domingo, 31 de março de 2013

Certidão de nascimento de Macau (1) Fernão Mendes Pinto

Cópia de uma carta do Irmão Fernão Mendes que escreveu de Macau ao Reitor do Colégio de Goa a 20 de Novembro de 1555.

A graça e o amor de Cristo Nosso Senhor e redentor seja sempre com V. R. e com todos os caríssimos irmãos, amen. — Por o tempo me não dar lugar lhe não escrevo tão largo como desejava para lhe dar conta de toda nossa viagem e sucesso dela, e o quanto trabalho temos passado depois que de V. R. nos apartámos. Mas porque hoje cheguei de Lampacau, que é o porto onde estamos, a este Macau, que é outras seis léguas mais avante, onde achei o Padre Mestre Belchior, que de Cantão aqui veio ter, onde era ido havia vinte e cinco dias a resgatar Mateus de Brito, que é um homem fidalgo, e outro homem, os quais estavam presos no tronco da cidade havia seis anos”, “os quais custaram mil taéis, que são mil e quinhentos cruzados, e assim a ver a cidade, a maneira da gente e terra, e trabalhar para ver se podia lá deixar o Irmão Luís Fróis, para aprender a língua, para se em algum tempo fosse necessário, parecendo-lhe que a terra fosse para se nela poder fazer em algum tempo fruto, a qual não achou como lhe pareceu, senão da maneira que ele lá escreve a V. R., por que me parece que não há maior engano que cuidar ninguém que em algum tempo naturalmente possa haver alguns Cristãos Chins senão se Deus fizer outros de novo, porque estes que ao presente há na terra é por demais falar nisso. E, como digo, me falta tempo para disto como dos mais trabalhos, riscos, medos, que até agora temos passado, principalmente em informar V. R. e também para estar de “caminho para logo me embarcar para Cantão com o Irmão sacristão, a buscar muitas coisas que o padre Baltazar Gago manda pedir de Japão, que cá se acharam e lá não as há, que são muito necessárias”

Fernão Mendes Pinto. “Carta II", 1555.
Peregrinação, seguida das suas cartas. Versão integral em português moderno por Adolfo Casais Monteiro. Edição da Sociedade de Intercâmbio Cultural Luso-Brasileiro e da Livraria Casa do Estudante Brasileiro, S/d.

Macau, 30 de Março de 2013


sábado, 30 de março de 2013

"Viagens comadres do pensamento". Alain de Botton

As viagens são as comadres do pensamento. Poucos lugares induzem mais intensamente à conversa interior que um avião, um barco ou um comboio em andamento. Entre aquilo que temos diante dos nossos olhos e os pensamentos que nos podem passar pela cabeça, estabelece-se uma relação peculiar, fazendo, por vezes, com que os grandes pensamentos reclamem grandes vistas, e os pensamentos novos, novos lugares. 

Alain de Botton, A Arte de Viajar. 3a edição. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2008. P. 62.

sexta-feira, 29 de março de 2013

"Viajar? Para viajar basta existir". Bernardo Soares

Viajar? Para viajar basta existir. Vou de dia para dia, como de estação para estação, no comboio do meu corpo, ou do meu destino, debruçado sobre as ruas e as praças, sobre os gestos e os rostos, sempre iguais e sempre diferentes, como, afinal, as paisagens são.
Se imagino, vejo. Que mais faço eu se viajo? Só a fraqueza extrema da imaginação justifica que se tenha que deslocar para sentir.
«Qualquer estrada, esta mesma estrada de Entepfuhl, te levará até ao fim do mundo.» Mas o fim do mundo, desde que o mundo se consumou dando-lhe a volta, é o mesmo Entepfuhl de onde se partiu. Na realidade, o fim do mundo, como o princípio, é o nosso conceito do mundo. É em nós que as paisagens têm paisagem. Por isso, se as imagino, as crio; se as crio, são; se são, vejo-as como às outras. Para quê viajar? Em Madrid, em Berlim, na Pérsia, na China, nos Pólos ambos, onde estaria eu senão em mim mesmo, e no tipo e género das minhas sensações?
A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos.

Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.II. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982. p. 387.

quinta-feira, 28 de março de 2013

"Construímos um jardim de jogos insólitos". Carlos Fuentes

A nossa presença no mundo é inseparável de um sentimento de ausência. O facto de nos encontramos no mundo implica, desde a infância, uma questão: que é que me falta? que é que falta ao mundo onde eu, ser inacabado, vivo? Longe de nos contentarmos com o que existe, construímos um jardim de jogos insólitos povoado de fantasmas: o fantasma do que não é, do que foi, do que devia ser. Hölderlin fala de "perturbação e pânico" a propósito desta relação de um ser que deseja, que, sabendo-se parte integrante da natureza e ao mesmo tempo dela separado, aspira a uma união que não é possível - estremo  e doloroso paradoxo - senão pelo preço de uma separação infinita.
Insatisfeitos com o mundo, ansiosos de lhe juntar algo que lhe falta, celebram o jogo do mundo: assim são as crianças e os escritores, os loucos e os artistas.

Carlos Fuentes
Gérard Montassier (ed.), Le Fait Culturel. Paris, Fayard. P. 281.

quarta-feira, 27 de março de 2013

"Distrair ao longo do caminho". Xavier de Maistre

As paredes do meu quarto estão decoradas com estampas e quadros que as embelezam extraordinariamente. Gostaria, do fundo do coração, de mostrá-los um a um ao leitor, para o recrear e distrair ao longo caminho que ainda temos de percorrer até chegar à minha secretária; é tão impossível explicar um quadro com clareza como fazer um retrato parecido através de uma descrição.

Xavier de Maistre, Viagem à Roda do Meu Quarto. Lisboa, & Etc, 2002. p. 57.

