Pouco depois, o patrão mandou-me chamar e fiquei aborrecido porque pensei que me ia dizer para telefonar menos e trabalhar mais. Não era nada disso. Declarou que me ia falar num projecto ainda muito vago. Queria apenas a minha opinião sobre o assunto. Tencionava instalar um escritório em Paris, para tratar directamente com grandes companhias e perguntou-me se eu estava disposto a ir para lá. Poderia assim viver em Paris e viajar durante parte do ano. "Você ainda é novo e creio que essa vida lhe agradaria". Disse que sim, mas que no fundo me era indiferente. Perguntou-me depois se eu não gostaria de uma mudança de vida. Respondi que nunca se muda de vida, que em todo os casos, todas as vidas se equivaliam e que a minha, aqui, não me desagradava. Mostrou um ar descontente, disse que eu respondia sempre à margem das questões, e que não tinha ambição, o que para os negócios era desastroso. Voltei para o meu trabalho. Teria preferido não o descontentar, mas não via razão nenhuma para modificar a minha vida. Pensando bem, não era infeliz. Quando era estudante, alimentara muitas ambições desse género. Mas quando abandonei os estudos, compreendi muito depressa que essas coisas não tinham verdadeira importância.
Albert Camus, O Estrangeiro. Lisboa, Livros do Brasil, s/d. p. 75-76.
sexta-feira, 22 de março de 2013
quarta-feira, 20 de março de 2013
"Civilizada aventura". Thomas Mann
O escritor Thomas Mann viajou uma dezena de vezes para os Estados Unidos da América, entre 1934 e 1951. Oito dessas travessias foram feitas de barco, duas de avião (a que se poderão acrescentar duas viagens de regresso também de avião, a que correspondem idas de barco).
A primeira viagem teve partida a 19 de Maio de 1934, de Bolonha para Nova Iorque, e regresso a 9 de Maio, de Nova Iorque para Roterdão. Mann tinha então 59 anos e foi acompanhado pela mulher, Katia.
Dessa sua primeira viagem transatlântica, no vapor holandês Volendam, deixou um diário de bordo, publicado com o titulo Viagem Marítima com Dom Quixote, em 1934. A tradução portuguesa é de 2008.
19 de Maio de 34
Pensámos que, para já, nos apetecia tomar um vermute no bar, e é o que estamos a fazer neste momento, na silenciosa expectativa da partida. Retirei da mala de mão este caderno e um dos quatro volumes cor de laranja encadernados em linho do Dom Quixote que me acompanha; quanto ao desfazer das malas restantes, não há qualquer pressa. Afinal temos perante nós nove a dez dias até sairmos na terra dos antípodas; voltará a ser sábado e domingo, como amanhã, e ainda segunda-feira e terça, até que termine esta civilizada aventura - mais depressa não o consegue o pachorrento holandês, cujas tábuas há pouco pisámos.
Thomas Mann, Viagem Marítima com Dom Quixote. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2008.
A primeira viagem teve partida a 19 de Maio de 1934, de Bolonha para Nova Iorque, e regresso a 9 de Maio, de Nova Iorque para Roterdão. Mann tinha então 59 anos e foi acompanhado pela mulher, Katia.
Dessa sua primeira viagem transatlântica, no vapor holandês Volendam, deixou um diário de bordo, publicado com o titulo Viagem Marítima com Dom Quixote, em 1934. A tradução portuguesa é de 2008.
19 de Maio de 34
Pensámos que, para já, nos apetecia tomar um vermute no bar, e é o que estamos a fazer neste momento, na silenciosa expectativa da partida. Retirei da mala de mão este caderno e um dos quatro volumes cor de laranja encadernados em linho do Dom Quixote que me acompanha; quanto ao desfazer das malas restantes, não há qualquer pressa. Afinal temos perante nós nove a dez dias até sairmos na terra dos antípodas; voltará a ser sábado e domingo, como amanhã, e ainda segunda-feira e terça, até que termine esta civilizada aventura - mais depressa não o consegue o pachorrento holandês, cujas tábuas há pouco pisámos.
Thomas Mann, Viagem Marítima com Dom Quixote. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2008.
"Viagem". Cristovam Pavia
Viagem
Arquipélagos de cinza
Vistos ao luar,
Na escuridão do meu quarto
Onde não há luar algum.
Arquipélagos de cinza
Que eu ire abordar
Na escuridão do meu quarto,
Quando vier o sono
Devagar...
Cristovam Pavia, Poesia. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2010. p. 65
Arquipélagos de cinza
Vistos ao luar,
Na escuridão do meu quarto
Onde não há luar algum.
Arquipélagos de cinza
Que eu ire abordar
Na escuridão do meu quarto,
Quando vier o sono
Devagar...
