Amar - disse ele - é estar sempre chegando.
Mia Couto, Venenos de Deus Remédios do Diabo. As Incuráveis Vidas de Vila Cacimba. Lisboa, Caminho, 2008, p. 106
quinta-feira, 30 de maio de 2013
quarta-feira, 29 de maio de 2013
Antes de um agorinha. Mia Couto
Meu avô, nesse dias, me levava rio abaixo, enfilado em seu pequeno concho. Ele remava, devagaroso, somente raspando o remo na correnteza. o barquito cabecinhava, onda cá, onda lá, parecendo ir mais sozinho que um tronco desabandonado.
- Mas vocês vão onde?
Era a aflição da minha mãe. O velho sorria. Os dentes, nele, eram um artigo indefinido. Vovô era dos que se calam por saber e conversam mesmo sem nada falarem.
- Voltamos antes de um agorinha, respondia.
Nem eu sabia o que ele perseguia.
Mia Couto, Estórias Abensonhadas. Lisboa, Caminho, 1994. p. 13
- Mas vocês vão onde?
Era a aflição da minha mãe. O velho sorria. Os dentes, nele, eram um artigo indefinido. Vovô era dos que se calam por saber e conversam mesmo sem nada falarem.
- Voltamos antes de um agorinha, respondia.
Nem eu sabia o que ele perseguia.
Mia Couto, Estórias Abensonhadas. Lisboa, Caminho, 1994. p. 13
terça-feira, 28 de maio de 2013
Na cidade. Mia Couto
Quando ouviu dizer que eu ia à cidade, Vovó Ndzima emitiu as maiores suspeitas:
- E vai ficar em casa de quem?
- Fico no hotel, avó.
- Hotel? Mas é casa de quem?
Explicar, como? Ainda ensaiei: de ninguém, ora. A velha fermentou nova desconfiança: uma casa de ninguém?
- Ou melhor, avó: é de quem paga - palavreei, para a tranquilizar.
Porém só agravei - um lugar de quem paga? E que espíritos guardam uma casa como essa?
[...] E franziu a voz:
- E, lá, quem lhe faz o prato?
- Um cozinheiro, avó.
-Como se chama esse cozinheiro?
Ri, sem palavra. Mas, para ela, não havia riso, nem motivo. Cozinhar é o mais privado e arriscado acto. No alimento se coloca ternura ou ódio. Na panela se verte tempero ou veneno. Quem assegurava a pureza da peneira e do pilão? Como podia deixar eu essa tarefa, tão íntima, ficar em mão anónima? Nem pensar, nunca tal se viu, sujeitar-se a um cozinhador que nem o rosto se conhece.
- Cozinhar não é serviço, meu neto - disse ela - Cozinhar é um modo de amar os outros.
Mia Couto, O Fio das Missangas. Lisboa, Caminho, 2004, p. 127-128.
- E vai ficar em casa de quem?
- Fico no hotel, avó.
- Hotel? Mas é casa de quem?
Explicar, como? Ainda ensaiei: de ninguém, ora. A velha fermentou nova desconfiança: uma casa de ninguém?
- Ou melhor, avó: é de quem paga - palavreei, para a tranquilizar.
Porém só agravei - um lugar de quem paga? E que espíritos guardam uma casa como essa?
[...] E franziu a voz:
- E, lá, quem lhe faz o prato?
- Um cozinheiro, avó.
-Como se chama esse cozinheiro?
Ri, sem palavra. Mas, para ela, não havia riso, nem motivo. Cozinhar é o mais privado e arriscado acto. No alimento se coloca ternura ou ódio. Na panela se verte tempero ou veneno. Quem assegurava a pureza da peneira e do pilão? Como podia deixar eu essa tarefa, tão íntima, ficar em mão anónima? Nem pensar, nunca tal se viu, sujeitar-se a um cozinhador que nem o rosto se conhece.
- Cozinhar não é serviço, meu neto - disse ela - Cozinhar é um modo de amar os outros.
Mia Couto, O Fio das Missangas. Lisboa, Caminho, 2004, p. 127-128.
quinta-feira, 23 de maio de 2013
Foi esta a nossa vida e a nossa viagem. Fernando Pessoa
Meu coração tardou
Meu coração tardou. Meu coração
Talvez se houvesse amor nunca tardasse;
Mas, visto que, se o houve, o houve em vão,
Tanto faz que o amor houvesse ou não.
Tardou. Antes, de inútil, acabasse.
Meu coração postiço e contrafeito
Finge-se meu. Se o amor o houvesse tido,
Talvez, num rasgo natural de eleito,
Seu próprio ser do nada houvesse feito,
E a sua própria essência conseguido.
Mas não. Nunca nem eu nem coração
Fomos mais que um vestígio de passagem
Entre um anseio vão e um sonho vão.
Parceiros em prestidigitação,
Caímos ambos pelo alçapão.
Foi esta a nossa vida e a nossa viagem.
Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). p. 87.
