sexta-feira, 21 de junho de 2013
quinta-feira, 20 de junho de 2013
Bastava aliás uma pessoa sentar-se num banco de uma praça e já via o Rio de Janeiro. Clarice Lispector
Era uma velha sequinha que, doce e obstinada, não parecia compreender que estava só no mundo. Os olhos lacrimejavam sempre, as mãos repousavam sobre o vestido preto e opaco, velho documento de sua vida. No tecido já endurecido encontravam-se pequenas crostas de pão coladas pela baba que lhe ressurgia agora em lembrança do berço. Lá estava uma nódoa amarelada, de um ovo que comera há duas semanas. E as marcas dos lugares onde dormia. Achava sempre onde dormir, casa de um, casa de outro. Quando lhe perguntavam o nome, dizia com a voz purificada pela fraqueza e por longuíssimos anos de boa educação:
— Mocinha.
As pessoas sorriam. Contente pelo interesse despertado, explicava:
— Nome, nome mesmo, é Margarida.
O corpo era pequeno, escuro, embora ela tivesse sido alta e clara. Tivera pai, mãe, marido, dois filhos. Todos aos poucos tinham morrido. Só ela restara com os olhos sujos e expectantes quase cobertos por um tênue veludo branco. Quando lhe davam alguma esmola davam-lhe pouca, pois ela era pequena e realmente não precisava comer muito. Quando lhe davam cama para dormir davam-na estreita e dura porque Margarida fora aos poucos perdendo volume. Ela também não agradecia muito: sorria e balançava a cabeça.
Dormia agora, não se sabia mais por que motivo, no quarto dos fundos de uma casa grande, numa rua larga cheia de árvores, em Botafogo. A família achava graça em Mocinha mas esquecia-se dela a maior parte do tempo. É que também se tratava de uma velha misteriosa. Levantava-se de madrugada, arrumava sua cama de anão e disparava lépida como se a casa estivesse pegando fogo. Ninguém sabia por onde andava. Um dia uma das moças da casa perguntou-lhe o que andava fazendo. Respondeu com um sorriso gentil:
— Passeando.
Acharam graça que uma velha, vivendo de caridade, andasse a passear. Mas era verdade. Mocinha nascera no Maranhão, onde sempre vivera. Viera para o Rio não há muito, com uma senhora muito boa que pretendia interná-la num asilo, mas depois não pudera ser: a senhora viajara para Minas e dera algum dinheiro para Mocinha se arrumar no Rio. E a velha passeava para ficar conhecendo a cidade. Bastava aliás uma pessoa sentar-se num banco de uma praça e já via o Rio de Janeiro.
Sua vida corria assim sem atropelos, quando a família da casa de Botafogo um dia surpreendeu-se de tê-la em casa há tanto tempo, e achou que assim também era demais. De algum modo tinham razão. Todos Iá eram muito ocupados, de vez em quando surgiam casamentos, festas, noivados, visitas. E quando passavam atarefados pela velha, ficavam surpreendidos como se fossem interrompidos, abordados com uma pancadinha no ombro: "olha!". Sobretudo uma das moças da casa sentia um mal-estar irritado, a velha enervava-a sem motivo. Sobretudo o sorriso permanente, embora a moça compreendesse tratar-se de um ricto inofensivo. Talvez por falta de tempo, ninguém falou no assunto. Mas logo que alguém cogitou de mandá-la morar em Petrópolis, na casa da cunhada alemã, houve uma adesão mais animada do que uma velha poderia provocar.
Quando, pois, o filho da casa foi com a namorada e as duas irmãs passar um fim-de-semana em Petrópolis, levou a velha no carro.
[...]
— Mocinha.
As pessoas sorriam. Contente pelo interesse despertado, explicava:
— Nome, nome mesmo, é Margarida.
O corpo era pequeno, escuro, embora ela tivesse sido alta e clara. Tivera pai, mãe, marido, dois filhos. Todos aos poucos tinham morrido. Só ela restara com os olhos sujos e expectantes quase cobertos por um tênue veludo branco. Quando lhe davam alguma esmola davam-lhe pouca, pois ela era pequena e realmente não precisava comer muito. Quando lhe davam cama para dormir davam-na estreita e dura porque Margarida fora aos poucos perdendo volume. Ela também não agradecia muito: sorria e balançava a cabeça.
Dormia agora, não se sabia mais por que motivo, no quarto dos fundos de uma casa grande, numa rua larga cheia de árvores, em Botafogo. A família achava graça em Mocinha mas esquecia-se dela a maior parte do tempo. É que também se tratava de uma velha misteriosa. Levantava-se de madrugada, arrumava sua cama de anão e disparava lépida como se a casa estivesse pegando fogo. Ninguém sabia por onde andava. Um dia uma das moças da casa perguntou-lhe o que andava fazendo. Respondeu com um sorriso gentil:
— Passeando.
Acharam graça que uma velha, vivendo de caridade, andasse a passear. Mas era verdade. Mocinha nascera no Maranhão, onde sempre vivera. Viera para o Rio não há muito, com uma senhora muito boa que pretendia interná-la num asilo, mas depois não pudera ser: a senhora viajara para Minas e dera algum dinheiro para Mocinha se arrumar no Rio. E a velha passeava para ficar conhecendo a cidade. Bastava aliás uma pessoa sentar-se num banco de uma praça e já via o Rio de Janeiro.
