quarta-feira, 10 de abril de 2013
segunda-feira, 8 de abril de 2013
domingo, 7 de abril de 2013
sábado, 6 de abril de 2013
Elogio da cidade. O estrangeiro
Fernando Távora, como se terá concluído na crónica anterior ("Paris é uma obra de Arte", Região de Leiria de 7 de Março), não se deixou seduzir pelo urbanismo americano, ao qual contrapôs a cidade europeia, quando, em 1960, visitou os Estados Unidos. Frequentemente, esse confronto foi pontuado com a expressa convocação das memórias do arquitecto relativas à cidade portuguesa, cujo paradigma ainda surgia impregnado de ruralidade.
A experiência da estranheza, do desconforto, por vezes da hostilidade perante uma cidade, quem a não sentiu? Joaquim Magalhães e Castro, um viajante já de longa data, contava-me há dias em Macau como, nos anos 90, estrangeiro na China podia ser recebido. Chegou a ter de lutar fisicamente por um quarto de hotel ou um banho nos banhos públicos. E a própria cidade de Macau, que se orgulha de ser uma cidade aberta, pode ser muito fechada para quem nela procura instalar-se, conforme me foi testemunhado por muitos jovens portugueses que ali aportaram um dia (agora com mais frequência).
Curiosamente, Távora não transmitiu essa percepção de resistência ao estrangeiro na sua visita às cidades americanas. "Há uma coisa que me impressiona desde já na América: a falta da noção de 'estrangeiro' que, por exemplo, nós temos bem nítida. Esta noção só surge, suponho, quando se atinge uma estruturação e uma integração perfeitas; ela aqui não existe, creio, porque essa estruturação e integração não existem ainda, embora haja dois grandes valores de unificação: a língua e o nível de vida".
Franz Kafka que, que eu saiba, nunca visitou a América, escolheu precisamente Nova Iorque para cenário do seu romance O Desaparecido (também traduzido com o titulo América, com o qual, aliás, se popularizou).
A Nova Iorque de Kafka é evidentemente imaginária. O que importou ao autor foi identificar a condição de estrangeiro. O desaparecido é o estrangeiro.
Diferentemente do bárbaro, o estrangeiro aspira à integração, ou pelo menos à convivência, e não à destruição da cidade para a qual emigrou.
Kafka representou essa experiência como a de alguém que está em trânsito, um trânsito cujo termo se cumpre desejavelmente no regresso e que vive uma espécie de labirinto, um tema tão caro às ficções de Kafka.
O equivalente da cidade como um labirinto é provavelmente a representação mais forte de quem nela habita como estrangeiro. O labirinto dificulta a passagem. Quem se acha perdido num labirinto procura sempre a saída, embora reconheça que essa procura possa ser demorada e dificultada por inúmeros e imprevistos obstáculos.
Mas o labirinto também esconde. Neste sentido, o labirinto é ou pode ser um refúgio.
Publicado no semanário Região de Leiria, edição de 4 de Abril.
A experiência da estranheza, do desconforto, por vezes da hostilidade perante uma cidade, quem a não sentiu? Joaquim Magalhães e Castro, um viajante já de longa data, contava-me há dias em Macau como, nos anos 90, estrangeiro na China podia ser recebido. Chegou a ter de lutar fisicamente por um quarto de hotel ou um banho nos banhos públicos. E a própria cidade de Macau, que se orgulha de ser uma cidade aberta, pode ser muito fechada para quem nela procura instalar-se, conforme me foi testemunhado por muitos jovens portugueses que ali aportaram um dia (agora com mais frequência).
Curiosamente, Távora não transmitiu essa percepção de resistência ao estrangeiro na sua visita às cidades americanas. "Há uma coisa que me impressiona desde já na América: a falta da noção de 'estrangeiro' que, por exemplo, nós temos bem nítida. Esta noção só surge, suponho, quando se atinge uma estruturação e uma integração perfeitas; ela aqui não existe, creio, porque essa estruturação e integração não existem ainda, embora haja dois grandes valores de unificação: a língua e o nível de vida".
Franz Kafka que, que eu saiba, nunca visitou a América, escolheu precisamente Nova Iorque para cenário do seu romance O Desaparecido (também traduzido com o titulo América, com o qual, aliás, se popularizou).
A Nova Iorque de Kafka é evidentemente imaginária. O que importou ao autor foi identificar a condição de estrangeiro. O desaparecido é o estrangeiro.
