Cíclades
A claridade frontal do lugar impõe-me a tua presença
O teu nome emerge como se aqui
O negativo que foste de ti se revelasse
Viveste no avesso
Viajante incessante do inverso
Isento de ti próprio
Viúvo de ti próprio
Em Lisboa cenário da vida
E eras o inquilino de um quarto alugado por cima de uma leitaria
O empregado competente de uma casa Comercial
O frequentador irónico delicado e cortês dos cafés da Baixa
O visionário discreto dos cafés virados para o Tejo
(Onde ainda no mármore das mesas
Buscamos o rastro frio das tuas mãos
— O imperceptível dedilhar das tuas mãos)
Esquartejado pelas fúrias do não-vivido
À margem de ti dos outros e da vida
Mantiveste em dia os teus cadernos todos
Com meticulosa exactidão desenhaste os mapas
Das múltiplas navegações da tua ausência —
Aquilo que não foi nem foste ficou dito
Como ilha surgida a barlavento
Com prumos sondas astrolábios bússolas
Procedeste ao levantamento do desterro
Nasceste depois
E alguém gastara em si toda a verdade
O caminho da Índia já fora descoberto
Dos deuses só restava
O incerto perpassar
No murmúrio e no cheiro das paisagens
E tinhas muitos rostos
Para que não sendo ninguém dissesses tudo
Viajavas no avesso no inverso no adverso
Porém obstinada eu invoco — ó dividido —
O instante que te unisse,
E celebro a tua chegada às ilhas onde jamais vieste
Estes são os arquipélagos que derivam ao longo do teu rosto
Estes são os rápidos golfinhos da tua alegria
Que os deuses não te deram nem quiseste
Este é o pais onde a carne das estátuas como choupos estremece
Atravessada pelo respirar leve da luz
Aqui brilha o azul-respiração das coisas
Nas praias onde há um espelho voltado para o mar
Aqui o enigma que me interroga desde sempre
E mais nu e veemente e por isso te invoco:
«Porque foram quebrados os teus gestos?
Quem te cercou de muros e de abismos?
Quem derramou no chão os teus segredos?»
Invoco-te como se chegasses neste barco
E poisasses os teus pés nas ilhas
E a sua excessiva proximidade te invadisse
Como um rosto amado debruçado sobre ti
No estio deste lugar chamo por ti
Que hibernaste a própria vida como o animal na estaçao adversa
Que te quiseste distante como quem ante o quadro pra melhor ver recua
E quiseste a distância que sofreste
Chamo por ti — reúno os destroços as ruínas os pedaços —
Porque o mundo estalou como pedreira
E no chão rolam capitéis e braços
Colunas divididas estilhaços
E da ânfora resta o espalhamento de cacos
Perante os quais os deuses se tornam estrangeiros
Porém aqui as deusas cor de trigo
Erguem a longa harpa dos seus dedos
E encantam 0 sol azul onde te invoco
Onde invoco a palavra impessoal da tua ausência
Pudesse o instante da festa romper o teu luto
Ó viúvo de ti mesmo
E que ser e estar coincidissem
No um da boda
Como se o teu navio te esperasse em Thasos
Como se Penélope
Nos seus quartos altos
Entre seus cabelos te fiasse
1972
Sophia de Mello Breyner Andresen. Os Poemas Sobre Pessoa. Lisboa, Caminho, 2012, p. 39-42.
terça-feira, 11 de junho de 2013
domingo, 9 de junho de 2013
Elvas. 9 de Junho de 2013
Em Elvas, o Presidente ofereceu um almoço hoje a individualidades e instituições que se distinguiram em 2012 nas áreas da cultura e desporto. Foi aconselhado nessa escolha por um grupo de personalidades, entre as quais se incluíam Rui Nabeiro e Carlos Portas, por quem tenho grande estima e admiração. Guimarães 2012 esteve representada pelos arquitectos da empresa Pitágoras, autora do projecto da Plataforma das Artes, e pelo representante da Fundação Cidade de Guimarães.
sábado, 8 de junho de 2013
Acenei-lhe com um ramo de ervilhas de cheiro. Irene Lisboa
A sua partida adiada de semanas chegou enfim. Veio o tal dia, igual e diferente sempre, da multidão no cais, da gente à amurada, das ultimas conversas que mal se percebem... Com o aumento das velocidades este aspecto mole e sentimental das despedidas há-de acabar, mas por ora ainda é assim. Também eu surdi no cais e furei por meio da multidão com o meu raminho de flores. Descobri a bordo o rosto da dama do teatro. À luz da tarde e em traje de passeio parecia-me um pouco diferente, menos senhoril e preciosa. Helma não aparecia. Mas lá por fim, tímida e com um riso sem mira, apareceu por detrás de todos. Acenei-lhe com o meu ramo de ervilhas de cheiro até que o seu vago sorriso se fixou em mim.