Sua vida corria assim sem atropelos, quando a família da casa de Botafogo um dia surpreendeu-se de tê-la em casa há tanto tempo, e achou que assim também era demais. De algum modo tinham razão. Todos Iá eram muito ocupados, de vez em quando surgiam casamentos, festas, noivados, visitas. E quando passavam atarefados pela velha, ficavam surpreendidos como se fossem interrompidos, abordados com uma pancadinha no ombro: "olha!". Sobretudo uma das moças da casa sentia um mal-estar irritado, a velha enervava-a sem motivo. Sobretudo o sorriso permanente, embora a moça compreendesse tratar-se de um ricto inofensivo. Talvez por falta de tempo, ninguém falou no assunto. Mas logo que alguém cogitou de mandá-la morar em Petrópolis, na casa da cunhada alemã, houve uma adesão mais animada do que uma velha poderia provocar.
Quando, pois, o filho da casa foi com a namorada e as duas irmãs passar um fim-de-semana em Petrópolis, levou a velha no carro.
[...]
Clarice Lispector, Viagem a Petrópolis.
quarta-feira, 19 de junho de 2013
Viagem de discurso de uma anarquista francesa ao Rio. Machado de Assis
Vamos ter, no ano próximo, uma visita de grande importância. Não é Leão XIII, nem Bismarck, nem Crispi, nem a rainha de Madagascar, nem o imperador da Alemanha, nem Verdi, nem o Marquês Ito, nem o Marechal Iamagata. Não é terremoto nem peste. Não é golpe de Estado nem cambio a 27. Para que mais delongas? Luísa Michel.
Li que um empresário americano contratou a diva da anarquia para fazer conferências nos Estados Unidos e na América do Sul. Há idéias que só podem nascer na cabeça de um norte-americano. Só a alma ianque é capaz de avaliar o que lhe renderá uma viagem de discurso daquela famosa mulher, que Paris rejeita e a quem Londres dá a hospedagem que distribui a todos, desde os Bourbons até os Barbès. De momento, não posso afirmar que Barbès estivesse em Londres; mas ponho-lhe aqui o nome, por se parecer com Bourbons e contrastar com eles nos princípios sociais e políticos. Assim se explicam muitos erros de data e de biografia: necessidades de estilo, equilíbrios de oração.
Desde que li a notícia da vinda de Luísa Michel ao Rio de Janeiro tenho estado a pensar no efeito do acontecimento. A primeira cousa que Luísa Michel verá, depois da nossa bela baía, é o cais Pharoux atulhado de gente curiosa, muda, espantada. A multidão far-lhe-á alas, com dificuldade, porque todos quererão vê-la de perto, a cor dos olhos, o modo de andar, a mala. Metida na cabeça com o empresário e o intérprete, irá para o Hotel dos Estrangeiros, onde terá aposentos cômodos e vastos. Os outros hóspedes, em vez de fugirem à companhia, quererão viver com ela, respirar o mesmo ar, ouvi-la falar de política, pedir-lhe notícias da comuna e outras instituições.
Dez minutos depois de alojada, receberá ela um cartão de pessoa que lhe deseja falar: é o nosso Luís de Castro que vai fazer a sue reportagem fluminense. Luísa Michel ficará admirada da correção com que o representante da Gazeta de Notícias fala francês. Perguntar-lhe-á se nasceu em França.
—Não, minha senhora, mas estive lá algum tempo; gosto de Paris. amo a língua francesa. Venho da parte da Gazeta de Notícias pare ouvi-la sobre alguns pontos; a entrevista sairá impressa amanhã, com o seu retrato. Pelo meu cartão, terá visto que somos xarás: a senhora é Luísa, eu sou Luís. Vamos, porém, ao que importa...
Acabada a entrevista, chegará um empresário de teatro, que vem oferecer a Luísa Michel um camarote para a noite seguinte. Um poeta irá apresentar-lhe o último livro de versos: Dilúvios Sociais. Três moças pedirão à diva o favor de lhe declarar se vencerá o carneiro ou o leão.
— O carneiro, minhas senhoras; o carneiro é o povo, há de vencer, e o leão será esmagado.
— Então não devemos comprar no leão?
— Não comprem nem vendam. Que é comprar? Que é vender? Tudo é de todos. Oh! esqueçam essas locuções, que só exprimem idéias tirânicas.
Logo depois virá uma comissão do Instituto Histórico, dizendo-lhe francamente que não aceita os princípios que ela defende, mas, desejando recolher documentos e depoimentos para a história pátria precisa saber até que ponto o anarquismo e o comunismo estão relacionados com esta parte da América. A diva responderá que por ora, além do caso Amapá, não há nada que se possa dizer verdadeiro comunismo aqui. Traz, porém, idéias destinadas a destruir e reconstituir a sociedade, e espera que o povo as recolha para o grande dia. A comissão diz que nada tem com a vitória futura, e retira-se.
