Zona visitável da área histórica de Aquila. Embora sob controlo militar, esta área pode ser atravessada e nela permanecem abertos 6 bares, um pub, uma gelataria, 2 ou 3 lojas de pequeno comércio. Nas noites de quinta-feira, os estudantes em véspera de fim de semana, ocupam o corso Victor Emanuel, a artéria principal da cidade antiga.
sábado, 11 de maio de 2013
Aquila (zona rossa). Visita de 9 de Maio de 2013
Zona Rossa: área interdita, acessível apenas a pessoal relacionado com a manutenção, vistoria e alguma reconstrução ou a visitantes autorizados e acompanhados pela polícia.
Em silêncio descobri essa cidade no mapa. Herberto Helder
Em silêncio descobri essa cidade no mapa
a toda a velocidade: gota
sombria. Descobri as poeiras que batiam
como peixes no sangue.
A toda a velocidade, em silêncio, no mapa -
como se descobre uma letra
de outra cor no meio das folhas,
estremecendo nos ulmos, em silêncio. Gota
sombria num girassol -
essa letra, essa cidade em silêncio,
batendo como sangue.
Era a minha cidade ao norte do mapa,
numa velocidade chamada
mundo sombrio. Seus peixes estremeciam
como letras no alto das folhas,
poeiras de outra cor: girassol que se descobre
como uma gota no mundo.
Descobri essa cidade, aplainando tábuas
lentas como rosas vigiadas
pelas letras dos espinhos. Era em silêncio
como uma gota
de seiva lenta numa tábua aplainada.
Descobri que tinha asas como uma pêra
que desce. E a essa velocidade
voava para mim aquela cidade do mapa.
Eu batia como os peixes batendo
dentro do sangue - peixes
em silêncio, cheios de folhas. Eu escrevia,
aplainando na tábua
todo o meu silêncio. E a seiva
sombria vinha escorrendo do mapa
desse girassol, no mapa
do mundo. Na sombra do sangue, estremecendo
como as letras nas folhas
de outra cor.
Cidade que aperto, batendo as asas - ela -
no ar do mapa. E que aperto
contra quanto, estremecendo em mim com folhas,
escrevo no mundo.
Que aperto com o amor sombrio contra
mim: peixes de grande velocidade,
letra monumental descoberta entre poeiras.
E que eu amo lentamente até ao fim
da tábua por onde escorre
em silêncio aplainado noutra cor:
como uma pêra voando,
um girassol do mundo.
Herberto Helder
sexta-feira, 10 de maio de 2013
Crónica portuense
O carro era um "citroen zx avantage" de cor cinza e quando chegou ao cais de Gaia soltou um barulho suspeito. Não tive dúvidas de que a panela de escape se soltara. O contacto da lata com o empedrado produziu de imediato um forte ruído que a ninguém nas imediações passou despercebido. Solícitos, os passeantes da beira-rio daquela noite de Agosto, rodavam sobre si próprios, espreitavam e traseira do automóvel e advertiam-me: "oh, amigo, olhe que leva o escape a bater no chão".
Fechei o vidro da janela do meu lado para reduzir o volume de som vindo do exterior e dissuadir mais chamadas de atenção de outros veraneantes. Estacionei, logo que pude, para avaliar a situação. Já passava das 22 horas e era sábado. A hipótese de encontrar uma oficina de reparações aberta era tão remota que nem valia a pena perder um minuto a verificá-la. Propus aos miúdos e à mãe que cumpríssemos o programa que ali nos trouxera. Passear junto ao Douro, apreciar o Porto à noite visto de Gaia, comer farturas, procurar uma esplanada para tomar um refresco ou um cálice de vinho do Porto. Estávamos na primeira metade dos anos 90, o cais de Gaia ainda não tivera a intervenção que mais tarde a Câmara presidida por Luis Filipe Menezes planeou. Eu viera passar uma semana de férias ao Porto para mostrar a cidade e os arredores aos três filhos e arrendara uma casa de turismo rural perto de Entre-os-Rios.