Aquele sorriso era uma das tais coisas que me sensibilizavam.
Como me hei-de eu manter na delicada posição de preceptora que se respeita?, queria ele dizer ali. Esta posição era perturbada pelo contacto com os novos estranhos.
A despedida dos diplomatas, embora em férias, ainda era sublinhada por um elegante ramo de rosas e a dela por um modesto punhado de ervilhas... Mas não era isso que a chocava certamente; devia ser a partida, o desconhecido, sentir-se só!
Irene Lisboa, Esta Cidade! 2a edição. Lisboa, Presença, 1995. p. 58-59.
Aquele sorriso era uma das tais coisas que me sensibilizavam.
Como me hei-de eu manter na delicada posição de preceptora que se respeita?, queria ele dizer ali. Esta posição era perturbada pelo contacto com os novos estranhos.
A despedida dos diplomatas, embora em férias, ainda era sublinhada por um elegante ramo de rosas e a dela por um modesto punhado de ervilhas... Mas não era isso que a chocava certamente; devia ser a partida, o desconhecido, sentir-se só!
Irene Lisboa, Esta Cidade! 2a edição. Lisboa, Presença, 1995. p. 58-59.
sexta-feira, 7 de junho de 2013
Toda esta viagem. Fernando Pessoa
Não digas nada!
Não, nem a verdade!
Há tanta suavidade
Em nada se dizer
E tudo se entender -
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada!
Deixa esquecer.
Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda esta viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz...
Não digas nada.
Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). p. 167.
Não, nem a verdade!
Há tanta suavidade
Em nada se dizer
E tudo se entender -
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada!
Deixa esquecer.
Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda esta viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz...
Não digas nada.
Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). p. 167.
quinta-feira, 6 de junho de 2013
Esta contradição da espécie humana merece que a examinemos. Voltaire
O senhor Husson falou-me ontem das suas viagens: com efeito, passounvraios anos nos portos e cidades do Império Otomano, esteve na Pérsia, permaneceu muito tempo nas Índias e viu toda a Europa.
- Reparei - disse-me - que há um número prodigioso de judeus que esperam ao Messias, e que se deixam empalar de preferência a admitir que ele já veio. Vi mil turcos persuadidos de que Maomé guardara metade da lua na manga. A arraia-miúda, de uma ponta à outra do mundo, crê firmemente nas coisas mais absurdas. No entanto, se um filósofo que tenha um écu o partilhar com o mais imbecil desses infelizes em que a razão humana está tão horrivelmente obscurecida, a verdade é que, se houver um soldo a ganhar, o imbecil o arrebatará contra o filósofo. Como podem as toupeiras, tão cegas acerca das mais altas questões, serem verdadeiros linces relativamente às mais insignificantes? Por que razão o mesmo judeu que vos degola na sexta-feira não quererá roubar um vintém, no dia do sabbat? Esta contradição da espécie humana merece que a examinemos.
E eu respondi, perguntando ao senhor Husson:
- Não é verdade que os homens são supersticiosos por hábito e ardilosos por instinto?
- Meditarei nisso - disse-me -, parece-me uma ideia realmente boa.
Voltaire, Diálogo da Franga e do Frango. Lisboa, Arbor Litterae, 2010, p. 37-38
- Reparei - disse-me - que há um número prodigioso de judeus que esperam ao Messias, e que se deixam empalar de preferência a admitir que ele já veio. Vi mil turcos persuadidos de que Maomé guardara metade da lua na manga. A arraia-miúda, de uma ponta à outra do mundo, crê firmemente nas coisas mais absurdas. No entanto, se um filósofo que tenha um écu o partilhar com o mais imbecil desses infelizes em que a razão humana está tão horrivelmente obscurecida, a verdade é que, se houver um soldo a ganhar, o imbecil o arrebatará contra o filósofo. Como podem as toupeiras, tão cegas acerca das mais altas questões, serem verdadeiros linces relativamente às mais insignificantes? Por que razão o mesmo judeu que vos degola na sexta-feira não quererá roubar um vintém, no dia do sabbat? Esta contradição da espécie humana merece que a examinemos.