Cristovam Pavia, Poesia. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2010. p. 65
terça-feira, 19 de março de 2013
"Saí do comboio". Álvaro de Campos
Saí do comboio,
Disse adeus ao companheiro de viagem
Tínhamos estado dezoito horas juntos..
A conversa agradável
A fraternidade da viagem.
Tive pena de sair do comboio, de o deixar.
Amigo casual cujo nome nunca soube.
Meus olhos, senti-os, marejaram-se de lágrimas...
Toda despedida é uma morte...
Sim toda despedida é uma morte.
Nós no comboio a que chamamos a vida
Somos todos casuais uns para os outros,
E temos todos pena quando por fim desembarcamos.
Tudo que é humano me comove porque sou homem.
Tudo me comove porque tenho,
Não uma semelhança com ideias ou doutrinas,
Mas a vasta fraternidade com a humanidade verdadeira.
A criada que saiu com pena
A chorar de saudade
Da casa onde a não tratavam muito bem...
Tudo isso é no meu coração a morte e a tristeza do mundo.
Tudo isso vive, porque morre, dentro do meu coração.
E o meu coração é um pouco maior que o universo inteiro.
Álvaro de Campos, Livro de Versos. Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. P. 187.
Disse adeus ao companheiro de viagem
Tínhamos estado dezoito horas juntos..
A conversa agradável
A fraternidade da viagem.
Tive pena de sair do comboio, de o deixar.
Amigo casual cujo nome nunca soube.
Meus olhos, senti-os, marejaram-se de lágrimas...
Toda despedida é uma morte...
Sim toda despedida é uma morte.
Nós no comboio a que chamamos a vida
Somos todos casuais uns para os outros,
E temos todos pena quando por fim desembarcamos.
Tudo que é humano me comove porque sou homem.
Tudo me comove porque tenho,
Não uma semelhança com ideias ou doutrinas,
Mas a vasta fraternidade com a humanidade verdadeira.
A criada que saiu com pena
A chorar de saudade
Da casa onde a não tratavam muito bem...
Tudo isso é no meu coração a morte e a tristeza do mundo.
Tudo isso vive, porque morre, dentro do meu coração.
E o meu coração é um pouco maior que o universo inteiro.
Álvaro de Campos, Livro de Versos. Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. P. 187.
segunda-feira, 18 de março de 2013
domingo, 17 de março de 2013
Desembarque de Colombo. J. M. W. Turner
Joseph Mallord William Turner, The Landing of Columbus, for Rogers's 'Poems'. Ca 1831-2
Tate Gallery collection.
sábado, 16 de março de 2013
"A cidade feliz". Jorge de Sena
A cidade feliz
Não sei porque não falam disto.
Será porque falar ameaça no hálito tão ténue
a flor lindíssima que o menor sopro mata?
Falando todavia, tudo se suspende;
E que não existe para sempre mesmo depois das palavras?
Cidade ensolarada, fumegante a meus pés:
telhados, vozes, pombas, trepadeiras...
De longe se não vê que toda a gente luta,
se devora e desvairadamente contempla
que a sua flor, lindíssima, resista.
Como, poesia, quando suspenso o tempo,
se cadencia em passos de palavras,
Quando a memória, a angústia, a esperança, a própria vida,
se ordenam em cortejo e vêm passando em frente
do olhar que as bebe, de um tremor, de um pranto,
como não dizes também da flor que defendemos?
Será que não é difícil, que não é esquiva,
uma flor que um gesto, o mesmo amor destrói?
Ah fidelidade, coisa humilde, coisa que não basta,
coisa que não vive, como te chamo flor?
O Sol e o ar sobre a cidade passam.
Do alto as pombas na cidade pousam.
Como te chamo flor?
Como até nisto eu posso atraiçoar-te?
Jorge de Sena
Não sei porque não falam disto.
Será porque falar ameaça no hálito tão ténue
a flor lindíssima que o menor sopro mata?
Falando todavia, tudo se suspende;
E que não existe para sempre mesmo depois das palavras?
Cidade ensolarada, fumegante a meus pés:
telhados, vozes, pombas, trepadeiras...
De longe se não vê que toda a gente luta,
se devora e desvairadamente contempla
que a sua flor, lindíssima, resista.
Como, poesia, quando suspenso o tempo,
se cadencia em passos de palavras,
Quando a memória, a angústia, a esperança, a própria vida,
se ordenam em cortejo e vêm passando em frente
do olhar que as bebe, de um tremor, de um pranto,
como não dizes também da flor que defendemos?
Será que não é difícil, que não é esquiva,
uma flor que um gesto, o mesmo amor destrói?