Meu coração tardou. Meu coração
Talvez se houvesse amor nunca tardasse;
Mas, visto que, se o houve, o houve em vão,
Tanto faz que o amor houvesse ou não.
Tardou. Antes, de inútil, acabasse.
Meu coração postiço e contrafeito
Finge-se meu. Se o amor o houvesse tido,
Talvez, num rasgo natural de eleito,
Seu próprio ser do nada houvesse feito,
E a sua própria essência conseguido.
Mas não. Nunca nem eu nem coração
Fomos mais que um vestígio de passagem
Entre um anseio vão e um sonho vão.
Parceiros em prestidigitação,
Caímos ambos pelo alçapão.
Foi esta a nossa vida e a nossa viagem.
Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993). p. 87.
quarta-feira, 22 de maio de 2013
terça-feira, 21 de maio de 2013
Um estame de sangue. Vitorino Nemésio
Regresso
Cavalo e cavaleiro o vento adornam
Com uma pata e uma pluma:
À tarde unidos tornam,
Um estame de sangue numa rosa de espuma.
Tanta pressa, afinal, para coisa nenhuma.
Vitorino Nemésio
Cavalo e cavaleiro o vento adornam
Com uma pata e uma pluma:
À tarde unidos tornam,
Um estame de sangue numa rosa de espuma.
Tanta pressa, afinal, para coisa nenhuma.
Vitorino Nemésio
segunda-feira, 20 de maio de 2013
E tudo era possível. Cristina Nobre e Ruy Belo
Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido
Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido.
E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer
Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer
Ruy Belo
A publicação deste poema tem uma razão suplementar (para lá
da referencia ao tema da viagem): ele foi referido pela Professora Cristina
Nobre, minha colega do Instituto Politécnico de Leiria) na sessão em que a
convite da Associação para o Desenvolvimento de Leiria, do Instituto
Politécnico de Leiria e do Jornal de
Leiria, falei da experiência de Guimarães Capital Europeia da Cultura, no
dia 12 de Abril passado.
Já por diversas vezes sublinhei o apreço e admiração
intelectuais que tenho por Cristina Nobre [http://oqueeuandei.blogspot.pt/2009/10/lancamento-de-livro-de-ricardo-vieira.html
e http://oqueeuandei.blogspot.pt/2009/01/confiana-na-escola-pblica.html],
mas deste vez peço um pouco mais de espaço para lhe agradecer com emoção o
gesto afectuoso que nessa noite me dispensou. Cristina disse parte do poema
acima transcrito para sublinhar a percepção que formara sobre o papel da
vontade e do empenho das pessoas no sucesso do projecto de Guimarães (“Só sei
que tinha o poder duma criança/ entre as coisas e mim havia vizinhança/ e tudo
era possível era só querer”). E disse-o muito bem, da forma competente e
generosa que já lhe tinha escutado.
Teve que sair mais cedo da sessão, que se prolongou pela
noite, e já não a pude encontrar no final, para tentar responder pessoalmente
ao repto que me lançou sobre o regresso às funções docentes no IPL . Com
surpresa, recebi então um livro que deixara para me ser entregue. Tratava-se do
inventário do Espólio da Casa-Museu Afonso Lopes Vieira, em S. Pedro de Moel,
recentemente editado, sob sua coordenação.
Cristina tem dedicado um imenso
labor ao estudo da vida e obra daquele escritor e poeta, com quem partilha aliás
diversas afinidades, uma das quais o encanto por S. Pedro. Não resisto a tornar
publico aqui a dedicatória que inscreveu no livro que me ofereceu.
Cristina Nobre é também uma notável escritora, que conheço
das suas crónicas na imprensa e do poema da sua autoria que já lhe ouvi dizer. Com
um abraço reconhecido, aqui fica o que inseriu como proémio ao Lugar Literário de S. Pedro de Moel.
domingo, 19 de maio de 2013
Criei-me com as brisas frescas. Manuel Mendes
Eu também sou ribeirinho. A luz primeira que vi foi na reverberação das águas. Criei-me com as brisas frescas que sopram do meu rio, mas nasci à beira de um grande estuário, que mais parece um braço de mar, em que às vezes, nos dias de temporal, as ondas se encapelam, e as águas são sempre salgadas. A minha cidade remira-se no largo espelho do Tejo, a vaidosa, como debruçada sobre a superfície de um vasto lago. É por isso surpreendente de graça, mas as coisas perdem-se ma imensidão, distanciam-se, soçobram - deixam de ter as proporções familiares que tocam mais o coração do homem. Digam o que disserem, um rio torna-se íntimo, chegado a nós, quando se ouve correr e quando se pode falar de uma para a outra margem, gritar ao vizinho da casa e frente: - deixa que eu vou aí no meu batel..