É noite a diva quer jantar; está a cair de fome; mas anuncia-se outra comissão, e por mais que o empresário lhe diga que fica para outro dia ou volte depois de jantar, a comissão insiste em falar com Luísa Michel. Não vem só felicitá- la, vem tratar de altos interesses da revolução; pede-lhe apenas quinze minutos. Luísa Michel manda que a comissão entre.
— Madame, dirá um dos cinco membros, o principal motivo que nos traz aqui é o mais grave para nós. Vimos pedir que V. Ex.a nos ampare e proteja com a palavra que Deus lhe deu. Sabemos que V. Ex.a vem fazer a revolução, e nós a queremos, nós a pedimos...
— Perdão, venho só pregar idéias.
— Idéias bastam. Desde que pregue as boas idéias revolucionárias podemos considerar tudo feito. Madame, nós vimos pedir-lhe socorro contra os opressores que nos governam, que nos logram, que nos dominam, que nos empobrecem: os locatários. Somos representantes da União dos Proprietários. V. Exa. há de ter visto algumas casas ainda que poucas, com uma placa em que está o nome da associação que nos manda aqui.
Luisa Michel, com os olhos acesos, cheia de comoção, dirá que, tendo chegado agora mesmo, não teve tempo de olhar para as casas; pede à comissão que lhe conte tudo. Com que então os locatários?...
— São os senhores deste país, madame. Nós somos os servos; daí a nossa
União.
—Na Europa é o contrário, observa; os locatários, os proletários, os
refratários...
— Que diferença! Aqui somos nós que nos ligamos, e ainda assim poucos,
porque a maior parte tem medo e retrai-se. O inquilino é tudo. O menor defeito do inquilino, madame, é não pagar em dia; há-os que não pagam nunca, outros que mofam do dono da casa. Isto é novo, data de poucos anos. Nós vivemos há muito, e não vimos cousa assim. Imagine V. Exa.
— Então os locatários são tudo?
— Tudo e mais alguma cousa.
Luisa Michel, dando um salto: — Mas então a anarquia está feita, o comunismo está feito. — Justamente madame. É a anarquia...
—Santa anarquia, caballero, —interromperá a diva, dando este tratamento espanhol ao chefe da comissão,—santa, três vezes santa anarquia! Que me vindes pedir, vós outros, proprietários? que vos defenda os aluguéis? Mas que são aluguéis? Uma convenção precária, um instrumento de opressão, um abuso da força. Tolerado como a tortura, a fogueira e as prisões, os aluguéis têm de acabar como os demais suplícios. Vós estais quase no fim. Se vos ligais contra os locatários, é que a vossa perda é certa. O governo é dos inquilinos. Não são já os aristocratas que têm de ser enforcados: sereis vós:
Çà ira, çà ira, çà i'a,
Não entendendo mais que a última palavra, a comissão nem espera que o intérprete traduza todos os conceitos da grande anarquista; e, sem suspeitar que faz impudicamente um trocadilho ou cousa que o valha, jura que é falso, que os proprietários não põem lanternas nas casas, mas encanamentos de gás. Se o gás está caro, não é culpa deles, mas das contas belgas ou do gasto excessivo dos inquilinos. Há de ser engraçado se, além de perderem os aluguéis, tiverem de pagar o gás. E as penas d'água? as décimas? os consertos?
Luísa Michel aproveita uma pausa da comissão para soltar três vivas à anarquia e declarar ao empresário americano que embarcará no dia seguinte para ir pregar a outra parte. Não há que propagar neste país, onde os proprietários se acham em tão miserável e justa condição que já se unem contra os inquilinos; a obra aqui não precisava discursos. O empresário, indignado, saca do bolso o contrato e mostra-lho. Luísa Michel fuzila impropérios. Que são contratos? pergunta. O mesmo que aluguéis,—uma espoliação. Irrita-se o empresário e ameaça. A comissão procura aquietá-lo com palavras inglesas: Time is money, five o'clock... O intérprete perde-se nas traduções. Eu, mais feliz que todos, acabo a semana.
20 de Outubro de 1892
A Semana
Li que um empresário americano contratou a diva da anarquia para fazer conferências nos Estados Unidos e na América do Sul. Há idéias que só podem nascer na cabeça de um norte-americano. Só a alma ianque é capaz de avaliar o que lhe renderá uma viagem de discurso daquela famosa mulher, que Paris rejeita e a quem Londres dá a hospedagem que distribui a todos, desde os Bourbons até os Barbès. De momento, não posso afirmar que Barbès estivesse em Londres; mas ponho-lhe aqui o nome, por se parecer com Bourbons e contrastar com eles nos princípios sociais e políticos. Assim se explicam muitos erros de data e de biografia: necessidades de estilo, equilíbrios de oração.
Desde que li a notícia da vinda de Luísa Michel ao Rio de Janeiro tenho estado a pensar no efeito do acontecimento. A primeira cousa que Luísa Michel verá, depois da nossa bela baía, é o cais Pharoux atulhado de gente curiosa, muda, espantada. A multidão far-lhe-á alas, com dificuldade, porque todos quererão vê-la de perto, a cor dos olhos, o modo de andar, a mala. Metida na cabeça com o empresário e o intérprete, irá para o Hotel dos Estrangeiros, onde terá aposentos cômodos e vastos. Os outros hóspedes, em vez de fugirem à companhia, quererão viver com ela, respirar o mesmo ar, ouvi-la falar de política, pedir-lhe notícias da comuna e outras instituições.
