quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Nadir: em Chaves ou em Paris. Fernando Guedes

Só que, na verdade, o que se ia passando de menos espectacular, desde 1943 até 1950, era a abertura organizada da pintura portuguesa a uma modernidade autêntica e atuante.
Mas Nadir nem sempre esteve fisicamente presente. "Onde está Nadir?", perguntava-se, e a resposta era sabida: "Em Chaves ou em Paris". Mesmo que não estivesse em Chaves ou em Paris, era num desses locais que deveria estar.

Fernando Guedes, Nadir Afonso, Lisboa, Verbo, s/d. [1964?]

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Heffman não me abandone! Lygia Fagundes Telles

Heffman, a personagem principal da peça, era um estrangeiro que vinha de longe (Europa) e entrava assim como um facho de luz em meio daqueles jovens desorientados e perplexos, a perplexidade estava dentro e fora do palco. Assumindo a missão de fazer crescer (espécie de fermento, o próprio nome sugeria) aquela massa desencantada, depois de orientar e indicar caminhos, imprevistamente, assim como chegou o misterioso Heffman seguia para outras aventuras, viajante sem bagagem, Adeus, adeus! Antes deixava-se amar por todos, especialmente pela mocinha, uma pequena estudante sonhadora, desesperada porque vai perdê-lo: Heffman não me abandone! eu teria que dizer na ultima cena.
[...]
Tive toda a liberdade para ir levando a minha personagem, isso até aquela noite quando depois do ensaio ele [Alfredo Mesquita] me fez um sinal, queria falar comigo. E em voz baixa quis saber por que eu dizia Heffman, não me abandone! assim num tom de quem pede uma laranjada. É preciso botar mais força nessa súplica que deve ser pungente, é o seu amado que está indo embora, você não vai vê-lo nunca mais! Nunca mais!

Lygia Fagundes Telles, "Heffman", in Invenção e Memória. Nova edição. São Paulo, Companhia das Letras, 2009, p. 51-52.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Dois limões em férias. António Dacosta


António Dacosta, Dois limões em férias. 1983. Óleo sobre tela.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Dar a distinção entre o mar e água. João Miguel Fernandes Jorge

A pintura torna-se assim um caminho aberto ao infinito; as suas idas e vindas são ilusórias. Ela tem em si o ponto de partida para os extremos que o "dizer" permite, a cor consegue o que só na poesia o verso sabe fazer: dar a distinção entre o mar e água, tocar a diferença do chegar e do partir sobre a circunferência. A pintura de Dacosta vive desta complementaridade da imagem.

João Miguel Fernandes Jorge, Um Quarto Cheio de Espelhos, Lisboa, Quetzal Editores, 1987.

domingo, 4 de agosto de 2013

Chamo uma vez mais pelo Anjo Sublime para que ele me leve pelo caminho que corta o declive. Maria Gabriela Llansol

Porque toda a manhã creio que atravessei a abóbada da solidão humana; que um som, a realidade autêntica da língua, chama, por um caminho ladeado de barreiras, o seu génio animal. Nessa abóbada, há imaterial de grande qualidade que difunde o medo-fonte; poucos seres humanos têm inteligência afectiva. Chamo uma vez mais pelo Anjo Sublime para que ele me leve pelo caminho que corta o declive. Se eu soubesse qual era a verdadeira natureza do medo - o que ele nos ensina, e faz perder - morreria desta morte menos vezes; assim assombro os meus animais com esta voz alta do meu pensamento,
e digo-lhes
"apareceram os primeiros rebentos à árvore".
Ou ainda,
"a morte é dar como verdadeiro o que é".

Maria Gabriela Llansol, Cantileno. Lisboa, Relógio d'Água, 2000, p. 47.

sábado, 3 de agosto de 2013

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Veneza, a utopia. Jacques Beauchard

Em primeiro lugar, descobres em Calvino a forma como Veneza serve de referencia no seu percurso através de cidades invisíveis. Marcas encontro com Palomar, o seu porta-voz, sempre a elogiar as cidades contidas em círculos: encerradas nas suas muralhas, rodeadas de água, fecham-se sobre si próprias, isoladas, centradas no seu nome, exibem a sua identidade, distinguindo-se umas das outras pelos seus monumentos. Utopias patrimoniais do lugar urbano, os seus corpos dão origem à sociedade, o seu sítio e os seus costumes associam-se ara fazer de qualquer lugar um espelho de lugares habitados.  As cidades acolhem em simultâneo a riqueza e os homens, o comércio e as artes. Projectam-se numa série de círculos concêntricos no meio de um espaço vazio e muitas vezes hostil. Através do traçado em espiral das ruas, do percurso de gente que sobe degraus em caracol, do ventre redondo da torre ou do muro de protecção dos poços, das cúpulas, dos cones dos sinos, do espaço fechado dos terraços, ou ainda das colunas dos capitéis e dos anéis das mulheres, Palomar descreve figuras e objectos que, por efeito de redundância, remetem para a perfeição do círculo, símbolo da aliança. A forma das comunidades - e existem múltiplas - como das multidões, inscreve-se no circular, no fechado, no em-si, no centro e, enfim, na unanimidade: "Assim, em Anastásia, a cidade surge-te como um todo no qual nenhum desejo será perdido, e de que fazes parte, pois ela própria beneficia de tudo aquilo de que faças parte e uma vez que ele beneficia de tudo o que tu não beneficias, nada mais nos resta que habitar esse desejo e ser feliz." [Italo Calvino]. Os templos e os palácios, os mercados sob as arcadas, ordenam um lugar autárcico, uma forma global da cidade-círculo: a matriz. Todas estas utopias urbanas se reportam a Veneza, que, de todo o modo, as incarna.

Jacques Beauchard, Venise. Quand la Mer se Tient au Centre de la Ville. Paris, L'Harmattan, 2009. P. 13-14.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

E se estou adiando começar é também porque não tenho guia. Clarice Lispector

Será preciso coragem para fazer o que vou fazer: dizer. E me arriscar à enorme surpresa que sentirei com a pobreza da coisa dita. Mal a direi, e terei que acrescentar: não é isso, não é isso! Mas é preciso também não ter medo do ridículo, eu sempre preferi o menos ao mais por medo também do ridículo: é que há também o dilaceramento do pudor. Adio a hora de me falar. Por medo?
E porque não tenho uma palavra a dizer.
Não tenho uma palavra a dizer. Por que não me calo então? Ma se eu não forçar a palavra a mudez me engolfará para sempre em ondas. A palavra e a forma serão a tábua onde boiarei sobre vagalhões de mudez.
E se estou adiando começar é também porque não tenho guia. O relato de outros viajantes poucos fatos me oferecem a respeito da viagem: todas as informações são terrivelmente incompletas.

Clarice Lispector, A Paixão Segundo G. H. 2a edição. Lisboa, Relógio de Água, 2013.
P. 15-16.