Diferentemente do bárbaro, o estrangeiro aspira à integração, ou pelo menos à convivência, e não à destruição da cidade para a qual emigrou.
Kafka representou essa experiência como a de alguém que está em trânsito, um trânsito cujo termo se cumpre desejavelmente no regresso e que vive uma espécie de labirinto, um tema tão caro às ficções de Kafka.
O equivalente da cidade como um labirinto é provavelmente a representação mais forte de quem nela habita como estrangeiro. O labirinto dificulta a passagem. Quem se acha perdido num labirinto procura sempre a saída, embora reconheça que essa procura possa ser demorada e dificultada por inúmeros e imprevistos obstáculos.
Mas o labirinto também esconde. Neste sentido, o labirinto é ou pode ser um refúgio.
Publicado no semanário Região de Leiria, edição de 4 de Abril.
Não nos será dado gozar. Alain de Botton
Sentámo-nos no canto mais afastado [da varanda coberta, com vista de jardins e mar, de um restaurante instalado numa velha mansão colonial da Ilha de Barbados], junto a uma buganvília florida. M pediu camarões gigantes com molho de pimenta doce, e eu uma cebolada de peixe com tempero de ervas e vinho tinto. Falámos do sistema colonial e da espantosa ineficácia dos protectores solar mais potentes. Pedimos dois pudins flã à sobremesa.
Quando os trouxeram, serviram a M uma dose grande mas desconjuntada, com todo ar de se ter virado na cozinha, e a mim uma pequena, mas bem apresentada. Assim que o empregado desapareceu, M trocou os pratos.
- Não me roubes a sobremesa - disse-lhe eu.
- Pensei que preferias o maior - replicou ela, não menos ofendida.
- O que tu queres é ficar com o melhor, e mais nada.
- Nem por sombras, só estava a tentar ser simpática. Deixa de ser tão desconfiado.
- De acordo. Mas devolve-me o meu prato.
E assim, de um instante para o outro, vimo-nos mergulhados num episódio vergonhoso que, a coberto de uma briga infantil, trazia à tona temores de incompatibilidade e de infidelidade.
M devolveu-me o prato com um gesto feroz, engoliu duas ou três colheradas e a seguir pôs a sobremesa de lado. Não dissemos mais nada. Pagámos e metemo-nos no carro de regresso ao hotel. O barulho do motor camuflava a intensidade da nossa cólera. Durante a nossa ausência, o quarto fora limpo e arrumado. Tinham-nos mudado os lençóis. Havia flores em cima da cómoda e toalhas de praia lavadas na casa de banho. Tirei uma da pilha e fui sentar-me na varanda, fechando com força as portas envidraçadas. Os coqueiros projectavam uma sombra amena e as linhas das suas palmas desenhavam formas que iam mudando, de quando em vez, ao sabor da brisa da tarde. Mas não experimentei o mais pequeno prazer com a sua beleza. Desde a batalha em torno dos pudins flã, travada havia já algumas horas, não voltara a sentir qualquer satisfação, nem de ordem estética nem de ordem material. As toalhas macias, as flores e aquela vista aprazível, tudo passara a ser diferente. O meu humor recusava o concurso de pontos de apoio no exterior; mais ainda, sentia-se como que insultado pela perfeição das condições meteorológicas e por churrasco na praia que estava programado para essa noite.
A nossa desgraça da tarde, dom o cheiro das lágrimas misturado ao do creme solar e ao do ar condicionado, era uma chamada de atenção destinada a lembrar a lógica implacável e estrita a que estados de espirito humanos parecem submeter-se, embora nos demos abolido de, por conta e risco próprios, a ignorarmos quando vemos uma fotografia de um lugar encantador e imaginamos que é impossível não ser a felicidade a condição de uma tal maravilha. Ma a verdade é que a nossa capacidade de descobrirmos felicidade em bens estéticos ou materiais parece depender decisivamente da satisfação preliminar de um repertório de necessidades afectivas psíquicas, entre as quais se incluem a necessidade de compreensão, de amor, de comunicação e de respeito. Não nos será dado gozar - não somos capazes de gozar - do esplendor se jardins tropicais nem do encanto de uma deliciosa construção de madeira na praia, quando, bruscamente, a incompreensão e o ressentimento devastam uma nossa relação íntima.