Ah fidelidade, coisa humilde, coisa que não basta,
coisa que não vive, como te chamo flor?
O Sol e o ar sobre a cidade passam.
Do alto as pombas na cidade pousam.
Como te chamo flor?
Como até nisto eu posso atraiçoar-te?
Jorge de Sena
sexta-feira, 15 de março de 2013
O viajante entusiasta. Hoffmann
O viajante entusiasta, que nos comunica esta fantasia à maneira de Callot, extraída do seu Diário, distingue tão pouco a sua vida imaginária da sua vida positiva, que quase não conseguimos perceber o limite que as separa. Mas, leitor benévolo, tal limite está longe de surgir mais bem definido no teu espírito; pode acontecer que, introduzido pelo autor visionário nas esferas fantásticas da magia, tu vejas inopinadamente milhares de figuras estranhas a imiscuírem-se na tua existência real, tratando-te com a intimidade de velhos conhecidos. Queiras tu acolhê-las como tais e aceitar os seus modos bizarros, sem te irritares excessivamente com os pequenos incómodos que o seu sem-cerimónias possa gerar. Peço-to do fundo do coração.
"Les aventures de la nuit de la Saint-Sylveste. Avant-propos de l'éditeur".
Hoffmann, Contes. Fantasies à la manière de Callot. Tirées du Journal d'un voyageur enthousiaste. 1808-1815. Paris, Gallimard, 2009. P. 368.
Brueghel, o Velho. Grupo de viajantes
Autor: Brueghel "el Viejo", Jan
Título: Recua y gitanos en un bosque.
Museo del Prado
"Un grupo de viajeros hace un alto, sentados junto al camino. Uno de ellos aborda a un arriero que encabeza una caravana de mulas cargadas. En la zona izquierda se desarrolla un amplísimo paisaje."
"Sair de si próprio". Milan Kundera
O nascimento do romance europeu coincide com a decomposição do mundo medieval "afeiçoado segundo uma só ideia", organizado segundo uma só fé. O Deus de Pascal deixou a terra; a sua verdade, única e clara, escondeu-se. Don Quixote saiu de sua casa e não consegue reconhecer o mundo, subitamente opaco, contraditório e relativizado.
A partir desse momento, a sabedoria deixa de consistir na apropriação de uma verdade pré-existente e dada, mas na faculdade de perceber a complexidade das verdades relativas que se confrontam no vasto espaço do mundo onde já não existe juiz supremo.
Esta descoberta da relatividade é uma grandiosa descoberta do pensamento ocidental. O romance faz parte desta descoberta, confirma-a e desenvolve-a. Assenta neste novo estádio do mundo (do mundo relativizado sem o juiz supremo) e é a sua imagem.
O jogo romanesco consiste na criação de personagens; é um convite perpétuo a sair de si próprio (da sua própria verdade e da sua certeza) e de compreender o outro. O romance é assim um grande apelo à tolerância, um exercício imaginário de compreensão.
Milan Kundera, in Gérard Montassier (Coord.). Le Fait Culturel. Paris. Fayard, 1980. p. 268
A partir desse momento, a sabedoria deixa de consistir na apropriação de uma verdade pré-existente e dada, mas na faculdade de perceber a complexidade das verdades relativas que se confrontam no vasto espaço do mundo onde já não existe juiz supremo.
Esta descoberta da relatividade é uma grandiosa descoberta do pensamento ocidental. O romance faz parte desta descoberta, confirma-a e desenvolve-a. Assenta neste novo estádio do mundo (do mundo relativizado sem o juiz supremo) e é a sua imagem.
O jogo romanesco consiste na criação de personagens; é um convite perpétuo a sair de si próprio (da sua própria verdade e da sua certeza) e de compreender o outro. O romance é assim um grande apelo à tolerância, um exercício imaginário de compreensão.
Milan Kundera, in Gérard Montassier (Coord.). Le Fait Culturel. Paris. Fayard, 1980. p. 268
quinta-feira, 14 de março de 2013
Contadores de histórias. Walter Benjamin
"Quando se viaja, há sempre alguma história para contar" - diz a vox populi, com a ideia de que o contador de histórias é alguém que vem de longe. Mas não devemos ignorar aqueles que, ganhando honestamente o seu pão, ficaram no país e conhecem as suas histórias e tradições. Se quisermos figurar estes dois grupos por intermédio dos seus representantes arcaicos, diremos que um é incarnado pelo camponês sedentário e outro pelo marinheiro comerciante.
Walter Benjamin, Le Raconteur, in Nikolai Leskov, Le Voyageur Enchanté, précedé de Le Raconteur de Walter Benjamin. Paris, Payot et Rivages, 2011. p. 13-14.
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