O Douro, na força da sua impressionante grandeza, tem ao mesmo tempo o que quer que seja de caseiro - rio gigantesco que não deixa por isso de se mostrar familiar, chegando ao intimo viver dos homens. Percorre-se no seu curso, em que de quando em quando se põe irado ou apenas resmungão, mas a cada passo os olhos se nos prendem em qualquer sinal de vida próxima, que se vê e ouve latejar - povoado ou quinta isolada, as curvas admiráveis que faz a estrada, o penacho de fumo o silvo do comboio, a sombra apetitosa de uma mata, o muro grosso de um naseiro donde os pescadores deitam a rede, perto da margem um desses humildes casais de viver, pequena barquinha de toldo em que habita gente, ou então o belo barco que passa de vela aberta, a subir o rio, levado pelo vento da barra... De cá para lá todos se saúdam, todos se conhecem naquela estrada de água. E no decurso da viagem vamos tendo notícia da mutação das coisas - do que a terra vale, do que os homens vivem, de como aqui a natureza e o trabalho se mostram amáveis, e ali se tornam no tormento, na aflição de cada hora e cada instante.
Manuel Mendes, Roteiro Sentimental. Douro. Museu do Douro, 2002 [1a edição 1964] p. 41.
O Douro, na força da sua impressionante grandeza, tem ao mesmo tempo o que quer que seja de caseiro - rio gigantesco que não deixa por isso de se mostrar familiar, chegando ao intimo viver dos homens. Percorre-se no seu curso, em que de quando em quando se põe irado ou apenas resmungão, mas a cada passo os olhos se nos prendem em qualquer sinal de vida próxima, que se vê e ouve latejar - povoado ou quinta isolada, as curvas admiráveis que faz a estrada, o penacho de fumo o silvo do comboio, a sombra apetitosa de uma mata, o muro grosso de um naseiro donde os pescadores deitam a rede, perto da margem um desses humildes casais de viver, pequena barquinha de toldo em que habita gente, ou então o belo barco que passa de vela aberta, a subir o rio, levado pelo vento da barra... De cá para lá todos se saúdam, todos se conhecem naquela estrada de água. E no decurso da viagem vamos tendo notícia da mutação das coisas - do que a terra vale, do que os homens vivem, de como aqui a natureza e o trabalho se mostram amáveis, e ali se tornam no tormento, na aflição de cada hora e cada instante.
Manuel Mendes, Roteiro Sentimental. Douro. Museu do Douro, 2002 [1a edição 1964] p. 41.
sábado, 18 de maio de 2013
Iremos juntos separados. Eugénio de Andrade
Viagem
Iremos juntos separados,
as palavras mordidas uma a uma,
taciturnas, cintilantes
- ó meu amor, constelação de bruma,
ombro dos meus braços hesitantes.
Esquecidos, lembrados, repetidos
na boca dos amantes que se beijam
no alto dos navios;
desfeitos ambos, ambos inteiros,
no rasto dos peixes luminosos,
afogados na voz dos marinheiros.
Eugénio de Andrade
Iremos juntos separados,
as palavras mordidas uma a uma,
taciturnas, cintilantes
- ó meu amor, constelação de bruma,
ombro dos meus braços hesitantes.
Esquecidos, lembrados, repetidos
na boca dos amantes que se beijam
no alto dos navios;
desfeitos ambos, ambos inteiros,
no rasto dos peixes luminosos,
afogados na voz dos marinheiros.
Eugénio de Andrade
sexta-feira, 17 de maio de 2013
quinta-feira, 16 de maio de 2013
Fiz a viagem, comprei o inútil, achei o incerto. Álvaro de Campos
Canção à inglesa
Cortei relações com o sol e as estrelas, pus ponto no mundo.
Levei a mochila das coisas que sei para o lado e p'ro fundo
Fiz a viagem, comprei o inútil, achei o incerto,
E o meu coração é o mesmo que fui, um céu e um deserto
Falhei no que fui, falhei no que quis, falhei no que soube.
Não tenho já alma que a luz me desperte ou a treva me roube,
Não sou senão náusea, não sou senão cisma, não sou senão ânsia
Sou uma coisa que fica a uma grande distância
E vou, só porque o meu ser é cómodo e profundo,
Colado como um escarro a uma das rodas do mundo.
1-12-1928
Álvaro de Campos, Livro de Versos. Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. p. 90.
Cortei relações com o sol e as estrelas, pus ponto no mundo.
Levei a mochila das coisas que sei para o lado e p'ro fundo
Fiz a viagem, comprei o inútil, achei o incerto,
E o meu coração é o mesmo que fui, um céu e um deserto
Falhei no que fui, falhei no que quis, falhei no que soube.
Não tenho já alma que a luz me desperte ou a treva me roube,
Não sou senão náusea, não sou senão cisma, não sou senão ânsia
Sou uma coisa que fica a uma grande distância
E vou, só porque o meu ser é cómodo e profundo,
Colado como um escarro a uma das rodas do mundo.
1-12-1928
Álvaro de Campos, Livro de Versos. Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. p. 90.
quarta-feira, 15 de maio de 2013
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