Alain de Botton, A Arte de Viajar. 3a edição. Lisboa, Publicações Dom Quixote P. 32-33
Quando os trouxeram, serviram a M uma dose grande mas desconjuntada, com todo ar de se ter virado na cozinha, e a mim uma pequena, mas bem apresentada. Assim que o empregado desapareceu, M trocou os pratos.
- Não me roubes a sobremesa - disse-lhe eu.
- Pensei que preferias o maior - replicou ela, não menos ofendida.
- O que tu queres é ficar com o melhor, e mais nada.
- Nem por sombras, só estava a tentar ser simpática. Deixa de ser tão desconfiado.
- De acordo. Mas devolve-me o meu prato.
E assim, de um instante para o outro, vimo-nos mergulhados num episódio vergonhoso que, a coberto de uma briga infantil, trazia à tona temores de incompatibilidade e de infidelidade.
M devolveu-me o prato com um gesto feroz, engoliu duas ou três colheradas e a seguir pôs a sobremesa de lado. Não dissemos mais nada. Pagámos e metemo-nos no carro de regresso ao hotel. O barulho do motor camuflava a intensidade da nossa cólera. Durante a nossa ausência, o quarto fora limpo e arrumado. Tinham-nos mudado os lençóis. Havia flores em cima da cómoda e toalhas de praia lavadas na casa de banho. Tirei uma da pilha e fui sentar-me na varanda, fechando com força as portas envidraçadas. Os coqueiros projectavam uma sombra amena e as linhas das suas palmas desenhavam formas que iam mudando, de quando em vez, ao sabor da brisa da tarde. Mas não experimentei o mais pequeno prazer com a sua beleza. Desde a batalha em torno dos pudins flã, travada havia já algumas horas, não voltara a sentir qualquer satisfação, nem de ordem estética nem de ordem material. As toalhas macias, as flores e aquela vista aprazível, tudo passara a ser diferente. O meu humor recusava o concurso de pontos de apoio no exterior; mais ainda, sentia-se como que insultado pela perfeição das condições meteorológicas e por churrasco na praia que estava programado para essa noite.
A nossa desgraça da tarde, dom o cheiro das lágrimas misturado ao do creme solar e ao do ar condicionado, era uma chamada de atenção destinada a lembrar a lógica implacável e estrita a que estados de espirito humanos parecem submeter-se, embora nos demos abolido de, por conta e risco próprios, a ignorarmos quando vemos uma fotografia de um lugar encantador e imaginamos que é impossível não ser a felicidade a condição de uma tal maravilha. Ma a verdade é que a nossa capacidade de descobrirmos felicidade em bens estéticos ou materiais parece depender decisivamente da satisfação preliminar de um repertório de necessidades afectivas psíquicas, entre as quais se incluem a necessidade de compreensão, de amor, de comunicação e de respeito. Não nos será dado gozar - não somos capazes de gozar - do esplendor se jardins tropicais nem do encanto de uma deliciosa construção de madeira na praia, quando, bruscamente, a incompreensão e o ressentimento devastam uma nossa relação íntima.
Alain de Botton, A Arte de Viajar. 3a edição. Lisboa, Publicações Dom Quixote P. 32-33
sexta-feira, 5 de abril de 2013
Porto de Mar. Jan Peeters
Jan Peeters; Un puerto de mar. Ca.1640
"Dos grandes navíos con las velas a medio recoger o a medio desplegar están anclados en un puerto de arquitectura clásica. Uno de los viajeros, elegantemente vestido, es conducido en una barca al malecón, donde hay tres caballeros que parecen esperarle. Dos de ellos llevan turbantes, lo que, unido a los edificios clásicos semiderruidos, indica que la escena transcurre en un puerto mediterráneo, con cierta actividad. Al fondo, otro gran navío acaba de pasar por delante del faro y avanza hacia el puerto. A pesar de su aparente realismo, es una vista inventada y los distintos elementos están tomados de grabados de edificios y ruinas antiguos, reales o imaginados, pero que en ningún caso estaban a la orilla del mar. El faro parece querer evocar el puerto de Génova, mientras que el edificio clásico figura en "Escena de puerto con el Campidoglio" de Claudio de Lorena, firmado y fechado en 1636 (París, Musée du Louvre), que Peeters pudo conocer a través de grabados."
quinta-feira, 4 de abril de 2013
A finalidade da Natureza. F. Hegel
Tinha 25 anos Hegel quando, em 1797, seno preceptor em Berna, na Suíça, fez uma incursão nos Alpes. Dessa experiência de viagem pela montanha deixou um testemunho que viria a ser publicado pela primeira vez em 1844, 13 anos após a sua morte.
