Mia Couto, texto de agradecimento do prémio União Latina, publicado pelo Jornal de Letras Artes e Ideias, n. 954, de 25 de Abril de 2007.
domingo, 16 de junho de 2013
Viagem pelos outros. Mia Couto
Em particular, dedico esta distinção a José Craveirinha que nos ensinou, por via da poesia, que o sermos cultural e linguisticamente múltiplos não nos converte em seres divididos e fragmentados. Ao inverso, nós somos criaturas repartidas, capazes de viajar entre esse arquipélago de identidades de que se constitui a alma moçambicana. Celebro convosco o gosto por essa errância de quem sabe que apenas na viagem pelos outros encontraremos raiz e morada.
Mia Couto, texto de agradecimento do prémio União Latina, publicado pelo Jornal de Letras Artes e Ideias, n. 954, de 25 de Abril de 2007.
Mia Couto, texto de agradecimento do prémio União Latina, publicado pelo Jornal de Letras Artes e Ideias, n. 954, de 25 de Abril de 2007.
sábado, 15 de junho de 2013
Viajante de identidades. Mia Couto
Um escritor é um ser que deve estar aberto a viajar por outras experiências, outras culturas, outras vidas. Deve estar disponível para se negar a si mesmo. Porque assim ele viaja entre identidades. E é isso que um escritor é - um viajante de identidades, um contrabandista de almas. Não há escritor que não partilhe dessa condição: uma criatura de fronteira, alguém que vive junto ã janela que se abre para os territórios da interioridade.
Mia Couto, Pensatempos, citado por Agripino Carriço Vieira, "Mia Couto, salteador de fronteiras", Jornal de Letras Artes e Ideias, n. 1114, 12 de Junho se 2013.
Mia Couto, Pensatempos, citado por Agripino Carriço Vieira, "Mia Couto, salteador de fronteiras", Jornal de Letras Artes e Ideias, n. 1114, 12 de Junho se 2013.
sexta-feira, 14 de junho de 2013
A viagem... Mia Couto
A viagem não começa quando se percorrem distâncias, mas quando se atravessam as nossas fronteiras interiores.
Mia Couto, O Outro Pé de Sereia, citado por Agripino Carriço Vieira, "Mia Couto, salteador de fronteiras", Jornal de Letras Artes e Ideias, n. 1114, 12 de Junho se 2013.
Mia Couto, O Outro Pé de Sereia, citado por Agripino Carriço Vieira, "Mia Couto, salteador de fronteiras", Jornal de Letras Artes e Ideias, n. 1114, 12 de Junho se 2013.
quinta-feira, 13 de junho de 2013
Só a tua lava me lava. Mia Couto
Fogo e água
Cansa-me ser quem serei
porque em tudo esse outro
se parece com o que sou.
Cansa-me o adeus de quem nasce.
E a viagem, à nascença, morre de fadiga.
Só a tua lava me lava.
Resto eu em ti
terra ardendo,
chão de água e fogo.
Abraça-me.
Abrasa-me.
Mia Couto, "Quatro poemas inéditos", in Jornal de Letras Artes e Ideias, n. 1114, 12 de Junho se 2013.
Cansa-me ser quem serei
porque em tudo esse outro
se parece com o que sou.
Cansa-me o adeus de quem nasce.
E a viagem, à nascença, morre de fadiga.
Só a tua lava me lava.
Resto eu em ti
terra ardendo,
chão de água e fogo.
Abraça-me.
Abrasa-me.
Mia Couto, "Quatro poemas inéditos", in Jornal de Letras Artes e Ideias, n. 1114, 12 de Junho se 2013.
quarta-feira, 12 de junho de 2013
O afastamento de resto permite ver melhor o tabuleiro nacional. Andrée Crabbé Rocha
Já nos narradores de viagens de quinhentos era flagrante a sobreposição contínua de palpáveis imagens nacionais (bichos, frutos ou doçura dos ares) nas impressões colhidas. Pelos tempos fora, persistirá, até nos maiores, a concreta saudade de recantos, tipos ou manjares portugueses. O afastamento de resto permite ver melhor o "tabuleiro nacional". Como dizia chãmente Eça de Queirós a Ramalho, de Havana: "Estar longe é uma grande telescópio para as virtudes da terra onde se vestiu a primeira camisa". Mas é ainda, quando o amor foi ferido, um grande telescópio para ver os vícios. Para os que escorraçou, a pátria funciona como reduto da anti-aventura. Conferindo lembranças antigas com experiências novas, olham para as primeiras com maior penetração. E, diga-se também, com maior liberdade.