Dez minutos depois de alojada, receberá ela um cartão de pessoa que lhe deseja falar: é o nosso Luís de Castro que vai fazer a sue reportagem fluminense. Luísa Michel ficará admirada da correção com que o representante da Gazeta de Notícias fala francês. Perguntar-lhe-á se nasceu em França.
—Não, minha senhora, mas estive lá algum tempo; gosto de Paris. amo a língua francesa. Venho da parte da Gazeta de Notícias pare ouvi-la sobre alguns pontos; a entrevista sairá impressa amanhã, com o seu retrato. Pelo meu cartão, terá visto que somos xarás: a senhora é Luísa, eu sou Luís. Vamos, porém, ao que importa...
Acabada a entrevista, chegará um empresário de teatro, que vem oferecer a Luísa Michel um camarote para a noite seguinte. Um poeta irá apresentar-lhe o último livro de versos: Dilúvios Sociais. Três moças pedirão à diva o favor de lhe declarar se vencerá o carneiro ou o leão.
— O carneiro, minhas senhoras; o carneiro é o povo, há de vencer, e o leão será esmagado.
— Então não devemos comprar no leão?
— Não comprem nem vendam. Que é comprar? Que é vender? Tudo é de todos. Oh! esqueçam essas locuções, que só exprimem idéias tirânicas.
Logo depois virá uma comissão do Instituto Histórico, dizendo-lhe francamente que não aceita os princípios que ela defende, mas, desejando recolher documentos e depoimentos para a história pátria precisa saber até que ponto o anarquismo e o comunismo estão relacionados com esta parte da América. A diva responderá que por ora, além do caso Amapá, não há nada que se possa dizer verdadeiro comunismo aqui. Traz, porém, idéias destinadas a destruir e reconstituir a sociedade, e espera que o povo as recolha para o grande dia. A comissão diz que nada tem com a vitória futura, e retira-se.
É noite a diva quer jantar; está a cair de fome; mas anuncia-se outra comissão, e por mais que o empresário lhe diga que fica para outro dia ou volte depois de jantar, a comissão insiste em falar com Luísa Michel. Não vem só felicitá- la, vem tratar de altos interesses da revolução; pede-lhe apenas quinze minutos. Luísa Michel manda que a comissão entre.
— Madame, dirá um dos cinco membros, o principal motivo que nos traz aqui é o mais grave para nós. Vimos pedir que V. Ex.a nos ampare e proteja com a palavra que Deus lhe deu. Sabemos que V. Ex.a vem fazer a revolução, e nós a queremos, nós a pedimos...
— Perdão, venho só pregar idéias.
— Idéias bastam. Desde que pregue as boas idéias revolucionárias podemos considerar tudo feito. Madame, nós vimos pedir-lhe socorro contra os opressores que nos governam, que nos logram, que nos dominam, que nos empobrecem: os locatários. Somos representantes da União dos Proprietários. V. Exa. há de ter visto algumas casas ainda que poucas, com uma placa em que está o nome da associação que nos manda aqui.
Luisa Michel, com os olhos acesos, cheia de comoção, dirá que, tendo chegado agora mesmo, não teve tempo de olhar para as casas; pede à comissão que lhe conte tudo. Com que então os locatários?...
— São os senhores deste país, madame. Nós somos os servos; daí a nossa
União.
—Na Europa é o contrário, observa; os locatários, os proletários, os
refratários...
— Que diferença! Aqui somos nós que nos ligamos, e ainda assim poucos,
porque a maior parte tem medo e retrai-se. O inquilino é tudo. O menor defeito do inquilino, madame, é não pagar em dia; há-os que não pagam nunca, outros que mofam do dono da casa. Isto é novo, data de poucos anos. Nós vivemos há muito, e não vimos cousa assim. Imagine V. Exa.
— Então os locatários são tudo?
— Tudo e mais alguma cousa.
Luisa Michel, dando um salto: — Mas então a anarquia está feita, o comunismo está feito. — Justamente madame. É a anarquia...
—Santa anarquia, caballero, —interromperá a diva, dando este tratamento espanhol ao chefe da comissão,—santa, três vezes santa anarquia! Que me vindes pedir, vós outros, proprietários? que vos defenda os aluguéis? Mas que são aluguéis? Uma convenção precária, um instrumento de opressão, um abuso da força. Tolerado como a tortura, a fogueira e as prisões, os aluguéis têm de acabar como os demais suplícios. Vós estais quase no fim. Se vos ligais contra os locatários, é que a vossa perda é certa. O governo é dos inquilinos. Não são já os aristocratas que têm de ser enforcados: sereis vós:
Çà ira, çà ira, çà i'a,
Não entendendo mais que a última palavra, a comissão nem espera que o intérprete traduza todos os conceitos da grande anarquista; e, sem suspeitar que faz impudicamente um trocadilho ou cousa que o valha, jura que é falso, que os proprietários não põem lanternas nas casas, mas encanamentos de gás. Se o gás está caro, não é culpa deles, mas das contas belgas ou do gasto excessivo dos inquilinos. Há de ser engraçado se, além de perderem os aluguéis, tiverem de pagar o gás. E as penas d'água? as décimas? os consertos?