A partir de Guttannen, o caminho é cada vez mais selvagem, deserto e uniforme. Aqui e ali avistamos as montanhas cobertas de neve. O solo, mais regular, forma por vezes um vale estreito obstruído por enormes blocos de granito. O Aar apresenta grandiosas quedas de água que caem com uma força assustadora. Por cima de uma dessas quedas, foi lançada uma ponte impressionante na qual somos atingidos pelos salpicos da água. Vemos de perto o curso poderoso da torrente que se lança sobre as rochas; resistem estas, sem que que se compreenda como podem opor-se a uma tal violência. Em parte alguma nos é dada uma noção tão pura da necessidade natural como a do curso das massas de água deitadas sobre as rochas; curso eternamente contínuo e sem que se lhe anteveja um fim. Mas cremos que os lados das rochas se têm vindo, pouco a pouco, a arredondar. Apercebemos-nos igualmente de que a vegetação sofre cada vez mais os efeitos da maldição de uma natureza despida de calor e de energia. Já não encontramos abetos, nada a não ser pequenos arbustos atrofiados, uma erva miserável, ou alguns lariços ou ciprestes. Gencianas crescem com abundância num terreno. Uma família colhe as suas raízes e ferve-as para obter água de genciana. Esta família vive aqui no Verão, completamente à margem de outros homens; construiu a sua destilaria debaixo de blocos de granito que a natureza acumulou sem finalidade e que formam uma torre. Os homens usam essa disposição acidental. Duvido que até um teólogo, mesmo o mais crente, ousasse atribuir à natureza, nestas montanhas, a finalidade de uma utilidade para o homem, pois este tem de, arduamente, extrair desta natureza a magra utilidade que ela proporciona; e viverá na dúvida sobre se as suas magras rapinas de um punhado de erva não provocará derrocadas; nunca estará certo de que a obra miserável realizada com as suas mãos, a sua pobre cabana e o seu estábulo, não sejam destruídos numa noite. Nestes desertos solitários, homens cultivados teriam podido inventar todas as teorias e todas as ciências, mas não teriam podido elaborar esta parte da teologia física que prova ao orgulho humano que a natureza tudo preparou para o seu gozo e bem estar. Um orgulho bem característico da nossa época, pois o homem tira mais satisfação da ideia de que um ser estrangeiro tudo fez por ele do que da consciência de que foi ele que colocou toda a finalidade na natureza.
G. E. F. Hegel, Journal d'un voyage dans les Alpes bernoises (du 25. Au 31 Juillet 1796). 2.a edição. Grenoble, Éditions Jérôme Millon, 1997. P. 74-75.
terça-feira, 2 de abril de 2013
"Com as malas feitas e tudo a bordo". Álvaro de Campos
Com as malas feitas e tudo a bordo
E nada mais a esperar da terra que deixamos,
Já com os trajes moles característicos dos viajantes, debruçados da amurada
Digamos adeus com um levantar da alegria ao que fica,
Adeus às afeições, e aos pensamentos domésticos, e às lareiras, e aos irmãos,
E enquanto se abre o espaço entre o navio lento e o cais
Gozemos uma grande esperança indefinida e arrepiada,
Uma trémula sensação de futuro.
Eis-nos a caminho, e quase a meio do rio
Aumenta a nitidez deixada na terra
Dos alpendres e dos guindastes ou das mercadorias descarregadas
E não é a nós, felizmente, que diz adeus aquela família
Aglomerada no extremo do cais, com um cuidado subjectivo e visível
De não cair dentro de água no meio da emoção.
Olhemos para os companheiros de bordo. Como são diversos!
Uns vão em trânsito. Não é com eles nenhuma destas despedidas.
Outros, com um ar palidamente sorridente de não querer chorar,
Acenam com um gesto deselegante e pouco afoito com os lenços
Para lenços que se acenam de outra gente que ficou no cais
No cais — ah reparem — subitamente tão mais longe do que notámos.