E eu respondi, perguntando ao senhor Husson:
- Não é verdade que os homens são supersticiosos por hábito e ardilosos por instinto?
- Meditarei nisso - disse-me -, parece-me uma ideia realmente boa.
Voltaire, Diálogo da Franga e do Frango. Lisboa, Arbor Litterae, 2010, p. 37-38
quarta-feira, 5 de junho de 2013
Só a razão consciente e a virtude racional podem resolver os problemas duma idade adulta da humanidade. Antero de Quental
Meu caro amigo [Jaime de Magalhães Lima],
Li com prazer - ou antes, reli, porque já as conhecia da Província - as suas impressões de viagem. São notas fugitivas, mas não são banais, que é o que importa: dizem sempre alguma coisa e às vezes com bastante originalidade. Quanto ao seu estilo, parece-me agora feito: a frase corre-lhe fácil, natural, à vontade, e vê-se que esse estilo é o seu próprio.
Tenho pena de que se não tivesse demorado mais na Rússia, para nos poder dar mais algumas impressões daquela nação destinada a exercer influência decisiva na futura civilização. Que espécie de influência? Confesso-lhe que tenho graves apreensões a tal respeito e que desconfio bastante de gente de tanta imaginação. O Tolstoi é certamente admirável com indivíduo; mas que significa o que pode dar de si aquela renovação do Evangelismo? O pensamento da Rússia, até agora, parece-me perfeitamente caótico. Mas o mundo começa a estar tão cansado de lógica, de ciência, de análise, que talvez se deixe levar mais uma vez pelos entusiastas e visionários. Creio que é isto que explica o engouement actual pelos russos. Mas, em suma, será sempre necessário voltar à razão e aos seus processos severos? Só a razão consciente e a virtude racional podem resolver os problemas duma idade adulta da humanidade. É verdade que, quando a dita razão, como já tem sucedido, se mostra inferior à sua tarefa, hesita e abdica, o inconsciente, o instinto, o sentimento voltam a entrar em cena. Mas não posso considerar tal facto senão como um retrocesso. Foi isso o cristianismo. Pode ser que um semelhante retrocesso esteja em preparação; então os russos, como os entusiastas e instintivos por excelência, representarão um papel proeminente. Mas creio que isso será equivalente à destruição do espírito moderno.
E adeus.
Do seu do coração
Antero de Quental
Cartas de Vila do Conde de Antero de Quental. Introdução, organização e notas de Ana Maria de Almeida Martins. Porto, Lello & Irmão, 1981, p. 270-271.
Li com prazer - ou antes, reli, porque já as conhecia da Província - as suas impressões de viagem. São notas fugitivas, mas não são banais, que é o que importa: dizem sempre alguma coisa e às vezes com bastante originalidade. Quanto ao seu estilo, parece-me agora feito: a frase corre-lhe fácil, natural, à vontade, e vê-se que esse estilo é o seu próprio.
Tenho pena de que se não tivesse demorado mais na Rússia, para nos poder dar mais algumas impressões daquela nação destinada a exercer influência decisiva na futura civilização. Que espécie de influência? Confesso-lhe que tenho graves apreensões a tal respeito e que desconfio bastante de gente de tanta imaginação. O Tolstoi é certamente admirável com indivíduo; mas que significa o que pode dar de si aquela renovação do Evangelismo? O pensamento da Rússia, até agora, parece-me perfeitamente caótico. Mas o mundo começa a estar tão cansado de lógica, de ciência, de análise, que talvez se deixe levar mais uma vez pelos entusiastas e visionários. Creio que é isto que explica o engouement actual pelos russos. Mas, em suma, será sempre necessário voltar à razão e aos seus processos severos? Só a razão consciente e a virtude racional podem resolver os problemas duma idade adulta da humanidade. É verdade que, quando a dita razão, como já tem sucedido, se mostra inferior à sua tarefa, hesita e abdica, o inconsciente, o instinto, o sentimento voltam a entrar em cena. Mas não posso considerar tal facto senão como um retrocesso. Foi isso o cristianismo. Pode ser que um semelhante retrocesso esteja em preparação; então os russos, como os entusiastas e instintivos por excelência, representarão um papel proeminente. Mas creio que isso será equivalente à destruição do espírito moderno.
E adeus.
