domingo, 9 de junho de 2013

Elvas. 9 de Junho de 2013

Em Elvas, o Presidente ofereceu um almoço hoje a individualidades e instituições que se distinguiram em 2012 nas áreas da cultura e desporto. Foi aconselhado nessa escolha por um grupo de personalidades, entre as quais se incluíam Rui Nabeiro e Carlos Portas, por quem tenho grande estima e admiração. Guimarães 2012 esteve representada pelos arquitectos da empresa Pitágoras, autora do projecto da Plataforma das Artes, e pelo representante da Fundação Cidade de Guimarães.

sábado, 8 de junho de 2013

Caceres. 8 de Junho de 2013











Acenei-lhe com um ramo de ervilhas de cheiro. Irene Lisboa

A sua partida adiada de semanas chegou enfim. Veio o tal dia, igual e diferente sempre, da multidão no cais, da gente à amurada, das ultimas conversas que mal se percebem... Com o aumento das velocidades este aspecto mole e sentimental das despedidas há-de acabar, mas por ora ainda é assim. Também eu surdi no cais e furei por meio da multidão com o meu raminho de flores. Descobri a bordo o rosto da dama do teatro. À luz da tarde e em traje de passeio parecia-me um pouco diferente, menos senhoril e preciosa. Helma não aparecia. Mas lá por fim, tímida e com um riso sem mira, apareceu por detrás de todos. Acenei-lhe com o meu ramo de ervilhas de cheiro até que o seu vago sorriso se fixou em mim.
Aquele sorriso era uma das tais coisas que me sensibilizavam.
Como me hei-de eu manter na delicada posição de preceptora que se respeita?, queria ele dizer ali. Esta posição era perturbada pelo contacto com os novos estranhos.
A despedida dos diplomatas, embora em férias, ainda era sublinhada por um elegante ramo de rosas e a dela por um modesto punhado de ervilhas... Mas não era isso que a chocava certamente; devia ser a partida, o desconhecido, sentir-se só!

Irene Lisboa, Esta Cidade! 2a edição. Lisboa, Presença, 1995. p. 58-59.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Toda esta viagem. Fernando Pessoa

Não digas nada!
Não, nem a verdade!
Há tanta suavidade
Em nada se dizer
E tudo se entender -
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada!
Deixa esquecer.
Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda esta viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz...
Não digas nada.

Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990). p. 167.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Esta contradição da espécie humana merece que a examinemos. Voltaire

O senhor Husson falou-me ontem das suas viagens: com efeito, passounvraios anos nos portos e cidades do Império Otomano, esteve na Pérsia, permaneceu muito tempo nas Índias e viu toda a Europa.
- Reparei - disse-me - que há um número prodigioso de judeus que esperam ao Messias, e que se deixam empalar de preferência a admitir que ele já veio. Vi mil turcos persuadidos de que Maomé guardara metade da lua na manga. A arraia-miúda, de uma ponta à outra do mundo, crê firmemente nas coisas mais absurdas. No entanto, se um filósofo que tenha um écu o partilhar com o mais imbecil desses infelizes em que a razão humana está tão horrivelmente obscurecida, a verdade é que, se houver um soldo a ganhar, o imbecil o arrebatará contra o filósofo. Como podem as toupeiras, tão cegas acerca das mais altas questões, serem verdadeiros linces relativamente às mais insignificantes? Por que razão o mesmo judeu que vos degola na sexta-feira não quererá roubar um vintém, no dia do sabbat? Esta contradição da espécie humana merece que a examinemos.
E eu respondi, perguntando ao senhor Husson:
- Não é verdade que os homens são supersticiosos por hábito e ardilosos por instinto?
- Meditarei nisso - disse-me -, parece-me uma ideia realmente boa.

Voltaire, Diálogo da Franga e do Frango. Lisboa, Arbor Litterae, 2010, p. 37-38

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Só a razão consciente e a virtude racional podem resolver os problemas duma idade adulta da humanidade. Antero de Quental