A amargura alegre da ida,
O sabor especial a começo de viagem marítima, a mistura com nossos sentidos
De cheiro das malas, de cheiro a navio, de cheiro a comida de bordo,
E a nossa alma é um composto confuso de cheiros e sabores
E tudo é a viagem indefinida que faremos vista através do paladar e do olfacto,
Tudo é a incerteza sensual da vida sentida pela espinha abaixo...
E nós não deixamos ninguém...
Se deixássemos, ah os lenços que lindos!, o navio que se afasta
Afastar-se-ia de mais do que da terra;
Afastava-se do nosso passado todo, de nós-mesmos, ficados no cais e aqui a caminho,
Do sentimento doméstico com que beijamos a nossa mãe,
Da alegria com que às vezes, brincando, arreliamos as nossas irmãs...
Partir! partir é viver excessivamente. O que é tudo senão partir...
Todos os dias do cais da nossa vida nos separamos, navios (...),
E vamos para o futuro como se fossemos para o Mistério,
Mas que sabemos nós para onde vamos, ó dor, e o que somos,
E que proteico e fluido Deus é tutelar das partidas?
Olha, de longe, já os guindastes ainda mexendo,
Olha as figuras no cais, negras figuras, manchadas de lenços que se acenam,
Olha os casarões de zinco ondulado dos cais e docas, às portas deles,
O sossego destacado e acostumado a isto dos empregados e dos carregadores...
Vai tal angústia, tão inexplicável angústia na minha alma,
Que não sei como têm coragem, vendo que eu grito assim, para estarem parados
No cais, tranquilamente os descarregadores e os guardas fiscais!
Bebedeira da vida... ligeiro nervoso nas nossas sensações...
Perturbação alcoólica dos nossos sentidos íntimos...
A nossa alma sai um pouco para fora do seu lugar
E as rodas da nossa vida quotidiana começam a cambalear como se fossem sair do eixo...
Pelo convés fora a gente que já está acostumada a estar aqui a bordo
Está alheia a isto e interessada contudo
(Ah [enquanto eu atirar meu directo olhar, nunca?] olhar tranquilo,
Fremem em mim os nervos vibrados de todos que vejo que sentem,
Correm-me dos olhos as lágrimas de todos que choram porque se separam,
Tenho nas mãos os gestos circulares de mãos saudosas já que acenam com lenços,
Sou todas as penas que toda esta gente tem de se ir embora...
Sou as esperanças que levam consigo e agora lhes fazem mais trémula a dor da partida,
Estou [...] por dentro deles todos, na roupa que compraram para a viagem,
Nos pequenos objectos que, na véspera («Lá me ia esquecendo» dizem, e era uma coisa inútil)
Compraram de noite numa loja feérica cheia de malas de couro e que ia fechar...
Ah, com todos os nervos de toda a gente, os meus nervos vibram...
E com os estremeções das máquinas do navio, e com o estralejar da bandeira ao vento
E com o túmido tremor das enxárcias e com o ondular dos toldos
E toda a minha alma é uma dolorosa vibração física em ritmos de mim).
Vida cosmopolita atirada aos quatro ventos...
Vida de tanta gente real a bordo de tantos navios...
Embriaguez de lidar com outra gente e saber que eles existem e têm vidas passadas, preparadas, gozadas,
Sofridas, e tão curioso o traje, interessante a moral, de cada pessoa,
E tão cheio de enigmas e de metafísicas o modo como falam, como riem, como arranjam o cabelo, como se entendem uns com os outros...
Sensação metafísica das outras pessoas e das suas realidades, e do seu décor...
Ó doença humanitária dos meus nervos vibrando cheios de outras pessoas,
Volúpia de gozar e sofrer através de hipóteses dos outros...
E eu ser só eu, só eu eternamente, e não ter outras vidas senão a minha!
Como se tocassem o fado de repente à meia-noite numa aldeia na América do Norte,
Um fatalismo metafísico com os nervos de toda a gente vibra em mim a cada momento
Quando reparo cosmopoliticamente nos outros, e ouço várias línguas
E vejo nos gestos e nos trajes — que parecem idênticos mas são tão diferentes — várias pátrias, vários costumes,
E entrevejo lares diversos, vidas comerciais complexas, amores desconhecidos, mas de cidades que desconheço,
Tudo como num animatógrafo num teatro do tamanho do Universo,
Onde se soubesse que acabava o mundo e saindo para fora,
Não há casa para onde se regresse, nem automóvel que nos leve para um lugar qualquer,
Mas a Noite Absoluta, e Deus talvez como uma Lua Enorme significando
IV
Profunda e religiosa solidão do indefinido Universo,
Vastidão enorme, nem larga nem alta nem comprida, mas só espaço, o constelado espaço
Deste mistério azul-negro e estrelado onde a terra é uma coisa
E as vidas aparecem como lanchas à superfície da água...
