domingo, 12 de maio de 2013

Aquila. 8 a 11 de Maio de 2013

No Parque do Castelo, no Dia da Europa:
A cidade suburbana
Sem título
Segurança:
Auditório oferecido pelo município de Trento, projecto de Renzo Piano (inaugurado no final de 2012)


Entrevistas: da vereadora da cultura de Aquila, Senadora Stafanie Pezzopane e do director executivo de Guimarães 2012, Carlos Martins.

Praça (central) Duomo:

Castelo


Dia da Europa:




Cartazes:




sábado, 11 de maio de 2013

Aquila (zona aberta). Visita de 8 de Maio de 2013

Zona visitável da área histórica de Aquila. Embora sob controlo militar, esta área pode ser atravessada e nela permanecem abertos 6 bares, um pub, uma gelataria, 2 ou 3 lojas de pequeno comércio. Nas noites de quinta-feira, os estudantes em véspera de fim de semana, ocupam o corso Victor Emanuel, a artéria principal da cidade antiga.
























Aquila (zona rossa). Visita de 9 de Maio de 2013

Zona Rossa: área interdita, acessível apenas a pessoal relacionado com a manutenção, vistoria e alguma reconstrução ou a visitantes autorizados e acompanhados pela polícia.



















Em silêncio descobri essa cidade no mapa. Herberto Helder


Em silêncio descobri essa cidade no mapa
a toda a velocidade: gota
sombria. Descobri as poeiras que batiam
como peixes no sangue.
A toda a velocidade, em silêncio, no mapa -
como se descobre uma letra
de outra cor no meio das folhas,
estremecendo nos ulmos, em silêncio. Gota
sombria num girassol -
essa letra, essa cidade em silêncio,
batendo como sangue.

Era a minha cidade ao norte do mapa,
numa velocidade chamada
mundo sombrio. Seus peixes estremeciam
como letras no alto das folhas,
poeiras de outra cor: girassol que se descobre
como uma gota no mundo.
Descobri essa cidade, aplainando tábuas
lentas como rosas vigiadas
pelas letras dos espinhos. Era em silêncio
como uma gota
de seiva lenta numa tábua aplainada.

Descobri que tinha asas como uma pêra
que desce. E a essa velocidade
voava para mim aquela cidade do mapa.
Eu batia como os peixes batendo
dentro do sangue - peixes
em silêncio, cheios de folhas. Eu escrevia,
aplainando na tábua
todo o meu silêncio. E a seiva
sombria vinha escorrendo do mapa
desse girassol, no mapa
do mundo. Na sombra do sangue, estremecendo
como as letras nas folhas
de outra cor.

Cidade que aperto, batendo as asas - ela -
no ar do mapa. E que aperto
contra quanto, estremecendo em mim com folhas,
escrevo no mundo.
Que aperto com o amor sombrio contra
mim: peixes de grande velocidade,
letra monumental descoberta entre poeiras.
E que eu amo lentamente até ao fim
da tábua por onde escorre
em silêncio aplainado noutra cor:
como uma pêra voando,
um girassol do mundo.