Por volta da meia noite, perante os sinais de cansaço dos mais novos, voltamos ao "zx" e tomamos o caminho do regresso. O mesmo ruído incomodativo e indisfarçável e a mesma solicitude preocupada dos retardatários visitantes do cais. Percorri lentamente o tabuleiro inferior da ponte D. Luis. A minha inquietação aumentava na proporção do som, cada vez mais ensurdecedor, emitido pela lata arrastada ao longo do pavimento. Os miúdos e a mãe, em silêncio, acentuavam o dramatismo da situação. O cheiro dentro do carro começava a ser insuportável. O risco de provocar danos na viatura eram evidentes. Conseguiria chegar, sem mais incidentes, a Entre-os Rios? A distancia a que estávamos do destino parecia aumentar a todo o momento.
A margem portuense do Douro, nas noites quentes de Verão, em especial aos fins de semana, é ocupada por pescadores. Alguns deslocam as famílias, que se sentam no muro de proteção ou em bancos e cadeiras de praia trazidas de casa. A concentração de canas e outros apetrechos da pesca amadora, de pescadores e seus acompanhantes cria um cordão de animação nocturna singular na bordadura norte do rio, sobretudo ao longo do percurso que vai da ponte da Arrábida até à ponte do Infante.
Logo a seguir à saída da ponte, quando o passeio da rua Eng. Gustavo Eiffel ainda se não estreitou, um desses pescadores fez-me sinal de parar e orientou-me o estacionamento em cima do passeio. Era um homem baixo e magro. Tinha um cigarro de confecção manual no canto dos lábios. Mal parei o motor, ainda não tinha saído completamente de dentro do veiculo, e já ele se deitara debaixo do carro, com agilidade e economia de gestos, para observar o problema. Levantou-se, arrancou a pega de arame da lata de zinco onde presumo guardaria o peixe pescado, e voltou para a mesma posição. Pouco tempo depois, efectuadas as operações de voltar a prender a panela de escape, declarou-me: - "Pode andar à vontade, o escape já não cai, mesmo que vá com ele até ao Algarve".
- "Você salvou-me a vida", declarei-lhe. "Todos nós" - e apontei para o interior do carro - "lhe estamos muito agradecidos. Dá-me licença que lhe ofereça uma pequena importância em sinal de gratidão" Ele recusou. Eu insisti, ele disse que não, de forma peremptória. Eu arrisquei: - "É uma pequena importância, para você beber uma cerveja com os seus amigos".
Ele estava porém sozinho, como eu já devia ter notado, e respondeu: - "Só bebo em companhia e, se me quer oferecer uma cerveja, então vai ter que comprar uma para mim e outra para si". Se eram estas as regras, dispus-me a cumpri-las. - "Vou então à procura de cervejas" - e preparei-me para voltar para trás, em busca de um restaurante que mas vendesse. Naquele tempo, ainda o negócio do abastecimento de cachorros e bebidas aos pescadores e outros noctívagos se não tinha instalado em roulottes junto as arribas de Miragaia. Adivinhando a intenção, o meu interlocutor indicou-me: - "Venha comigo". Atravessamos a rua e dirigimo-nos a um muro alto de pedra, onde numa cavidade que mal se distinguia, ele puxou um cordel, ouvindo-se uma sineta e uma voz que perguntava: - "Que queres?" - "Quatro cervejas" - respondi eu. Pouco depois descia um cesto, com as quatro cervejas e onde depositei a quantia que me foi pedida.
Regressámos junto do carro e das canas de pesca. Os miúdos brincavam cá fora, passada a hora de dormir. Entreguei as duas cervejas ao meu inesperado salvador e preparei-me estoicamente para beber as outras duas. Ele riu-se pela primeira vez.
- "Pode ir andando. Vá deitar as crianças. E aproveite para beber as cervejas com a família".
