sábado, 1 de junho de 2013

Minha próxima e excitante viagem pelo mundo. Clarice Lispector

Amanhã vou partir para a Europa. De onde mandarei meus textos para este Jornal. Minha sede será Londres. E de lá planejarei minhas viagens. Por exemplo, vou a Paris ver de novo a Mona Lisa pois estou com saudade. E comprar perfumes. E sobretudo reclamar com a Maison Carven por eles não fabricarem mais o meu perfume, e que mais combina comigo, Vert et Blanc. Irei ao teatro também. E à Rive Gauche.
Voltarei então para Londres onde permanecerei uma, duas semanas. E seguirei para a minha amada Itália. Roma antes. Depois Florença. É em Roma que, por intermédio de conhecidos mútuos, conhecerei Onassis e há possibilidades de combinar um cruzeiro pelo Mediterrâneo.
Irei à Grécia que só conheço de rápida passagem. Preciso realmente ver de novo a Acropóle. E preciso voltar a ver as pirâmides e a Esfinge. A Esfinge me intrigou: quero defrontá-la de novo, face a face, em jogo aberto e limpo. Vou ver quem devora quem. Talvez nada aconteça. Porque o ser humano é uma esfinge também e a Esfinge não sabe decifrá-lo. Nem decifrar a si mesma. No que nós nos decifrássemos, teríamos a chave da vida.
Quero tomar banhos de mar em Biarritz-porque lá eu vi as ondas mais altas, o mar mais compacto e mais verde e turbulento. E majestoso. San Sebastian não quero rever. Mas quero voltar a Toledo e a Córdoba. Em Toledo reverei os El Greco.
Pegarei na Europa a primavera, o que já em si é motivo para uma viagem para lá. Irei a Israel, essa comunidade antiga e a mais nova: quero ver como é que se vive sob padrões diferentes.
E Portugal? Tenho que voltar a Lisboa e Cascais. Em Lisboa procurarei minha amiga e grande poeta Natércia Freire. E dar-lhe-ei um texto meu, atendendo a seu pedido de colaboração para o Suplemento de Letras e Artes ( Diário de Notíciasde Lisboa ) suplemente esse que ela dirige. Irei ao Chiado. E de novo pensarei em Eça de Queirós. Preciso relê-lo. Sei que vou gostar de novo-como se fora a primeira leitura- do suculento estilo de Eça. Voltarei a Londres, onde passarei em descanso e teatros e pubs duas semanas.
De lá darei um pulo na Libéria, em Monróvia. Estive na Libéria, mas não cheguei a ir à capital. Se alguém pensa que fui vencedora na Loteria Esportiva, está enganado. O melhor da história é que viajarei sem gastar um centavo. Só gastarei o que despender nas compras. Depois ensinarei como é que se consegue tal formidável barganha: não é impossível, tanto que eu consegui e sem maiores esforços. Não, não foi por charme que eu tenha feito: quando faço charme é sem sentir e sem querer, simplesmente acontece. O charme, quero dizer.

Estará na hora de não poder mais morrer de saudades do Brasil. Voltarei via Nova Iorque, onde ficarei duas semanas, me perdendo na multidão. A multidão de Nova Iorque é o meio mais fácil da pessoa ficar solitária. Se eu ficar sozinha demais procurarei o nosso Consulado. Para rever brasileiros e poder usar de novo a nossa difícil língua. Difícil mas fascinante. Sobretudo para se escrever. Asseguro-vos que não é fácil escrever em português: é uma língua pouco trabalhada pelo pensamento e o resultado é pouca maleabilidade para exprimir os delicados estados do ser humano.
E - enfim- voltarei ao Rio. Antes darei um pulo a Belém do Pará, para rever os meus amigos Francisco Paulo Mendes, Benedito Nunes ( qual é o endereço deles? Por favor me escrevam) e tantos outros importantes para mim. Eles, vai ver, já me esqueceram. Eu não esqueci deles. Em Belém já passei seis meses, muito felizes. Sou grata a esta cidade.Uma vez no Rio, e depois de abraçar todos os amigos, irei para Cabo Frio por uma semana, na casa de Pedro e Míriam Bloch. Voltarei depois ao Rio e recomeçarei, toda renovada, a minha luta diária e inglória e enigmática.