Meu caro amigo [Jaime de Magalhães Lima],
Li com prazer - ou antes, reli, porque já as conhecia da Província - as suas impressões de viagem. São notas fugitivas, mas não são banais, que é o que importa: dizem sempre alguma coisa e às vezes com bastante originalidade. Quanto ao seu estilo, parece-me agora feito: a frase corre-lhe fácil, natural, à vontade, e vê-se que esse estilo é o seu próprio.
Tenho pena de que se não tivesse demorado mais na Rússia, para nos poder dar mais algumas impressões daquela nação destinada a exercer influência decisiva na futura civilização. Que espécie de influência? Confesso-lhe que tenho graves apreensões a tal respeito e que desconfio bastante de gente de tanta imaginação. O Tolstoi é certamente admirável com indivíduo; mas que significa o que pode dar de si aquela renovação do Evangelismo? O pensamento da Rússia, até agora, parece-me perfeitamente caótico. Mas o mundo começa a estar tão cansado de lógica, de ciência, de análise, que talvez se deixe levar mais uma vez pelos entusiastas e visionários. Creio que é isto que explica o engouement actual pelos russos. Mas, em suma, será sempre necessário voltar à razão e aos seus processos severos? Só a razão consciente e a virtude racional podem resolver os problemas duma idade adulta da humanidade. É verdade que, quando a dita razão, como já tem sucedido, se mostra inferior à sua tarefa, hesita e abdica, o inconsciente, o instinto, o sentimento voltam a entrar em cena. Mas não posso considerar tal facto senão como um retrocesso. Foi isso o cristianismo. Pode ser que um semelhante retrocesso esteja em preparação; então os russos, como os entusiastas e instintivos por excelência, representarão um papel proeminente. Mas creio que isso será equivalente à destruição do espírito moderno. 
E adeus.
Do seu do coração
Antero de Quental


Cartas de Vila do Conde de Antero de Quental. Introdução, organização e notas de Ana Maria de Almeida Martins. Porto, Lello & Irmão, 1981, p. 270-271.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Viajantes de Alexandria. Carlos Tê - José S. Martins/Rui Veloso

Sete partidas (cantiga de amigo)

Ouço uma voz que me canta velhas canções esquecidas
E embala o meu sonho num cais de sete partidas
Como água morrente no longe vai e vem o madrigal
Provença que soas ainda nas noites de Portugal

Viajantes de Alexandria mostram laca e seda fina
Ouro pimenta e marfim porcelana e musselina
Falam do Preste João dizem do seu paradeiro
Aos altos da Etiópia vou mandar um mensageiro

Acordo todas as manhãs com ecos dessa canção
Sete partidas cinco chagas vãs águas morrente e Sião
Cantiga de amigo Provença no coração
Embala o meu sonho e leva-me ao Preste João

Canção que trazes aromas de aloés e benjoim
Aponta na minha carta onde se cheiram coisas assim
Para lá da Núbia doirada para lá dos Dardanelos
Na Pérsia na Índia encantada até aos rios amarelos

Vejo passar caravanas na língua dos mercadores
E as cidades italianas brilham em seus esplendores
Tenha eu a certeza do que me canta essa voz
E um dia Génova e Veneza hão-de ouvir falar de nós

Acordo todas as manhãs com ecos dessa canção
Sete partidas cinco chagas vãs águas morrente e Sião
Cantiga de amigo Provença no coração
Embala o meu sonho e leva-me ao Preste João

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Viajo até à minha janela. Almeida Garrett

Que viaje à roda do seu quarto quem está à beira dos Alpes, de inverno, em Turim, que é quase tão frio como S. Petersburgo - entende-se. Mas com este clima, com este ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na horta, e o mato é de murta, o próprio Xavier de Maistre, que aqui escrevesse, ao menos ia até o quintal.
Eu, muitas vezes, nestas sufocadas noites de estio, viajo até à minha janela, para ver uma nesguita de Tejo que está no fim da rua, e me enganar com uns verdes de árvores que ali vegetam sua laboriosa infância nos entulhos do Cais do Sodré. E nunca escrevi essas minhas viagens nem as suas impressões: pois tinham muito que ver! Foi sempre ambiciosa a minha pena: pobre e soberba, quer assunto mais largo. Pior hei-de dar-lho. Vou nada menos que a Santarém: e protesto que de quanto vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir, se há-de fazer crónica. 

Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra. Porto, Livraria Chardron, s/S. 3a edição. p 1-2.

domingo, 2 de junho de 2013

Acima das nuvens. Caspar David Friedrich

Viajante contemplando um mar de nuvens. 1817-1818.