Fechei o vidro da janela do meu lado para reduzir o volume de som vindo do exterior e dissuadir mais chamadas de atenção de outros veraneantes. Estacionei, logo que pude, para avaliar a situação. Já passava das 22 horas e era sábado. A hipótese de encontrar uma oficina de reparações aberta era tão remota que nem valia a pena perder um minuto a verificá-la. Propus aos miúdos e à mãe que cumpríssemos o programa que ali nos trouxera. Passear junto ao Douro, apreciar o Porto à noite visto de Gaia, comer farturas, procurar uma esplanada para tomar um refresco ou um cálice de vinho do Porto. Estávamos na primeira metade dos anos 90, o cais de Gaia ainda não tivera a intervenção que mais tarde a Câmara presidida por Luis Filipe Menezes planeou. Eu viera passar uma semana de férias ao Porto para mostrar a cidade e os arredores aos três filhos e arrendara uma casa de turismo rural perto de Entre-os-Rios.
Por volta da meia noite, perante os sinais de cansaço dos mais novos, voltamos ao "zx" e tomamos o caminho do regresso. O mesmo ruído incomodativo e indisfarçável e a mesma solicitude preocupada dos retardatários visitantes do cais. Percorri lentamente o tabuleiro inferior da ponte D. Luis. A minha inquietação aumentava na proporção do som, cada vez mais ensurdecedor, emitido pela lata arrastada ao longo do pavimento. Os miúdos e a mãe, em silêncio, acentuavam o dramatismo da situação. O cheiro dentro do carro começava a ser insuportável. O risco de provocar danos na viatura eram evidentes. Conseguiria chegar, sem mais incidentes, a Entre-os Rios? A distancia a que estávamos do destino parecia aumentar a todo o momento.
A margem portuense do Douro, nas noites quentes de Verão, em especial aos fins de semana, é ocupada por pescadores. Alguns deslocam as famílias, que se sentam no muro de proteção ou em bancos e cadeiras de praia trazidas de casa. A concentração de canas e outros apetrechos da pesca amadora, de pescadores e seus acompanhantes cria um cordão de animação nocturna singular na bordadura norte do rio, sobretudo ao longo do percurso que vai da ponte da Arrábida até à ponte do Infante.
Logo a seguir à saída da ponte, quando o passeio da rua Eng. Gustavo Eiffel ainda se não estreitou, um desses pescadores fez-me sinal de parar e orientou-me o estacionamento em cima do passeio. Era um homem baixo e magro. Tinha um cigarro de confecção manual no canto dos lábios. Mal parei o motor, ainda não tinha saído completamente de dentro do veiculo, e já ele se deitara debaixo do carro, com agilidade e economia de gestos, para observar o problema. Levantou-se, arrancou a pega de arame da lata de zinco onde presumo guardaria o peixe pescado, e voltou para a mesma posição. Pouco tempo depois, efectuadas as operações de voltar a prender a panela de escape, declarou-me: - "Pode andar à vontade, o escape já não cai, mesmo que vá com ele até ao Algarve".
- "Você salvou-me a vida", declarei-lhe. "Todos nós" - e apontei para o interior do carro - "lhe estamos muito agradecidos. Dá-me licença que lhe ofereça uma pequena importância em sinal de gratidão" Ele recusou. Eu insisti, ele disse que não, de forma peremptória. Eu arrisquei: - "É uma pequena importância, para você beber uma cerveja com os seus amigos".
Ele estava porém sozinho, como eu já devia ter notado, e respondeu: - "Só bebo em companhia e, se me quer oferecer uma cerveja, então vai ter que comprar uma para mim e outra para si". Se eram estas as regras, dispus-me a cumpri-las. - "Vou então à procura de cervejas" - e preparei-me para voltar para trás, em busca de um restaurante que mas vendesse. Naquele tempo, ainda o negócio do abastecimento de cachorros e bebidas aos pescadores e outros noctívagos se não tinha instalado em roulottes junto as arribas de Miragaia. Adivinhando a intenção, o meu interlocutor indicou-me: - "Venha comigo". Atravessamos a rua e dirigimo-nos a um muro alto de pedra, onde numa cavidade que mal se distinguia, ele puxou um cordel, ouvindo-se uma sineta e uma voz que perguntava: - "Que queres?" - "Quatro cervejas" - respondi eu. Pouco depois descia um cesto, com as quatro cervejas e onde depositei a quantia que me foi pedida.