Raios de sol entrando pela janela entreaberta no quarto da casa de campo,
Meios-dias nas eiras abandonadas,
Tardes noites para encontros em outras margens de rios,
Fazei do nosso conseguimento natural um sossego, uma capa
E descei sobre a minha alma...
Vós, ó campos repousados e incivilizados
Vós ó rios tranquilamente passando por uma inquietação,
Vós ó jardins públicos às tardes visitados
Vós ó tanques de quintas, vós ó lareiras em solares,
E disperso arfar de sedas pretas o silêncio da noite.
Álvaro de Campos . Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 29.
E nada mais a esperar da terra que deixamos,
Já com os trajes moles característicos dos viajantes, debruçados da amurada
Digamos adeus com um levantar da alegria ao que fica,
Adeus às afeições, e aos pensamentos domésticos, e às lareiras, e aos irmãos,
E enquanto se abre o espaço entre o navio lento e o cais
Gozemos uma grande esperança indefinida e arrepiada,
Uma trémula sensação de futuro.
Eis-nos a caminho, e quase a meio do rio
Aumenta a nitidez deixada na terra
Dos alpendres e dos guindastes ou das mercadorias descarregadas
E não é a nós, felizmente, que diz adeus aquela família
Aglomerada no extremo do cais, com um cuidado subjectivo e visível
De não cair dentro de água no meio da emoção.
Olhemos para os companheiros de bordo. Como são diversos!
Uns vão em trânsito. Não é com eles nenhuma destas despedidas.
Outros, com um ar palidamente sorridente de não querer chorar,
Acenam com um gesto deselegante e pouco afoito com os lenços
Para lenços que se acenam de outra gente que ficou no cais
No cais — ah reparem — subitamente tão mais longe do que notámos.
A amargura alegre da ida,
O sabor especial a começo de viagem marítima, a mistura com nossos sentidos
De cheiro das malas, de cheiro a navio, de cheiro a comida de bordo,
E a nossa alma é um composto confuso de cheiros e sabores
E tudo é a viagem indefinida que faremos vista através do paladar e do olfacto,
Tudo é a incerteza sensual da vida sentida pela espinha abaixo...
E nós não deixamos ninguém...
Se deixássemos, ah os lenços que lindos!, o navio que se afasta
Afastar-se-ia de mais do que da terra;
Afastava-se do nosso passado todo, de nós-mesmos, ficados no cais e aqui a caminho,
Do sentimento doméstico com que beijamos a nossa mãe,
Da alegria com que às vezes, brincando, arreliamos as nossas irmãs...
Partir! partir é viver excessivamente. O que é tudo senão partir...
Todos os dias do cais da nossa vida nos separamos, navios (...),
E vamos para o futuro como se fossemos para o Mistério,
Mas que sabemos nós para onde vamos, ó dor, e o que somos,
E que proteico e fluido Deus é tutelar das partidas?
Olha, de longe, já os guindastes ainda mexendo,
Olha as figuras no cais, negras figuras, manchadas de lenços que se acenam,
Olha os casarões de zinco ondulado dos cais e docas, às portas deles,
O sossego destacado e acostumado a isto dos empregados e dos carregadores...
Vai tal angústia, tão inexplicável angústia na minha alma,
Que não sei como têm coragem, vendo que eu grito assim, para estarem parados
No cais, tranquilamente os descarregadores e os guardas fiscais!
Bebedeira da vida... ligeiro nervoso nas nossas sensações...
Perturbação alcoólica dos nossos sentidos íntimos...
A nossa alma sai um pouco para fora do seu lugar
E as rodas da nossa vida quotidiana começam a cambalear como se fossem sair do eixo...
Pelo convés fora a gente que já está acostumada a estar aqui a bordo
Está alheia a isto e interessada contudo
(Ah [enquanto eu atirar meu directo olhar, nunca?] olhar tranquilo,
Fremem em mim os nervos vibrados de todos que vejo que sentem,
Correm-me dos olhos as lágrimas de todos que choram porque se separam,
Tenho nas mãos os gestos circulares de mãos saudosas já que acenam com lenços,
Sou todas as penas que toda esta gente tem de se ir embora...