Do seu do coração
Antero de Quental
Cartas de Vila do Conde de Antero de Quental. Introdução, organização e notas de Ana Maria de Almeida Martins. Porto, Lello & Irmão, 1981, p. 270-271.
terça-feira, 4 de junho de 2013
Viajantes de Alexandria. Carlos Tê - José S. Martins/Rui Veloso
Sete partidas (cantiga de amigo)
Ouço uma voz que me canta velhas canções esquecidas
E embala o meu sonho num cais de sete partidas
Como água morrente no longe vai e vem o madrigal
Provença que soas ainda nas noites de Portugal
Viajantes de Alexandria mostram laca e seda fina
Ouro pimenta e marfim porcelana e musselina
Falam do Preste João dizem do seu paradeiro
Aos altos da Etiópia vou mandar um mensageiro
Acordo todas as manhãs com ecos dessa canção
Sete partidas cinco chagas vãs águas morrente e Sião
Cantiga de amigo Provença no coração
Embala o meu sonho e leva-me ao Preste João
Canção que trazes aromas de aloés e benjoim
Aponta na minha carta onde se cheiram coisas assim
Para lá da Núbia doirada para lá dos Dardanelos
Na Pérsia na Índia encantada até aos rios amarelos
Vejo passar caravanas na língua dos mercadores
E as cidades italianas brilham em seus esplendores
Tenha eu a certeza do que me canta essa voz
E um dia Génova e Veneza hão-de ouvir falar de nós
Acordo todas as manhãs com ecos dessa canção
Sete partidas cinco chagas vãs águas morrente e Sião
Cantiga de amigo Provença no coração
Embala o meu sonho e leva-me ao Preste João
Ouço uma voz que me canta velhas canções esquecidas
E embala o meu sonho num cais de sete partidas
Como água morrente no longe vai e vem o madrigal
Provença que soas ainda nas noites de Portugal
Viajantes de Alexandria mostram laca e seda fina
Ouro pimenta e marfim porcelana e musselina
Falam do Preste João dizem do seu paradeiro
Aos altos da Etiópia vou mandar um mensageiro
Acordo todas as manhãs com ecos dessa canção
Sete partidas cinco chagas vãs águas morrente e Sião
Cantiga de amigo Provença no coração
Embala o meu sonho e leva-me ao Preste João
Canção que trazes aromas de aloés e benjoim
Aponta na minha carta onde se cheiram coisas assim
Para lá da Núbia doirada para lá dos Dardanelos
Na Pérsia na Índia encantada até aos rios amarelos
Vejo passar caravanas na língua dos mercadores
E as cidades italianas brilham em seus esplendores
Tenha eu a certeza do que me canta essa voz
E um dia Génova e Veneza hão-de ouvir falar de nós
Acordo todas as manhãs com ecos dessa canção
Sete partidas cinco chagas vãs águas morrente e Sião
Cantiga de amigo Provença no coração
Embala o meu sonho e leva-me ao Preste João
segunda-feira, 3 de junho de 2013
Viajo até à minha janela. Almeida Garrett
Que viaje à roda do seu quarto quem está à beira dos Alpes, de inverno, em Turim, que é quase tão frio como S. Petersburgo - entende-se. Mas com este clima, com este ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na horta, e o mato é de murta, o próprio Xavier de Maistre, que aqui escrevesse, ao menos ia até o quintal.
Eu, muitas vezes, nestas sufocadas noites de estio, viajo até à minha janela, para ver uma nesguita de Tejo que está no fim da rua, e me enganar com uns verdes de árvores que ali vegetam sua laboriosa infância nos entulhos do Cais do Sodré. E nunca escrevi essas minhas viagens nem as suas impressões: pois tinham muito que ver! Foi sempre ambiciosa a minha pena: pobre e soberba, quer assunto mais largo. Pior hei-de dar-lho. Vou nada menos que a Santarém: e protesto que de quanto vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir, se há-de fazer crónica.
Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra. Porto, Livraria Chardron, s/S. 3a edição. p 1-2.
Eu, muitas vezes, nestas sufocadas noites de estio, viajo até à minha janela, para ver uma nesguita de Tejo que está no fim da rua, e me enganar com uns verdes de árvores que ali vegetam sua laboriosa infância nos entulhos do Cais do Sodré. E nunca escrevi essas minhas viagens nem as suas impressões: pois tinham muito que ver! Foi sempre ambiciosa a minha pena: pobre e soberba, quer assunto mais largo. Pior hei-de dar-lho. Vou nada menos que a Santarém: e protesto que de quanto vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir, se há-de fazer crónica.
Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra. Porto, Livraria Chardron, s/S. 3a edição. p 1-2.
domingo, 2 de junho de 2013
sábado, 1 de junho de 2013
Minha próxima e excitante viagem pelo mundo. Clarice Lispector
Amanhã vou partir para a Europa. De onde mandarei meus textos para este Jornal. Minha sede será Londres. E de lá planejarei minhas viagens. Por exemplo, vou a Paris ver de novo a Mona Lisa pois estou com saudade. E comprar perfumes. E sobretudo reclamar com a Maison Carven por eles não fabricarem mais o meu perfume, e que mais combina comigo, Vert et Blanc. Irei ao teatro também. E à Rive Gauche.
Voltarei então para Londres onde permanecerei uma, duas semanas. E seguirei para a minha amada Itália. Roma antes. Depois Florença. É em Roma que, por intermédio de conhecidos mútuos, conhecerei Onassis e há possibilidades de combinar um cruzeiro pelo Mediterrâneo.
Irei à Grécia que só conheço de rápida passagem. Preciso realmente ver de novo a Acropóle. E preciso voltar a ver as pirâmides e a Esfinge. A Esfinge me intrigou: quero defrontá-la de novo, face a face, em jogo aberto e limpo. Vou ver quem devora quem. Talvez nada aconteça. Porque o ser humano é uma esfinge também e a Esfinge não sabe decifrá-lo. Nem decifrar a si mesma. No que nós nos decifrássemos, teríamos a chave da vida.
Quero tomar banhos de mar em Biarritz-porque lá eu vi as ondas mais altas, o mar mais compacto e mais verde e turbulento. E majestoso. San Sebastian não quero rever. Mas quero voltar a Toledo e a Córdoba. Em Toledo reverei os El Greco.
Pegarei na Europa a primavera, o que já em si é motivo para uma viagem para lá. Irei a Israel, essa comunidade antiga e a mais nova: quero ver como é que se vive sob padrões diferentes.
E Portugal? Tenho que voltar a Lisboa e Cascais. Em Lisboa procurarei minha amiga e grande poeta Natércia Freire. E dar-lhe-ei um texto meu, atendendo a seu pedido de colaboração para o Suplemento de Letras e Artes ( Diário de Notíciasde Lisboa ) suplemente esse que ela dirige. Irei ao Chiado. E de novo pensarei em Eça de Queirós. Preciso relê-lo. Sei que vou gostar de novo-como se fora a primeira leitura- do suculento estilo de Eça. Voltarei a Londres, onde passarei em descanso e teatros e pubs duas semanas.
De lá darei um pulo na Libéria, em Monróvia. Estive na Libéria, mas não cheguei a ir à capital. Se alguém pensa que fui vencedora na Loteria Esportiva, está enganado. O melhor da história é que viajarei sem gastar um centavo. Só gastarei o que despender nas compras. Depois ensinarei como é que se consegue tal formidável barganha: não é impossível, tanto que eu consegui e sem maiores esforços. Não, não foi por charme que eu tenha feito: quando faço charme é sem sentir e sem querer, simplesmente acontece. O charme, quero dizer.
Estará na hora de não poder mais morrer de saudades do Brasil. Voltarei via Nova Iorque, onde ficarei duas semanas, me perdendo na multidão. A multidão de Nova Iorque é o meio mais fácil da pessoa ficar solitária. Se eu ficar sozinha demais procurarei o nosso Consulado. Para rever brasileiros e poder usar de novo a nossa difícil língua. Difícil mas fascinante. Sobretudo para se escrever. Asseguro-vos que não é fácil escrever em português: é uma língua pouco trabalhada pelo pensamento e o resultado é pouca maleabilidade para exprimir os delicados estados do ser humano.
E - enfim- voltarei ao Rio. Antes darei um pulo a Belém do Pará, para rever os meus amigos Francisco Paulo Mendes, Benedito Nunes ( qual é o endereço deles? Por favor me escrevam) e tantos outros importantes para mim. Eles, vai ver, já me esqueceram. Eu não esqueci deles. Em Belém já passei seis meses, muito felizes. Sou grata a esta cidade.Uma vez no Rio, e depois de abraçar todos os amigos, irei para Cabo Frio por uma semana, na casa de Pedro e Míriam Bloch. Voltarei depois ao Rio e recomeçarei, toda renovada, a minha luta diária e inglória e enigmática.
Sim. Tudo isto. Mas só se fosse de verdade... O fato é que hoje é 1º de Abril e desde criança não engano ninguém nesse dia. Infelizmente não vejo meio de fazer essa viagem sem dinheiro. O Onassis entrou no 1º de Abril de puro penetra que ele é. Na verdade não tenho muito interesse em conhecê-lo. Desculpem a brincadeira. Mas é que não resisti.