Luísa Michel aproveita uma pausa da comissão para soltar três vivas à anarquia e declarar ao empresário americano que embarcará no dia seguinte para ir pregar a outra parte. Não há que propagar neste país, onde os proprietários se acham em tão miserável e justa condição que já se unem contra os inquilinos; a obra aqui não precisava discursos. O empresário, indignado, saca do bolso o contrato e mostra-lho. Luísa Michel fuzila impropérios. Que são contratos? pergunta. O mesmo que aluguéis,—uma espoliação. Irrita-se o empresário e ameaça. A comissão procura aquietá-lo com palavras inglesas: Time is money, five o'clock... O intérprete perde-se nas traduções. Eu, mais feliz que todos, acabo a semana.
20 de Outubro de 1892
A Semana
terça-feira, 18 de junho de 2013
Significados. Sena da Silva
Para um viajante sem preconceitos, uma imagem de uma rua sem gente, uma certa incidência do sol, um pequeno pormenor de atitude de um desconhecido que revele uma certa maneira de estar no mundo, podem ter um significado mais profundo que a rosácea da catedral ou a contemplação das obras primas do museu.
Sena da Silva
segunda-feira, 17 de junho de 2013
Não fui ver as festas. João Chagas
Resisti a todos os estímulos,a todos os convites,a todas as curiosidades e não fui ver as festas, não porque elas contrariassem os meus princípios, ou as minhas simpatias, mas, na realidade, porque sou - um sedentário.
Eu não sou um sedentário por enfermidade, ou por insociabilidade. Eu sou um sedentário por hábito. Há homens assim: eu só compreendo a vida em chinelos. A minha actividade é toda cerebral. Nenhuma actividade motora. A minha razão papa léguas. Todas as manhãs pelo menos dá um passeio higiénico, do real para o irreal, do abstracto para o concreto. É o que eu chamo fazer apetite para o almoço. O meu corpo não se move. Habito o planeta, mas não ocupo dentro dele mais espaço do que o meu prédio. Verdadeiramente, não atravanco o corpo social.
Por estas razões não fui ver as festas.
Em vão me foram feitos todo o género de convites - públicos e familiares. A todos resisti. A perspectiva do ar livre assustou-me como a de uma viva contrariedade pessoal. Já uma vez experimentei: é horrível. Sempre que vejo por cima da minha cabeça o céu, tenho a impressão de que estou perdido no Universo. O Chiado dá-me todas as vertigens do infinito.
Não fui.
Não fui, mas não se imagine que me desinteressei dos acontecimentos. Eu sou um sedentário, mas sou um ser social. Não saio de casa, mas tenho todas as curiosidades de uma praça pública. Não se dá em Lisboa uma desordem que eu não meta o nariz. O que faço é ler os jornais. Ah! os jornais são o meu vício. Ainda a manhã não desponta, e, quando toda a gente pede café com leite, já eu peço jornais. Todos os jornais! Não o faço por menos. Os médicos já mo proibiram, bem como ao tabaco. Durante algum tempo mesmo estive de dieta: lia só o Notícias. Depois consentiram-me as Novidades. Eu abusei e, daí a pouco, voltava à mesma. Atribuo a isso a minha dispepsia.
Se não fui portanto à festas, aguardei com frenesi os jornais. Todo eu era curiosidade - porque negá-lo? As festas para mim eram os jornais. Ler os jornais ou ver as festas não era a mesma coisa: era melhor. Afinal, do Chiado, recebendo empurrões, cotoveladas, patadas, o que veria eu? Uma face apenas, fugitiva, de um grande facto. Da cama via-o por todos os lados.
[...]
Ai de mim. Os jornais completamente malograram a minha expectativa!
Eu esperava impressões. Os jornais deram-me nomes. Eu esperava sensações. Or jornais deram-me números.
Li, reli nesses dias festivos toda a imprensa quotidiana e não vi - nada!
[...]
A minha decepção foi enorme - a minha decepção e o meu despeito. Desde que me votei ao regime celular da vida sedentária, e a primeira vez que a deploro. Eu perdi - reconheço-o - um curioso espectáculo.
O prestígio a imprensa moderna e não sei se o hábito de ler jornais franceses, tinham-me em descanso. Em verdade eu não saía, porque me não era preciso sair. Os jornais saíam por mim e vinham com pontualidade a minha casa contar-me nula linguagem expressiva o espectáculo das coisas e dos homens. Que mais queria eu? Era prático, cómodo e poupava-me calçado.
Depois do meu insucesso não caio noutra. Já mandei fazer um lar de botas e vou sair, recuperar o mundo externo e o ar livre. Se me deixo ficar em casa, que ideia farei eu dentro em pouco da vida e da civilização? Através dos jornais que me informam, dentro em pouco eu não teria da vida senão uma concepção algébrica e da civilização a ideia extravagante de que nela passaram a predominar os cocheiros e os polícias.
Para as minhas necessidades cívicas já mandei assinar o Diário do Governo. Para o resto, de futuro, prescindo de jornais. De futuro, o meu jornal - sou eu.