Andrée Crabbé Rocha, A Epistolografia em Portugal. Coimbra, 1965, p. 16. Citado por Jacinto do Prado Coelho, A Originalidade da Literatura Portuguesa. 3ª edição. Lisboa, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1992, p. 88.
terça-feira, 11 de junho de 2013
Viajante incessante do inverso. Sophia de Mello Breyner Andresen
Cíclades
A claridade frontal do lugar impõe-me a tua presença
O teu nome emerge como se aqui
O negativo que foste de ti se revelasse
Viveste no avesso
Viajante incessante do inverso
Isento de ti próprio
Viúvo de ti próprio
Em Lisboa cenário da vida
E eras o inquilino de um quarto alugado por cima de uma leitaria
O empregado competente de uma casa Comercial
O frequentador irónico delicado e cortês dos cafés da Baixa
O visionário discreto dos cafés virados para o Tejo
(Onde ainda no mármore das mesas
Buscamos o rastro frio das tuas mãos
— O imperceptível dedilhar das tuas mãos)
Esquartejado pelas fúrias do não-vivido
À margem de ti dos outros e da vida
Mantiveste em dia os teus cadernos todos
Com meticulosa exactidão desenhaste os mapas
Das múltiplas navegações da tua ausência —
Aquilo que não foi nem foste ficou dito
Como ilha surgida a barlavento
Com prumos sondas astrolábios bússolas
Procedeste ao levantamento do desterro
Nasceste depois
E alguém gastara em si toda a verdade
O caminho da Índia já fora descoberto
Dos deuses só restava
O incerto perpassar
No murmúrio e no cheiro das paisagens
E tinhas muitos rostos
Para que não sendo ninguém dissesses tudo
Viajavas no avesso no inverso no adverso
Porém obstinada eu invoco — ó dividido —
O instante que te unisse,
E celebro a tua chegada às ilhas onde jamais vieste
Estes são os arquipélagos que derivam ao longo do teu rosto
Estes são os rápidos golfinhos da tua alegria
Que os deuses não te deram nem quiseste
Este é o pais onde a carne das estátuas como choupos estremece
Atravessada pelo respirar leve da luz
Aqui brilha o azul-respiração das coisas
Nas praias onde há um espelho voltado para o mar
Aqui o enigma que me interroga desde sempre
E mais nu e veemente e por isso te invoco:
«Porque foram quebrados os teus gestos?
Quem te cercou de muros e de abismos?
Quem derramou no chão os teus segredos?»
Invoco-te como se chegasses neste barco
E poisasses os teus pés nas ilhas
E a sua excessiva proximidade te invadisse
Como um rosto amado debruçado sobre ti
No estio deste lugar chamo por ti
Que hibernaste a própria vida como o animal na estaçao adversa
Que te quiseste distante como quem ante o quadro pra melhor ver recua
E quiseste a distância que sofreste
Chamo por ti — reúno os destroços as ruínas os pedaços —
Porque o mundo estalou como pedreira
E no chão rolam capitéis e braços
Colunas divididas estilhaços
E da ânfora resta o espalhamento de cacos
Perante os quais os deuses se tornam estrangeiros
Porém aqui as deusas cor de trigo
Erguem a longa harpa dos seus dedos
E encantam 0 sol azul onde te invoco
Onde invoco a palavra impessoal da tua ausência
Pudesse o instante da festa romper o teu luto
Ó viúvo de ti mesmo
E que ser e estar coincidissem
No um da boda
Como se o teu navio te esperasse em Thasos
Como se Penélope
Nos seus quartos altos
Entre seus cabelos te fiasse
1972
Sophia de Mello Breyner Andresen. Os Poemas Sobre Pessoa. Lisboa, Caminho, 2012, p. 39-42.