Sim. Tudo isto. Mas só se fosse de verdade... O fato é que hoje é 1º de Abril e desde criança não engano ninguém nesse dia. Infelizmente não vejo meio de fazer essa viagem sem dinheiro. O Onassis entrou no 1º de Abril de puro penetra que ele é. Na verdade não tenho muito interesse em conhecê-lo. Desculpem a brincadeira. Mas é que não resisti.
1 de Abril de 1972

Clarice Lispector, A Descoberta do Mundo. Crónicas. Lisboa, Relógio de Água, 2013, p. 586-588

sexta-feira, 31 de maio de 2013

No decorrer de. Maria Gabriela Llansol

Evidentemente que eu estou no decorrer de uma viagem de comboio. A palavra forte não é viagem de comboio, mas no decorrer de. O sol ilumina metade do livro, cortando a página em luz e sombra. Com a trepidação, a minha mão transportada no comboio treme, e a pequena garrafa com água para beber, tomba.
Do ponto de vista dos meus olhos, esta é uma história não humana, entre coisas, uma menos-valia que decidi contar, porque pô-la a nu equivale a libertá-la da sua morte inglória e banal.
Não verteu a água, mas mudou a posição dentro da garrafa. Oscilou, estendeu-se à  superfície tendo por horizonte apenas os meus olhos. Esse fenómeno simples foi visto por um outro que o escreveu.
O universo multiplica-se com a descrição minuciosa e atenta da viagem.

Maria Gabriela Llansol, O Jogo da Liberdade da Alma. Lisboa, Relógio de Água, 2003, p. 13.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Victor Hugo e a viagem. Pablo Picasso


Amar. Mia Couto

Amar - disse ele - é estar sempre chegando.

Mia Couto, Venenos de Deus Remédios do Diabo. As Incuráveis Vidas de Vila Cacimba. Lisboa, Caminho, 2008, p. 106

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Antes de um agorinha. Mia Couto

Meu avô, nesse dias, me levava rio abaixo, enfilado em seu pequeno concho. Ele remava, devagaroso, somente raspando o remo na correnteza. o barquito cabecinhava, onda cá, onda lá, parecendo ir mais sozinho que um tronco desabandonado.
- Mas vocês vão onde?
Era  a aflição da minha mãe. O velho sorria. Os dentes, nele, eram um artigo indefinido. Vovô era dos que se calam por saber e conversam mesmo sem nada falarem.
- Voltamos antes de um agorinha, respondia.
Nem eu sabia o que ele perseguia.

Mia Couto, Estórias Abensonhadas. Lisboa, Caminho, 1994. p. 13

terça-feira, 28 de maio de 2013

Na cidade. Mia Couto

Quando ouviu dizer que eu ia à cidade, Vovó Ndzima emitiu as maiores suspeitas:
- E vai ficar em casa de quem?
- Fico no hotel, avó.
- Hotel? Mas é casa de quem?
Explicar, como? Ainda ensaiei: de ninguém, ora. A velha fermentou nova desconfiança: uma casa de ninguém?
- Ou melhor, avó: é de quem paga - palavreei, para a tranquilizar.
Porém só agravei - um lugar de quem paga? E que espíritos guardam uma casa como essa?
[...] E franziu a voz:
- E, lá, quem lhe faz o prato?
- Um cozinheiro, avó.
-Como se chama esse cozinheiro?
Ri, sem palavra. Mas, para ela, não havia riso, nem motivo. Cozinhar é o mais privado e arriscado acto. No alimento se coloca ternura ou ódio. Na panela se verte tempero ou veneno. Quem assegurava a pureza da peneira e do pilão? Como podia deixar eu essa tarefa, tão íntima, ficar em mão anónima? Nem pensar, nunca tal se viu, sujeitar-se a um cozinhador que nem o rosto se conhece.
- Cozinhar não é serviço, meu neto - disse ela - Cozinhar é um modo de amar os outros.

Mia Couto, O Fio das Missangas. Lisboa, Caminho, 2004, p. 127-128.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Foi esta a nossa vida e a nossa viagem. Fernando Pessoa

Meu coração tardou

Meu coração tardou. Meu coração
Talvez se houvesse amor nunca tardasse;
Mas, visto que, se o houve, o houve em vão,
Tanto faz que o amor houvesse ou não.
Tardou. Antes, de inútil, acabasse.
Meu coração postiço e contrafeito
Finge-se meu. Se o amor o houvesse tido,
Talvez, num rasgo natural de eleito,
Seu próprio ser do nada houvesse feito,
E a sua própria essência conseguido.
Mas não. Nunca nem eu nem coração
Fomos mais que um vestígio de passagem
Entre um anseio vão e um sonho vão.
Parceiros em prestidigitação,
Caímos ambos pelo alçapão.
Foi esta a nossa vida e a nossa viagem.

Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). p. 87.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Um estame de sangue. Vitorino Nemésio

Regresso

Cavalo e cavaleiro o vento adornam
Com uma pata e uma pluma:
À tarde unidos tornam,
Um estame de sangue numa rosa de espuma.

Tanta pressa, afinal, para coisa nenhuma.


Vitorino Nemésio

segunda-feira, 20 de maio de 2013

E tudo era possível. Cristina Nobre e Ruy Belo


E tudo era possível

Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido.