Regressámos junto do carro e das canas de pesca. Os miúdos brincavam cá fora, passada a hora de dormir. Entreguei as duas cervejas ao meu inesperado salvador e preparei-me estoicamente para beber as outras duas. Ele riu-se pela primeira vez.
- "Pode ir andando. Vá deitar as crianças. E aproveite para beber as cervejas com a família".
quinta-feira, 9 de maio de 2013
A água e a morte. Gaston Bachelard
A Morte é uma viagem e a viagem é uma morte. “Partir é
morrer um pouco”. Morrer é verdadeiramente partir, e só se parte bem,
corajosamente, nitidamente, quando se segue o fluir da água, a corrente do
largo rio. Todos os rios desembocam no Rio dos Mortos. Apenas essa morte é
fabulosa. Apenas essa partida é uma aventura.
Se de facto um morto, para o inconsciente, é um ausente, só
o navegador da morte é um morto com o qual se pode sonhar indefinidamente.
Parece que a sua lembrança tem sempre um porvir... Bem diferente será o morto
que habita a necrópole. Para este,
o túmulo é ainda uma morada, uma morada que os vivos vêm piedosamente visitar.
Tal morto não está totalmente ausente. E a alma sensível sabe-o muito bem.
Somos sete, diz a menina na poesia de Wordsworth, cinco estão em vida, os
outros dois estão sempre no cemitério; perto deles, com eles, pode-se ir coser
ou fiar.
[...] Assim, o adeus à beira-mar é simultaneamente o mais
dilacerante e o mais literário dos adeuses. A sua poesia explora um velho fundo
de sonho e de heroísmo. Desperta em nós, sem dúvida, os ecos mais dolorosos.
Todo um lado da nossa alma nocturna se explica pelo mito da morte concebida
como uma partida sobre a água. Para o sonhador, as inversões entre essa partida
e a morte são contínuas. Para alguns sonhadores, a água é o movimento novo que
nos convida à viagem jamais feita. Essa partida material rouba-nos a matéria da
terra. Por isso, que admirável grandeza tem este verso de Baudelaire, esta imagem
súbita que vai ao âmago do nosso mistério:
Ó morte, velho capitão,
é tempo! Levantemos a âncora!
Gaston Bachelard, A Água
e os Sonhos. Ensaio sobre a Imaginação da Matéria. S. Paulo, Livraria Martins
Fontes, 1989, p. 77-78.
quarta-feira, 8 de maio de 2013
O Mar. Pablo Neruda
O MAR
Um único ser, mas não existe sangue.
Uma carícia apenas, morte ou rosa.
Vem o mar e reúne as nossas vidas,
sozinho ataca e reparte-se e canta
em noite e dia e criatura e homem.
A essência: fogo e frio: movimento.
Pablo Neruda
Um único ser, mas não existe sangue.
Uma carícia apenas, morte ou rosa.
Vem o mar e reúne as nossas vidas,
sozinho ataca e reparte-se e canta
em noite e dia e criatura e homem.
A essência: fogo e frio: movimento.
Pablo Neruda
terça-feira, 7 de maio de 2013
Aguardando o desembarque de Isabel II. Carlos Calvet
Carlos Calvet
Lisboa, Terreiro do Paço, 18 de Fevereiro de 1957
In Livro de Viagens. Fotografia Portuguesa 1854-1997. Coordenação de M. Tereza Siza e Peter Weiermair. Lisboa, Edições Stemmle, 1997
segunda-feira, 6 de maio de 2013
O tempo era pouco para ver-se a cidade. Jorge de Sena
Travessia
Após cinco dias de sonolenta travessia
quase sem barcos, e sem nenhuma ilha,
apenas sobre um mar de ondeado azul sombrio
ou de estanhada palidez monótona
(ó mar – perene sangue a que regresso
nesta viagem como um ventre, um ovo,
o sumptuoso paquete de New York a Southampton),
de madrugada entrámos um par de horas,
no Havre.