Herberto Helder

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Crónica portuense

O carro era um "citroen zx avantage" de cor cinza e quando chegou ao cais de Gaia soltou um barulho suspeito. Não tive dúvidas de que a panela de escape se soltara. O contacto da lata com o empedrado produziu de imediato um forte ruído que a ninguém nas imediações passou despercebido. Solícitos, os passeantes da beira-rio daquela noite de Agosto, rodavam sobre si próprios, espreitavam e traseira do automóvel e advertiam-me: "oh, amigo, olhe que leva o escape a bater no chão".
Fechei o vidro da janela do meu lado para reduzir o volume de som vindo do exterior e dissuadir mais chamadas de atenção de outros veraneantes. Estacionei, logo que pude, para avaliar a situação. Já passava das 22 horas e era sábado. A hipótese de encontrar uma oficina de reparações aberta era tão remota que nem valia a pena perder um minuto a verificá-la. Propus aos miúdos e à mãe que cumpríssemos o programa que ali nos trouxera. Passear junto ao Douro, apreciar o Porto à noite visto de Gaia, comer farturas, procurar uma esplanada para tomar um refresco ou um cálice de vinho do Porto. Estávamos na primeira metade dos anos 90, o cais de Gaia ainda não tivera a intervenção que mais tarde a Câmara presidida por Luis Filipe Menezes planeou. Eu viera passar uma semana de férias ao Porto para mostrar a cidade e os arredores aos três filhos e arrendara uma casa de turismo rural perto de Entre-os-Rios.
Por volta da meia noite, perante os sinais de cansaço dos mais novos, voltamos ao "zx" e tomamos o caminho do regresso. O mesmo ruído incomodativo e indisfarçável e a mesma solicitude preocupada dos retardatários visitantes do cais. Percorri lentamente o tabuleiro inferior da ponte D. Luis. A minha inquietação aumentava na proporção do som, cada vez mais ensurdecedor, emitido pela lata arrastada ao longo do pavimento. Os miúdos e a mãe, em silêncio, acentuavam o dramatismo da situação. O cheiro dentro do carro começava a ser insuportável. O risco de provocar danos na viatura eram evidentes. Conseguiria chegar, sem mais incidentes, a Entre-os Rios? A distancia a que estávamos do destino parecia aumentar a todo o momento.
A margem portuense do Douro, nas noites quentes de Verão, em especial aos fins de semana, é ocupada por pescadores. Alguns deslocam as famílias, que se sentam no muro de proteção ou em bancos e cadeiras de praia trazidas de casa. A concentração de canas e outros apetrechos da pesca amadora, de pescadores e seus acompanhantes cria um cordão de animação nocturna singular na bordadura norte do rio, sobretudo ao longo do percurso que vai da ponte da Arrábida até à ponte do Infante.
Logo a seguir à saída da ponte, quando o passeio da rua Eng. Gustavo Eiffel ainda se não estreitou, um desses pescadores fez-me sinal de parar e orientou-me o estacionamento em cima do passeio. Era um homem baixo e magro. Tinha um cigarro de confecção manual no canto dos lábios. Mal parei o motor, ainda não tinha saído completamente de dentro do veiculo, e já ele se deitara debaixo do carro, com agilidade e economia de gestos, para observar o problema. Levantou-se, arrancou a pega de arame da lata de zinco onde presumo guardaria o peixe pescado, e voltou para a mesma posição. Pouco tempo depois, efectuadas as operações de voltar a prender a panela de escape, declarou-me: - "Pode andar à vontade, o escape já não cai, mesmo que vá com ele até ao Algarve".
- "Você salvou-me a vida", declarei-lhe. "Todos nós" - e apontei para o interior do carro - "lhe estamos muito agradecidos. Dá-me licença que lhe ofereça uma pequena importância em sinal de gratidão" Ele recusou. Eu insisti, ele disse que não, de forma peremptória. Eu arrisquei: - "É uma pequena importância, para você beber uma cerveja com os seus amigos".
Ele estava porém sozinho, como eu já devia ter notado, e respondeu: - "Só bebo em companhia e, se me quer oferecer uma cerveja, então vai ter que comprar uma para mim e outra para si". Se eram estas as regras, dispus-me a cumpri-las. - "Vou então à procura de cervejas" - e preparei-me para voltar para trás, em busca de um restaurante que mas vendesse. Naquele tempo, ainda o negócio do abastecimento de cachorros e bebidas aos pescadores e outros noctívagos se não tinha instalado em roulottes junto as arribas de Miragaia. Adivinhando a intenção, o meu interlocutor indicou-me: - "Venha comigo". Atravessamos a rua e dirigimo-nos a um muro alto de pedra, onde numa cavidade que mal se distinguia, ele puxou um cordel, ouvindo-se uma sineta e uma voz que perguntava: - "Que queres?" - "Quatro cervejas" - respondi eu. Pouco depois descia um cesto, com as quatro cervejas e onde depositei a quantia que me foi pedida.
Regressámos junto do carro e das canas de pesca. Os miúdos brincavam cá fora, passada a hora de dormir. Entreguei as duas cervejas ao meu inesperado salvador e preparei-me estoicamente para beber as outras duas. Ele riu-se pela primeira vez.
- "Pode ir andando. Vá deitar as crianças. E aproveite para beber as cervejas com a família".

quinta-feira, 9 de maio de 2013

A água e a morte. Gaston Bachelard


A Morte é uma viagem e a viagem é uma morte. “Partir é morrer um pouco”. Morrer é verdadeiramente partir, e só se parte bem, corajosamente, nitidamente, quando se segue o fluir da água, a corrente do largo rio. Todos os rios desembocam no Rio dos Mortos. Apenas essa morte é fabulosa. Apenas essa partida é uma aventura.
Se de facto um morto, para o inconsciente, é um ausente, só o navegador da morte é um morto com o qual se pode sonhar indefinidamente. Parece que a sua lembrança tem sempre um porvir... Bem diferente será o morto que habita  a necrópole. Para este, o túmulo é ainda uma morada, uma morada que os vivos vêm piedosamente visitar. Tal morto não está totalmente ausente. E a alma sensível sabe-o muito bem. Somos sete, diz a menina na poesia de Wordsworth, cinco estão em vida, os outros dois estão sempre no cemitério; perto deles, com eles, pode-se ir coser ou fiar.
[...] Assim, o adeus à beira-mar é simultaneamente o mais dilacerante e o mais literário dos adeuses. A sua poesia explora um velho fundo de sonho e de heroísmo. Desperta em nós, sem dúvida, os ecos mais dolorosos. Todo um lado da nossa alma nocturna se explica pelo mito da morte concebida como uma partida sobre a água. Para o sonhador, as inversões entre essa partida e a morte são contínuas. Para alguns sonhadores, a água é o movimento novo que nos convida à viagem jamais feita. Essa partida material rouba-nos a matéria da terra. Por isso, que admirável grandeza tem este verso de Baudelaire, esta imagem súbita que vai ao âmago do nosso mistério:
Ó morte, velho capitão, é tempo! Levantemos a âncora!

Gaston Bachelard, A Água e os Sonhos. Ensaio sobre a Imaginação da Matéria. S. Paulo, Livraria Martins Fontes, 1989, p. 77-78.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

O Mar. Pablo Neruda

O MAR

Um único ser, mas não existe sangue.
Uma carícia apenas, morte ou rosa.
Vem o mar e reúne as nossas vidas,
sozinho ataca e reparte-se e canta
em noite e dia e criatura e homem.
A essência: fogo e frio: movimento.

Pablo Neruda