João Chagas, "Monólogo de Sedentário", in Posta Restante. Cartas a Toda a Gente. Lisboa, Livraria Editora Viuva Tavares Cardoso, 1906, p. 191-198.
Eu não sou um sedentário por enfermidade, ou por insociabilidade. Eu sou um sedentário por hábito. Há homens assim: eu só compreendo a vida em chinelos. A minha actividade é toda cerebral. Nenhuma actividade motora. A minha razão papa léguas. Todas as manhãs pelo menos dá um passeio higiénico, do real para o irreal, do abstracto para o concreto. É o que eu chamo fazer apetite para o almoço. O meu corpo não se move. Habito o planeta, mas não ocupo dentro dele mais espaço do que o meu prédio. Verdadeiramente, não atravanco o corpo social.
Por estas razões não fui ver as festas.
Em vão me foram feitos todo o género de convites - públicos e familiares. A todos resisti. A perspectiva do ar livre assustou-me como a de uma viva contrariedade pessoal. Já uma vez experimentei: é horrível. Sempre que vejo por cima da minha cabeça o céu, tenho a impressão de que estou perdido no Universo. O Chiado dá-me todas as vertigens do infinito.
Não fui.
Não fui, mas não se imagine que me desinteressei dos acontecimentos. Eu sou um sedentário, mas sou um ser social. Não saio de casa, mas tenho todas as curiosidades de uma praça pública. Não se dá em Lisboa uma desordem que eu não meta o nariz. O que faço é ler os jornais. Ah! os jornais são o meu vício. Ainda a manhã não desponta, e, quando toda a gente pede café com leite, já eu peço jornais. Todos os jornais! Não o faço por menos. Os médicos já mo proibiram, bem como ao tabaco. Durante algum tempo mesmo estive de dieta: lia só o Notícias. Depois consentiram-me as Novidades. Eu abusei e, daí a pouco, voltava à mesma. Atribuo a isso a minha dispepsia.
Se não fui portanto à festas, aguardei com frenesi os jornais. Todo eu era curiosidade - porque negá-lo? As festas para mim eram os jornais. Ler os jornais ou ver as festas não era a mesma coisa: era melhor. Afinal, do Chiado, recebendo empurrões, cotoveladas, patadas, o que veria eu? Uma face apenas, fugitiva, de um grande facto. Da cama via-o por todos os lados.
[...]
Ai de mim. Os jornais completamente malograram a minha expectativa!
Eu esperava impressões. Os jornais deram-me nomes. Eu esperava sensações. Or jornais deram-me números.
Li, reli nesses dias festivos toda a imprensa quotidiana e não vi - nada!
[...]
A minha decepção foi enorme - a minha decepção e o meu despeito. Desde que me votei ao regime celular da vida sedentária, e a primeira vez que a deploro. Eu perdi - reconheço-o - um curioso espectáculo.
O prestígio a imprensa moderna e não sei se o hábito de ler jornais franceses, tinham-me em descanso. Em verdade eu não saía, porque me não era preciso sair. Os jornais saíam por mim e vinham com pontualidade a minha casa contar-me nula linguagem expressiva o espectáculo das coisas e dos homens. Que mais queria eu? Era prático, cómodo e poupava-me calçado.
Depois do meu insucesso não caio noutra. Já mandei fazer um lar de botas e vou sair, recuperar o mundo externo e o ar livre. Se me deixo ficar em casa, que ideia farei eu dentro em pouco da vida e da civilização? Através dos jornais que me informam, dentro em pouco eu não teria da vida senão uma concepção algébrica e da civilização a ideia extravagante de que nela passaram a predominar os cocheiros e os polícias.
Para as minhas necessidades cívicas já mandei assinar o Diário do Governo. Para o resto, de futuro, prescindo de jornais. De futuro, o meu jornal - sou eu.
João Chagas, "Monólogo de Sedentário", in Posta Restante. Cartas a Toda a Gente. Lisboa, Livraria Editora Viuva Tavares Cardoso, 1906, p. 191-198.
domingo, 16 de junho de 2013
Viagem pelos outros. Mia Couto
Em particular, dedico esta distinção a José Craveirinha que nos ensinou, por via da poesia, que o sermos cultural e linguisticamente múltiplos não nos converte em seres divididos e fragmentados. Ao inverso, nós somos criaturas repartidas, capazes de viajar entre esse arquipélago de identidades de que se constitui a alma moçambicana. Celebro convosco o gosto por essa errância de quem sabe que apenas na viagem pelos outros encontraremos raiz e morada.
Mia Couto, texto de agradecimento do prémio União Latina, publicado pelo Jornal de Letras Artes e Ideias, n. 954, de 25 de Abril de 2007.
Mia Couto, texto de agradecimento do prémio União Latina, publicado pelo Jornal de Letras Artes e Ideias, n. 954, de 25 de Abril de 2007.
sábado, 15 de junho de 2013
Viajante de identidades. Mia Couto
Um escritor é um ser que deve estar aberto a viajar por outras experiências, outras culturas, outras vidas. Deve estar disponível para se negar a si mesmo. Porque assim ele viaja entre identidades. E é isso que um escritor é - um viajante de identidades, um contrabandista de almas. Não há escritor que não partilhe dessa condição: uma criatura de fronteira, alguém que vive junto ã janela que se abre para os territórios da interioridade.