"Tu derretes-me todas as ideias". Virgílio Ferreira

10 de Outubro [1944]

Meu diário! Há quanto tempo eu te abandonei! Mas tu sabes lá que voltas eu não tenho dado desde que te deixei! Viagens, viagens, fui de Melo [concelho de Gouveia] a Coimbra, de Coimbra à Figueira, da Figueira ao Porto, do Porto a Bragança... Espera que já continuamos. É preciso que eu diga o que é Bragança e por que razão eu vim cá parar. Mas... eu estou a falar contigo e devo falar com a Gina [Regina Kasprezykowski] que é minha namorada, minha noiva, minha futura mulher. Tu ouve que ainda é a melhor forma de falar entre os tolos.
Minha Gina!
De Bragança voltei ao Porto, do Porto a Lisboa e em Lisboa estive contigo... Aqui paro. Tu derretes-me todas as ideias, e diante de ti fico apenas assim mesmo: - derretido. Não te importes com isso. Eu serei para os outros aquilo que me torna viável entre eles, mas para ti eu quero ser apenas o amoroso em contemplação.
Estive em Lisboa contido, Ginita, contigo. E tão pouco tempo estive que eu não pude ser a razão completa por que gostas de mim. É na intimidade que nós somos o que os outros não toleram que sejamos. Por isso, quando uma pessoa íntima se põe de fora, repele-nos, não gosta de nós. Por isso só nos ama verdadeiramente quem nos ama no que somos na intimidade. Ardo em desejo de saber qual o teu sentir agora que repassas pela lembrança a nossa breve estadia em Lisboa. Sei bem que é um erro não nos projectarmos num momento o que somos numa vida; mas eu quis ser-te o que sou especialmente para ti. E não me importa o resto.
Estou de novo em Bragança. Como tudo isto é arcaico! Os colegas são velhos, gordos ou secos, coxos, com tiques como o clássico professor de liceu. Tudo velho, tudo passado. Uma praçazinha aldeã, casas negras, ruas tortuosas. E sempre um ar recolhido de monge na montanha. Onde fica o Algarve brilhante de casas brancas? Onde fica a Lisboa febril, eléctricos, automóveis, buzinas, cartazes luminosos e gentes gente? Onde estás tu, minha Gina?
Estou triste porque me sinto bem dentro de mim. Eu quero sair deste ermo, estou farto de pedregulhos, quero ir-me embora! Talvez ao menos, assim, eu seja um artista... O artista é o indivíduo que se julga só no mundo. Será decerto por isso que os outros o utilizam apenas como adorno, tal como um penduricalho de ouro. Muito bonito, muito valioso, mas penduricalho...
Onde estás tu, minha Gina?

Virgilio Ferreira, Diário Inédito 1944-1949. Lisboa, Bertrand, 2008. P. 47-48.

segunda-feira, 25 de março de 2013

"O Privilégio dos Caminhos". Nadir Afonso


Nadir Afonso, O Privilégio dos Caminhos

domingo, 24 de março de 2013

Heraklion. 22 de Fevereiro de 2006

Porto e cidade. Na viagem de regresso de Timor.






Comitiva do C-130 que efectuou a visita a Timor em Fevereiro de 2006 (jornalistas portugueses)



Heraklion. 16 de Fevereiro de 2006

Aeroporto. Escala a caminho de Timor Lorosae.

"A procura do viajante". Sofocles

Coro

Ao que a noite estrelada, no seu termo
gera e embala, incendiando, 
ao Sol, ao Sol suplico
que isto anuncie:
onde, onde se encontra
o filho de Alcmena. Oh, tu, que com fulgor
brilhante resplandeces, diz-me
se nos pônticos estreitos
ou apoiado nos dois continentes. Diz-me,
tu que tens o olhar mais potente.

Em seu aflito coração vejo
Quénia disputada Dejanira,
qual pobre pássaro,
nunca adormece a angústia
das pálpebras já sem lágrimas, mas
alimentando o receio
com a demora, pela lembrança
constante do marido, se consome
sem esposo no ansioso leito,
funesto destino esperando, infeliz.
Do mesmo modo que muitas são
as ondas que no vasto mar
podem ver-se, indo e vindo, arrastadas
pelo infatigável Noto ou pelo Bóreas
assim ao descendente de Cadmo
voltam e aumentam
as fadigas da vida, qual pélago
cretense. Mas algum deus
se afasta certamente, sem se perder,
da mansão de Hades.

As estas tuas amáveis queixas
contrárias coisas trarei.
Digo-te que não deves
esgotar a esperança
favorável, pois o rei
que tudo ordena, o Crónida,
aos mortais não reserva
Um destino sem dor.
Mas antes, ora a pena,
ora o prazer, pois todos
dão voltas como os caminhos
circular da Ursa.

Sofocles, "A procura do viajante". Antologia da Poesia Grega Clássica. Tradução e notas complementares de Albano Martins. Lisboa, Portugalia Editora, 2009. P. 260-261. 

sábado, 23 de março de 2013

"Los tres viajeros aéreos favoritos". John Francis Rigaud

John Francis Rigaud; Los tres viajeros aéreos favoritos. Ca1785


"El artista repitió varias veces la presente pintura, que describe en una barquilla de globo aerostático con la bandera inglesa a Laetitia Ann Sage, la primera mujer británica que subió en globo, despidiéndose de los que quedan en tierra; detrás, el artillero George Biggin y el aeronauta italiano Vicente Lunardi. De este gracioso óvalo existe una estampa de Bartolozzi.La ascensión se verificó en 1785 y duró una hora, cayendo el globo en Harrow. Lunardi hizo más tarde una célebre ascensión en Madrid el 12 de agosto de 1792."
Museo del Prado