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer

Ruy Belo


A publicação deste poema tem uma razão suplementar (para lá da referencia ao tema da viagem): ele foi referido pela Professora Cristina Nobre, minha colega do Instituto Politécnico de Leiria) na sessão em que a convite da Associação para o Desenvolvimento de Leiria, do Instituto Politécnico de Leiria e do Jornal de Leiria, falei da experiência de Guimarães Capital Europeia da Cultura, no dia 12 de Abril passado.
Já por diversas vezes sublinhei o apreço e admiração intelectuais que tenho por Cristina Nobre [http://oqueeuandei.blogspot.pt/2009/10/lancamento-de-livro-de-ricardo-vieira.html e http://oqueeuandei.blogspot.pt/2009/01/confiana-na-escola-pblica.html], mas deste vez peço um pouco mais de espaço para lhe agradecer com emoção o gesto afectuoso que nessa noite me dispensou. Cristina disse parte do poema acima transcrito para sublinhar a percepção que formara sobre o papel da vontade e do empenho das pessoas no sucesso do projecto de Guimarães (“Só sei que tinha o poder duma criança/ entre as coisas e mim havia vizinhança/ e tudo era possível era só querer”). E disse-o muito bem, da forma competente e generosa que já lhe tinha escutado.
Teve que sair mais cedo da sessão, que se prolongou pela noite, e já não a pude encontrar no final, para tentar responder pessoalmente ao repto que me lançou sobre o regresso às funções docentes no IPL . Com surpresa, recebi então um livro que deixara para me ser entregue. Tratava-se do inventário do Espólio da Casa-Museu Afonso Lopes Vieira, em S. Pedro de Moel, recentemente editado, sob sua coordenação.
Cristina tem dedicado um imenso labor ao estudo da vida e obra daquele escritor e poeta, com quem partilha aliás diversas afinidades, uma das quais o encanto por S. Pedro. Não resisto a tornar publico aqui a dedicatória que inscreveu no livro que me ofereceu.
Cristina Nobre é também uma notável escritora, que conheço das suas crónicas na imprensa e do poema da sua autoria que já lhe ouvi dizer. Com um abraço reconhecido, aqui fica o que inseriu como proémio ao Lugar Literário de S. Pedro de Moel.

domingo, 19 de maio de 2013

Criei-me com as brisas frescas. Manuel Mendes

Eu também sou ribeirinho. A luz primeira que vi foi na reverberação das águas. Criei-me com as brisas frescas que sopram do meu rio, mas nasci à beira de um grande estuário, que mais parece um braço de mar, em que às vezes, nos dias de temporal, as ondas se encapelam, e as águas são sempre salgadas. A minha cidade remira-se no largo espelho do Tejo, a vaidosa, como debruçada sobre a superfície de um vasto lago. É por isso surpreendente de graça, mas as coisas perdem-se ma imensidão, distanciam-se, soçobram - deixam de ter as proporções familiares que tocam mais o coração do homem. Digam o que disserem, um rio torna-se íntimo, chegado a nós, quando se ouve correr e quando se pode falar de uma para a outra margem, gritar ao vizinho da casa e frente: - deixa que eu vou aí no meu batel..
O Douro, na força da sua impressionante grandeza, tem ao mesmo tempo o que quer que seja de caseiro - rio gigantesco que não deixa por isso de se mostrar familiar, chegando ao intimo viver dos homens. Percorre-se no seu curso, em que de quando em quando se põe irado ou apenas resmungão, mas a cada passo os olhos se nos prendem em qualquer sinal de vida próxima, que se vê e ouve latejar - povoado ou quinta isolada, as curvas admiráveis que faz a estrada, o penacho de fumo  o silvo do comboio, a sombra apetitosa de uma mata, o muro grosso de um naseiro donde os pescadores deitam a rede, perto da margem um desses humildes casais de viver, pequena barquinha de toldo em que habita gente, ou então o belo barco que passa de vela aberta, a subir o rio, levado pelo vento da barra... De cá para lá todos se saúdam, todos se conhecem naquela estrada de água. E no decurso da viagem vamos tendo notícia da mutação das coisas - do que a terra vale, do que os homens vivem, de como aqui a natureza e o trabalho se mostram amáveis, e ali se tornam no tormento, na aflição de cada hora e cada instante.

Manuel Mendes, Roteiro Sentimental. Douro. Museu do Douro, 2002 [1a edição 1964] p. 41.

sábado, 18 de maio de 2013

Iremos juntos separados. Eugénio de Andrade

Viagem

Iremos juntos separados,
as palavras mordidas uma a uma,
taciturnas, cintilantes
- ó meu amor, constelação de bruma,
ombro dos meus braços hesitantes.
Esquecidos, lembrados, repetidos
na boca dos amantes que se beijam
no alto dos navios;
desfeitos ambos, ambos inteiros,
no rasto dos peixes luminosos,
afogados na voz dos marinheiros.

Eugénio de Andrade