A claridade frontal do lugar impõe-me a tua presença
O teu nome emerge como se aqui
O negativo que foste de ti se revelasse
Viveste no avesso
Viajante incessante do inverso
Isento de ti próprio
Viúvo de ti próprio
Em Lisboa cenário da vida
E eras o inquilino de um quarto alugado por cima de uma leitaria
O empregado competente de uma casa Comercial
O frequentador irónico delicado e cortês dos cafés da Baixa
O visionário discreto dos cafés virados para o Tejo
(Onde ainda no mármore das mesas
Buscamos o rastro frio das tuas mãos
— O imperceptível dedilhar das tuas mãos)
Esquartejado pelas fúrias do não-vivido
À margem de ti dos outros e da vida
Mantiveste em dia os teus cadernos todos
Com meticulosa exactidão desenhaste os mapas
Das múltiplas navegações da tua ausência —
Aquilo que não foi nem foste ficou dito
Como ilha surgida a barlavento
Com prumos sondas astrolábios bússolas
Procedeste ao levantamento do desterro
Nasceste depois
E alguém gastara em si toda a verdade
O caminho da Índia já fora descoberto
Dos deuses só restava
O incerto perpassar
No murmúrio e no cheiro das paisagens
E tinhas muitos rostos
Para que não sendo ninguém dissesses tudo
Viajavas no avesso no inverso no adverso
Porém obstinada eu invoco — ó dividido —
O instante que te unisse,
E celebro a tua chegada às ilhas onde jamais vieste
Estes são os arquipélagos que derivam ao longo do teu rosto
Estes são os rápidos golfinhos da tua alegria
Que os deuses não te deram nem quiseste
Este é o pais onde a carne das estátuas como choupos estremece
Atravessada pelo respirar leve da luz
Aqui brilha o azul-respiração das coisas
Nas praias onde há um espelho voltado para o mar
Aqui o enigma que me interroga desde sempre
E mais nu e veemente e por isso te invoco:
«Porque foram quebrados os teus gestos?
Quem te cercou de muros e de abismos?
Quem derramou no chão os teus segredos?»
Invoco-te como se chegasses neste barco
E poisasses os teus pés nas ilhas
E a sua excessiva proximidade te invadisse
Como um rosto amado debruçado sobre ti
No estio deste lugar chamo por ti
Que hibernaste a própria vida como o animal na estaçao adversa
Que te quiseste distante como quem ante o quadro pra melhor ver recua
E quiseste a distância que sofreste
Chamo por ti — reúno os destroços as ruínas os pedaços —
Porque o mundo estalou como pedreira
E no chão rolam capitéis e braços
Colunas divididas estilhaços
E da ânfora resta o espalhamento de cacos
Perante os quais os deuses se tornam estrangeiros
Porém aqui as deusas cor de trigo
Erguem a longa harpa dos seus dedos
E encantam 0 sol azul onde te invoco
Onde invoco a palavra impessoal da tua ausência
Pudesse o instante da festa romper o teu luto
Ó viúvo de ti mesmo
E que ser e estar coincidissem
No um da boda
Como se o teu navio te esperasse em Thasos
Como se Penélope
Nos seus quartos altos
Entre seus cabelos te fiasse
1972
Sophia de Mello Breyner Andresen. Os Poemas Sobre Pessoa. Lisboa, Caminho, 2012, p. 39-42.
domingo, 9 de junho de 2013
Elvas. 9 de Junho de 2013
Em Elvas, o Presidente ofereceu um almoço hoje a individualidades e instituições que se distinguiram em 2012 nas áreas da cultura e desporto. Foi aconselhado nessa escolha por um grupo de personalidades, entre as quais se incluíam Rui Nabeiro e Carlos Portas, por quem tenho grande estima e admiração. Guimarães 2012 esteve representada pelos arquitectos da empresa Pitágoras, autora do projecto da Plataforma das Artes, e pelo representante da Fundação Cidade de Guimarães.
sábado, 8 de junho de 2013
Acenei-lhe com um ramo de ervilhas de cheiro. Irene Lisboa
A sua partida adiada de semanas chegou enfim. Veio o tal dia, igual e diferente sempre, da multidão no cais, da gente à amurada, das ultimas conversas que mal se percebem... Com o aumento das velocidades este aspecto mole e sentimental das despedidas há-de acabar, mas por ora ainda é assim. Também eu surdi no cais e furei por meio da multidão com o meu raminho de flores. Descobri a bordo o rosto da dama do teatro. À luz da tarde e em traje de passeio parecia-me um pouco diferente, menos senhoril e preciosa. Helma não aparecia. Mas lá por fim, tímida e com um riso sem mira, apareceu por detrás de todos. Acenei-lhe com o meu ramo de ervilhas de cheiro até que o seu vago sorriso se fixou em mim.
Aquele sorriso era uma das tais coisas que me sensibilizavam.