1 de Abril de 1972
Clarice Lispector, A Descoberta do Mundo. Crónicas. Lisboa, Relógio de Água, 2013, p. 586-588
Voltarei então para Londres onde permanecerei uma, duas semanas. E seguirei para a minha amada Itália. Roma antes. Depois Florença. É em Roma que, por intermédio de conhecidos mútuos, conhecerei Onassis e há possibilidades de combinar um cruzeiro pelo Mediterrâneo.
Irei à Grécia que só conheço de rápida passagem. Preciso realmente ver de novo a Acropóle. E preciso voltar a ver as pirâmides e a Esfinge. A Esfinge me intrigou: quero defrontá-la de novo, face a face, em jogo aberto e limpo. Vou ver quem devora quem. Talvez nada aconteça. Porque o ser humano é uma esfinge também e a Esfinge não sabe decifrá-lo. Nem decifrar a si mesma. No que nós nos decifrássemos, teríamos a chave da vida.
Quero tomar banhos de mar em Biarritz-porque lá eu vi as ondas mais altas, o mar mais compacto e mais verde e turbulento. E majestoso. San Sebastian não quero rever. Mas quero voltar a Toledo e a Córdoba. Em Toledo reverei os El Greco.
Pegarei na Europa a primavera, o que já em si é motivo para uma viagem para lá. Irei a Israel, essa comunidade antiga e a mais nova: quero ver como é que se vive sob padrões diferentes.
E Portugal? Tenho que voltar a Lisboa e Cascais. Em Lisboa procurarei minha amiga e grande poeta Natércia Freire. E dar-lhe-ei um texto meu, atendendo a seu pedido de colaboração para o Suplemento de Letras e Artes ( Diário de Notíciasde Lisboa ) suplemente esse que ela dirige. Irei ao Chiado. E de novo pensarei em Eça de Queirós. Preciso relê-lo. Sei que vou gostar de novo-como se fora a primeira leitura- do suculento estilo de Eça. Voltarei a Londres, onde passarei em descanso e teatros e pubs duas semanas.
De lá darei um pulo na Libéria, em Monróvia. Estive na Libéria, mas não cheguei a ir à capital. Se alguém pensa que fui vencedora na Loteria Esportiva, está enganado. O melhor da história é que viajarei sem gastar um centavo. Só gastarei o que despender nas compras. Depois ensinarei como é que se consegue tal formidável barganha: não é impossível, tanto que eu consegui e sem maiores esforços. Não, não foi por charme que eu tenha feito: quando faço charme é sem sentir e sem querer, simplesmente acontece. O charme, quero dizer.
Estará na hora de não poder mais morrer de saudades do Brasil. Voltarei via Nova Iorque, onde ficarei duas semanas, me perdendo na multidão. A multidão de Nova Iorque é o meio mais fácil da pessoa ficar solitária. Se eu ficar sozinha demais procurarei o nosso Consulado. Para rever brasileiros e poder usar de novo a nossa difícil língua. Difícil mas fascinante. Sobretudo para se escrever. Asseguro-vos que não é fácil escrever em português: é uma língua pouco trabalhada pelo pensamento e o resultado é pouca maleabilidade para exprimir os delicados estados do ser humano.
E - enfim- voltarei ao Rio. Antes darei um pulo a Belém do Pará, para rever os meus amigos Francisco Paulo Mendes, Benedito Nunes ( qual é o endereço deles? Por favor me escrevam) e tantos outros importantes para mim. Eles, vai ver, já me esqueceram. Eu não esqueci deles. Em Belém já passei seis meses, muito felizes. Sou grata a esta cidade.Uma vez no Rio, e depois de abraçar todos os amigos, irei para Cabo Frio por uma semana, na casa de Pedro e Míriam Bloch. Voltarei depois ao Rio e recomeçarei, toda renovada, a minha luta diária e inglória e enigmática.
Sim. Tudo isto. Mas só se fosse de verdade... O fato é que hoje é 1º de Abril e desde criança não engano ninguém nesse dia. Infelizmente não vejo meio de fazer essa viagem sem dinheiro. O Onassis entrou no 1º de Abril de puro penetra que ele é. Na verdade não tenho muito interesse em conhecê-lo. Desculpem a brincadeira. Mas é que não resisti.
1 de Abril de 1972
Clarice Lispector, A Descoberta do Mundo. Crónicas. Lisboa, Relógio de Água, 2013, p. 586-588
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