Sou as esperanças que levam consigo e agora lhes fazem mais trémula a dor da partida,
Estou [...] por dentro deles todos, na roupa que compraram para a viagem,
Nos pequenos objectos que, na véspera («Lá me ia esquecendo» dizem, e era uma coisa inútil)
Compraram de noite numa loja feérica cheia de malas de couro e que ia fechar...
Ah, com todos os nervos de toda a gente, os meus nervos vibram...
E com os estremeções das máquinas do navio, e com o estralejar da bandeira ao vento
E com o túmido tremor das enxárcias e com o ondular dos toldos
E toda a minha alma é uma dolorosa vibração física em ritmos de mim).
Vida cosmopolita atirada aos quatro ventos...
Vida de tanta gente real a bordo de tantos navios...
Embriaguez de lidar com outra gente e saber que eles existem e têm vidas passadas, preparadas, gozadas,
Sofridas, e tão curioso o traje, interessante a moral, de cada pessoa,
E tão cheio de enigmas e de metafísicas o modo como falam, como riem, como arranjam o cabelo, como se entendem uns com os outros...
Sensação metafísica das outras pessoas e das suas realidades, e do seu décor...
Ó doença humanitária dos meus nervos vibrando cheios de outras pessoas,
Volúpia de gozar e sofrer através de hipóteses dos outros...
E eu ser só eu, só eu eternamente, e não ter outras vidas senão a minha!
Como se tocassem o fado de repente à meia-noite numa aldeia na América do Norte,
Um fatalismo metafísico com os nervos de toda a gente vibra em mim a cada momento
Quando reparo cosmopoliticamente nos outros, e ouço várias línguas
E vejo nos gestos e nos trajes — que parecem idênticos mas são tão diferentes — várias pátrias, vários costumes,
E entrevejo lares diversos, vidas comerciais complexas, amores desconhecidos, mas de cidades que desconheço,
Tudo como num animatógrafo num teatro do tamanho do Universo,
Onde se soubesse que acabava o mundo e saindo para fora,
Não há casa para onde se regresse, nem automóvel que nos leve para um lugar qualquer,
Mas a Noite Absoluta, e Deus talvez como uma Lua Enorme significando
IV
Profunda e religiosa solidão do indefinido Universo,
Vastidão enorme, nem larga nem alta nem comprida, mas só espaço, o constelado espaço
Deste mistério azul-negro e estrelado onde a terra é uma coisa
E as vidas aparecem como lanchas à superfície da água...
Raios de sol entrando pela janela entreaberta no quarto da casa de campo,
Meios-dias nas eiras abandonadas,
Tardes noites para encontros em outras margens de rios,
Fazei do nosso conseguimento natural um sossego, uma capa
E descei sobre a minha alma...
Vós, ó campos repousados e incivilizados
Vós ó rios tranquilamente passando por uma inquietação,
Vós ó jardins públicos às tardes visitados
Vós ó tanques de quintas, vós ó lareiras em solares,
E disperso arfar de sedas pretas o silêncio da noite.
Álvaro de Campos . Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 29.
segunda-feira, 1 de abril de 2013
Certidão de nascimento de Macau (2) Fernão Mendes Pinto
Ao outro dia pela manhã partimos desta ilha de Sanchão, e ao sol posto chegámos a outra ilha que está mais adiante seis léguas para o Norte, chamada Lampacau, onde naquele tempo os Portugueses faziam o seu negócio com os Chins, e aí se fez sempre até ao ano de 1557, quando os mandarins de Cantão, a requerimento dos mercadores da terra, nos deram este porto de Macau, onde agora se faz, no qual, sendo antes ilha deserta, fizeram os nossos uma nobre povoação de casas de três e quatro mil cruzados, e com igreja matriz em que há Vigário e beneficiados, e tem capitão e ouvidor e oficiais de justiça, e tão confiados e seguros estão nela, por cuidarem que é nossa, como se ela estivesse situada na mais segura parte de Portugal...
Fernão Mendes Pinto, Peregrinação.
Peregrinação, seguida das suas cartas. Versão integral em português moderno por Adolfo Casais Monteiro. Edição da Sociedade de Intercâmbio Cultural Luso-Brasileiro e da Livraria Casa do Estudante Brasileiro, S/d.