Mia Couto, Pensatempos, citado por Agripino Carriço Vieira, "Mia Couto, salteador de fronteiras", Jornal de Letras Artes e Ideias, n. 1114, 12 de Junho se 2013.
Mia Couto, Pensatempos, citado por Agripino Carriço Vieira, "Mia Couto, salteador de fronteiras", Jornal de Letras Artes e Ideias, n. 1114, 12 de Junho se 2013.
sexta-feira, 14 de junho de 2013
A viagem... Mia Couto
A viagem não começa quando se percorrem distâncias, mas quando se atravessam as nossas fronteiras interiores.
Mia Couto, O Outro Pé de Sereia, citado por Agripino Carriço Vieira, "Mia Couto, salteador de fronteiras", Jornal de Letras Artes e Ideias, n. 1114, 12 de Junho se 2013.
Mia Couto, O Outro Pé de Sereia, citado por Agripino Carriço Vieira, "Mia Couto, salteador de fronteiras", Jornal de Letras Artes e Ideias, n. 1114, 12 de Junho se 2013.
quinta-feira, 13 de junho de 2013
Só a tua lava me lava. Mia Couto
Fogo e água
Cansa-me ser quem serei
porque em tudo esse outro
se parece com o que sou.
Cansa-me o adeus de quem nasce.
E a viagem, à nascença, morre de fadiga.
Só a tua lava me lava.
Resto eu em ti
terra ardendo,
chão de água e fogo.
Abraça-me.
Abrasa-me.
Mia Couto, "Quatro poemas inéditos", in Jornal de Letras Artes e Ideias, n. 1114, 12 de Junho se 2013.
Cansa-me ser quem serei
porque em tudo esse outro
se parece com o que sou.
Cansa-me o adeus de quem nasce.
E a viagem, à nascença, morre de fadiga.
Só a tua lava me lava.
Resto eu em ti
terra ardendo,
chão de água e fogo.
Abraça-me.
Abrasa-me.
Mia Couto, "Quatro poemas inéditos", in Jornal de Letras Artes e Ideias, n. 1114, 12 de Junho se 2013.
quarta-feira, 12 de junho de 2013
O afastamento de resto permite ver melhor o tabuleiro nacional. Andrée Crabbé Rocha
Já nos narradores de viagens de quinhentos era flagrante a sobreposição contínua de palpáveis imagens nacionais (bichos, frutos ou doçura dos ares) nas impressões colhidas. Pelos tempos fora, persistirá, até nos maiores, a concreta saudade de recantos, tipos ou manjares portugueses. O afastamento de resto permite ver melhor o "tabuleiro nacional". Como dizia chãmente Eça de Queirós a Ramalho, de Havana: "Estar longe é uma grande telescópio para as virtudes da terra onde se vestiu a primeira camisa". Mas é ainda, quando o amor foi ferido, um grande telescópio para ver os vícios. Para os que escorraçou, a pátria funciona como reduto da anti-aventura. Conferindo lembranças antigas com experiências novas, olham para as primeiras com maior penetração. E, diga-se também, com maior liberdade.
Andrée Crabbé Rocha, A Epistolografia em Portugal. Coimbra, 1965, p. 16. Citado por Jacinto do Prado Coelho, A Originalidade da Literatura Portuguesa. 3ª edição. Lisboa, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1992, p. 88.
terça-feira, 11 de junho de 2013
Viajante incessante do inverso. Sophia de Mello Breyner Andresen
Cíclades
A claridade frontal do lugar impõe-me a tua presença
O teu nome emerge como se aqui
O negativo que foste de ti se revelasse
Viveste no avesso
Viajante incessante do inverso
Isento de ti próprio
Viúvo de ti próprio
Em Lisboa cenário da vida
E eras o inquilino de um quarto alugado por cima de uma leitaria
O empregado competente de uma casa Comercial
O frequentador irónico delicado e cortês dos cafés da Baixa
O visionário discreto dos cafés virados para o Tejo
(Onde ainda no mármore das mesas
Buscamos o rastro frio das tuas mãos
— O imperceptível dedilhar das tuas mãos)
Esquartejado pelas fúrias do não-vivido
À margem de ti dos outros e da vida
Mantiveste em dia os teus cadernos todos
Com meticulosa exactidão desenhaste os mapas
Das múltiplas navegações da tua ausência —
Aquilo que não foi nem foste ficou dito
Como ilha surgida a barlavento
Com prumos sondas astrolábios bússolas
Procedeste ao levantamento do desterro
Nasceste depois
E alguém gastara em si toda a verdade
O caminho da Índia já fora descoberto
Dos deuses só restava
O incerto perpassar
No murmúrio e no cheiro das paisagens
E tinhas muitos rostos
Para que não sendo ninguém dissesses tudo
Viajavas no avesso no inverso no adverso
Porém obstinada eu invoco — ó dividido —
O instante que te unisse,
E celebro a tua chegada às ilhas onde jamais vieste
Estes são os arquipélagos que derivam ao longo do teu rosto
Estes são os rápidos golfinhos da tua alegria
Que os deuses não te deram nem quiseste
Este é o pais onde a carne das estátuas como choupos estremece
Atravessada pelo respirar leve da luz
Aqui brilha o azul-respiração das coisas
Nas praias onde há um espelho voltado para o mar
Aqui o enigma que me interroga desde sempre
E mais nu e veemente e por isso te invoco:
«Porque foram quebrados os teus gestos?
