce da esquerda alta, onde estão os pastores, até à direita baixa das águas do lago. Diagonal paralela à Via Láctea que se vê no céu. Mas a Sagrada Família vem da direita e seguirá para a esquerda, depois de passar a noite, ali, onde há água para beber e onde não se descortina sinal de perigo.
Adam Elsheimer, The Rest on The Flight into Egypt. 1609

O único Evangelista que refere essa fuga é São Mateus. Após descrever a visita dos Magos e antes de contar do massacre dos inocentes, diz: "Depois que partiram, o Anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse-lhe: 'Levanta-te, toma o Menino e Sua Mãe e foge para o Egipto. Fica lá até eu mandar, pois que Herodes procura o Menino para o matar. José levantou-se, tomou de noite o Menino e Sua Mãe e retirou-se para o Egipto, onde ficou até à morte de Herodes. Assim se cumpriu o oráculo profético do Senhor: "Do Egipto, chamei o meu filho" (Mt. I, 2, 13-15). Mas o episódio do descanso, que tanto inspirou os pintores, não é referido. A inspiração veio-lhes de um apócrifo, o chamado Evangelho do Pseudo-Mateus, também conhecido como Evangelho da Infância. Nele se lê:
"Dois dias depois após a partida, aconteceu que Maria, no deserto, sofreu com o excessivo calor do sol e, vendo uma palmeira, desejou repousar um pouco à sombra dela. José apressou-se a conduzi-la até à palmeira e ajudou-a a descer da montada. Quando Maria se sentou, levantou os olhos para a folhagem da palmeira, viu-a carregada de frutos e disse: "Oh, se fosse possível que eu comesse os frutos desta palmeira!". José disse-lhe: " Mulher, o teu desejo espanta-me, pois bem vês como a palmeira é alta. Tu pensas nos frutos da palmeira, eu penso na água que começa a escassear nos nossos odres e não sei onde os encher para extinguir a nossa sede." Então, o Menino Jesus, sentado ao colo de Sua Mãe, a Virgem, disse à palmeira: "Árvore, inclina-te e reconforta a minha mãe com os teus frutos." Palavras não eram ditas, a palmeira inclinou-se até aos pés de Maria e, depois de colhidos os frutos que nela estavam, todos se reconfortaram. Mas após todos os frutos terem sido colhidos, a árvore continuou pendente e, esperando, para se levantar, ordens daquele que lhe tinha ordenado que se inclinasse. Então Jesus disse-lhe: 'Levanta-te, palmeira, fortifica-te e junta-te às árvores que possuo no paraíso do Meu Pai. Faz brotar das tuas raízes fontes ocultas, donde corra a água que nos sacie'. Imediatamente, a palmeira se levantou e das suas raízes brotou água límpida, fresca e dulcíssima". Se o texto serviu de inspiração, nunca foi tomado muito à letra, dada a heterodoxia da origem. Mas as palmeiras são árvores constantes em quase todos os "repousos na fuga para o Egipto", bem como fontes, lagos, riachos que não faltavam com água a quem tinha que atravessar desertos.

João Bénard da Costa, "A noite de Ceres", in Crónicas: Imagens Proféticas e Outras. 2º vol. Lisboa, Assírio & Alvim, 2010, p. 120-121.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

De Marc Augé a Maria Gabriela Llansol. Eduardo Prado Coelho

Qual a tese principal do livro [Non Lieux: Introduction à une Anthropologie de la Surmodernité]? Marc Augé vai começar por definir os lugares antropológicos - que são aqueles que fazem sentido para quem lá vive (assistimos a uma espécie de privatização de "lugares de memória") e por isso mesmo são princípios de inteligibilidade para o antropólogo que os observa. Como defini-los? Por três características: são lugares que sustentam uma identidade, que permitem desenvolver estruturas de relação (isto é, o confronto com o Outro) e que têm uma estabilidade histórica regulada por festas, comemorações, rituais, monumentos. Em torno de lugares antropológicos pode-se instituir uma rede de referências, através de itinerários, encruzilhadas, centros, que são formas de interferência entre a temática individual e a temática colectiva.
E assim chegamos ao ponto fundamental: "Se um lugar se pode definir como gerador de identidade, relacional e histórico, um espaço que se não possa definir como gerador de identidade, nem como relacional, nem como histórico, será então um não-lugar. A hipótese defendida é que a sobre-modernidade é produtora de "não-lugares". Estamos assim num mundo destinado " à individualidade solitária, à passagem, ao provisório e ao efémero.
Aliás o espaço do viajante é o arquétipo do não-lugar. E se os lugares antropológicos criam social-orgânico, os não-lugares desenvolvem um espécie de contratualidade solitária.
Pergunta: será que pela leitura de certos escritores mágicos (como a Maria Gabriela Llansol) seremos capazes de reinventar o suporte vivo de lugares como a casa, o jardim, o pinhal, o mar, o quarto?