Como me hei-de eu manter na delicada posição de preceptora que se respeita?, queria ele dizer ali. Esta posição era perturbada pelo contacto com os novos estranhos.
A despedida dos diplomatas, embora em férias, ainda era sublinhada por um elegante ramo de rosas e a dela por um modesto punhado de ervilhas... Mas não era isso que a chocava certamente; devia ser a partida, o desconhecido, sentir-se só!
Irene Lisboa, Esta Cidade! 2a edição. Lisboa, Presença, 1995. p. 58-59.
Aquele sorriso era uma das tais coisas que me sensibilizavam.
Como me hei-de eu manter na delicada posição de preceptora que se respeita?, queria ele dizer ali. Esta posição era perturbada pelo contacto com os novos estranhos.
A despedida dos diplomatas, embora em férias, ainda era sublinhada por um elegante ramo de rosas e a dela por um modesto punhado de ervilhas... Mas não era isso que a chocava certamente; devia ser a partida, o desconhecido, sentir-se só!
Irene Lisboa, Esta Cidade! 2a edição. Lisboa, Presença, 1995. p. 58-59.
sexta-feira, 7 de junho de 2013
Toda esta viagem. Fernando Pessoa
Não digas nada!
Não, nem a verdade!
Há tanta suavidade
Em nada se dizer
E tudo se entender -
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada!
Deixa esquecer.
Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda esta viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz...
Não digas nada.
Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). p. 167.
Não, nem a verdade!
Há tanta suavidade
Em nada se dizer
E tudo se entender -
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada!
Deixa esquecer.
Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda esta viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz...
Não digas nada.
Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). p. 167.
quinta-feira, 6 de junho de 2013
Esta contradição da espécie humana merece que a examinemos. Voltaire
O senhor Husson falou-me ontem das suas viagens: com efeito, passounvraios anos nos portos e cidades do Império Otomano, esteve na Pérsia, permaneceu muito tempo nas Índias e viu toda a Europa.
- Reparei - disse-me - que há um número prodigioso de judeus que esperam ao Messias, e que se deixam empalar de preferência a admitir que ele já veio. Vi mil turcos persuadidos de que Maomé guardara metade da lua na manga. A arraia-miúda, de uma ponta à outra do mundo, crê firmemente nas coisas mais absurdas. No entanto, se um filósofo que tenha um écu o partilhar com o mais imbecil desses infelizes em que a razão humana está tão horrivelmente obscurecida, a verdade é que, se houver um soldo a ganhar, o imbecil o arrebatará contra o filósofo. Como podem as toupeiras, tão cegas acerca das mais altas questões, serem verdadeiros linces relativamente às mais insignificantes? Por que razão o mesmo judeu que vos degola na sexta-feira não quererá roubar um vintém, no dia do sabbat? Esta contradição da espécie humana merece que a examinemos.
E eu respondi, perguntando ao senhor Husson:
- Não é verdade que os homens são supersticiosos por hábito e ardilosos por instinto?
- Meditarei nisso - disse-me -, parece-me uma ideia realmente boa.
Voltaire, Diálogo da Franga e do Frango. Lisboa, Arbor Litterae, 2010, p. 37-38
- Reparei - disse-me - que há um número prodigioso de judeus que esperam ao Messias, e que se deixam empalar de preferência a admitir que ele já veio. Vi mil turcos persuadidos de que Maomé guardara metade da lua na manga. A arraia-miúda, de uma ponta à outra do mundo, crê firmemente nas coisas mais absurdas. No entanto, se um filósofo que tenha um écu o partilhar com o mais imbecil desses infelizes em que a razão humana está tão horrivelmente obscurecida, a verdade é que, se houver um soldo a ganhar, o imbecil o arrebatará contra o filósofo. Como podem as toupeiras, tão cegas acerca das mais altas questões, serem verdadeiros linces relativamente às mais insignificantes? Por que razão o mesmo judeu que vos degola na sexta-feira não quererá roubar um vintém, no dia do sabbat? Esta contradição da espécie humana merece que a examinemos.
E eu respondi, perguntando ao senhor Husson:
- Não é verdade que os homens são supersticiosos por hábito e ardilosos por instinto?
- Meditarei nisso - disse-me -, parece-me uma ideia realmente boa.
Voltaire, Diálogo da Franga e do Frango. Lisboa, Arbor Litterae, 2010, p. 37-38
Subscrever:
Mensagens (Atom)