Quem te cercou de muros e de abismos?
Quem derramou no chão os teus segredos?»
Invoco-te como se chegasses neste barco
E poisasses os teus pés nas ilhas
E a sua excessiva proximidade te invadisse
Como um rosto amado debruçado sobre ti
No estio deste lugar chamo por ti
Que hibernaste a própria vida como o animal na estaçao adversa
Que te quiseste distante como quem ante o quadro pra melhor ver recua
E quiseste a distância que sofreste
Chamo por ti — reúno os destroços as ruínas os pedaços —
Porque o mundo estalou como pedreira
E no chão rolam capitéis e braços
Colunas divididas estilhaços
E da ânfora resta o espalhamento de cacos
Perante os quais os deuses se tornam estrangeiros
Porém aqui as deusas cor de trigo
Erguem a longa harpa dos seus dedos
E encantam 0 sol azul onde te invoco
Onde invoco a palavra impessoal da tua ausência
Pudesse o instante da festa romper o teu luto
Ó viúvo de ti mesmo
E que ser e estar coincidissem
No um da boda
Como se o teu navio te esperasse em Thasos
Como se Penélope
Nos seus quartos altos
Entre seus cabelos te fiasse
1972
Sophia de Mello Breyner Andresen. Os Poemas Sobre Pessoa. Lisboa, Caminho, 2012, p. 39-42.
A claridade frontal do lugar impõe-me a tua presença
O teu nome emerge como se aqui
O negativo que foste de ti se revelasse
Viveste no avesso
Viajante incessante do inverso
Isento de ti próprio
Viúvo de ti próprio
Em Lisboa cenário da vida
E eras o inquilino de um quarto alugado por cima de uma leitaria
O empregado competente de uma casa Comercial
O frequentador irónico delicado e cortês dos cafés da Baixa
O visionário discreto dos cafés virados para o Tejo
(Onde ainda no mármore das mesas
Buscamos o rastro frio das tuas mãos
— O imperceptível dedilhar das tuas mãos)
Esquartejado pelas fúrias do não-vivido
À margem de ti dos outros e da vida
Mantiveste em dia os teus cadernos todos
Com meticulosa exactidão desenhaste os mapas
Das múltiplas navegações da tua ausência —
Aquilo que não foi nem foste ficou dito
Como ilha surgida a barlavento
Com prumos sondas astrolábios bússolas
Procedeste ao levantamento do desterro
Nasceste depois
E alguém gastara em si toda a verdade
O caminho da Índia já fora descoberto
Dos deuses só restava
O incerto perpassar
No murmúrio e no cheiro das paisagens
E tinhas muitos rostos
Para que não sendo ninguém dissesses tudo
Viajavas no avesso no inverso no adverso
Porém obstinada eu invoco — ó dividido —
O instante que te unisse,
E celebro a tua chegada às ilhas onde jamais vieste
Estes são os arquipélagos que derivam ao longo do teu rosto
Estes são os rápidos golfinhos da tua alegria
Que os deuses não te deram nem quiseste
Este é o pais onde a carne das estátuas como choupos estremece
Atravessada pelo respirar leve da luz
Aqui brilha o azul-respiração das coisas
Nas praias onde há um espelho voltado para o mar
Aqui o enigma que me interroga desde sempre
E mais nu e veemente e por isso te invoco:
«Porque foram quebrados os teus gestos?
Quem te cercou de muros e de abismos?
Quem derramou no chão os teus segredos?»
Invoco-te como se chegasses neste barco
E poisasses os teus pés nas ilhas
E a sua excessiva proximidade te invadisse
Como um rosto amado debruçado sobre ti
No estio deste lugar chamo por ti
Que hibernaste a própria vida como o animal na estaçao adversa
Que te quiseste distante como quem ante o quadro pra melhor ver recua
E quiseste a distância que sofreste
Chamo por ti — reúno os destroços as ruínas os pedaços —
Porque o mundo estalou como pedreira
E no chão rolam capitéis e braços
Colunas divididas estilhaços
E da ânfora resta o espalhamento de cacos
Perante os quais os deuses se tornam estrangeiros
Porém aqui as deusas cor de trigo
Erguem a longa harpa dos seus dedos
E encantam 0 sol azul onde te invoco
Onde invoco a palavra impessoal da tua ausência
Pudesse o instante da festa romper o teu luto
Ó viúvo de ti mesmo
E que ser e estar coincidissem
No um da boda
Como se o teu navio te esperasse em Thasos
Como se Penélope
Nos seus quartos altos
Entre seus cabelos te fiasse
1972
Sophia de Mello Breyner Andresen. Os Poemas Sobre Pessoa. Lisboa, Caminho, 2012, p. 39-42.
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