O tempo era pouco para ver-se a cidade.
Desci porém a terra, tonto como uma criança,
pousando com cautela os pés no cais.
Não por ser a França o que pisava na calçada suja:
Europa
(mais velha, como eu, quase dez anos).
Jorge de Sena (1968/69)
domingo, 5 de maio de 2013
Oriente/Ocidente. António Julio Duarte
António Julio Duarte, Oriente/Ocidente, 1990-1994
In Livro de Viagens. Fotografia Portuguesa 1854-1997. Edition Stemmle, 1997.
A imaginação só vive da vida dos outros seres. Eça de Queirós
Aqueles que nunca saíram das ruas direitas e monótonas das
cidades da Europa, não podem conceber a colorida e luminosa originalidade das
cidades do Oriente.
Aí, as ruas são direitas, ladeadas de largas fachadas,
caiadas, inexpressivas como rostos idiotas. As figuras são triviais, as
fisionomias vulgares, esbatidas, uniformizadas pelo tédio e as dificuldades da
vida; os estuários são escuros, estreitos, económicos. O gás, à noite, perfila
a sua linha bocejante; o rodar das carruagens e das carroças abala o chão com
uma brutalidade ruidosa. Tudo é correcto, alinhado, perfilado, medido e
policiado.
É decerto excelente para a segurança, para a justiça, para a
propriedade, para a ordem: é mesmo indispensável. A algibeira aplaude; a
epiderme, protegida, dilata-se de alegria; o espírito do lucro, garantido e
patrulhado, desenvolve-se com segurança, e as gavetas podem bocejar sem risco.
Tudo está contente no animal policiado – excepto a imaginação.
A imaginação que se não modifica, que se não civiliza,
perpétua revoltada e perpétua nómada, a imaginação que depois de vencidas as
paixões pelo código penal, depois de dominadas as violências da vontade pela polícia e pela grilheta, é ainda, só ela, bárbara, valente, espontânea, natural
e livre – a imaginação, essa, sente-se apertada, dominada, constrangida, sem
ter, na monotonia, na prisão da vida policiada, um espaço desafogado em que
respire.
A imaginação da cidade é a perpétua repelida. A imaginação
só vive da vida dos outros seres: precisa de pousar sobre as coisas externas e
tirar-lhes, como a abelha tira o mel às flores, a quantidade de sonho que as
coisas têm.
A imaginação, no campo, na margem de um rio, entre uma
floresta, toma um livre caminho, encontra alimento, vive, tem quem a escute,
tem companhia, pasta livremente, devagar, olhando, cismando...
Apertada nas ruas de uma cidade de casas estreitas e chatas,
na violenta limitação imposta pela municipalidade, que há-de fazer a imaginação, de que há-de viver, como pode
ter expansões legítimas?
Esvoaça como um pássaro dentro de uma casa fechada, batendo
as asas de encontro às paredes caiadas. E assim, a imaginação, batendo de
encontro a tudo o que faz a vida social, perturba a quietação das coisas
sérias, arremessa-se então para a política, e produz os revolucionários, as
mudanças de estado, a guilhotina; lança-se na vida moral e produz a orgia, as
lorettes, o luxo, as roletas; e quando se concentra sobre si mesma, quando se
escava a si própria, acontece-lhe o que acontece a todas as funções que se
isolam, que se impropriam: vê falso, sente falso, produz falso!
Porém, para a
imaginação do europeu, há ainda uma região livre, abundante e cheia, nas ruas
de uma cidade do Oriente: o Cairo.
Constantinopla é quase europeia e imita Viena de Áustria.
Damasco é exclusivamente síria. Alepo lembra a Suíça. O Cairo, esse, é
original, é sarraceno.