Eduardo Prado Coelho, Tudo o Que Não Escrevi. Diário II (1992). Vol. 2. 2a edição. Lisboa, Asa, 2008, p. 22-23.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Para Enid o mundo resume-se a Inglaterra. Alice Vieira

Sente que o casamento não vai bem.
Decidem então fazer uma viagem, para ambos se afastarem por algum tempo de todas as pressões, das editoras, dos prazos a cumprir, da vida social, do clima de Inglaterra.
Em Outubro de 1930, embarcam no Stella Polaris, num cruzeiro que os há-de levar à Ilha da Madeira e às ilhas Canárias, com passagem por Lisboa.
Enid não é grande amante de viagens.
Nunca há-de ser.
Para ela, o mundo resume-se a Inglaterra. E os estrangeiros são sempre pessoas que bebem demais, que falam demais (e mal...), e com duvidosos hábitos de higiene.
"Onde quer que eu vá, e seja o que for que eu veja noutros países, sei sempre que gosto muito mais de Inglaterra", escreve numa das suas crónicas no Teacher's World (Outubro de 1930).
E ela que, com a descrição de um vulgar jardim, consegue encher páginas e páginas; que é uma conhecedora por excelência de plantas, pássaros e animais; que herdou do pai a paixão pela natureza - tem apenas uma breve descrição da Madeira, na carta semanal aos seus leitores (que publica assim que regressa) afirmando tratar-se do "lugar mais bonito que se possa imaginar", com "trepadeiras de um vermelho em brasa, árvores com flores roxas e casas pintadas a branco, amarelo, rosa e azul". Conta que desceu a encosta numa espécie de trenó - e publica a fotografia.
Da passagem por Lisboa guarda apenas a má recordação de ter sido "quase morta pelo pior motorista do mundo", de " não haver pássaros nas ruas porque os portugueses matam-nos e comem-nos", e do espectáculo de "cães e cavalos magros e mal tratados", terminando com uma exclamação dirigida aos pequenos leitores: "Bobs tem muita sorte em ser um cão inglês, em vez de um cão português, não acham?"

Alice Vieira, O Mundo de Enid Blyton. Lisboa, Texto, 2013, p. 65-66.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Sonhava. Jean-Arthur Rimbaud

Sonhava cruzadas, viagens a descobertas que não deixaram crónica, repúblicas sem história, lutas religiosas esmagadas, revoluções de costumes, migrações de raças e continentes: acreditava em todas as magias.

Jean-Arthur Rimbaud, Uma Época no Inferno. Versão portuguesa, prefacio e notas de Mário Cesariny de Vasconcelos. Lisboa, Portugália Editora, 1960, p. 63-64.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

domingo, 11 de agosto de 2013

sábado, 10 de agosto de 2013

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Nadir: em Chaves ou em Paris. Fernando Guedes

Só que, na verdade, o que se ia passando de menos espectacular, desde 1943 até 1950, era a abertura organizada da pintura portuguesa a uma modernidade autêntica e atuante.
Mas Nadir nem sempre esteve fisicamente presente. "Onde está Nadir?", perguntava-se, e a resposta era sabida: "Em Chaves ou em Paris". Mesmo que não estivesse em Chaves ou em Paris, era num desses locais que deveria estar.

Fernando Guedes, Nadir Afonso, Lisboa, Verbo, s/d. [1964?]