sábado, 1 de junho de 2013

Minha próxima e excitante viagem pelo mundo. Clarice Lispector

Amanhã vou partir para a Europa. De onde mandarei meus textos para este Jornal. Minha sede será Londres. E de lá planejarei minhas viagens. Por exemplo, vou a Paris ver de novo a Mona Lisa pois estou com saudade. E comprar perfumes. E sobretudo reclamar com a Maison Carven por eles não fabricarem mais o meu perfume, e que mais combina comigo, Vert et Blanc. Irei ao teatro também. E à Rive Gauche.
Voltarei então para Londres onde permanecerei uma, duas semanas. E seguirei para a minha amada Itália. Roma antes. Depois Florença. É em Roma que, por intermédio de conhecidos mútuos, conhecerei Onassis e há possibilidades de combinar um cruzeiro pelo Mediterrâneo.
Irei à Grécia que só conheço de rápida passagem. Preciso realmente ver de novo a Acropóle. E preciso voltar a ver as pirâmides e a Esfinge. A Esfinge me intrigou: quero defrontá-la de novo, face a face, em jogo aberto e limpo. Vou ver quem devora quem. Talvez nada aconteça. Porque o ser humano é uma esfinge também e a Esfinge não sabe decifrá-lo. Nem decifrar a si mesma. No que nós nos decifrássemos, teríamos a chave da vida.
Quero tomar banhos de mar em Biarritz-porque lá eu vi as ondas mais altas, o mar mais compacto e mais verde e turbulento. E majestoso. San Sebastian não quero rever. Mas quero voltar a Toledo e a Córdoba. Em Toledo reverei os El Greco.
Pegarei na Europa a primavera, o que já em si é motivo para uma viagem para lá. Irei a Israel, essa comunidade antiga e a mais nova: quero ver como é que se vive sob padrões diferentes.
E Portugal? Tenho que voltar a Lisboa e Cascais. Em Lisboa procurarei minha amiga e grande poeta Natércia Freire. E dar-lhe-ei um texto meu, atendendo a seu pedido de colaboração para o Suplemento de Letras e Artes ( Diário de Notíciasde Lisboa ) suplemente esse que ela dirige. Irei ao Chiado. E de novo pensarei em Eça de Queirós. Preciso relê-lo. Sei que vou gostar de novo-como se fora a primeira leitura- do suculento estilo de Eça. Voltarei a Londres, onde passarei em descanso e teatros e pubs duas semanas.
De lá darei um pulo na Libéria, em Monróvia. Estive na Libéria, mas não cheguei a ir à capital. Se alguém pensa que fui vencedora na Loteria Esportiva, está enganado. O melhor da história é que viajarei sem gastar um centavo. Só gastarei o que despender nas compras. Depois ensinarei como é que se consegue tal formidável barganha: não é impossível, tanto que eu consegui e sem maiores esforços. Não, não foi por charme que eu tenha feito: quando faço charme é sem sentir e sem querer, simplesmente acontece. O charme, quero dizer.

Estará na hora de não poder mais morrer de saudades do Brasil. Voltarei via Nova Iorque, onde ficarei duas semanas, me perdendo na multidão. A multidão de Nova Iorque é o meio mais fácil da pessoa ficar solitária. Se eu ficar sozinha demais procurarei o nosso Consulado. Para rever brasileiros e poder usar de novo a nossa difícil língua. Difícil mas fascinante. Sobretudo para se escrever. Asseguro-vos que não é fácil escrever em português: é uma língua pouco trabalhada pelo pensamento e o resultado é pouca maleabilidade para exprimir os delicados estados do ser humano.
E - enfim- voltarei ao Rio. Antes darei um pulo a Belém do Pará, para rever os meus amigos Francisco Paulo Mendes, Benedito Nunes ( qual é o endereço deles? Por favor me escrevam) e tantos outros importantes para mim. Eles, vai ver, já me esqueceram. Eu não esqueci deles. Em Belém já passei seis meses, muito felizes. Sou grata a esta cidade.Uma vez no Rio, e depois de abraçar todos os amigos, irei para Cabo Frio por uma semana, na casa de Pedro e Míriam Bloch. Voltarei depois ao Rio e recomeçarei, toda renovada, a minha luta diária e inglória e enigmática.

Sim. Tudo isto. Mas só se fosse de verdade... O fato é que hoje é 1º de Abril e desde criança não engano ninguém nesse dia. Infelizmente não vejo meio de fazer essa viagem sem dinheiro. O Onassis entrou no 1º de Abril de puro penetra que ele é. Na verdade não tenho muito interesse em conhecê-lo. Desculpem a brincadeira. Mas é que não resisti.
1 de Abril de 1972

Clarice Lispector, A Descoberta do Mundo. Crónicas. Lisboa, Relógio de Água, 2013, p. 586-588

sexta-feira, 31 de maio de 2013

No decorrer de. Maria Gabriela Llansol

Evidentemente que eu estou no decorrer de uma viagem de comboio. A palavra forte não é viagem de comboio, mas no decorrer de. O sol ilumina metade do livro, cortando a página em luz e sombra. Com a trepidação, a minha mão transportada no comboio treme, e a pequena garrafa com água para beber, tomba.
Do ponto de vista dos meus olhos, esta é uma história não humana, entre coisas, uma menos-valia que decidi contar, porque pô-la a nu equivale a libertá-la da sua morte inglória e banal.
Não verteu a água, mas mudou a posição dentro da garrafa. Oscilou, estendeu-se à  superfície tendo por horizonte apenas os meus olhos. Esse fenómeno simples foi visto por um outro que o escreveu.
O universo multiplica-se com a descrição minuciosa e atenta da viagem.

Maria Gabriela Llansol, O Jogo da Liberdade da Alma. Lisboa, Relógio de Água, 2003, p. 13.