[Texto enviado por Francisca Abreu]
domingo, 31 de março de 2013
Certidão de nascimento de Macau (1) Fernão Mendes Pinto
Cópia de uma carta do Irmão Fernão Mendes que escreveu de Macau ao Reitor do Colégio de Goa a 20 de Novembro de 1555.
A graça e o amor de Cristo Nosso Senhor e redentor seja sempre com V. R. e com todos os caríssimos irmãos, amen. — Por o tempo me não dar lugar lhe não escrevo tão largo como desejava para lhe dar conta de toda nossa viagem e sucesso dela, e o quanto trabalho temos passado depois que de V. R. nos apartámos. Mas porque hoje cheguei de Lampacau, que é o porto onde estamos, a este Macau, que é outras seis léguas mais avante, onde achei o Padre Mestre Belchior, que de Cantão aqui veio ter, onde era ido havia vinte e cinco dias a resgatar Mateus de Brito, que é um homem fidalgo, e outro homem, os quais estavam presos no tronco da cidade havia seis anos”, “os quais custaram mil taéis, que são mil e quinhentos cruzados, e assim a ver a cidade, a maneira da gente e terra, e trabalhar para ver se podia lá deixar o Irmão Luís Fróis, para aprender a língua, para se em algum tempo fosse necessário, parecendo-lhe que a terra fosse para se nela poder fazer em algum tempo fruto, a qual não achou como lhe pareceu, senão da maneira que ele lá escreve a V. R., por que me parece que não há maior engano que cuidar ninguém que em algum tempo naturalmente possa haver alguns Cristãos Chins senão se Deus fizer outros de novo, porque estes que ao presente há na terra é por demais falar nisso. E, como digo, me falta tempo para disto como dos mais trabalhos, riscos, medos, que até agora temos passado, principalmente em informar V. R. e também para estar de “caminho para logo me embarcar para Cantão com o Irmão sacristão, a buscar muitas coisas que o padre Baltazar Gago manda pedir de Japão, que cá se acharam e lá não as há, que são muito necessárias”
Fernão Mendes Pinto. “Carta II", 1555.
Peregrinação, seguida das suas cartas. Versão integral em português moderno por Adolfo Casais Monteiro. Edição da Sociedade de Intercâmbio Cultural Luso-Brasileiro e da Livraria Casa do Estudante Brasileiro, S/d.
A graça e o amor de Cristo Nosso Senhor e redentor seja sempre com V. R. e com todos os caríssimos irmãos, amen. — Por o tempo me não dar lugar lhe não escrevo tão largo como desejava para lhe dar conta de toda nossa viagem e sucesso dela, e o quanto trabalho temos passado depois que de V. R. nos apartámos. Mas porque hoje cheguei de Lampacau, que é o porto onde estamos, a este Macau, que é outras seis léguas mais avante, onde achei o Padre Mestre Belchior, que de Cantão aqui veio ter, onde era ido havia vinte e cinco dias a resgatar Mateus de Brito, que é um homem fidalgo, e outro homem, os quais estavam presos no tronco da cidade havia seis anos”, “os quais custaram mil taéis, que são mil e quinhentos cruzados, e assim a ver a cidade, a maneira da gente e terra, e trabalhar para ver se podia lá deixar o Irmão Luís Fróis, para aprender a língua, para se em algum tempo fosse necessário, parecendo-lhe que a terra fosse para se nela poder fazer em algum tempo fruto, a qual não achou como lhe pareceu, senão da maneira que ele lá escreve a V. R., por que me parece que não há maior engano que cuidar ninguém que em algum tempo naturalmente possa haver alguns Cristãos Chins senão se Deus fizer outros de novo, porque estes que ao presente há na terra é por demais falar nisso. E, como digo, me falta tempo para disto como dos mais trabalhos, riscos, medos, que até agora temos passado, principalmente em informar V. R. e também para estar de “caminho para logo me embarcar para Cantão com o Irmão sacristão, a buscar muitas coisas que o padre Baltazar Gago manda pedir de Japão, que cá se acharam e lá não as há, que são muito necessárias”
Fernão Mendes Pinto. “Carta II", 1555.
Peregrinação, seguida das suas cartas. Versão integral em português moderno por Adolfo Casais Monteiro. Edição da Sociedade de Intercâmbio Cultural Luso-Brasileiro e da Livraria Casa do Estudante Brasileiro, S/d.
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