O Egipto é um país de passagem. Tudo ali passa, tudo ali
descansa, tudo ali repousa. É o caminho da Índia. É o caminho da Pérsia. É centro onde acodem todos os povos da África
Oriental. É o escoadouro das populações ambulantes do Mediterrâneo e do
Levante. Tudo para ali emigra, até os pássaros, porque tudo o que tem asas,
quando nos nossos climas começa o Inverno, foge para o velho Egipto!
Ora, o Cairo é o centro do Egipto e a sua maravilha. A corte
do Paxá chama o comércio e as caravanas. A mesquita de El-Azhar congrega os
estudantes. O Vale do Nilo atrai todo o mundo. E as ruínas que o cercam
convidam os pássaros para ali fazerem os seus ninhos.
Todas as raças, todos os vestuários, todos os costumes,
todos os idiomas, todas as religiões, todas as crenças, todas as superstições,
ali se encontram, naquelas ruas estreitas.
Eça de Queirós, O Egipto. Notas de Viagem. Lisboa, O Independente, 2001. p. 45-46.
sexta-feira, 3 de maio de 2013
Hora da partida. Adelino Lyon de Castro
Adelino Lyon de Castro (1910-1953), Hora da Partida.
In O Mundo da Minha Objectiva. Publicações Europa-América, 1980.
Outrora as pequenas cidades
O ponto de partida destas crónicas mensais foi a recente edição do Diário de Bordo de Fernando Távora, um relato de uma longa viagem pelas Américas e pelos Orientes efectuada pelo arquitecto em 1960. O Diário é pontuado por confrontos com a percepção urbanística da cidade europeia e com a invocação da especificidade portuguesa.
Num texto de 1969, Orlando Ribeiro debruçava-se sobre a forma das cidades ("uma cidade é uma forma"), cuja estrutura resulta das vicissitudes da evolução histórica e das funções que a modelaram. O urbano não podia ser definido por um princípio quantitativo, nomeadamente o do limiar de concentração demográfica.
O Autor aludia à ocorrência, tanto em Espanha como em Portugal, de aglomerações rurais, por vezes de certa extensão. Quais os critérios para detectar a natureza urbana - distinta da mera concentração de casario em torno de uma igreja mais ou menos imponente, submetida a uma única actividade e sem irradiação regional?
O Autor enumera os seguintes para as denominadas vilas urbanas: predominância da função comercial e industrial variada sobre a rural; existência de feira ou mercado de produtos diversos e de uma "praça" para o abastecimento quotidiano; existência de lojas de comércio especializado ou de artigos de qualidade ou de uso menos corrente; capacidade de atracção e de irradiação, materializada na convergência de linhas e trânsito e no número e frequência de serviços de transportes em comum aí centralizados; número de pessoas que todos os dias vêm à povoação e outras formas menos aparentes de "centralidade"; prevalência do sector terciário na população activa; aparência e individualidade das construções, que se diferenciam segundo áreas e funções; marcas do passado, não apenas nas construções monumentais, mas nas ruas e nas casas, onde se lêem as fases ou surtos de desenvolvimento da povoação; existência e dimensão de locais de reunião e de diversão e de locais dedicados a certo sector da população ou da sociedade; importância de estabelecimentos de ensino secundário.
Cada cidade é porém uma realidade concreta. Tem a sua biografia própria e exibe uma personalidade inconfundível. A verificação dos critérios apontados pelo geógrafo não poderia, por isso, prescindir da observação directa, por onde devia, aliás, principiar. "O deambular atento é a melhor forma de captar a fisionomia e, através dela, as funções de uma cidade e o arranjo do espaço urbano", adverte Orlando Ribeiro.
Pouco mais de quatro décadas volvidas, como se alterou a noção de urbano e de urbanidade! Como nos parecem irrelevantes os critérios propostos em 1969 para averiguar a feição urbana de uma concentração populacional! Onde estão hoje as pequenas cidades portuguesas? Que fizemos do seu carácter de entidade única?
Texto publicado no semanário Região de Leiria, edição de 2 de Maio de 2013.
Texto publicado no semanário Região de Leiria, edição de 2 de Maio de 2013.
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